Um novo capítulo para o amor
Parte 3
Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.
– Pensei que fosse por causa do bosque de faias.
– Aquelas árvores não são faias – disse Ramsay com desdém. – São carvalhos. Você não sabe diferenciar?
Zoe cruzou os braços.
– Desculpe – disse ele. – Talvez não tenha muitas árvores em Bethnal Green, né? Tem?
– Não – respondeu Zoe.
– Enfim – continuou Ramsay –, é um código. A palavra “book”, “livro”, vem da palavra “beech”. Era da madeira das faias que os livros, originalmente, eram feitos. As pessoas sabiam que podiam esconder seus livros aqui.
Zoe se aproximou, tocando com a ponta dos dedos os textos antiquíssimos.
– São lindos.
– Alguns são. Muito lindos. E importantes também. Foi isso que eu passei a vida inteira fazendo: tentando juntá-los com seus pares. Com seus irmãos e irmãs. Descobrindo quem havia sobrevivido a fogueiras e a mudanças no sistema de crenças e faxinas ao longo dos anos…
– Livros Reunidos – disse Zoe.
Ramsay deu um meio sorriso.
– Bem, sim. Algo nesse sentido. Você que fez esse bolinho?
Ele parecia agitado, como se tivesse se esquecido de comer – o que provavelmente era verdade –, e devorou dois pedaços.
– O Shackleton – respondeu ela.
– Minha nossa! – exclamou Ramsay. Ele olhou para Zoe com um novo respeito. – E foi você que ensinou pra ele?
– São incríveis os poderes que você ganha ao “dominar a internet” – disse Zoe, dando um sorriso alegre.
– Bem, eu nunca dominei. Bom trabalho, Babá Sete. Estou brincando, estou brincando – alegou ele ao ver que o rosto dela ficou tenso. – Sinceramente, Zoe, obrigado. E eu também queria agradecer de novo pela Mary.
Zoe sentiu o chão se movendo de leve sob seus pés. Ramsay olhou bem nos olhos dela.
– Preciso te perguntar – disse ele. – Por que você tem sido tão boa com ela? A Mary tem sido terrível com você.
Zoe olhou para ele, surpresa por ele ter feito aquela pergunta.
– Por que isso é culpa dela? – questionou ela. – Por que seria culpa da criança?
Ramsay enrubesceu e desviou o olhar.
– Também não acho que a culpa seja sua – apressou-se ela em acrescentar, ciente de que o tinha magoado profundamente.
Mas ele não respondeu – ou não conseguiu responder – e Zoe sentiu que o momento estava passando.
– Enfim – emendou ela apressadamente, imprimindo uma vivacidade na voz que não sentia de fato. – Preciso conversar com você sobre a Mary.
– O que foi?
– Ela precisa de roupas novas. Pro inverno.
Ramsay pensou um pouco.
– É claro. Eu vivo esquecendo que ela está crescendo… Tanto tempo se passou…
Ele parecia perdido em pensamentos.
– E vou precisar de dinheiro pra levá-la pra fazer compras.
Ele ergueu os olhos, preocupado.
– Ah – respondeu ele.
– Não muito – garantiu Zoe. – Roupas não custam mais tão caro hoje em dia, mas ela precisa de botas e de um casaco de inverno. Eu dei uma olhada… – disse ela, antecipando-se às objeções dele. – As botas que temos em casa já não servem mais. Tem muitas roupas masculinas velhas. Não tem… – ela não sabia ao certo como dizer aquilo sem parecer insensível – … roupas femininas.
A frase ficou pairando no ar enquanto uma tora escorregava da grelha e crepitava no fogo. Fora isso, a biblioteca estava absurdamente silenciosa, apenas com a música clássica, que Ramsay havia baixado quando ela entrou, ao fundo.
– Sim. Entendo – disse ele, franzindo o cenho. Então suspirou. – Precisamos de mais alguma coisa? – perguntou.
Ambos se lembraram do lava-louça.
– Precisamos de uma máquina de lavar nova – respondeu Zoe. – E, provavelmente, de um aspirador de pó novo. Você facilitaria bastante a vida da Sra. MacGlone; o aspirador da casa tem a idade dela. E uma cafeteira – acrescentou rapidamente.
– Como é que alguém pode precisar de uma cafeteira? – indagou Ramsay.
– Como é que alguém pode precisar de um jardineiro? – retrucou Zoe.
Ramsay piscou.
– Mas o Wilby é do legado.
– Não entendi.
– Ele é… Eu o “herdei”. Ele tem um montante do testamento do meu pai, uma anuidade, tal como a Sra. MacGlone. É assim que a criadagem se aposenta, você não sabia disso?
– Claro, eu cresci com cem criados na minha propriedade – disse Zoe. – Do que é que você está falando?
– Eu não pago um salário a eles. A propriedade é que paga, de muitos anos atrás. Eles não precisam trabalhar pelo dinheiro, ambos estão tecnicamente aposentados.
Zoe franziu a testa.
– E eles trabalham pra você mesmo assim?
Ramsay pareceu pesaroso.
– Hum, parece que sim.
Zoe pensou naquilo.
– A Sra. MacGlone vem trabalhar… sem precisar?
Ramsay parecia constrangido.
– Eu já falei pra ela tirar férias, mas…
Zoe balançou a cabeça.
– Isso é… Isso é… Então você não tem dinheiro algum? A Larissa sabe disso?
Ramsay piscou.
– De que diabos você está falando?
– Desculpe – disse Zoe. – Nada. Finja que eu não falei nada.
Ramsay franziu o cenho.
– O que a Larissa tem a ver com qualquer coisa?
Zoe deu um passo adiante. A biblioteca era realmente linda. Atrás das prateleiras era possível ver os painéis de carvalho maciço que cobriam as paredes e o teto. Havia candelabros circulares simples de ferro forjado – se é que existiam candelabros simples – dependurados no teto, com velinhas queimando neles. Havia pequenas lamparinas verdes aqui e ali.
Ela caminhou na direção da parede.
– Deve haver… – disse ela. – Deve haver algumas coisas aqui que você possa vender, não?
Ramsay ergueu as mãos, aflito.
– Eu sinto… Eu sinto que não são minhas, para que eu possa vender.
– Você é refém dos livros?
De repente ele parecia ser uma versão imensa do garotinho que devia ter sido na infância.
– Eles me moldaram – respondeu ele baixinho e olhou em volta. – Passei metade da minha vida nesta biblioteca.
Zoe sorriu.
– E se eu desse um jeito enquanto você não está aqui? – Ela ergueu os olhos. – Claro, não sei se saberia ao certo por onde começar…
– Tem o almanaque…
Zoe olhou para ele e ele parecia ter dito mais do que pretendia.
