Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 50 de 50 · parte 5/6

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Um novo capítulo para o amor

Parte 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Era impossível ouvir qualquer coisa em meio ao barulho do motor, do temporal, o helicóptero lá em cima. O som era ensurdecedor. Levou um tempo até Zoe chegar à terrível conclusão, no redemoinho, quando eles estavam prestes a colidir, de que, um: Mary e Hari não poderiam estar vivos no meio daquilo tudo; e dois: que ela também iria morrer e, sendo esse o caso, não se importava.

Então levou um momento. Mesmo quando ouviu, ela não acreditou. Supôs que fosse um truque do vento e da água, ou mesmo seres fantásticos – algum espírito maligno sob a água que faria aquilo para aumentar o pânico, ou algo que sua imaginação estava criando naqueles últimos instantes, uma espécie de sonho, como se tudo aquilo fosse um sonho…

Ela se virou para Ramsay e gritou para que ele a ouvisse:

– Você está escutando isso?

Murdo ficou imóvel, parou de tentar controlar o barco incontrolável e também ficou como que em choque. E, pela expressão no rosto dele, ela percebeu que ele também tinha ouvido.

– Mmmm-mmmamãe.

Capítulo setenta e seis

 

 

Zoe ficou olhando para Ramsay, aflita. Ramsay não pensou duas vezes. Pegou a corda do chão do barco e fez algo muito corajoso e também muito estúpido. Mergulhou na água e nadou na direção das pedras. Foi jogado contra a primeira delas com bastante força, mas, sem se abalar, segurou a corda com os dentes e desapareceu debaixo da água até encontrar o que estava procurando – uma saliência na rocha onde pudesse amarrar o barco.

Ele irrompeu das ondas para tomar fôlego, então desapareceu novamente. O temporal havia remexido os sedimentos, tornando quase impossível enxergar, mas havia barcos e boias naquele lago desde tempos imemoriais e, de fato, lá no fundo ele encontrou um buraco na rocha por onde conseguiu enfiar a corda, fez um nó apertado e sinalizou para Murdo, que amarrou a outra ponta. Então ele saltou sobre as rochas, descalço, alheio aos cortes e hematomas que cobriam seu corpo, e segurou o barco, literalmente, puxando em uma direção ou outra quando ele se aproximava demais das rochas, afastando-o, enquanto Zoe continuava ouvindo:

– Mamãe! Mamãe!

Ela precisava ver. Enquanto Ramsay, que naquele momento parecia ter três metros de altura, impedia que o barco se chocasse contra as pedras apenas, aparentemente, com a força de sua determinação, ela precisava saber. Com o colete salva-vidas colocado e antes que Murdo tivesse a oportunidade de impedi-la, ela também mergulhou na água congelante e nadou de cachorrinho, desesperada, na direção das rochas. Ramsay, incrivelmente, conseguiu segurar o barco com uma das mãos e ajudá-la a sair da água com a outra, e, assim que Zoe desceu do barco, o motor voltou à vida e Murdo conseguiu finalmente desencalhá-lo. Enquanto Ramsay se ajoelhava para ajudar Zoe a subir nas rochas, Murdo soltou a corda de dentro do barco e se afastou rapidamente, ao mesmo tempo que chamava os outros barcos.

 

Juntos, Ramsay e Zoe subiram pela lateral áspera das pedras. Os pés de Zoe escorregavam e os de Ramsay estavam cobertos de sangue. Quando chegaram ao topo, eles olharam para a base do outro lado, e o que viram mudou tudo, imediatamente, em uma fração de segundo.

Capítulo setenta e sete

 

A água é um ser vivo. Ela se mexe; ela flui; ela não pode ser contida. A água é mais forte do que qualquer coisa em seu caminho. Pode escavar montanhas, derrubar casas, transformar tudo em lama e lodo. A água sempre consegue o que quer.

E, com o nível da água baixo, aquelas pedras eram reveladas, mas apenas por algumas horas do dia, até retornarem à sua posição original, nas profundezas misteriosas. E ali estava um barco a remo de cabeça para baixo, com a pintura descascada, em condições nem um pouco seguras para navegar, atirado ao acaso em uma prainha de cascalho, um pedacinho minúsculo de areia, um afloramento raso em uma área tão funda que não poderia ser medida até a invenção dos satélites.

Ao lado do barquinho, encolhidas, tremendo, estavam duas crianças olhando para eles. Ramsay e depois Zoe, que precisou ser erguida e escalou até o topo da rocha, olharam de volta para elas, perplexos, sem acreditar que as haviam encontrado.

E a voz ecoou novamente:

– Mamãe.

Zoe ficou boquiaberta, após o vento e o choque já a terem deixado sem ar. Ramsay achou que ela iria cair. Em vez disso, ela deslizou e escorregou pela lateral da rocha, pesada e encharcada.

– Hari! HARI! – gritou.

– Mamãe! – exclamou ele alegremente.

Mary se levantou em um salto e Zoe ficou apavorada ao perceber a própria fúria.

– O que foi que você FEZ? – gritou. – Que diabos você FEZ?

Ela nunca tinha sentido uma raiva como aquela. Vinha de um lugar profundo, primitivo, das profundezas de seu cérebro reptiliano, e ela jamais poderia controlá-la.

