Um novo capítulo para o amor
Parte 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
– Digo, não é tão ruim assim aqui – confessou ela, pegando a tábua de corte e uma cebola.
Jaz olhou em volta.
– Você só pode estar brincando! Estamos a, tipo, um bilhão de quilômetros de… Bom. De tudo. Tipo, você poderia muito bem estar morta.
Ele se levantou.
– Eu estava achando que a casa era sofisticada, mas olha só pra isso.
Ele apontou para outra teia de aranha que ninguém havia limpado na entrada da despensa.
– Está caindo aos pedaços, não está? Olha esse fogão! E está congelando aqui dentro. Tipo, parece sofisticada, mas é, na verdade, uma porcaria.
– Eu não acho. É linda, na verdade.
– Fala sério. E aquelas crianças assustadoras, meu senhor. E aquele gigante esquisitão. Acho que ele está a fim de você.
– Não seja ridículo – ralhou Zoe. – Sou a au pair.
– Sim, o patrão sempre come a babá, todo mundo sabe disso – comentou Jaz. – E ele é nojento. Matou a primeira esposa, está querendo uma mais nova. Típico.
– Cale a boca – esbravejou Zoe, com muito mais veemência do que aquele comentário idiota merecia.
– Ah, está bem – disse Jaz, erguendo as mãos. – Estamos emotivos! Ora, não seja imbecil. Volte pra Londres. Eu vou encontrar um lugar pra vocês morarem perto da gente. Ajudo com o aluguel. Pego o Hari na creche. Qual é, vai ser bom. Voltar pros seus amigos, pro seu lugar. Chama a sua mãe de volta também. Cai fora desse nada, desse lugar frio do cacete. Você já se divertiu, já deu seu recado. Venha pra casa.
Zoe picava cebolas para evitar ter que responder de imediato. Ela sequer sabia o que pensar.
– O Hari está feliz aqui – disse.
– Bom, ele ainda não está falando, está? Então, obviamente ele não está tão feliz assim.
– Ele vai falar no tempo dele.
– Sim, em casa, em Londres, com médicos de verdade. E de umas crianças que se pareçam com ele – insistiu Jaz em tom incisivo.
– Tem um monte de crianças que se parecem com ele – retrucou Zoe com firmeza.
“Um monte” era um exagero, mas ele não era, nem de longe, a única criança não branca da creche, então Jaz podia esquecer isso.
– De qualquer forma, eu não posso – continuou ela. – A dona da van dos livros está no hospital. Sou a suplente dela. Preciso ficar.
– Tudo bem – respondeu Jaz. – Assim eu tenho um tempo pra me organizar. A Shanti mora num lugar legal em Wembley. Talvez eu vá morar com ela, encontrar um lugar próximo pra vocês. – Zoe ainda parecia preocupada. – Eu estou… Você não consegue perceber o que estou oferecendo? Pelo amor de Deus, Zo. Eu vim até aqui. Pra fazer a coisa certa. – Ele comeu o bolinho, irritado. – Achei que você fosse aceitar na hora.
– Eu… Sim, eu sei. Claro. É uma proposta generosa.
– Eu só quero…
– … fazer a coisa certa, sim, eu entendo. Antes tarde do que nunca.
Ela deu um leve sorriso.
– Bem, você vai precisar voltar em algum momento.
Zoe concordou, um tanto desolada. Um silêncio se instaurou.
A cabecinha cacheada de Hari apareceu à porta e ele sorriu de felicidade ao ver seus pais ali. Era como se estivesse checando se ambos eram reais.
– Oi, meu chapa! – disse Jaz, levantando-se. – Que tal me mostrar a casa, hein?
– Eu posso absolutamente ir junto – ofereceu Patrick, colocando a cabeça por cima da de Hari.
– Não, Patrick, preciso que você me ajude com a janta – disse Zoe em um tom que não permitia contra-argumentos.
O garoto pareceu magoado. Jaz o ignorou e estendeu a mão para o filho. Hari a pegou como se estivesse encontrando o Papai Noel. A expressão em seu rosto era de êxtase.
– A questão é – disse Jaz quando eles se viraram para sair no jardim, onde o vento soprava as folhas em espirais. Ele baixou a voz: – você também não pode. Não pode tirar o filho de um homem do país. Você sabe disso, Zo. É ilegal.
– Não estamos fora do país!
– Aqui é a Inglaterra, por acaso?
Ele bufou e apontou para o lago sombrio e ameaçador.
– Não – respondeu Zoe. – Mas faz parte da Grã-Bretanha.
Jaz olhou em volta e ergueu os ombros.
– Nem – disse ele.
E, mesmo que ele não tivesse tido a intenção de parecer ameaçador, de alguma forma pareceu.
Ele levou Hari para o jardim. O garoto saltitava de alegria olhando para seu pai, o herói, e Zoe os observou sob a luz que se esvaía lentamente, correndo em meio às folhas, Jaz rodopiando o garoto, ambos tão parecidos, até mesmo no jeito de andar.
Deveria ser uma cena tocante, um reencontro.
Em vez disso, Zoe foi tomada pelo medo, algo parecido com pânico. Patrick se aproximou dela.
– Você está tremendo, Babá Sete. – Ele baixou a voz: – Você viu o monstro?
– Não sei – respondeu Zoe.
Capítulo sessenta e oito
Quando Jaz e Hari entraram, exaustos e com frio por causa da noite congelante, eles estavam sem fôlego e alegres (Patrick estava amuado, mas reagindo exemplarmente, resolvendo um quebra-cabeça em um canto). Zoe estava apostando consigo mesma quanto tempo ele aguentaria permanecer calado. Shackleton a estava observando enquanto ela fritava pedaços de carne até ficarem dourados e então colocava em uma velha caçarola com vinho tinto, amoras-árticas, caldo, cogumelos silvestres e alecrim, deixando tudo derreter e se misturar. Aquele aroma em uma noite fria de outono era absolutamente divino.
Jaz parou à porta.
– Quer comer? – perguntou Zoe.
Jaz meneou a cabeça.
– Nem – respondeu ele. – O cheiro está esquisito. Como alguma coisa em Inverness… Lá deve ter um KFC, né?
– Não sei.
Hari olhou para o pai.
– Olha, meu chapa, tenho que ir agora. Mas eu vou voltar em breve, tá? E aí vou ver você o tempo todo, beleza?
– Jaz – disse Zoe –, eu tenho um emprego aqui. Não posso simplesmente ir embora.
Patrick começou a ouvir com mais atenção.