– O que é isso?
Ramsay olhou para sua mesa bagunçada.
– É uma lista anual de livros raros… que mostra o que você poderia conseguir se os tivesse.
– Então eu poderia analisar a lista, ver o que tem aqui?
Ramsay pareceu aflito.
– Eu preciso assistir?
Zoe meneou a cabeça.
– Eu serei muito, muito delicada com eles – prometeu ela. – E não vou pegar nada sem a sua permissão.
Ela pegou o pesado almanaque, com suas letrinhas miúdas.
– Caramba – disse ela. – Talvez seja melhor pedir ajuda pras crianças.
– Não! – gritou Ramsay de chofre, no tom mais áspero que ela já tinha ouvido. – As crianças não podem entrar aqui.
Zoe ergueu os olhos.
– Tuuuudo bem… – disse ela.
Ramsay piscou.
– Tem… Tem coisas aqui que não deveriam ser tocadas – murmurou ele.
Zoe olhou em volta. O lugar era lindo. Era uma pena.
– Tudo bem – reiterou ela com firmeza. – Eu dou conta. Encontrarei algumas coisas pra vender.
– Quando? – perguntou Ramsay. – Você parece bem atarefada.
– Sou multitarefa – respondeu Zoe, sorrindo.
Capítulo cinquenta e seis
E foi assim, nas manhãs seguintes, antes de as crianças sequer levantarem – elas ainda tinham horários irregulares; Zoe concluiu que o fato de elas estarem se alimentando melhor e lavando a própria louça significava que era melhor ela deixar a discussão quanto ao horário de dormir pra outra hora –, enquanto a luz pungente do outono brilhava por entre as folhas bronzeadas do jardim descuidado, que Zoe começou a passar uma hora deliciosa, todos os dias, comparando, arquivando e organizando.
Encontrou diversos tesouros: atlas antigos, de quando o mundo era cor-de-rosa; livros de feitiços pacatamente apresentados como meros livros de receitas; livros de receitas também, alguns com anotações à mão, repletos de receitas ultrapassadas, como geleia de carneiro e cozido de porquinho-da-índia. Encontrou, com um grito de triunfo, a primeira edição do Livro da Sra. Beeton sobre administração do lar, imaculado (ele obviamente não tinha, pensou ela com certo amargor, utilidade para a Sra. MacGlone). Também achou um almanaque de críquete Winden’s, antiquíssimo e todo empoeirado, contendo os resultados imutáveis e já esquecidos com o passar dos anos.
Ramsay se acostumou com a presença dela lá, com a cabeça debruçada sobre seu caderno e um lápis atrás da orelha, uma expressão reflexiva e uma mecha de cabelo ocasional caindo diante do rosto. Ela se movia em silêncio, não o atrapalhava, colocava uma xícara de café instantâneo na mesa dele (o café era absurdamente fraco e quase sempre morno; ele não fazia ideia de que ela estava tentando uma abordagem passivo-agressiva para conseguir a nova cafeteira). Eles não conversavam, embora às vezes ela emitisse uma exclamação contente de surpresa e ele erguesse os olhos, nervoso, e ela mostrasse o que tinha encontrado.
Em sua maioria, eram os livros locais que Zoe estava procurando. Às vezes era um guia turístico ou um mapa da região que não era valioso por si só, mas só pelo fato de ela conseguir vender com facilidade na van no centro de visitantes, na seção “Relíquias”, e que não configuravam nenhuma perda real para Ramsay.
– E você ainda tem, tipo, um zilhão de outros livros – lembrou ela.
Mas às vezes – como quando ela encontrou a primeira edição de Peter Pan, de J. M. Barrie, que conhecia o avô de Ramsay e morava na mesma rua que ele – ela soltava um suspiro profundo.
– Sabe – disse Zoe baixinho –, provavelmente daria pra consertar o telhado da ala leste com a venda disto aqui.
– Acho que os ninhos dos pássaros são a única coisa que está segurando tudo – comentou Ramsay.
– Estou vendo que esta biblioteca não tem uma seção de obras sobre como consertar telhados – observou Zoe. – O seu pai nunca sugeriu que você fizesse um curso de construção em vez de estudar literatura?
– Ele devia ter sugerido, né? – concordou Ramsay.
– Você daria um bom construtor. Coluna forte, mãos grandes – comentou Zoe, enrubescendo logo em seguida. Ela havia esquecido, por um instante, que estava falando com seu chefe.
Ramsay não percebeu e olhou para as próprias mãos, que estavam manchadas de tinta.
– Hum – murmurou ele. – Você acha que é tarde demais pra aprender?
– Nunca vi você subir as escadas sem bater a cabeça no cervo – respondeu Zoe, sorrindo.
Ramsay revirou os olhos.
– Minha cabeça – disse ele lugubremente – geralmente está em outro lugar.
– Eu sei.
Então ele olhou para o relógio e, como fazia todas as manhãs, franziu o cenho e partiu para um lugar muito mais importante – não que Zoe um dia tenha descoberto qual, exatamente, era o tal lugar.
Capítulo cinquenta e sete
Certa manhã – um dia frio de outubro, com um ar gelado, cheirando a fogueira, embora não houvesse nenhuma –, Zoe mandou Patrick e Hari para o quintal, calçando galochas aleatórias da casa, para coletar uma bacia enorme de folhas antes do café da manhã; eles retornaram radiantes, com folhas vermelhas, alaranjadas e amarelas, uma grande bacia de felicidade, e as colocaram em uma velha bacia de estanho polido perto da lareira da cozinha, para que secassem e conferissem uma linda pitada de cor às superfícies lisas, embora Zoe tivesse começado a cobrir as paredes com os desenhos coloridos que as crianças faziam. Ela serviu a eles um pouco de leite quente com noz-moscada, para aquecer as mãozinhas geladas, e então foi para o piso superior bem quando Ramsay chegou.
Ele também tinha ido fazer alguma coisa e eles acabaram se encontrando no corredor a caminho da biblioteca. Sorriram um para o outro, caminhando lado a lado pelo tapete comprido e desbotado.
– Então… Eu vendi todos aqueles guias turísticos em galês – disse ela.
– Não brinca! – exclamou Ramsay, franzindo o cenho.
– Pra você ver!
– Os compradores sabiam que eram em galês?
– Eles ficaram fascinados! Um deles tentou me agradecer em galês. – Ela pausou. – Pelo menos eu acho que era galês.
– Como era o som?
– Como alguém cantando uma música linda e então, sem querer, tendo que tossir de repente.
– Sim, é isso mesmo. Tapadh leat.
– “Tapa lá” – repetiu Zoe.