Mary estava tremendo e soluçando, vestida com sua camisola branca, os cabelos encharcados ao redor dos ombros, parecendo, novamente, o fantasma que assombrava os corredores e as passagens quando Zoe chegara a The Beeches.

– Meu Deus, Mary – disse Ramsay, caminhando até ela. – Você podia… Você podia ter…

Ele sequer conseguiu terminar a frase.

Zoe estava com Hari nos braços. Ela estava sufocando com a água e o corpinho dele estava completamente encharcado e gelado, então ela pressionou o pouco calor que tinha no corpo contra o dele.

– Minha imã, ela me encontlou – informou ele com tamanha confiança que o queixo de Zoe caiu. – A gente pegou baco.

– Hari – disse Zoe, tremendo. – Meu Deus. Hari. Você está falando.

Mas era mais do que isso. Enquanto ele sorria, tendo esquecido todo o medo e exibindo nada além de orgulho no rosto, Zoe percebeu algo que só assimilaria depois: Hari tinha o sotaque mais escocês possível.

– Eu pega baco – explicou ele. – Um pouco flio.

Zoe meneou a cabeça.

– Meu Deus. Meu Deus.

De repente o farol do barco da polícia iluminou a prainha minúscula e incrivelmente estreita onde eles estavam. O helicóptero, assim que ouviu, desceu em um terreno na porção mais próxima da costa para levá-los ao hospital; seu ruído foi muito bem-vindo.

Zoe enterrou o rosto no ombrinho de Hari. Alguma outra coisa puxou seu casaco e ela se virou.

Mary estava parada ali.

– Me desculpe – repetia ela sem parar. – Me desculpe. Me desculpe. Ele encontrou o barco e eu estava tentando parar ele. Eu juro, eu estava tentando parar ele!

– Eu anda de baco com a minha imã – disse Hari, todo orgulhoso.

– Foi ideia dele – insistiu Mary. – Foi, sim! Ele que empurrou o barco! Eu estava tentando parar ele!

– Senhor – disse Zoe. – Mas você deixou? Você deixou!

Mary meneou a cabeça.

– Eu fui atrás dele!

– Minha nossa – disse Ramsay, e Mary olhou para ele; o pavor era visível em seus olhos.

– Você me odeia – afirmou ela.

– Meu Deus, Mary! – exclamou Ramsay, abrindo os braços. – Eu te amo. Eu te amo demais. Só não sei se isso pode ser suficiente.

– Eu amo minha imã – declarou Hari, solidário.

Zoe piscou, perplexa, enquanto os alto-falantes acalentadores do barco da polícia ordenavam que eles permanecessem onde estavam, embora as águas do lago estivessem subindo de novo, batendo em seus tornozelos. Se eles tivessem demorado muito mais… se eles tivessem dormido por mais vinte minutinhos que fossem…

Mas isso não era algo em que Zoe queria pensar pelo resto da vida.

 

A polícia os fez tirar as roupas molhadas e os enrolou em cobertas térmicas e sacos de dormir. Ramsay, Zoe não pôde deixar de notar, estava coberto de cortes e hematomas. Ele estava muito, muito quieto, segurando Mary e sem dizer uma única palavra.

Por outro lado, Hari de repente parecia não conseguir parar de falar. Ele adorou o barco da polícia mais do que qualquer outra coisa e queria examinar tudo, o que a gentil policial deixou alegremente que ele fizesse. Após alguns minutos, Zoe o pegou, enquanto o barco os levava até a pequena orla de The Beeches. Todos os outros barcos tinham se aglomerado por ali, com Murdo no comando, e Zoe o abraçou assim que o viu e desatou a chorar, e ele afagou seu ombro e a amparou quando ela não conseguiu mais se manter em pé.

Todos foram mandados para o hospital – o helicóptero estava ali, afinal de contas –, mas, na verdade, apenas Ramsay precisou levar alguns pontos nos pés. De todo modo, eles passaram o dia fazendo exames, prestando depoimento e sendo avaliados e, por fim, o hospital insistiu que passassem a noite lá. Zoe encontrou o quarto onde Hari estava, aconchegado e aquecido, e deitou na cama dele. Ele permaneceu deitado ali, respirando alegremente.

– Meu Deus – disse Zoe, cobrindo o rosto. – Vou ter que ligar pro Jaz. Merda. Não sei o que dizer. Talvez ele nem tenha embarcado ainda.

– Eu amo o papai – disse Hari, sonolento.

Zoe estava morrendo de medo de se animar demais com o fato de Hari estar falando, caso fosse apenas um acidente, uma situação isolada, algo que desapareceria de novo se ela tocasse no assunto. Ela o abraçou. Era… Era algo diferente. Ele parecia simplesmente nascido e criado nas Terras Altas.

– O que aconteceu, querido? – perguntou ela. – O que aconteceu hoje de manhã?

– A Maly quelia blincar – respondeu ele. – Ela é minha imã.

– Eu sei – mentiu Zoe. Um problema por vez.

– E eu vai plo baco – continuou ele.

– Sei.

– Eu adola bacos.