– Eu estou aqui. Você que foi embora.
– Eu não fui embora daqui – argumentou Jaz. – Eu fui viajar. E agora estou de volta. Em Londres. E você foi embora.
– Antes que a gente morresse de fome! – lembrou Zoe.
Jaz revirou os olhos.
– Não seja dramática – disse ele. – Vai deixar o Hari chateado.
– E aquele papo de ser um homem mudado? – Zoe não conseguiu se segurar.
– Estou aqui, pedindo pra você voltar comigo pra Londres, onde vou encontrar um lugar pra você morar e cuidar do meu filho – ponderou Jaz. – E, mesmo assim, sou o vilão.
Não havia muito mais a dizer depois disso. Ele foi embora, saindo pelo jardim que escurecia e então ligando o carrinho vermelho ridículo. Hari ficou parado à janela da cozinha, olhando o carro até desaparecer.
– Não gostei dele – sussurrou Patrick para Zoe, que não conseguiu evitar um sorriso, embora tenha dito:
– Não seja bobo, ele é o pai do Hari.
– É, e agora o Hari está absolutamente triste – observou Patrick, e Zoe de fato não pôde discordar.
A janta estava deliciosa, mas Zoe mal encostou no prato. Hari não parava de olhar melancolicamente pela janela e às vezes soltava um suspiro. Mary estava em uma de suas fases de mau humor. Apenas Shackleton comeu com apetite e um prazer evidente. Zoe limpou tudo no piloto automático, fazendo as crianças passarem uma água nos pratos, e colocou um Hari exausto na cama assim que conseguiu, achando muito difícil ler Entre os telhados para os meninos, com suas paisagens e seus pontos turísticos de Londres, e Patrick perguntando toda hora se era para lá que Hari iria, e onde eles moravam, e se eles podiam subir nos telhados, e dizendo que ele subiria em todos os telhados de Londres quando fosse visitá-los.
A casa parecia muito vazia depois que todos iam se deitar. Normalmente Zoe adormecia cinco minutos depois das crianças, visto que sua vida era muito corrida, mas aquela noite ela não conseguia. Ficou andando de um lado para outro na cozinha, fez um chá que deixou esfriar, pensou em mandar mensagem para uma amiga. Mas o que elas diriam? Suas amigas de Londres diriam: “Ótimo! Até breve!” Finalmente Jaz estava assumindo suas responsabilidades; finalmente, ele estava voltando para casa. Sua mãe ficaria feliz por sua filhinha estar em Londres, com seu povo, de volta ao lugar a que pertencia, e desistir daquela loucura de morar na Escócia. Zoe supunha que podia ligar para Kirsty, mas a mulher nem conhecia Jaz.
Ela se sentia muito sozinha. No andar de cima dormia um garotinho que ela protegeria com a própria vida. Mas qual era a melhor maneira de protegê-lo? Ali, com amigos e espaços abertos? A diferença nele, em sua aparência, em quanto ele sorria, em quanto ele estava aprendendo, as árvores em que subia… Voltar para uma quitinete na cidade… Não que houvesse qualquer coisa de errado com a cidade, mas…
Pensar em voltar a pegar o transporte público para ir trabalhar, espremendo-se em um metrô ou ônibus superlotado, esperando por horas, esmagada contra as outras pessoas, trabalhando a uma hora de viagem de casa… Em comparação com aquela realidade, seu passeio diário pelos grandes morros, onde ela podia observar toda a glória da natureza esparramada a seus pés, mudando a cada dia, frequentemente parecia só ter benefícios. Trocar o cheiro do metrô sujo e quente pelas brisas das fogueiras, o ruído dos ratos nos trilhos pelo voo de uma águia sobre os morros, o bamboleio esquisito de uma perdiz que saiu para passear, ou os gansos selvagens na água, ou as garças, ou as focas tomando sol nas pedras.
Outra xícara de chá esfriou e ela colocou a chaleira no fogo novamente. Será que Jaz tinha ficado irritado por ela ter se mudado? Ela sabia que não se podia tirar uma criança do país, mas a Escócia era o mesmo país. Bem, por enquanto. Ela sabia que, embora pudesse legalmente se mudar para lá com Hari, no fundo estava realmente afastando o menino do pai, e que, talvez, um tribunal enxergasse as coisas de outra forma, se chegasse a esse ponto.
Pensar no tribunal deixou seu coração apertado. Passar do medo de que Jaz nunca mais voltasse para ver Hari para o medo súbito de ter que vê-lo toda hora…
Ó céus. Que bagunça. Que bagunça. E se ela tivesse que arrastar Hari para o tribunal? A mera ideia a fazia tremer. E se ele tivesse que depor? E se eles o forçassem a falar com um juiz e ele não respondesse? Será que eles a culpariam? Será que eles o tirariam dela?
Ela estava apavorando a si mesma; seus pensamentos estavam fora de controle. E se eles achassem que ela não era capaz de ser uma boa mãe? E se a nova namorada de Jaz fosse incrível e Hari a adorasse e gostasse de estar de volta a Londres e…
Ela deitou a cabeça sobre os braços na mesa para poder – como sempre fazia, visto que dividia o quarto com Hari – chorar sem fazer barulho, embora ninguém pudesse ouvi-la na quietude vasta da casa enorme, apenas o tique-taque do relógio de chão em que Patrick tinha começado a dar corda todos os dias (era uma de suas funções; se todos precisavam ter afazeres, Zoe tentou fazer com que ao menos alguns deles fossem divertidos, e ele levava essa função muito a sério), mesmo quando a chaleira começou a apitar no fogão.
E foi assim, adormecida depois de tanto chorar, que Ramsay a encontrou meia hora depois, com o fogo quase apagado, quando entrou na casa pela porta dos fundos.
Ele se assustou quando a viu – parecia estar desmaiada – e ela acordou com um sobressalto, como costuma acontecer quando a pessoa pega no sono e sente que errou um degrau, e, por um instante, não soube ao certo onde estava, então esfregou o rosto manchado pelas lágrimas, mas, naquele momento, ela viu Ramsay, que até então a enxergava como uma pessoa incrivelmente capaz e positiva e tinha ficado de queixo caído com as iniciativas corajosas dela com seus filhos complicados, pelo fato de que ela não permitia que nada atrapalhasse, pelo fato de ela literalmente ter aberto espaço para a luz entrar. Ele jamais admitiria, nem em um milhão de anos, visto que ela era mais de trinta centímetros menor que ele, mas ele a achava intimidadora e extremamente capaz. Tão acostumada a se virar com tão pouco, sem se abalar com o barulho e a confusão à sua volta. Havia algo de indomável nela.