– Dá pro gasto.
– Bom, enfim. Fizemos um dinheirinho…
Zoe se apoiou na porta da biblioteca, estendendo a mão para que ele lhe desse a chave antiga e grandona. Estreitando os olhos, Ramsay a entregou a Zoe e ela a inseriu e girou cuidadosamente na velha fechadura. As portas se abriram com seu rangido habitual.
– Tcharã! – exclamou ela.
Ramsay olhou lá dentro, piscando de perplexidade. Zoe tinha ido até o pub em Kirrinfief com o dinheiro que conseguira com as vendas e perguntara se havia algum limpador de vidros na região. Então perguntara quantas vidraças ele limparia pela pequena quantia de que ela dispunha e ficou feliz por ele ter concordado em ir até lá e limpar toda a ala oeste (apenas os dois primeiros pavimentos), por dentro e por fora – embora, a bem da verdade, ela tivesse ficado tão nervosa com o sabão e os respingos que caíam enquanto ele limpava as janelas por dentro, alvoroçando-se em torno dele com toalhas velhas, que podia muito bem ter feito o serviço ela mesma.
Depois que ele foi embora, a mudança extraordinária na luz acabara expondo todas as teias de aranha e cantinhos empoeirados, então ela pegou os espanadores da Sra. MacGlone (“Você vai na biblioteca?”, perguntara ela em tom bastante desaprovador e Zoe tinha sorrido da melhor maneira que pôde e dito “Estou apenas te ajudando, Sra. MacGlone!”, e saído correndo antes que a Sra. MacGlone soltasse uma de suas famosas bufadas, que Zoe estava aprendendo a ignorar de um jeito ou de outro, e Patrick tinha corajosamente se intrometido no caminho dela, ainda de galochas, com outro espanador na mão, e declarado “A GENTE VAI ABSOLUTAMENTE AJUDAR”, com Hari concordando ao lado dele, ao que Zoe respondera “Ótimo, é claro, vocês podem começar lá embaixo, na sala de visitas”, o que havia frustrado os planos de Patrick, mas Zoe estava seguindo sua nova política de simplesmente continuar em frente e seguiu adiante).
E, naquele momento, ela estava olhando, nervosa, para o rosto de Ramsay enquanto ele observava a biblioteca, inundada pela luz, limpa, clara e brilhante.
– Ah! – exclamou ele. – Minha nossa.
Ele tirou os óculos e voltou a colocá-los.
– Eu não…
Ele esfregou os olhos.
– Bem. Não se via a biblioteca assim há um tempo.
– Eu não encostei em nada! – afirmou Zoe. – Bem, você sabe. Com exceção de todas as coisas que peguei pra vender. Que eu anotei! Então...
Ramsay tentou sorrir.
– Desde que você não faça nenhum buraco nas prateleiras – alertou ele. – Disso eu não gosto.
Ele andou pelo cômodo, tocando nas coisas.
– Ah! – repetiu ele. – Obrigado.
– Graças a Deus – disse Zoe. – Eu fiquei com medo que você ficasse irritado. Como se fosse o covil do Barba Azul, ou algo assim, e ninguém pudesse entrar.
– Barba Azul? – disse Ramsay. – É isso que você pensa de mim?
– Não! – afirmou Zoe. – Definitivamente, absolutamente não.
Ele a encarou.
– Podemos mudar de assunto? – acrescentou Zoe depressa.
– Barba Azul?
Zoe pegou o livro mais próximo que encontrou. Era um exemplar lindo, com borda dourada, de A princesa e o goblin, de George MacDonald.
– Aaahh, olha só pra isso – disse ela de um fôlego.
– Não, não pode – declarou Ramsay, tomando o livro das mãos dela com cuidado. – Este livro é lindo demais. Não posso me desfazer dele.
– Não quero que você se desfaça dele – explicou Zoe pacientemente. – Estava pensando em levar pra Mary.
– Ah! É claro! – concordou Ramsay, devolvendo o livro na mesma hora.
– Como está a minha garotinha?
– Você não a viu ontem à noite?
Ele fez uma careta.
– Eu cheguei tarde; ela estava dormindo quando fui espiar no quarto dela.
– Certo. Bem, ela tem dormido bastante. Desenhado um pouco. Lido. Ela anda bem quieta, mas acho que está pronta pra ir fazer compras.
– Esta é a hora em que você me diz que vai ficar com a grana que levantou pra mim?
– Sim – respondeu Zoe. – Vou às compras com a Mary.
– Ótimo – disse Ramsay. – Você acha que ela tem condições?
– Bem – disse Zoe –, não acredito em garotas quietinhas, boazinhas e todas essas besteiras. Nada disso. Mas, no caso da Mary, acho que ela tem uma desculpa para querer calma, paz e tranquilidade. E talvez seja exatamente disso que ela está precisando.
– Mas ela ainda precisa voltar à escola.
– Todo mundo merece uma chance de ser normal – ponderou Zoe.
Ramsay piscou.
– Obrigado – disse ele novamente, olhando ao redor da biblioteca limpa e iluminada.
Alguém bateu à porta. Ramsay fez uma careta. Zoe foi atender, colocando a cabeça para fora.
Patrick e Hari estavam parados ali.
– SERÁ QUE A GENTE PODE ABSOLUTAMENTE ENTRAR? – perguntou Patrick.
– Receio que não – respondeu Zoe, sentindo-se totalmente ridícula por negar.
Eles estavam segurando, ambos, outra pesada bacia de estanho repleta de folhas vermelhas.
– A gente catou essas folhas pro papai – argumentou o menino.
– Bem, obrigada – disse Zoe, abaixando-se. – Eu levo pra ele.
Eles continuaram ali.
Patrick suspirou. Então Zoe teve uma ideia repentina.
– Na verdade – disse ela –, há outra coisa que vocês podem fazer…
E foi assim, radiante com o sucesso de seu plano, com o dinheiro no bolso para a ida às compras, que Zoe foi até a creche com não apenas um, mas dois garotinhos muito entusiasmados e alegres. Hari olhava para Patrick, seu único amigo e protetor, como se não conseguisse acreditar na própria sorte, pela primeira vez na vida feliz por ir à creche.
Capítulo cinquenta e oito
Zoe estava nervosa, no fim de semana seguinte, quando deixou a van para trás e pegou o carrinho verde para ir a Inverness, com Hari no banco traseiro, enquanto Patrick passava o dia todo reclamando furiosamente por ter sido largado com Shackleton.