Zoe enterrou o rosto no pescocinho dele, sem conseguir segurá-lo perto o suficiente; se conseguisse, ela teria voltado à fase da gravidez, absorvendo-o de volta em seu corpo para poder ficar de olho nele.

Ela pegou no sono no quarto quentinho do hospital, sem barulho algum além de um leve zunido elétrico e com o cheiro do filho em suas narinas.

– O monstlo levou a gente – concluiu Hari, bocejando.

Zoe piscou.

– O quê?

– O monstlo puxou – disse Hari. – Boa noite.

Ele esticou a mãozinha e conseguiu desligar a luz da cabeceira, enquanto Zoe permanecia deitada no escuro, subitamente bem acordada.

Capítulo setenta e oito

 

Zoe não tinha falado com Jaz no dia anterior, então ligou para ele cedinho na manhã seguinte. É incrível como se pode dar uma boa maquiada nas coisas depois de uma noite de sono decente. Também ajudava o fato de que, lá em Londres – para onde Jaz já havia retornado –, o tempo andava maluco e ainda estava ensolarado e fazendo 22 graus todos os dias, então era difícil, para ele, imaginar como a situação tinha sido grave. Ele não ficou muito feliz de saber que precisaria voltar à Escócia, mas pelo menos ficou contente em saber que ela agora tinha consciência de que precisava voltar para Londres.

Zoe suspirou. Ela não podia, de jeito algum, continuar em uma casa onde coisas como aquela poderiam acontecer; era, com certeza, um fator impeditivo. Embora não tivesse dito isso a Jaz.

Ela ergueu os olhos enquanto estava ao telefone e viu uma sombra imensa parada à porta do quartinho. Era Ramsay, e Zoe perguntou-se como poderia perguntar com delicadeza se, devido a uma tentativa de homicídio, ele poderia lhe pagar o salário inteiro do mês.

Também lhe ocorreu que Nina ainda estava no hospital e ela precisaria ir vê-la para explicar tudo. Ela odiaria ter que deixar a van abandonada, mas realmente não tinha escolha.

Hari ainda estava apagado. Havia uma enfermeira ao lado de Ramsay.

– Ela pode tomar conta dele – disse ele. – Você poderia… Você poderia vir comigo?

 

Eles deixaram a ala da pediatria. Lá fora, surpreendentemente, o dia estava lindo e calmo. Maldita Escócia, Zoe se pegou pensando. Nunca conseguia se definir.

Ramsay não disse coisa alguma, apenas continuou coxeando. Zoe olhou para ele. Ela estava esperando um pedido de desculpas, que também planejava aceitar, mas diria a ele que era, obviamente, impossível para ela e Hari continuar lá e que, se havia algo que poderia fazer a diferença, ele tinha que – tinha que – procurar a ajuda de que Mary tanto precisava. Zoe havia tentado, sem sucesso. As coisas poderiam ter terminado de forma bem diferente. Depois de diversos relatos, eles tinham concluído que Mary fingira brincar de esconde-esconde com Hari, com a intenção de fazê-lo se perder no bosque e dar um susto nele – algo malicioso, porém não perigoso. Em vez disso, Hari acabou indo até o barco e Mary fez o melhor que podia para salvá-lo. É claro que ele não teria saído de casa ao amanhecer se não tivesse sido por ela.

O rosto enrubescido de Ramsay e sua expressão culpada pareciam antecipar o que Zoe iria lhe dizer, e os dois atravessaram um gramado repleto de folhas, dando a volta nos prédios de tijolos rosados do hospital.

Bem nos fundos, perto das lixeiras, em um lugar onde a maioria das pessoas não iria pôr os pés ou sequer os olhos, havia um prédio baixo, com o próprio estacionamento. Na frente, um jardim surpreendentemente bonito criado, pelo que Zoe leu, pela comunidade local. Tinha trilhas de cascalho, cercas vivas e banquinhos posicionados exatamente nos lugares em que os raios de sol poderiam aparecer. Aqui e ali, avistavam-se pessoas em cadeira de rodas, conversando com seus parentes.

Ainda em silêncio, Ramsay conduziu Zoe até um dos bancos vazios e pediu a ela que se sentasse. Então ele foi até a porta principal e tocou a campainha.

Era, Zoe percebeu, uma campainha de segurança. Ele entrou e ela o observou pelo vidro jateado, conversando com os funcionários do hospital, que, claramente, o conheciam bem. Depois de um tempo, algo aconteceu, outra figura apareceu e a porta de entrada foi novamente aberta.

Zoe mal conseguia distinguir a figura com o sol forte que inundava o jardim. Parecia extremamente velha: arcada, com cabelos ralos. Mas, enquanto Ramsay a levava até Zoe, ela percebeu, com um choque, tratar-se de uma mulher não muito mais velha que ela. Tinha dentes faltando, uma aparência esquelética abatida e era extraordinariamente magra.

Zoe ficou observando por um bom tempo. Então olhou para Ramsay para confirmar se aquilo era o que ela estava imaginando. Ele simplesmente confirmou com a cabeça.

Zoe deu um passo adiante.

– Olá – disse.