E, naquele momento, ela estava completamente arrasada, e ele sentiu uma onda de ternura por ela, vendo-a como um pássaro com a asa quebrada. Ele largou a caixa pesada que estava segurando e correu até ela. Seu primeiro instinto foi de pegá-la nos braços; ela percebeu, erguendo os olhos, assustada, que seu maior desejo era de que ele o fizesse. Ramsay parou.
– Você está bem?
Zoe piscou e então seu rosto ardeu. Ela se levantou num pulo e correu para lavar o rosto, tentando se acalmar. O que ele pensaria dela?
– Desculpe… Sim, é só… Devo ter pegado no sono.
Ela esfregou com força o rímel que escorria sob seus olhos. Ramsay permaneceu parado ali, agitando as mãos grandes um tanto nervoso.
– Tem certeza absoluta de que está bem?
Foi a preocupação na voz dele que quase a fez desabar de novo. Ela permaneceu perto da pia, sem confiar em si mesma para virar na direção dele.
– Hum – respondeu ela, testando sua voz.
Definitivamente vacilante. Ela engoliu em seco.
– Foi só… É sempre difícil…
– Ver o pai do Hari?
Ela confirmou.
– Bem – disse ela com ousadia –, sabe como é.
Ela ainda não tinha se virado e, portanto, não viu a careta de Ramsay.
– Hum – respondeu ele sem se comprometer. – Bem, é legal que ele tenha vindo visitar o seu garoto.
– Ah, é um pouquinho pior que isso – disse Zoe, finalmente se virando.
Então ela viu a caixa.
– O que é isso? – perguntou, desconfiada, ainda esfregando o rosto.
Os lábios de Ramsay se contraíram.
– Eu ia… Eu ia fazer uma surpresa – disse ele.
Zoe deu um passo à frente.
– É o que eu estou pensando?
Sua voz denotava surpresa, mesmo ela pensando que aquele dia não poderia surpreendê-la ainda mais.
– Eu ia instalar pra você amanhã…
– Mas como… Por quê?
– Eu… Bem…
Ele esfregou o rosto, constrangido.
– Desde que você começou… Você sabe. Fazendo uma limpeza na biblioteca. Me deu… Bem… – Ele tossiu. – Um pouco de inspiração, pra ser sincero. Tenho vendido muito mais.
Zoe caminhou na direção daquela visão reluzente preciosa: uma nova cafeteira.
– Aahh, eu amei!
– Ela tem… cápsulas? – Ele franziu o cenho. – Eu não entendi direito o que eles tentaram me explicar.
– Pois é! – exclamou Zoe, pulando.
A habilidade dela em manter o equilíbrio o surpreendeu. Ela soube como se reerguer; e aquela não era, ele percebeu, a primeira vez. Ela definitivamente não era um animalzinho ferido. Tinha resiliência.
Zoe estava absorta na cafeteira, exclamando de deleite quando viu que vinha com duas canecas pequeninas e um espumador de leite, e Ramsay a observou enquanto o extraordinário eletrodoméstico esquentava.
– Tem descafeinado? – perguntou ela, olhando para o relógio. Era tarde. – Ah! – exclamou. – Não importa. Eu não vou dormir, de toda forma.
Ela serviu dois macchiatos pequenos perfeitos, com um desenhinho na espuma do leite.
– Olhe só pra isso! – exclamou ela. – Não é melhor assim?
Nas mãos enormes dele, a pequena xícara ficava hilária, como se ele fosse um gigante brincando de casinha. Ele não conseguia enfiar o dedo no buraco da asa.
Zoe percebeu que tinha começado a divagar ao olhar para as mãos enormes dele, imaginando como seria senti-las em seu corpo, imaginando…
– Eu sei – disse Ramsay. – A gente nunca mais dorme da mesma forma depois que os filhos nascem, não é mesmo?
Ela enrubesceu e se recobrou, percebendo que ele tinha feito uma pergunta.
– Ah, não – respondeu. – E quando você está sozinho…
– Bem, é muito…
Ambos se sentaram à mesa.
– O que aconteceu com você e a sua esposa? – Zoe percebeu-se perguntando.
– Casamos jovens demais – respondeu Ramsay de modo automático.
– Eu também – confessou Zoe. – Bem, não casei. Mas enfim…
Ramsay tomou um gole de café e fez uma careta.
– Não me diga que você não gostou.
– É… diferente.
– Sim, porque é café de verdade. Esse é o gosto que o café deve ter.
– Bem, então o que é que eu tenho tomado?
– Água marrom.
– Eu gosto de água marrom.
– Bem, que bom pra você.
Eles sorriram.
– Acho que nunca mais voltamos a ser jovens – comentou Ramsay, colocando a xícara ridiculamente pequena na mesa e olhando para ela. – Não exatamente, depois dos filhos, você não acha?
– Não da mesma forma – respondeu Zoe.
Lá fora uma coruja chilreou, mas, fora isso, fazia o maior silêncio.
– Não da mesma forma que você podia fazer o que quisesse, ir a qualquer lugar. Eu me lembro da primeira vez que pensei que seria uma catástrofe se eu morresse. Não por mim, mas por ele, sabe?
Ramsay concordou fervorosamente com a cabeça.
– O que… O que a gente não faria por eles?
Tudo estava muito silencioso e imóvel. Uma certa magia parecia ter se instalado na cozinha: as lâmpadas brilhantes, o fogo moribundo na lareira, aquele limiar entre estar dormindo e estar acordado na calada da noite, quando tudo parece possível.
Zoe estava dividida entre perguntar a Ramsay tudo sobre a mãe das crianças, tudo que ela precisava saber, e um desejo absurdo de pegar a mão dele e colocar em seu corpo. Ela percebeu que ele era canhoto. Sem aliança. Meu Deus, por que ela não conseguia tirar os olhos da mão dele? Era uma mão bonita: magra porém forte, uma camada fina de pelos claros que desaparecia em uma linha que subia pelo pulso. As unhas eram largas e quadradas, cortadas curtas, os dedos, ridiculamente longos. Pareciam as mãos de um pianista. Ela precisava desviar o olhar. Ou ir para a cama antes que fizesse alguma coisa besteira que a fizesse perder o emprego, algo que seria motivado unicamente por tristeza e cafeína, e pelo fato de que seu chefe era a única pessoa, em muito tempo, que lhe demonstrara um pouquinho de bondade.