Zoe tinha conversado com o jardineiro, Wilby, e argumentado que era ridículo que os garotos passassem o tempo todo em casa e não soubessem cuidar do jardim. Wilby não achou nada ridículo; achou muito mais peculiar que as crianças da casa fossem vistas trabalhando ao lado dele, muito peculiar, de fato, e o próprio pai não teria gostado nada daquilo, mas Zoe era uma pessoa determinada e, apesar (e levemente por causa) das reclamações constantes da Sra. MacGlone sobre os modos insistentes e vulgares dela, o jardineiro acabou concordando, e foi assim que Shackleton e Patrick se viram vestindo roupas velhas e podando arbustos no jardim antes de ela partir para Inverness.
– Vamos deixar essas bochechas mais coradas – disse ela em um tom travesso.
Os olhos de Hari se encheram de lágrimas. A perspectiva de um dia que envolvia ficar ao ar livre com Patrick, a pessoa mais legal do mundo para ele, e um par de tesouras gigantes no jardim era irresistível e ele se sentia tremendamente traído.
O trajeto até Inverness era longo, sob nuvens que pareciam descer ainda mais conforme eles avançavam; as cores das árvores ainda eram extraordinárias, porém maculadas pela luz baixa e pela sensação densa no ar, úmido e pesado, como se as nuvens estivessem prestes a explodir.
Eles pararam o carro em um estacionamento moderno no centro, um edifício pardo de múltiplos andares perto da rodoviária, que não fazia jus algum à bela cidade ao redor nem à beleza dramática de sua localização sob a sombra dos morros altos ao fundo, e se puseram a andar, bastante ansiosos. Mary caminhava o mais longe possível de Zoe sem que precisasse sair da calçada e Zoe sorriu para si mesma pensando na “aborrescente” que ela se tornaria, enquanto Hari caminhava pacientemente ao seu lado. Ela reparou, com certa surpresa, que, pela primeira vez, Hari estava acompanhando seu passo, sem puxá-la e detê-la nem sentando-se no chão ou olhando desejoso para os carrinhos das outras crianças.
O curto período de tempo que eles tinham passado ali já tinha, pelo que parecia, fortalecido os membros dele. Ele também estava engordando – suas bochechas estavam mais redondas e rosadas – e não se parecia mais tanto com um coelhinho assustado. Exibia certa confiança, e Zoe tinha certeza de que boa parte da mudança se dava a uma coisa: ter feito um amigo. Agora ele olhava ao redor, curioso. Ela se perguntou se ele estaria pensando que eles haviam voltado a Londres. Fazia um tempão, Zoe percebeu, que ela não via uma faixa de pedestres. Mary caminhava à frente deles, parecendo toda adulta. Zoe sentiu um leve pânico ao pensar na Mary adolescente. E onde, pensou ela, ela própria estaria? Quem sabia?
Percebeu, enquanto a garotinha magricela andava diante dela, mancando bem de leve, fechando a cara para as velhinhas que ousavam se meter em seu caminho, que tinha mais uma coisa em que pensar: o que aconteceria em seguida. Para onde ela iria e o que faria. Havia parte dela que Zoe tentava manter calada: a parte que pensava que, depois que ela fosse embora, Jaz enxergaria seus erros, perceberia o que estava perdendo e o que já tinha perdido ao abrir mão dela; ele morreria de arrependimento, lamentaria profundamente e tentaria consertar tudo.
Ocorreu-lhe que, nos dias atuais, o arrependimento não era algo muito em voga. Parecia que ninguém mais precisava se arrepender por qualquer coisa; em vez disso, as pessoas se vangloriavam, ficavam orgulhosas, nunca admitiam estar erradas sobre qualquer coisa. Se fosse sincera consigo mesma, Zoe tinha certeza que Jaz havia encontrado uma maneira de culpá-la – culpá-la por ter sido burra o suficiente para engravidar, por querer botá-lo no cabresto, impedi-lo de realizar seu sonho de ser DJ. Havia uma desculpa para tudo, hoje em dia. Só que isso significava que outra pessoa precisaria catar os cacos.
Mas e daí? Se ela não fosse voltar a Londres e se restabelecer, o que iria fazer? Estava guardando um pouquinho de dinheiro do trabalho na van e do salário na casa, mas era uma reserva perigosamente demorada e pequena, embora o período de experiência de seis semanas parecesse ter passado sem que ninguém mencionasse.
Ela afastou aquele pensamento e se concentrou em Mary, que estava parada diante da loja New Look com uma expressão feroz no rosto.
– Detestei. É tudo horrível – disse ela assim que Zoe sugeriu que entrassem e dessem uma olhada.
– Eu sei – disse Zoe. – A gente pode começar aqui, detestar tudo e aí ver o que podemos fazer.
Na verdade, havia uma bela seleção de roupas juvenis – a moda estava obviamente se reciclando, pois tudo parecia, para Zoe, com as roupas que sua mãe costumava usar: saias evasê e calças de veludo cotelê em tons outonais. Mary experimentou uma blusa listrada mostarda com calça legging listrada e uma saia de veludo cotelê vinho. As pernas finas e compridas da menina e sua cintura fina ficaram lindas com o traje, como uma graciosa boneca de pano, mas seu rosto estava amuado.
– Certo, próxima! – disse Zoe, e elas partiram para a H&M.
Enquanto Hari aguardava sentado, pacientemente, e Mary provava outras roupas, Zoe trocou olhares com uma mulher não muito mais velha que viu sentada do lado de fora do provador. A filha pré-adolescente dela marchou para fora do provador usando uma blusa cropped que dizia SUPERESTRELA em letras prateadas e uma calça legging de estampa de leopardo não muito discreta.
– É HORRÍVEL – gritou a menina para a mãe. – NADA SERVE DIREITO! EU ODIEI TUDO!
– Eu gostei daquele vestidinho da Marks – respondeu a mãe fracamente.
– Vestidos são ridículos! Ninguém usa vestidos!
– Aqui – disse a mãe, entregando um tamanho maior para ela.
Mary apareceu. Ela estava usando uma salopete de suede roxo com uma camisa vermelha por baixo.
– Ficou lindo – disse Zoe com franqueza.
O rosto de Mary se fechou imediatamente. Se Zoe gostava, devia estar terrível.
– Não, não, olhe no espelho… Você não acha que está bonita?
– Estou ridícula – disse Mary, recusando-se a olhar para si mesma.
– Imagine quando forem adolescentes! – disse a mãe em tom conspiratório para Zoe, que não soube mais o que fazer além de sorrir de volta. – Eu acho que você está linda. Queria muito convencer Tegan a usar algo assim.
– Algo assim, como? – indagou a voz do provador, e a garota colocou a cabeça para fora. – Ah – disse ela.
– É ridículo, não é? – perguntou Mary, hesitante, olhando para a garota em busca de aprovação.
Tegan deu de ombros.