A mulher não respondeu. Não havia qualquer sinal em seus olhos que sugerisse que ela tinha visto Zoe ou que sequer estava olhando para ela no mesmo plano. Suas mãos tremiam.

– Sente-se, meu amor – disse Ramsay.

Como a mulher não respondeu, ele com delicadeza tocou em seu ombro e a acomodou no banco, onde ela continuou olhando diretamente para a frente, esfregando uma mão na outra.

– Esta é Elspeth – explicou Ramsay em um murmúrio –, a mãe das crianças.

Capítulo setenta e nove

 

– Olá, Elspeth – cumprimentou Zoe, pegando delicadamente a mão da mulher, que então começou a esfregar sua mão na de Zoe. Sua pele era fina e pálida, como se ela tivesse 100 anos. – Sua esposa? – perguntou ela, olhando para Ramsay.

Ele confirmou.

– União estável. Ninguém conseguiria prender Elspeth. “Você pode ser o senhor de metade do mundo, mas não será o meu” – recitou ele em um tom irônico. – Parece você, não parece? – perguntou ele a Elspeth.

Zoe olhou para ela.

– O que aconteceu?

Ele suspirou.

– Tudo?

Zoe deu de ombros.

Ele se inclinou para a frente, ajeitando o cardigã de Elspeth nos ombros. Ela o ignorou como se ele não estivesse ali.

– Me desculpe por falar de você – disse Ramsay a ela. – Eu… Eu prometi que jamais falaria de você. Mas aconteceu uma coisa. Aconteceu uma coisa.

Ele piscou, sua voz vacilou.

– Quando eu a conheci…

– Dizem, no vilarejo, que ela era linda – comentou Zoe.

– Ela era. Não precisa falar. Também dizem que ela era de outro mundo.

– Dizem, sim – confirmou Zoe. – Não sei o que isso quer dizer.

– Eu sei – afirmou Ramsay. – Também acho que eles têm razão. Ela veio de um mundo encantado e ficou presa aqui…

– Mas…

Ramsay coçou a nuca.

– Ela era muito jovem… Talvez jovem demais para ter filhos. O parto do Shackleton foi difícil… Ela nunca voltou… Ela certamente teve depressão pós-parto. Talvez pior que isso. Ela se recusava a ir ao médico, buscar ajuda. Eu estava enlouquecendo.

Ele fez uma careta.

– Minha família não gostava dela como eu gostava… O que é um eufemismo… E eu estava tentando contornar tudo… Eu passava muito tempo fora.

Ele baixou o tom de voz:

– Eu passava muito tempo fora. Tempo demais. Ela perambulava à noite pela cidade. Deixava o Shackleton com a Sra. MacGlone e simplesmente… sumia. Por períodos cada vez mais longos.

– Aonde ela ia?

Ramsay deu de ombros.

– A qualquer lugar onde conseguisse drogas, no fim das contas. Qualquer lugar. E eu voltei pra casa, mas não adiantou. Ela não ficou mais feliz nem mais tranquila.

Uma enfermeira muito gentil apareceu com dois copos de café; Zoe segurou o seu com as duas mãos. Mesmo com o sol quente, ela ainda não tinha superado o frio encharcado do dia anterior.

– Ela estava fora de controle – continuou Ramsay. – Não podia ser contida. Era como se eu estivesse tentando domesticá-la, enjaulá-la. Mas não estava. Eu apenas a amava.

Os dedos de Elspeth continuavam acariciando a mão de Zoe.

– Toda vez que eu descia as escadas… a porta da frente estava escancarada e ela havia sumido.

– É por isso que você gosta que fique fechada?

Ramsay deu de ombros.

– Como foi que vocês conseguiram ficar juntos por tempo suficiente para terem três filhos? – questionou Zoe.

Ramsay se levantou, olhou para além dos limites do hospital, para os jardins, passando pelos muros, pelas casas e seguindo até as montanhas ao fundo, onde o sol brilhava nas asas de algo que voava em círculos, quase invisível a olho nu, de tão distante. Ele soltou um longo suspiro, como quem se livra de um fardo muito, muito pesado.

– Ninguém… – começou, cerrando os punhos em seguida. – Ah, que se dane – disse para si mesmo. – Apenas o Shackleton é meu filho – confessou baixinho.

Zoe piscou.

– O quê? Como assim?

– Nós ficamos juntos apenas tempo suficiente pra ter um filho. E quase nem isso. Então ela começou a desaparecer. Ela já me odiava àquela altura. Ela ia sabe-se lá pra onde. Uma vez, pra Irlanda, eu acho. Aí, ela voltava. Uma dessas vezes, voltou grávida.

– Da Mary?

– O que eu poderia fazer? – indagou Ramsay. – Ela tinha partido o meu coração e precisava de ajuda, e eu era a única pessoa no mundo de quem ela não aceitaria. Pensei… Pensei que ela talvez voltasse pra casa se a gente se entendesse, criasse a Mary e o Shackleton juntos. Mas ela já estava pior. E foi piorando cada vez mais.

– Então ela foi embora e deixou a Mary com você? E o Patrick?

Ramsay baixou a cabeça.

– É difícil… É difícil explicar a que ponto as coisas chegaram. Com o Patrick, ela praticamente não voltou para casa. Ela o largou na escada de entrada, como um órfão.