– Então… O seu marido?
Ele ainda estava falando.
– Não é meu marido. Meu ex-namorado. – Ela suspirou, retornando à realidade. Ó céus. Jaz. – Ele quer que eu volte pra Londres.
Ramsay ergueu as sobrancelhas.
– Eu disse que não podia – acrescentou ela depressa. – Você sabe. Bem. Até a Nina voltar.
– E depois…?
Ele lembrou a si mesmo que estava decepcionado só porque ela era a melhor au pair que eles já tinham tido. As crianças sentiriam falta dela, disse a si mesmo.
Zoe deu de ombros.
– Elas estarão na escola até lá… Eu… – Ela suspirou. – Posso não pensar nisso por enquanto?
– É claro – aquiesceu Ramsay. – Acho que a gente não aguentaria uma Babá Oito.
Ela sorriu. É claro que ela era apenas a babá para ele. É claro que era. Ela era apenas uma empregada. Ela era a Sra. MacGlone com uns quarenta anos a menos.
Ela é da criadagem, Ramsay disse a si mesmo. Ela trabalha aqui. Au pair vêm e vão, é claro.
Em uníssono, eles levaram o café à boca e tomaram de um só gole.
– Certo! – exclamou Zoe, tentando parecer alegre e preparando-se para levantar. – Hora de…
Mas naquele momento um par de faróis apareceu patinando no cascalho e ouviu-se o som de um carro freando até parar.
Capítulo sessenta e nove
Ouviu-se uma batida forte na porta dos fundos, mas a pessoa que bateu, quem quer que fosse, não esperou ser atendida e simplesmente entrou como um furacão. Zoe e Ramsay deram um pulo, como se tivessem sido pegos. Parada diante deles, com os faróis do carro ainda ligados atrás dela, a música em alto volume e o motor ligado, estava Larissa.
Zoe percebeu duas coisas de cara: primeiro, que ela estava absolutamente deslumbrante – usava um vestido justo vermelho-cereja, colar e, CARAMBA, aquilo era uma tiara em seus cabelos louros encaracolados?
E em segundo lugar, ela estava claramente muito, muito, muito bêbada. Cambaleava horrores nos saltos altos no piso de laje.
– Querido? – chamou. Ela parecia atordoada e triste. – Querido?
Ramsay deu um passo adiante.
– Ah, droga – disse ele. – Ah, Larissa. Me desculpe. Eu sinto muito, muito mesmo. Eu esqueci completamente.
– Eu fiquei lá… – disse ela, enrolando a língua. – Eu fiquei lá… com aqueles homens horrorosos falando mal… falando mal de você, Ramsay. E de mim.
Ela fungou com um ar dramático.
– Quer um chá? – ofereceu Zoe rapidamente. – Ou um copo d’água?
Larissa se virou como se só tivesse reparado em Zoe naquele momento – como era, de fato, verdade.
– Ah! – exclamou ela, com a voz vacilando. – Ah. Então é assim que as coisas são.
– Não é assim que é nada! – afirmou Zoe.
– Larissa, meu bem, acalme-se. Venha, eu levo você pra casa – disse Ramsay.
Ela olhou para ele, o rímel escorrendo por seu rosto.
– Eu estava… Eu me esforcei tanto com você, Shackleton Ramsay Urquart – disse ela muito, muito alto.
– Ah, então é isso – disse Zoe. – Fala sério, pra que fazer o Shackleton usar o nome? Tenho certeza que ele tem um nome do meio bonito.
– Shh – sibilou Ramsay. – Venha, meu bem, eu levo você pra casa.
– Eu me esforcei tanto. Fui legal com aqueles seus filhos horríveis. Eu venho aqui o tempo todo. Eu te ligo, eu te levo pra sair, eu… Eu… Você está comendo ela?
– O quê? – disse Ramsay. – Venha. Vou levar você pra casa.
– Comendo a babá! É claro! Não me diga que ela já foi freira e que toca violão.
– Você não sabe o que está falando. Vou levar você pra casa agora mesmo.
Zoe estava vermelha feito um pimentão e fez menção de sair dali.
– Você vai ficar aqui! – gritou Larissa. – Me traga um uísque!
– Ela não é a empregada – ponderou Ramsay.
– Eu posso me defender sozinha, obrigada – ralhou Zoe, enraivecida.
– É claro que ele está comendo a empregada! – disse Larissa. – Você está comendo a empregada. Sempre comendo gente inferior, não é, querido?
Era como se ela tivesse arrancado uma máscara. Tudo desandou.
– Você está bêbada – observou Ramsay. – Não sabe o que está falando.
Zoe, particularmente, pensava o contrário: era aquilo que a mulher queria dizer há muito tempo.
– Larissa… por favor… me deixe levar você pra casa.
– Como é que você vai ter energia, depois de passar a noite toda comendo a babá?
– Tchau – disse Zoe, ruborizada.
Ramsay lançou um olhar aflito em sua direção, mas ela ignorou.
– Eu tive que ficar sentada lá… com todo mundo perguntando de você… Todo mundo olhando pra mim com pena… Pra mim! Eu me esqueci de contar pra eles que você prefere mocinhas pobres…
Zoe se levantou e se encaminhou para a porta da cozinha. Paradas ali, estavam todas as quatro crianças. Nem mesmo a casa imensa conseguiu bloquear os gritos.
– Ah, que ótimo – murmurou Zoe. – Venha, pessoal, vamos voltar pra cama. Não é nada.
– NADA? – berrou Larissa. – Ah! Conheçam sua nova mãe, crianças. Aqui está ela. Vocês acham que ela é a babá, mas não. Ela está de mudança! E dando pro pai de vocês! Espero que você esteja curtindo, babá! É a única coisa pra qual ele presta.
Zoe enrijeceu, mas não se virou. Os rostos das crianças expressavam perplexidade.
– Está tudo bem – disse ela. – Venham. Venham comigo. Agora. Shackleton, me ajude aqui. Ouçam. Está tudo bem. Às vezes os adultos bebem demais e falam besteiras.
Larissa tinha começado a cantar “Lá vem a noiva” em tom agudo.
– Faça ela parar – pediu Patrick.
Ramsay ergueu a mão para conduzir Larissa para fora.
– NÃO TOQUE EM MIM! – gritou ela. – NÃO TOQUE EM MIM! NÃO ME TRATE COMO A SUA PRIMEIRA.
Depois daquilo, Zoe tirou as crianças da cozinha e bateu a porta.