– Ficou ok – respondeu ela. – As cores são bonitas.
– Quer provar? – perguntou a mãe dela depressa.
– Nem – respondeu Tegan, saindo do provador.
A nova blusa era ainda mais curta que a anterior e exibia uma parte considerável da barriga sobre a calça jeans justíssima.
– Gostei disto aqui – afirmou ela.
– Tem certeza?
– Você quer provar algo assim? – perguntou Zoe a Mary.
Zoe não gostou das peças, mas, por outro lado, ela nunca gostava do que sua mãe escolhia para ela e tinha consciência de que a moda era tanto a diversão dos jovens quanto tremendamente importante, embora a ideia de levar Mary de volta para The Beeches usando calça jeans justa e uma blusa cropped com a palavra SUPERESTRELA fez emergir um esnobismo que ela desconhecia até então.
Mary meneou a cabeça.
– Mas ficou bem em você – afirmou para Tegan, que sorriu e perguntou:
– Você acha?
– Elas conseguem ser gentis com todo mundo, menos com a própria mãe – disse a mulher baixinho para Zoe.
– Ela não é a minha mãe! – ralhou Mary, virando-se, os olhos negros de fúria.
– Eu ia falar isso agora mesmo! – disse Zoe. – Não precisa dar piti! Sou a au pair – explicou.
– Minha nossa – respondeu a mulher. – Ao menos você é paga pra isso.
– Você que pensa – murmurou Zoe.
Mary estava analisando a salopete roxa novamente.
– Vamos levar isso – determinou Zoe um tanto ríspida. – E o que você acha das listras?
Mary deu de ombros.
No fim das contas, elas conseguiram encher várias sacolas de roupas, especialmente da Primark, contendo calcinhas novas, meias-calças que serviam nela, leggings, coletes, blusas e dois suéteres de lã grandes, volumosos e bem bonitinhos, que a faziam parecer uma estudante. Uma tinha uma raposa bordada, e Hari ficou tão obcecado por ela que Zoe perguntou a Mary se podia comprar uma igual para ele, ao que Mary deu de ombros, o que era o mais próximo de uma concessão a que ela havia chegado até então.
Finalmente, como uma verdadeira recompensa, Zoe os levou ao McDonald’s. O rosto de Hari se iluminou; já fazia muito tempo que ele não ia. Logo, no entanto, ele se entristeceu novamente e Zoe lembrou de repente que era Jaz quem costumava levá-lo. Ela colocou o garoto em seu colo, junto com seus nuggets de frango.
– Está com saudades do papai? – sussurrou no ouvido dele.
O garoto confirmou serenamente.
– Eu sei – disse Zoe. – Eu sei. Ele vai vir te visitar. Só não sei quando.
De repente ela percebeu que Mary os estava observando com atenção. Assim que notou, a garota fingiu estar fazendo outra coisa, comendo suas batatas lentamente.
O silêncio se instaurou enquanto Zoe afagava Hari e se perguntava se ela deveria simplesmente obrigar Jaz a visitá-lo. Ou ao menos pedir a Surinder para fazê-lo.
– Onde está o pai dele?
A pergunta surgiu do nada e foi proferida com tanta veemência que Zoe ficou confusa por um instante, até Mary ficar encabulada e tentar fingir que não tinha perguntado nada.
– Bem – começou Zoe, ficando vermelha. E também nervosa. Havia um pai e uma mãe ausentes naquela mesa –, eu não moro com o pai do Hari, nunca morei de verdade. Embora ele ame muito o Hari. Ele está viajando no momento, e é por isso que estou aqui cuidando de vocês.
– Então você vai voltar pra casa? – perguntou Mary em tom casual.
– Por quê? – perguntou Zoe. – Você quer que eu volte?
Mary lançou um olhar desolador em sua direção e Zoe sentiu-se cansada e triste.
– Não estou nem aí – respondeu Mary.
– Certo. Bem, no momento eu não tenho plano de ir embora.
– Então quando ele vai ver o pai?
Zoe teria dado qualquer coisa para sair daquela conversa.
– Não sei – confessou. – É complicado.
– Os adultos sempre dizem que as coisas são complicadas.
– Mas as coisas são complicadas – resmungou Zoe, ficando vermelha. – A vida é complicada.
Mary soltou um grande suspiro. Zoe se inclinou para a frente.
– Você sente saudades da sua mãe?
Por um bom tempo, Mary não disse nada, e Zoe começou a entrar em pânico, sentindo que tinha dito algo muito errado. Então, por fim, Mary empurrou a bandeja de comida agora fria e intragável e suspirou novamente.
– Sim.
Hari ergueu os olhos, encarando-a atentamente. Ele segurou o queixo da mãe, então apontou para Mary e de volta para si mesmo.
– Sim – disse Zoe, entendendo plenamente. – Como você.
A tristeza daquele momento, com os três sentados ali, sentindo falta de alguém em suas vidas, olhando para as batatas geladas, era o oposto completo do dia divertido que Zoe havia planejado.
– Ela vai voltar pra me buscar – afirmou Mary com veemência. – Ela vai voltar. Logo. Eu provavelmente vou ter que ir embora com ela.
– Certo – disse Zoe. – Muito bem, então. Você terá roupas novas pra quando ela vier.
Mary pareceu animada com aquele pensamento, e mais animada ainda quando Tegan e sua mãe entraram na lanchonete e se sentaram. Ao observar as meninas conversando – Tegan tinha um celular com capinha de diamantes e estava mostrando a Mary sabe lá Deus o quê, mas Mary estava claramente muito impressionada –, Zoe pensou de novo em como a garota vivia privada da companhia de outras meninas. Ouvindo a mulher tagarelar sobre squishies, Fortnite, festas do pijama, aniversários, consultas no dentista e toda a miscelânea costumeira da vida de uma criança, tudo que ela podia fazer era sorrir e concordar, espantando-se com o abismo entre a vida das duas meninas e torcendo para, à medida que as coisas tomassem um rumo mais tranquilo, poder inserir mais daquelas atividades.
– Onde vocês moram? – perguntou ela à mulher, por fim. – Talvez a Tegan possa ir brincar com a Mary um dia desses.
– Stromness – respondeu a mulher. – Viemos só passar o dia. Fica a apenas 45 minutos de avião daqui! Onde vocês moram?
– Três horas ao sul – disse Zoe.
Ambas murmuraram um “ah” educado e seguiram seus rumos; mas Mary estava definitivamente mais alegre enquanto caminhavam.
– Você é boa em fazer amigos – observou Zoe enquanto iam procurar calçados e – Zoe insistiu – comprar uns presentinhos para os meninos.