– Você só pode estar brincando.

Ele meneou a cabeça.

– Quem me dera.

– Mas no vilarejo…

– Ah, eles falam um monte de coisas. Ela voltava de vez em quando. Eu inventei que ela estava trabalhando… Haha.

Ele tocou em Elspeth.

– Ah, minha querida. Imagine você tendo um chefe. – Ele pausou. – Tudo ficou… apenas entre nós.

– E o Conselho Tutelar?

Ramsay olhou para ela.

– Por que você acha que eles não costumam aparecer o tempo todo? Eles sabem de tudo. Ela não tinha família, pelo que se sabe… Se eu não me importava em cuidar dela, eles não se importavam em assinar a papelada. – Ele se encolheu. – Acho que aquela propriedade ainda vale muito.

Zoe piscou. Ela não conseguia suportar a ideia do Patrick sendo abandonado… ou da Mary.

– Ela tentou. Ficava abstinente por alguns dias, alguns meses, voltava. Ela costumava costurar pras crianças, fazia umas roupas maravilhosas. Então algo acontecia… algum gatilho a transtornava e…

Zoe de repente se tocou de algo.

– A cicatriz da Mary?

Ramsay confirmou.

– Há dois anos. E depois daquilo… ela não teve mais permissão pra ver as crianças. Não dava. Era ruim pra elas, de toda forma, ela ficar indo e vindo. E aí ela machucou a Mary daquele jeito. E eu nunca conheci uma criança que precisasse tanto de uma mãe…

Zoe engoliu em seco, relembrando todos os pensamentos críticos que tinha tido sobre aquela menina difícil.

– A polícia se envolveu… Eu tive que entrar com um mandado de segurança pra que ela se mantivesse longe e, bom, essa foi a gota d’água. Nossa, foi horrível demais.

– O que aconteceu?

– Ela encontrou umas drogas. Tomou. Estava se abstendo há muito tempo, não conhecia… não conhecia os próprios limites. Teve uma overdose. Parou de respirar por nove minutos. Danos cerebrais sérios. É um problema mais comum do que… Bem. É o que eles dizem. Não parece comum, para nós.

Ele afagou o braço de Elspeth.

– Ela… Talvez ela recobre alguma atividade cerebral com o tempo. Bem. Eles achavam isso. Um tempo atrás. Eu venho muito aqui. Nós não sabemos o que ela sabe.

– É aqui que você vem quando não está em casa?

Ele confirmou.

– Vivo pensando que talvez ela melhore um pouquinho.

– E quando você trabalha?

Ele soltou uma risada triste.

– Este lugar custa uma fortuna.

Zoe balançou a cabeça de forma compreensiva. O dinheiro na lata de biscoitos; a falta de todo o restante na casa. Bem.

– Eu estava tentando segurar as pontas.

Zoe se inclinou para a frente.

– Ninguém consegue segurar as pontas sozinho. Ninguém.

Ele se virou e voltou a olhar para o prédio principal do hospital.

– Mas agora eu vejo. Eu fiquei em negação por muito tempo. A Mary precisa de ajuda. Deste tipo de ajuda. Ajuda psiquiátrica. Céus, ela é tão parecida com a mãe. Até agora eu achava que talvez fosse porque a gente tinha dificuldade em arrumar pessoas para cuidar dela. A Sra. MacGlone odiava a Elspeth, simplesmente odiava, e achava difícil se aproximar das crianças. Ela não achava nem que a gente deveria ter ficado com o Patrick.

– Não ficar com o Patrick? – exclamou Zoe, incrédula. – Quem não iria querer o Patrick?

Ramsay deu de ombros.

– E eu achava, bem, que a gente não conseguia arranjar uma boa babá, então, era obviamente por isso… Eu não conseguia suportar ver a Elspeth nela.

A voz dele minguou.

– E aí você chegou. E eu percebi que as babás não eram o problema.

Zoe mordeu o lábio.

– Ah, eu não acho…

Ramsay olhou para ela; seus olhos revelavam exaustão.

– Foi, sim – insistiu ele. – Você mudou tudo. Você não tem ideia do que fez. Você transformou aquela casa em um lar. Para… Para todos nós.

Zoe meneou a cabeça.

– Você é que não percebe… – E quando começou a dizer aquilo, ela compreendeu, pela primeira vez, que era verdade. – Este é… Este é o primeiro lar de verdade que eu e o Hari temos. Vocês é que nos deram um lar.

O mais lamentável daquilo tudo era que tal percepção não mudava coisa alguma – eles continuariam tendo que ir embora, de qualquer maneira. As lágrimas fizeram arder os olhos de Zoe.

Capítulo oitenta

 

 

Eles retornaram, exauridos. Ramsay tinha feito um carinho na mão de Elspeth, mas ela não demonstrou ter percebido. Zoe ficou olhando para ela – não conseguia evitar. Que criatura mercurial estranha ela já deve ter sido, para enfeitiçar Ramsay daquele jeito? Se você olhasse perto o bastante – e era muito esquisito poder olhar tão atentamente para outro ser humano que não reagia e não ligava –, era possível ver, nos ossos que saltavam sob a pele, que, um dia, ela devia ter sido uma garota bonita, que encantou o jovem Ramsay, ainda sofrendo com a morte do pai. Ela conseguia ver as maçãs do rosto proeminentes de Mary, seu queixo marcante. Não conseguia ver coisa alguma de Patrick. Aquela garota realmente tinha vindo de uma montanha encantada, ela se pegou pensando, e então afastou aquele pensamento instantaneamente.