Capítulo setenta
Zoe estava tremendo de raiva enquanto arrastava Patrick e um Hari choroso, e Shackleton conduzia delicadamente sua irmã escada acima. Ao fundo, eles ouviam os berros de Larissa, seguidos pelos murmúrios de Ramsay. Por fim, o carro foi embora em meio à noite.
Zoe levou todos para o quarto de Patrick e sentou-os nas camas, então foi até a pia e tomou um copo d’água num gole só, tentando se recompor.
O fato de Larissa ter agido daquele jeito na frente dos filhos de Ramsay – de seu filho – deixou Zoe tão furiosa que ela queria gritar, atirar coisas, bater em algo. Obviamente, a mulher estava chateada, bêbada e transtornada, mas mesmo assim. Mesmo assim. Que tipo de gente fazia aquilo na frente de crianças, bêbada ou sóbria?
Ela precisou respirar fundo algumas vezes e foi com uma força de vontade tremenda que se virou para uma fileira de crianças preocupadas e chateadas. Não queria dizer-lhes que elas estavam, o tempo todo, corretas em sua análise.
– Bom – disse, sentindo o coração acelerado –, às vezes os adultos… bebem demais… e se comportam de um jeito que… Bem. Não é o ideal. E, nesse caso, a Larissa estava… muito cansada. E meteu os pés pelas mãos. E disse coisas que, tenho certeza, foram da boca pra fora, que definitivamente não são verdade, e tenho certeza que ela vai se sentir péssima quando acordar amanhã. E é por isso – acrescentou com um floreio – que nunca se deve beber.
Todos ficaram olhando para ela, exceto Mary, que estava olhando pela janela.
– Eu acho – disse Patrick por fim, quebrando o silêncio – que ela absolutamente não gosta de você.
– Bem, nem todo mundo se gosta – ponderou Zoe automaticamente. – E tudo bem.
Ela foi até Mary e se ajoelhou.
– Querida, eu sei que você entendeu algumas daquelas palavras. Você sabe que não são verdade, não sabe? A Larissa só estava… muito sensível.
O rosto de Mary estava gélido.
– Ela quer se casar com o papai. Mas não pode, porque você vai se casar com ele.
– Oooh! – exclamou Patrick.
– Não! – disse Zoe. – Meu Deus! Não! Não é nada disso. Eu juro.
Mary meneou a cabeça.
– É verdade! É verdade, sim! Eu vi vocês!
Zoe ficou branca de culpa. Viu o quê? Não tinha acontecido nada para ver; nada, nada…
– No Samhain! Eu vi vocês se abraçando!
Mary piscou. Ó céus.
– Nós estávamos dançando, Mary. Por dois segundos. Foi só isso! Nada… Nada do que você está pensando.
Mas seu rosto estava vermelho, pois, na verdade, não tinha sido “nada” para Zoe, e Mary, cujos olhos escuros fuzilavam o rosto de Zoe, sabia disso.
– VOCÊ ESTÁ MENTINDO! – gritou a menina. – VOCÊ ESTÁ MENTINDO! TODO MUNDO MENTE PRA MIM! TODO MUNDO MENTE!
E se levantou e saiu do quarto como um furacão.
PARTE 4
– Os corvos estão se reunindo – informou o Comedor de Carne, batendo seu pique no chão da torre. – Eles estão se preparando para voar. E quando o fizerem, tornarão o céu preto, o rio, vermelho, e as rochas se desintegrarão, e a terra rachará e chorará por todos os perdidos. Então. Quem gostaria de um pano de prato da Ponte de Londres pra levar pra casa?
Wallace ficou olhando para ele.
– O que foi que você acabou de dizer?
– Eu disse: “Quem gostaria de um pano de prato da Torre de Londres pra levar pra casa?”
– Eu! – gritou Francis.
De Entre os telhados
Capítulo setenta e um
Zoe levou uma eternidade para botar os garotos para dormir e sabia que ainda precisava conversar com Mary. Ela os acalmou, disse que era apenas papo de uma mulher chateada e acabou concordando em deixar Hari dormir no quarto de Patrick, apenas daquela vez. Os meninos deitaram na mesma cama e ela afagou suas cabeças.
– Não é verdade – sussurrou ela. – Durmam.
Shackleton tinha saído de fininho e Zoe estava preocupada com ele; o garoto guardava as coisas para si. Mas, naquele momento, ela precisava lidar com a Mary.
– Vá embora – foi a resposta à sua batida. – VÁ EMBORA!
– Só quero conversar com você.
– Eu não quero conversar com você. Nunca mais. NUNCA MAIS.
Zoe pegou um cobertor grande de uma cadeira no final do corredor.
– Está bem – disse ela. – Vou ficar sentada aqui fora até você estar pronta. Não vou a lugar algum, Mary. Estou aqui pra você.
– Eu te odeio!
– Tudo bem também.
Infelizmente, o dia longo e cheio de emoções estava pesando e, ao deitar sobre umas almofadas surpreendentemente confortáveis do sofá no comprido patamar, Zoe se percebeu sem qualquer vigor restante: os eventos do dia tinham sido significativos e estressantes demais para assimilar de uma vez. Quando Zoe tinha um problema pequeno, ela era capaz de ficar deitada, acordada, preocupando-se com ele por horas. Ali, com um problema grande, ela estava esgotada demais e o sono a dominou.
Ramsay voltou duas horas depois, após a viagem totalmente desagradável até a casa de Larissa, durante a qual ele pretendia dizer umas verdades a ela, mas, no fim das contas, precisou aguentar a recusa dela em sentar no banco do passageiro e então, depois de praticamente pegá-la no colo e colocá-la no carro, ela dormiu na mesma hora, roncando alto. Ele tinha coberto o belo vestido dela com seu casaco enorme e dirigido pelas ruas desertas totalmente em silêncio, zangado e chateado, sem sequer perceber como estava dirigindo rápido até quase acertar um cervo e constatar que provavelmente mataria Larissa e a si mesmo, deixando as crianças em uma situação ainda pior. Então ele parou o carro e tirou dez minutos para se acalmar.
Finalmente a deixou no Solar Lochdown, onde, para seu horror, vários dos amigos chiques dela, que costumavam caçar, atirar e pescar com ela, ainda estavam acordados, matando uma garrafa de uísque. Eles já haviam sido seus amigos também, antigamente, e ficaram extasiados ao vê-lo e pareceram achar o interlúdio de Larissa hilário.
– Minha nossa, eu sabia que você ia acabar se dando mal, Rammy, meu garoto – disse Crawfs. – Ela passou a noite toda soltando fogo pelas ventas.