Pela primeira vez, Mary não fez uma careta. Ela parecia pensativa, como se aquela fosse uma característica potencial que nunca tinha passado por sua cabeça.
Capítulo cinquenta e nove
Comprar sapatos foi tão chato que Hari se deitou no chão e pegou no sono, mas finalmente elas terminaram levando um belo par da Lelli Kelly (Zoe ficou um pouco relutante com o preço, mas acabou pagando, pensando que, se você não pode ter um par de sapatos bonito quando tem 9 anos, quando poderá?) e um par de lindas botinhas Timberland azul-claras que encontraram em promoção e que serviria para absolutamente tudo. As sacolas agora estavam pesadas e Zoe comprou sorvetes para todos para dar um gás. Ela reparou, com o canto do olho, que Mary estava contando e recontando as sacolas, espiando dentro delas como se não acreditasse que tinha tantos tesouros.
Ela ergueu os olhos.
– Nós precisamos comprar alguma coisa pra você. O papai mandou.
Zoe tinha esquecido completamente. Quando estavam saindo aquela manhã, Ramsay tinha dito para ela que também comprasse algo para eles dois.
– Ah, sim – disse ela. – Bem, vou pegar uma blusa de lã. Eu preciso muito de uma blusa nova de lã.
Mary meneou a cabeça.
– Não. Vamos comprar algo legal.
– Eu não preciso de algo legal – ponderou Zoe. – Passo o dia todo lidando com livros. Ou com vocês.
Mas Mary já tinha entrado na TK Maxx e estava revirando as araras de vestidos de festa.
Zoe riu.
– É sério – reiterou ela. – Eu não preciso de um vestido de festa. Acredite em mim.
– Você deveria ter um vestido bonito – insistiu Mary, teimosa. – Tudo que você usa é horroroso. E malfeito e sem graça. Você é só um pouquinho velha, não é tão velha quanto a Sra. MacGlone. E até mesmo ela usa vestidos.
Zoe não sabia com qual parte daquela frase ela deveria se ofender primeiro, então decidiu ignorar tudo. Enquanto isso, Mary estava trabalhando com afinco, pegando vestidos de chiffon absolutamente inapropriados e vestidos de festa das araras. Hari também estava ficando animado, passando os dedinhos grudentos pelo tecido de cor viva e cintilante. Mary entregou a Zoe um monte de peças.
– Experimente! – ordenou.
– Mas você nem olhou os tamanhos! – protestou Zoe.
– Bem, são todos lindos! Veja o que cabe!
No fim das contas, nem todos eram lindos. Um chiffon ficou tão feio que ela teria sido rejeitada até mesmo para ficar na última fileira da plateia da Dança dos famosos e deixou sua pele levemente amarelada um tanto doentia. Um vestido reto azul-marinho a deixou parecida com uma viúva hostil. Mas bem no final da pilha, amassado e com uma aparência infausta para a TK Maxx, havia um vestido Katharine Hamnett – um nome que Zoe desconhecia – de seda vermelha. A saia era ampla e rodada, com um decote canoa e uma faixa de amarrar na cintura; não havia sequer uma etiqueta com o tamanho.
Zoe o colocou pela cabeça, encolhendo-se ao ver o estado de seu sutiã. A sensação do tecido em sua pele era fria e luxuosa, e depois que assentou, ela amarrou a faixa e se afastou do espelho, preparando-se para sentir-se novamente como uma boneca com uma roupa ridícula vestida para uma festa de criança.
Em vez disso, aquele vestido… Ela virou-se de lado. A saia agitou-se e abraçou suas pernas. Aahh. Ela não podia negar… Ela virou novamente.
A cor destacava seus cabelos e olhos escuros; valorizava-os. O fato de não ter nenhum busto não importava mais; ser “reta” impedia que o vestido parecesse volumoso ou óbvio e, em vez disso, ele ajustava-se de forma bastante chique. Chique? É sério? Essa não era uma palavra que Zoe usava para se referir a si mesma há muito tempo. Ela olhou por cima do ombro. Toda vez que se mexia, o vestido se inflava como uma nuvem de seda, agitando-se e acomodando-se em torno dela.
– Quero ver! – disse uma voz impaciente do lado de fora do provador.
Impulsivamente, ela enfiou a mão até o fundo da bolsa e encontrou um batom velho, já no final.
– O que acha? – perguntou ela, abrindo a cortina.
Hari saltou e correu em sua direção, dando-lhe um abraço, sentindo a maciez do tecido em suas bochechas.
– Não babe no vestido – alertou ela, sorrindo. Mary ficou simplesmente olhando para ela. – Ficou bom?
Mary deu de ombros.
– Sim. Claro. Leve esse.
Hari concordou com veemência. Zoe olhou para a etiqueta do preço – o desconto era grande, mas mesmo assim… Parecia ridículo comprar um vestido de seda leve com o tempo frio, prestes a começar o inverno, quando havia tantas outras coisas de que eles precisavam…
Por outro lado, ela não pôde evitar pensar que já fazia muito tempo que não comprava algo bonito.
– Ah, veja – disse a vendedora, aproximando-se. – Tem uma mancha aqui. – Ela apontou para o local onde a boca de Hari havia tocado. – Vou te dar mais 15% de desconto.
A isso nem mesmo Zoe era imune; e quando retornaram para o carro, até mesmo Mary estava rindo. Exaustas por conta do dia agitado, as duas crianças pegaram no sono no banco de trás durante o longo trajeto para casa, e, enquanto a escuridão se instaurava e Zoe se concentrava na estrada, ela teve de parar um instante para deixar umas ovelhas atravessarem e olhou no retrovisor, vendo que o rostinho de Mary, despido de toda a agressão e fúria, parecia tão jovem quanto o de Hari sob a luz dos postes que passavam.
– Boa noite, docinho – murmurou Zoe enquanto arrancava novamente.
As estrelas surgiam no céu como um sonho, uma música suave tocava no rádio, a estrada ronronava lentamente sob seus pés, enquanto as crianças voavam para casa nas asas dos sonhos.
Capítulo sessenta
Era o dia de Zoe estacionar a van em Kirrinfief durante a manhã, para apaziguar sua consciência. Ela não se importava, mas era frustrante saber que poderia estar vendendo mais no centro de visitantes.
De fato, a primeira pessoa a passar pela porta foi a Sra. Murray, da mercearia, parecendo irritada.
– A Nina ainda não voltou? – perguntou ela mal-humorada.
Zoe considerou fazer um giro de 360 graus dentro da pequena van para checar, inclusive debaixo da pequena mesa, mas decidiu que aquele nível de sarcasmo não era adequado antes das onze da manhã.