Eles caminharam em silêncio, entristecidos, de volta para a enfermaria.

Hari não estava no quarto. Zoe estava prestes a berrar ferozmente quando Ramsay a puxou e a levou para o quarto do lado. Os lençóis tinham sido tirados da cama e transformados em uma cabana que cobria o quarto todo. Debaixo deles ouviam-se risos. Ramsay puxou os lençóis. Hari e Mary estavam se matando de rir, brincando no tablet de Hari.

– OI PLA VOCÊS – gritou Hari alegremente.

Ramsay saiu com Mary do hospital – ela tinha um encontro marcado com a enfermeira do Serviço de Saúde para ver quais seriam os próximos passos a seguir dali em diante. Antes de sair, ela pediu desculpas novamente para Zoe, com tanta sinceridade e tanto desespero que Zoe conseguiu assentir com a cabeça. Ela sabia que era insensível de sua parte, mas era difícil demais ir além daquilo quando as coisas poderiam tão facilmente – tão facilmente – ter acabado nas manchetes no jornal de domingo.

Ela engoliu em seco, pensou na mãe da pobre garota, que ela nunca mais voltaria a ver, respirou fundo e fez um carinho em seu ombro.

– Tudo bem – disse ela, inexprimivelmente cansada. – Acho que o médico realmente vai te ajudar, meu bem. Nós só queremos que você se sinta melhor. Só isso.

Mary assentiu solenemente e deixou que seu pai a conduzisse pela mão. Zoe ligou a TV para Hari. Eles encontraram uma reprise antiga do programa Balamory e Hari recitou alegremente as falas, uma após outra, enquanto Zoe olhava para ele, querendo devorar as palavras dele com os ouvidos, sem conseguir acreditar que era verdade, até finalmente encontrar um minuto para se trancar no banheiro e se acabar em lágrimas.

Capítulo oitenta e um

 

A gentil pediatra não sabia exatamente como ajudá-la, além de encorajá-la a ficar contente.

– Bem, trata-se mesmo de um transtorno de ansiedade – disse ela, e Zoe fez uma careta e disse já saber daquilo. – E sabe que Einstein…

– Não acho que ele seja um Einstein – interrompeu Zoe com delicadeza, porém firme.

– Aconteceu algo para aliviar a ansiedade dele?

Zoe teria pensado o oposto, mesmo enquanto ouvia os risos na sala ao lado, provocados pelo desenho animado.

Será que Hari um dia lhe contaria? Será que explicaria o estranho e silencioso mundinho onde se encurralara, com as paredes se fechando ao seu redor a cada dia, até algo as derrubar – o choque, talvez? O frio estimulante de saber como você chegou perto de perder tudo e como é importante usar tudo que você tem? Quando questionado, Hari simplesmente respondia com alegria que tinha sido o monstro, e Zoe supunha que fosse uma metáfora ou que ele tivesse ficado confuso com a água e o barulho, sem conseguir ver um metro à frente do nariz.

– Você está contente? – perguntou a médica quando Zoe começou a chorar de novo, mas ela confirmou veementemente com a cabeça, em meio às lágrimas.

A volta para casa foi lenta e teria sido silenciosa se não fosse por Hari, que gritava, admirado “Ávole!”, “Pedlas!”, “Passalinho!” toda vez que avistava alguma coisa, e Zoe precisava lutar contra as lágrimas toda vez. Ela havia decidido não contar a Jaz, para surpreendê-lo.

Ela também não contara a Hari que eles iam embora. Não sabia como fazer isso. Quando saiu do carro, ele correu na direção de Patrick, gritando:

– PATLICK! EU SABO FALAR!

E Patrick pulou alegremente, mas logo parou, franzindo a testa, com o rostinho sério, e disse:

– Sim, Hari, mas você precisa absolutamente me deixar falar mais.

E Ramsay se virou para Zoe, com o rosto tenso, aflito, e perguntou:

– Não tem como você…?

E ela sentiu um nó na garganta de novo.

A enfermeira do Serviço de Saúde dissera que Mary começaria as sessões com um psiquiatra imediatamente, mas, se as coisas não melhorassem, talvez eles precisassem considerar entrar com medicação. Ramsay tinha contado isso para Zoe, como se fosse um ponto a seu favor, como se talvez abrandasse as coisas. Em outras circunstâncias, talvez abrandasse. Mas ela jamais poderia – de jeito algum, depois que Jaz descobrisse exatamente o que tinha acontecido – permanecer ali com o filho.

Zoe evitara visitar Nina no hospital, o que a fazia se sentir bastante culpada, mas ela estava prestes a fazer algo terrível e deixá-la na mão, além de já ter coisas demais com que se preocupar.