– E quando ela dançou se esfregando no garçom pra deixar você com ciúmes? E você nem sequer estava lá?
– Caramba, ela estava um caos.
Ramsay percebeu que estava correndo um sério risco de sentir pena de Larissa, então a levou para o quarto, tirou seus sapatos, embora não as meias-calças, e a colocou na ampla cama, sobre os lençóis Laura Ashley que ele tinha passado a conhecer nas noites em que se sentia tão sozinho que não conseguia suportar nem mais um segundo. Ele havia achado Larissa tão doce…
Encheu um copo grande com água e colocou ao lado dela. Quando virou a cabeça para olhar uma última vez para os cabelos louros dela, meneou a cabeça. Ele tinha um péssimo gosto para mulheres. O pior. Chega. Bastava para ele.
Os rapazes tiraram sarro dele enquanto saía e ele voltou para casa no carro dela. Ela que se virasse depois. Retornou às pressas para The Beeches, costeando o lado escuro do lago, com a lua poente iluminando ondas compridas na superfície agitada, as profundezas mais misteriosas do que nunca. O tempo estava virando. Parecia que os dias frescos e limpos do outono estavam chegando ao fim. Havia previsão de temporais, embora a única previsão certa por ali fosse “sujeito a mudanças”.
Estava cambaleando de cansaço quando finalmente entrou em casa. Zoe iria embora pela manhã, ele supunha. Ela tinha dito que ia para casa. Aquela devia ter sido a gota d’água.
Céus, que confusão. Que confusão enorme, tudo aquilo. Eram quatro da manhã. Era melhor tentar dormir um pouco.
Ficou perplexo ao encontrar Zoe deitada feito uma sentinela na frente do quarto de sua filha. Percebeu que tinha sido ridículo; seu primeiro pensamento fora que ela iria embora. O primeiro pensamento dela fora a filha dele.
Ele abriu a porta do quarto de Mary. Ela estava deitada, respirando uniformemente de uma maneira que pareceu um pouco suspeita para ele, então chamou seu nome bem baixinho, mas ela não respondeu e, após alguns instantes, foi até a cama e deu um beijo em sua testa.
– Eu te amo – disse baixinho.
Mary ficou o mais imóvel que conseguiu na cama. Ela sabia. Ele tinha provado. Ele estava pedindo desculpas a ela. Ele a amava. Ela tentou manter os olhos fechados para que as lágrimas não escorressem para o travesseiro.
Ramsay quase tropeçou em Zoe ao sair do quarto. O rosto dela estava tão escancarado em seu sono que parecia intrusivo olhar para ela tão de perto. Ele estendeu a mão para passar pelos cabelos dela, mas se conteve. Chega. Chega de confusão.
Ela era a segunda mulher adormecida que ele deixava aquela noite. Seus sentimentos com relação a ambas eram bem diferentes.
Capítulo setenta e dois
Em um primeiro momento, quando acordou, Zoe não sabia onde estava, apenas que estava congelando, chateada e se sentindo péssima.
Depois percebeu que estava deitada no chão, que tinha amanhecido e a chuva estava batendo nas janelas. Tudo aquilo era terrível. Ó céus. O que tinha acontecido?
Gradualmente, os eventos do dia anterior retornaram à sua mente e ela sentou-se no comprido corredor, gemendo.
Ai, meu Deus! Ela não queria ter dormido! Ela devia estar tomando conta da Mary! Meu Deus! Ela se levantou, todos os sentidos aflorados. Meu Deus, será que havia algum adulto na vida da garota que não a deixava na mão? Ela bateu e, como não obteve resposta, sentiu o sangue correr gelado por suas veias.
– Mary? Mary?
Empurrou a porta, que estava aberta. O quarto estava vazio; a janela estava aberta. Um vento congelante e molhado soprava.
Ela está lá embaixo, tomando café da manhã, disse Zoe a si mesma. Ela está lá embaixo com Hari, tomando café da manhã.
A ideia de Mary ajudando Hari com alguma coisa era absurdamente improvável, mas Zoe se apegou a isso mesmo assim e desceu as escadas correndo.
A cozinha estava vazia. Todos, aparentemente, decidiram dormir até mais tarde após a madrugada dramática. As duas xícaras de café ainda estavam na pia. Zoe olhou para elas como se não conseguisse compreender que diabos era aquilo.
– HARI! – berrou, e em seguida subiu as escadas correndo.
– Patrick? Você viu o Hari? PATRICK?
Sua voz transparecia uma pitada de pânico. O garotinho saiu do quarto, esfregando os olhos. Ela olhou para as camas vazias.
– Eu absolutamente não vi o Hari, Babá Sete – respondeu ele.
– Meu Deus – disse Zoe, tentando não afligir o menino. – Onde está… Hari? HARI!
Ela correu até a ala da criadagem, abrindo todas as portas pelo caminho, pequenas fileiras de camas de metal, uma após outra, mas nada de Hari. Ele sempre, dizia uma vozinha em seu coração, sempre vinha quando ela chamava.
Nada.
Ela voltou a descer as escadas correndo. Dessa vez, a Sra. MacGlone tinha chegado e Ramsay estava lá.
– Sra. MacGlone! Quando entrou… você viu o Hari? Ele não está aqui!
– Você olhou tudo? – perguntou a Sra. MacGlone. – Porque são muitos quartos.
– Sim!
– Todos os armários? Tem certeza que ele não está brincando de esconde-esconde?
Zoe meneou a cabeça.
– Ele não pode. Não brincamos disso. – A voz dela estremeceu em um soluço. – Ele não consegue gritar quando é encontrado.
– Vou checar os outros cômodos – disse a Sra. MacGlone.
– Bem, faça isso, então – retorquiu Zoe, uma pilha de nervos. – E a Mary também.
A Sra. MacGlone franziu o cenho quando Zoe correu para a porta dos fundos e a escancarou. O vento soprou e ela quase fechou na sua cara. Lá estava o rastro da Sra. MacGlone, na grama achatada, e, quase invisíveis sobre a grama congelada, os vestígios de dois outros pares de pés.
– Ela o levou – declarou Zoe, empalidecendo.
– O quê?
Ramsay apareceu ao seu lado na mesma hora, preenchendo o vão da porta, usando uma calça jeans e um suéter antigo sobre a camisa de um pijama listrado que parecia tão velho quanto a casa.
– Onde ele está?
– A Mary… A Mary levou o Hari.
Ramsay praguejou.