– Não – respondeu. – Ela ainda vai ficar um tempo afastada. Você deveria visitá-la – acrescentou, percebendo, com certo peso na consciência, que ela própria não a visitava há algum tempo, embora continuasse entregando presentinhos para Lennox.
Ocorreu a Zoe que podia ter dado um pulo lá quando foi ver a Mary – Nina devia ter ficado sabendo –, mas tudo tinha sido muito urgente e apressado.
– Ah, eu queria que ela tivesse esse bebê de uma vez – lamentou a Sra. Murray. – Eles não podem simplesmente tirar dela?
– Acho que eles querem que a criança esteja pronta – ponderou Zoe. – Provavelmente é melhor assim.
– Eu não me importaria em passar seis semanas na cama – disse a Sra. Murray, um sentimento comum a pessoas que nunca precisaram fazer isso.
Era preciso admitir, no entanto, que Nina parecia estar se saindo melhor que a maioria.
Zoe sorriu empaticamente.
– Ah, chegou o novo livro da série Blood Roses! – informou.
Certamente aquela era uma opção de leitura de entretenimento, não? Ela pegou o exemplar de oitocentas páginas da série de fantasia histórica – um Game of Thrones feminista, sobre uma mulher que explodia em gotas de sangue toda vez que um homem era rude com ela, demolindo cidades inteiras e causando devastação completa. Famosa por ter sido recusada por todas as editoras do país, a série tinha feito o maior sucesso entre as mulheres de todos os lugares.
– Aahh – disse a Sra. Murray. – Sim, eu adoraria. Reserve pra mim e eu pagarei pra Nina quando ela voltar. Obrigada. Além disso, a Nina precisa falar pro Lennox que ele não pode fazer a rotação de culturas.
Zoe piscou.
– Desculpe, você pode repetir?
– Ele está se recusando a fazer o Samhain porque está fazendo a rotação de culturas. A Nina pode convencê-lo. Fale pra ela colocar uma roupa sensual ou algo assim.
– Ela está grávida de oito meses.
– Não há nada de errado com isso – disse uma voz atrás delas, e ambas se viraram.
Lennox estava parado ali.
– O que você está fazendo aqui? – perguntou a Sra. Murray.
– Bem, você me perguntou sobre o Samhain e eu lhe disse que não podia porque estava fazendo a rotação de culturas, o que é verdade, e sabendo que você não aceitaria “não” como resposta, concluí que você sairia por aí recrutando todo mundo.
A Sra. Murray cruzou os braços.
– Ora, eu não…
Lennox fitou as duas com um olhar firme.
– Bem, pode me incluir fora dessa – disse Zoe –, porque eu não faço a menor ideia do que vocês dois estão falando.
A Sra. Murray virou-se para ela.
– Bem, as lavouras, você sabe…
– Não precisa explicar desde o começo – disse Zoe. – O que são chuvas de monções?
Lennox e a Sra. Murray se entreolharam.
– Você explica – determinou Lennox. – Estou ocupado. Fazendo a rotação de culturas. Não junte um grupo de lobistas.
– E que tal um abaixo-assinado?
– É o seu tempo que você está perdendo.
– Ora, Lennox, você deve ter umas coisas que precisam ser queimadas.
– Sim – respondeu Lennox. – Na minha casa, pra mantê-la aquecida.
E ele se foi.
– Ele fala isso – disse a Sra. Murray –, mas vai mudar de ideia.
– Eu não vou mudar de ideia – disse a voz ao longe.
A Sra. Murray se virou para Zoe.
– Zoe – disse ela, com a expressão gentil de alguém que está prestes a pedir um favor enorme –, você tem que falar pro Ramsay que ele precisa fazer o Samhain na propriedade dele.
– Não posso fazer isso – respondeu Zoe. – Eu não faço a mínima ideia do que você está falando.
– Ele vai entender. Diga a ele que o comitê já organizou tudo.
Um silêncio se seguiu.
– Vocês vão queimar um homem dentro de uma enorme gaiola de vime? – perguntou Zoe, desconfiada.
– Nãããão – garantiu a Sra. Murray. – Não, não se faz isso há… Nããão!
Capítulo sessenta e um
Zoe acabou pedindo a ele num dia em que as coisas tinham dado bastante errado e que ela achara que seria bastante divertido. Murdo tinha perguntado se ela gostaria de fazer um passeio de barco e ela ficara extasiada e concordara. Eles combinaram se encontrar no cais ao lado do centro da Agnieszka, que parecia estranhamente irritada, mas perguntou se eles queriam levar sanduíches, só não havia queijo e presunto, apenas queijo, e Zoe disse que ela não precisava se preocupar, que queijo estava ótimo.
E ela colocou todas as crianças em coletes salva-vidas de tamanhos e formatos diferentes, até mesmo Mary, e organizou-as em uma fila, com Hari e Patrick saltitando de entusiasmo com a ideia de fazer um passeio de barco.
Então Murdo apareceu usando gravata, com os cabelos alisados para trás com gel e uma garrafa de prosecco na caixa térmica do barco. No exato instante em que Zoe percebeu que ele, na verdade, a tinha chamado para sair com ele, Murdo percebeu que ela esperava que ele fizesse um passeio com quatro crianças, duas das quais não paravam de pular no barco, uma das quais fez bilhões de perguntas sobre se Nessie, o monstro, era um dinossauro e, se sim, de qual tipo, e outra das quais resmungou o tempo todo sobre como era chato e desagradável andar de barco, enquanto Zoe ficou sentada na parte de trás, e a chuva começou a cair, e todos tentaram fingir que estavam se divertindo mais do que de fato estavam, exceto Patrick e Hari, que estavam fazendo o melhor passeio da vida.
Zoe estava mortificada quando eles chegaram em casa e se secaram, morrendo de vergonha pela falta de educação da Mary, por como Shackleton ficara se mexendo sem parar, levantando-se nos momentos errados, e por como Murdo tentara fazer perguntas de cunho pessoal a ela, mas precisava berrar por causa do vento, e por como em nove de cada dez vezes Patrick é quem tentara responder.
– Ó céus – disse ela na cozinha.
– O que foi? – perguntou Ramsay.
Era estranho, ele parecia estar encontrando cada vez mais motivos para ficar na cozinha.
– A Zoe teve um encontro! – explicou Patrick. – Tinha bebida de bolinhas que a gente não pôde tomar.
– Não foi… Não foi bem isso…
– Você levou todas as crianças a um encontro? – perguntou Ramsay, consternado. – Você foi a um encontro?
– Não era um encontro – informou Zoe. – Bem… Não depois de cinco minutos.
Ela não conseguiu evitar e sorriu com a lembrança.
– Ó céus – disse ela.
– O que foi? – quis saber Ramsay. – Pobre homem.