Mas ali, em casa – em The Beeches, na verdade, é claro –, fazia um dia perfeito de outono: todas as cores iluminavam a casa sombria, os alaranjados, amarelos e vermelhos vivos das folhas que cobriam os gramados, com o vento rodopiando-as em redemoinhos. Wilby tinha começado a juntá-las e Patrick e Hari não perderam tempo em se atirar nos montes de folhas. Shackleton acabou saindo para ver o que estavam fazendo e decidiu se juntar a eles, mas subestimou seu tamanho e sua circunferência e destruiu completamente a pilha, então Zoe mandou os garotos encontrarem rastelos (havia vários na antiga cabana) e ajudarem Wilby a juntar as folhas direito, o que resultou em um moto-perpétuo de folhas amontoadas e esparramadas pelos pulos dos meninos.

Estava bastante agradável e quente o suficiente para ficar ao ar livre apenas com um cardigã, e Mary estava fazendo exatamente isso, com seu novo suéter de raposa. Ela ficava nervosa perto de Zoe, que tinha decidido que, independentemente do que acontecesse, ela precisaria superar. Ela era a adulta; Mary era a criança – uma criança doente e notavelmente azarada. Então Zoe foi até ela e se sentou.

– O que você está lendo?

Mary ergueu o exemplar de O sobrinho do mago.

– Maravilha! – exclamou Zoe. – Ah, que sorte a sua. Eu gostaria de estar lendo esse livro pela primeira vez.

– Ninguém... – disse Mary, reflexiva. – Nenhum dos livros que você me deu tem mães.

Zoe piscou e pensou naquilo. Nárnia, Katy, Alice, Anne com E, Mary Lennox. Mary tinha razão. Nenhuma personagem tinha mãe.

– Acho que é isso que cria as histórias – comentou ela. – Se uma criança embarca em uma aventura, é assim que começa.

– Acho que já vivi aventuras suficientes – ponderou Mary.

– Também acho – concordou Zoe, e elas ficaram sentadas, uma do lado da outra, observando os garotos correndo como cervos felizes em um campo vermelho-vivo.

 

Ramsay ficou parado perto do carro, observando todos eles, e percebeu a verdade terrível com um sobressalto: ele queria que ela ficasse. Demais. Não pelas crianças – embora, sim, por isso também. Mas por ela. Por tudo com relação a ela: a forma como os cabelos caíam em seu rosto; sua risada tilintante; a música que ela tocava na cozinha; seu amor imenso pelo filho; a maneira como lidava com as coisas, que tinha, ele sabia, sido seu maior erro enquanto ele estava à deriva, torcendo, em algum nível, para que Elspeth retornasse, ou para que as coisas mudassem.

Ele percebeu que estava esperando ser salvo como uma princesa em um conto de fadas. E que Zoe era o príncipe encantado.

E agora ele a queria. Mas era tarde demais, pois, enquanto ele pensava aquilo, um carrinho de aluguel vermelho familiar subia a viela de entrada.

Capítulo oitenta e dois

 

Surpreendentemente, três pessoas saíram do pequeno carro de aluguel: Jaz, uma garota linda que Zoe concluiu se tratar de Shanti e mais uma mulher.

Surinder caminhou na direção de Zoe e as duas se abraçaram.

– Não sei o que dizer – disse Surinder. – Eu… Eu realmente esperava que fosse ser algo bom.

– E foi – respondeu Zoe, engolindo em seco.

Hari foi correndo até elas, com os cabelos espetados em todas as direções, ofegante e sem fôlego.

– Oi, titia! – cumprimentou ele casualmente.

– O quê? – exclamou Jaz. Zoe não conseguiu evitar sorrir ao ver a expressão dele. – O QUÊ?

– Ah! Oi, papai! – disse Hari, virando-se.

Jaz ficou tão surpreso que parecia um desenho animado.

– Você está falando!

– Sim – respondeu Hari.

Jaz olhou para Hari, depois para Zoe, e voltou a olhar para Hari. Surinder soltou uma gargalhada.

– Eu absolutamente ensinei pra ele – declarou Patrick.

– Ele é meu imão – informou Hari.

– Sim, a gente se conheceu… Oi, meu chapa – disse Jaz, encabulado.

Patrick o fitou com olhos severos.

– Obrigado pela sua visita. Mas Hari e eu temos coisas bem importantes pra fazer com as folhas. TCHAU!

Ele se virou e voltou ao jardim, com Hari em seu encalço. Jaz ficou parado, atônito.

– Que tal eu fazer um chá pra todos nós? – sugeriu Zoe.

Ela se aproximou e apertou a mão de Shanti. Como Jaz tinha dito, ela era extremamente bonita.

– Olá. Desculpe. Sou a Zoe. Eu sei que é muita coisa pra assimilar.

Shanti estava olhando para a casa, absolutamente hipnotizada.

– Caramba, que lugar é este!

Surinder estava tirando fotos dos garotos correndo para lá e para cá ao sol poente.

Shanti seguiu Zoe casa adentro. O aroma da cera de abelha usada para polir o piso pairava no ar; a Sra. MacGlone tinha obviamente se mantido ocupada. O sol penetrava pelas janelas, iluminando a madeira.