– Tem certeza? Será que eles só não… saíram pra brincar?
O vento rugia nas árvores.
– Esse… Esse não é o tipo de coisa que eles costumam fazer – respondeu Zoe entre dentes.
– Céus – disse Ramsay. – Ah, meu Deus. Venha. Droga. Onde está o meu celular?
Estava sem bateria em cima do balcão, exaurido completamente pelas ligações constantes de Larissa.
– Estou com o meu aqui – disse Zoe, a voz trêmula. – Sra. MacGlone, fique aqui e olhe… Fique de olho nos meninos.
Os meninos que ela não levou, era a frase que ficou pairando no ar. A Sra. MacGlone concordou com a cabeça, a boca tensionada em uma linha fina, e se virou.
– Não os assuste! – gritou Zoe um tanto inutilmente, já que ambos estavam na cozinha, observando enquanto ela e Ramsay atravessavam o gramado descuidado. Shackleton se juntou a eles em poucos instantes.
– Vou procurar no bosque – ofereceu ele, e sua voz, subitamente grave, fez tanto Zoe quanto Ramsay se virarem por um instante, visto que ele parecia muito mais velho do que sua idade real.
Delineada à luz cinza da manhã, Zoe avistou um vislumbre da casa atrás dela. As árvores se curvavam com o vento, o céu estava repleto de nuvens cinza volúveis e as janelas da casa estavam fechadas, como olhos que não podiam ver.
– HARI!
A chuva estava redemoinhando, jogando folhas para todos os lados; o cochicho feroz nas árvores, o mato sussurrante sinistro e a casa que tinha começado a parecer um lar para ela de súbito se transformaram no lugar mais apavorante que ela podia imaginar.
– MARY! – gritava Ramsay, desesperado.
Nenhum deles conseguia acreditar que as crianças tinham sumido – elas não podiam, não podiam ter sumido.
Em sua cabeça, Zoe reviveu o mundo que eles estavam habitando. Os morros, agora congelantes, o risco real de perigo. Os arbustos densos do morro, onde era tão fácil se perder.
O lago. O lago!
Ramsay chegou à mesma conclusão exatamente no mesmo momento e, de repente, ambos estavam correndo contra o vento, gritando nomes que se perdiam no vento, cada vez mais rápido.
Chegaram à praia de pedras ao mesmo tempo; as ondas batiam na orla e eles se entreolharam, incrédulos.
O barquinho a remo não estava lá.
– Ela não faria isso – murmurou Ramsay para si mesmo. – Ela não faria isso. Por que ela faria?
Os dedos trêmulos de Zoe estavam fazendo a ligação. Ela derrubou o celular na areia e Ramsay o pegou e telefonou rapidamente.
– Guarda costeira – disse ele em tom pungente. – Lado leste do lago Ness.
Ele olhou para Zoe, nenhum dos dois conseguindo acreditar no que ele estava dizendo, mesmo enquanto falava.
– Acho que duas crianças saíram em um barco e não sabemos onde elas estão.
Zoe soluçou de leve enquanto Ramsay fornecia mais detalhes. Ela caminhou até a beira da água. Não havia nada à vista, e a água estava revolta; o lago cinza e o céu cinza faziam com que tudo parecesse uma coisa só.
– Sim, tenho certeza! – ralhou Ramsay, claramente se esforçando ao máximo para não perder o controle. – The Beeches. Verifique.
Ele esperou.
– Certo. Sim.
Entregou o telefone para Zoe.
– Eles não podem mandar um helicóptero. Tem uma tempestade a caminho.
Zoe sentiu os joelhos cederem de repente e Ramsay a segurou pouco antes de ela cair no chão.
Capítulo setenta e três
Ramsay a levantou, mas ela se desvencilhou dele. Zoe não tinha tempo, não podia ser fraca. Não podia. Ela pegou o telefone com a mão tremendo. Ramsay teria continuado a segurá-la, mas ela se afastou, sem sequer perceber que estava meneando a cabeça para ele. Ela se atrapalhou novamente, mas conseguiu encontrar o número de Murdo.
– Ah, oi!
Murdo estava alegre como sempre – desde que, na verdade, Agnieszka o reconfortara após seu encontro fracassado com Zoe – e Zoe se percebeu se apegando à normalidade da voz dele.
– O que você tem aí pra mim? Sim, eu adorei o livro do Cherry-Garrard. Adorei. Todos os dias, me lembrava de que não estava fazendo zero grau e eu não estava tentando matar pinguins pra comer. Eu falei pra Agnieszka tentar preparar um pinguim, mas…
– Murdo – interrompeu Zoe, em pânico, e ele finalmente percebeu a gravidade da voz dela.
– Qual o problema?
– É o Hari… Ele desapareceu. No lago.
– O moleque?
– Sim.
– O que…?
– Não sabemos. Achamos que a Mary o levou…
– Mas vai cair um temporal.
Ramsay estava olhando desesperado para ela. Zoe engoliu a raiva e o pavor.
– Ela… Ela não sabia – disse ela por fim.
– Onde… Onde eles estão?
– Não devem ter ido longe – respondeu Zoe. – É um barco a remo.
– Sim, mas tem as correntes do lago… – lembrou Murdo, e Zoe choramingou de pavor. – Tá, certo, não se preocupe. Estou a caminho.
Murdo emitiu um alerta e então zarpou pelo lago a uma velocidade que nenhum dos turistas imaginaria ser possível. A embarcação arfava e saltava na água agitada. Ele pegou o binóculo e olhou em volta. Conhecia cada centímetro daquele lago.
Zoe estava parada, olhando para o lago, na beira da água em The Beeches, com os braços envolvendo o próprio corpo e o rosto desolado; Ramsay estava por perto.
Murdo apareceu, o barco sacudindo na água revolta, virando de um lado para outro. Ele estava completamente encharcado; a água penetrava em sua capa de chuva e escorria por sua nuca. Era um dia feio, não havia dúvida disso. Naquela época do ano, as tempestades vinham com tudo do oeste e nunca se sabia como seriam até chegarem – mas quando chegavam, meu pai amado. Rajadas de vento sopravam por todo lado, nunca exatamente na mesma direção, e Murdo tinha que se esforçar ao máximo para manter o barco equilibrado e procurar pelas crianças ao mesmo tempo. A ideia de haver crianças no lago fazia sua espinha gelar. Ele nunca, jamais sairia com turistas naquele tempo.