– Ó céus – repetiu ela. – Eu só… estou tão acostumada que todos saibam que sou a au pair aqui.
– Ah, ótimo – disse Ramsay. – Pessoas se metendo nas minhas coisas.
– Eu não… – Ela colocou as mãos sobre os olhos. – Não tenho certeza se eu disse pra ele que eles não eram todos meus filhos. Ó céus. Ó céus.
Ela ria sem parar.
– Ó céus. Minha vida amorosa acabou.
– Pelo menos você tomou a bebida com bolinhas – disse Patrick em tom irritado.
– Tomei uma taça – lembrou Zoe. – Estava perfeitamente bem para dirigir, obrigada.
Mas o ar fresco, o espumante e o riso haviam corado as bochechas de Zoe, e Ramsay não pôde evitar sorrir ao vê-la.
– O papai namora a Rissa – disse Patrick, pesaroso. Então complementou, em um sussurro teatral: – ELA É UMA BRUXA.
– Ora, pare com isso – disse Zoe. – Ah! – exclamou, lembrando-se de repente.
Ela sorriu e remexeu na bolsa.
– O que é isso?
Zoe tirou um pequeno maço de dinheiro enrolado em um elástico. Ela o entregou a Ramsay.
– Nós vendemos o Lark Rise to Camdleford! – anunciou ela, triunfante.
Ramsay piscou, surpreso.
– Não brinca!
– Pois então! A série completa!
– Ah… As edições com xilogravuras – disse Ramsay, entristecido, para si mesmo. – Muito especial.
Zoe sacudiu a colher de pau para ele.
– Você está errado – afirmou ela. – É o que tem dentro do livro que é especial. As palavras, você carrega consigo aonde quer que vá. A capa é apenas a capa.
Ramsay pareceu chocado.
– Então você está basicamente depreciando 100% de tudo que eu faço na vida? – indagou ele. – Meu trabalho, minha razão de viver.
Zoe sorriu para ele.
– E também dobro os cantos das páginas.
– Não – exclamou Ramsay.
– Eu também dobro – gritou Mary de seu banco perto da janela, sacudindo o exemplar de Anne de Avonlea como prova.
– Meu Deus – disse Ramsay. – O que foi que você fez?
– Eu levo livros de capa dura pra banheira – continuou Zoe.
Ramsay cobriu os olhos com as mãos.
– Não – repetiu ele. – Você está me torturando.
– Às vezes e-books são melhores, dependendo do que estou fazendo.
– Você é uma bruxa – disse Ramsay – que precisa sair da minha cozinha!
– É uma advertência verbal?
– Eu desenho nas coisas! – gritou Patrick para se enturmar, mostrando um gibi todo desenhado com giz de cera.
– Argh! – grunhiu Ramsay. – Parem!
Ele estava rindo, contudo, quando disse aquilo, sitiado por todos os lados.
– Eu não posso acreditar que você soltou os meus macacos da gaiola.
– Nunca repare no que eu faço com meus livros de receitas – alertou Zoe, olhando para seu livro preferido da Nigella Lawson cheio de anotações.
Ramsay pegou o dinheiro e olhou para o maço.
– Ah, bem – disse ele. E então devolveu a Zoe. – Aqui.
Ela ficou surpresa.
– Pra que isso?
Ramsay baixou a cabeça.
– Eu só sinto… que devemos a você… um extra.
Zoe enrubesceu. Ela estava brincando com ele, pensando que eles estavam apenas se divertindo na cozinha. Ela não achava que precisava ser paga por isso.
– Não precisa – disse ela secamente.
Sem saber ao certo o que tinha feito de errado, Ramsay guardou o dinheiro bem quando seu celular tocou; a voz estridente de Larissa soou e ele se afastou.
Capítulo sessenta e dois
Zoe tinha se esquecido completamente do Samhain, mas o restante do vilarejo, não, e Ramsay concordava totalmente com isso, então, quando chegou o Halloween, havia, pela primeira vez, uma equipe de pessoas no jardim, pintando e consertando.
Zoe tinha perguntado às crianças se elas queriam sair para pedir doces no Halloween (e vendido um monte de livros escoceses sobre fantasmas que ela havia encomendado especialmente para a ocasião), mas todas menearam a cabeça com veemência.
– As pessoas são horríveis – explicou Mary.
– E ninguém quer vir até aqui – complementou Shackleton.
Então eles engavetaram a ideia.
Parecia que aquela tal festa de Samhain, independentemente do que significava, era muito mais importante ali na região, de toda forma, e talvez as crianças pudessem se divertir.
Ela logo percebeu que tinha subestimado o evento: o Samhain não parecia ser uma festa, e sim um festival. Ela deixaria as crianças se fantasiarem, mas então viu – à medida que o quintal era iluminado por fogueiras por todos os lados, à medida que um grupo enorme de pessoas com tambores, pessoas usando pernas de pau e algumas de aparência levemente duvidosa começaram a aparecer – que se tratava de um evento para adultos, definitivamente não para crianças.
As pessoas também estavam muito bem-arrumadas. A sorte dela foi ter comprado aquele vestido vermelho – era a única coisa remotamente adequada. Às oito da noite, os tambores começaram e uma grande procissão subiu a rua, liderada por um homem totalmente pintado de vermelho, dançando e soltando fogo por uma máscara grotesca enorme.
As pessoas estavam fantasiadas de bruxas ou de defuntos, gritando e berrando enquanto os tambores ecoavam de forma ensurdecedora, seguindo na direção de um palco onde as gaitas de fole uivavam, todos bebendo e gritando. Os jardins estavam iluminados somente por braseiros. Ramsay estava sumido, e Zoe percebeu que tinha cometido um erro terrível ao permitir que as crianças saíssem sozinhas.
Zoe andou de um lado para outro na festa. Era enorme. Ela precisou pausar para recuperar o fôlego; tudo era opressivo demais. A noite estava tranquila, mas total e absurdamente fria. A fogueira enorme que rugia perto do lago atraía a maioria das pessoas, que corriam na direção dela e depois se afastavam, rindo estrepitosamente. Algumas das garotas usavam roupas curtas, correndo como fadas em fantasias leves ou saias longas de tule que cintilavam com as fagulhas e o brilho das tochas. A música agora ressoava selvagem e furiosa; não parecia seguir qualquer padrão identificável nem parecia ter começo ou fim, mas, de alguma forma, os violinistas e os tocadores de bodhrán sabiam instintivamente o que estavam fazendo, e a música foi ficando cada vez mais alta e enlouquecida, até bater no mesmo ritmo do coração das pessoas e fazê-las sentir aquilo no sangue, como uma pulsação acelerada.