Olhou novamente para o rádio, mas logo se tornou desnecessário, visto que um barulho atravessou seu gorro grosso: o motor velho e gaguejante de um barco. Virando-se, ele viu que era Alasdair, do pub, acompanhado pelo velho Ben, ambos com expressões de preocupação no rosto.
– Vamos pelo norte – disse Alasdair, dando a volta com o barco.
Atrás dele estava, no fim das contas, a cavalaria, e para Zoe, parada na praia, a visão era impressionante: uma variedade de barcos – iates de luxo, pequenos barcos de alumínio, barcos a remo, lanchas de passeio. Hamish McTavish precisou ser convencido a não sair com sua balsa.
Era uma flotilha. Murdo estava mantendo os canais livres para coordenar e assumir o comando.
Zoe não conseguia acreditar em quem estava vendo. O coronel, que nunca fizera nada além de reclamar que Nina sabia do que ele gostava, em um barquinho pequenino com motor de popa. E lá estava Wullie, que tinha vendido a van para Nina e apenas reclamava dela. A água estava batida, o céu estava desabando, mas lá estava Lennox, em um barco a remo, forçando os músculos contra a ferocidade da corrente. O vilarejo inteiro estava lá.
Murdo chegou até ela primeiro e ela saltou no barco sem tropeçar dessa vez.
– Eles não devem ter ido longe – afirmou Murdo – se pegaram aquele barquinho.
Ninguém dizia a terrível e inevitável verdade: não era preciso ir longe. Se houvesse algum problema com o barco, a rebentação o faria virar assim que você olhasse para ela. Você poderia se afogar a três metros da costa. Se a rebentação não o pegasse, você poderia morrer de frio em mais ou menos meia hora naquela época do ano. O lago era um perigo do pior tipo: lindo e tentador.
– Ele sabe nadar? – perguntou Murdo.
– Ele tem 4 anos!
Murdo gostaria de ter dito ou feito algo alentador naquele momento, mas ele sabia algo que Zoe não sabia: pessoas morriam no lago. Não todos os anos, mas acontecia. Ele olhou para o rosto pálido e exausto dela: todos os piores cenários transpareciam em sua expressão, e Murdo não conseguiu pensar em mais nada que não fosse tirar o casaco e colocar nela, como se ela fosse parar de tremer, como se houvesse uma chance.
Capítulo setenta e quatro
Murdo coordenava os barcos enquanto eles se separavam; eles atravessavam o lago em áreas rigidamente organizadas. O helicóptero logo acrescentou seu ruído gaguejante ao vento devastador. No barco de Murdo, Zoe e Ramsay se mantinham longe um do outro; ambos tentavam bloquear os piores pensamentos de suas mentes, os piores cenários possíveis.
Tudo estava cinza, a chuva lavava as montanhas e a visibilidade era quase zero, e Zoe olhava ao redor em desespero – não dava para ver nem um metro à frente.
Uma potente lancha da polícia com um farol forte na proa se juntou ao grupo, mas a sensação ainda era de que poderia ser o meio da madrugada, e não oito horas da manhã. Os sons do lago, em meio ao temporal, assumiam um poder sobrenatural. Era impossível dizer a qual distância você estava das outras embarcações. O tempo perdeu o significado à medida que eles se moviam lentamente em meio às torrentes da costa ou em torno das pequenas ilhotas que apareciam quando o nível da água estava baixo. Apenas Zoe estava em pé, desafiadora, na proa do barco, gritando sem parar:
– Hari! Hari! Hari!
E cada pedacinho de seu garotinho surgia em sua cabeça ao mesmo tempo: ele rindo sozinho quando aprendeu a andar na pequena quitinete, seu rostinho sonolento quando ela o amamentava nas intensas e intermináveis horas do início da maternidade, chocada e atordoada com a força feroz de seu amor, ao mesmo tempo que conseguia vê-lo, vislumbres dele pálido, inerte na orla, sendo puxado para baixo pelos tritões do fundo do lago, peixes comendo seus olhos… Não.
– HARI! HARI! HARI!
Ela se lembrou dele dançando com a música da televisão: da felicidade no rostinho dele na primeira vez que ela deixou Patrick ir com ele para a creche; da expressão compenetrada dele ao catar folhas vermelhas sob o sol do final do outono; da vivacidade extraordinária dentro dele; de seu corpinho surpreendentemente pesado e atento; do peso de sua cabecinha quando ele dormia em seus braços; do cheirinho de seus cabelos, eriçados com xampu na banheira, como um pequeno moicano.
– HARI! HARI!
E Ramsay berrava:
– HARI! MARY! HARI! MARY!
E olhava em todas as direções.
Capítulo setenta e cinco
De repente algo se avolumou debaixo deles. Murdo praguejou. Zoe, que não entendia nada de navegação, não percebeu que havia algo errado e continuou gritando o nome do garoto perdido, o nome que ela gritaria para sempre.
O barco guinou de repente para um lado; todos eles se agarraram instintivamente à amurada.
– Droga – resmungou Murdo de novo.
– O que foi? – perguntou Zoe.
A pressão era imensa, o motor choramingava como se sentisse o peso.
– Hum… Deve ser um baixio – disse Murdo, erguendo a cana do leme.
Mas não adiantou; o barco estava encalhado e só envergava para o lado que a água parecia estar forçando a seguir. Ele puxou a cana novamente, mas o leme esbofeteou sua mão para longe.
Olhou em volta. Não havia nenhum barco perto deles e a chuva estava caindo com mais força do que nunca. A visibilidade era péssima.
– HARI! – berrou Zoe, usando o celular como tocha, um pontinho de luz inútil em meio ao cinza denso.
– Merda! – gritou Murdo de repente.
Do nada, um grande afloramento rochoso surgiu bem no meio do lago.
– O nível da água está baixo. Merda! – repetiu Murdo.
Ele tentou girar a cana, outra vez sem sucesso.
– Merda!
Eles estavam se aproximando cada vez mais das rochas em alta velocidade.
– Meu Deus – disse Murdo. – Coloquem os coletes salva-vidas… Talvez a gente precise abandonar o barco. Que diabos está acontecendo?
Ele jogou os coletes para Ramsay e Zoe, que estava olhando, apavorada, para as grandes rochas que vinham em sua direção, altas, pontiagudas e prontas para esmagá-los em pedacinhos, independentemente, pensou Murdo, apavorado, de eles saltarem ou não do barco. A corrente os estava arrastando na direção delas, de toda forma. Encharcados, eles não podiam fazer nada além de observar as ondas cruéis que batiam na base das rochas e se preparar para o impacto.