– Minha nossa! – exclamou Shanti.

Ela espiou dentro da sala de visitas, que estava alumiada pelo sol e, naquele momento, ocupada pelo modelo gigantesco de avião em que Shackleton e Patrick estavam trabalhando. Pedaços de pau-de-balsa e lençóis velhos cortados estavam espalhados pela mesa ampla.

– Olha só pra este lugar – disse ela.

As vozes das crianças podiam ser ouvidas lá fora, rindo e conversando.

Ela seguiu Zoe até a cozinha e Zoe colocou a chaleira no fogo.

– Também tem café – ofereceu Zoe, lembrando-se daquela noite, quando tudo que ela queria era sentir a mão dele em seu corpo…

Ela afastou aquela lembrança.

– Bela cafeteira – comentou Shanti. – Caramba. Não sei o que eu esperava, mas com certeza não era isso.

Ela se virou para Zoe.

– Me… Me des… Eu espero que não tenha sido esquisito que o Jaz tenha começado a namorar comigo.

Zoe estava prestes a deixar para lá e dizer que não, de forma alguma, mas decidiu que não havia por que não ser sincera.

– Bem – disse ela –, você é a primeira mulher que eu conheço desde… mim, mas a gente já tinha terminado há muito tempo mesmo.

– Mas você é mãe do…

– Sim, tudo isso.

– Ele parece ser um garoto incrível.

– Não sei se “incrível” – ponderou Zoe, e então refletiu melhor. – Bem. Sim. Ele é.

Shanti concordou com a cabeça.

– Obrigada – acrescentou Zoe – por fazer o Jaz assumir as responsabilidades dele.

Shanti revirou os olhos.

– Eu cresci sem pai – explicou ela. – Ameacei matá-lo se ele não tomasse vergonha na cara.

– Bem… Obrigada… Eu também cresci sem pai. Devia tê-lo ameaçado desse jeito.

Shanti fez uma careta.

– Eu não agradeceria ainda. Ele ficou de ver uns apartamentos…

Zoe deixou esse comentário pairar no ar e ocupou-se em procurar canecas e em pensar se havia biscoitos para todos. Felizmente, havia.

Capítulo oitenta e três

 

 

Ramsay parecia estar prestes a desaparecer na biblioteca – ele não podia suportar ficar sentado ouvindo aquele homem discutir como levaria Zoe embora, falar que a enfiaria em algum buraco pavoroso em Londres, e saber que ele nunca mais a veria de novo.

Mas Zoe lhe lançou um olhar que dizia, mais ou menos, “Modos!” e então ele se juntou a eles nas cadeiras de ferro forjado que ela havia feito Shackleton buscar e limpar – quando, pensou Ramsay, ela sequer tinha achado tempo para descobrir aquelas cadeiras? E quando é que seu pré-adolescente resmungão e nada comunicativo tinha se transformado em um garoto tão esperto e solícito?

Quando todos se acomodaram, ninguém sabia ao certo como começar, até que Jaz, sentado com as pernas esticadas, apoiando um pé no joelho oposto – algo que Zoe sabia que ele costumava fazer quando estava nervoso, mas tentando não demonstrar –, perguntou como é que Hari tinha começado a falar e de onde é que vinha aquele sotaque.

Ramsay olhou para Zoe, mas ela não retribuiu o olhar. Em vez disso, piscou e disse:

– Bem, a Mary e o Hari se meteram numa pequena enrascada no lago. Aonde eles estão terminantemente proibidos de ir.

Shanti virou a cabeça.

– Onde fica?

– No final do jardim – explicou Zoe.

– Minha nossa… Vocês realmente têm tudo aqui – disse ela, arregalando os olhos.

– Enfim. O Hari se assustou e… a médica disse que alguma coisa parece tê-lo sacudido.

Jaz meneou a cabeça.

– Eu achava que estava vindo pra cá pra tomar conta do meu garotinho traumatizado. Em vez disso, ele está ouvindo músicas dos Proclaimers e comendo tortas de haggis.

Ninguém disse coisa alguma depois disso.

Jaz bateu os pés no chão. Então levantou-se.

– Vou buscá-lo. Ele pode me mostrar o lago.

– O loch – corrigiu Zoe automaticamente.

– Pelo amor de Deus, Zo. Você, não.

Ele se afastou, com uma expressão aborrecida, e Shanti se encolheu. Surinder assistiu à cena toda meneando a cabeça.

– Meu Deus – disse ela. – Você é pior que a Nina. Por falar nela… – Ela olhou para o relógio. – Preciso sair, se não quiser perder o horário de visitação.

Zoe também se levantou.

– Espere aí, eu tenho uns livros na van pra ela.

Surinder a acompanhou alegremente.

– Ah, veja só, aí está ela – exclamou, afagando o veículo. – Ah, nós nos divertimos muito nesta lata velha. – Ela sorriu. – Agora, tem algumas pessoas que preciso visitar enquanto estiver aqui… Garotos, em sua maioria.

– Quanto tempo você vai ficar?

– Depende de quando a Nina parir – respondeu Surinder. – Eu tinha umas férias pra tirar. E o Lennox estará ocupado enfiando a mão na bunda de umas ovelhas, ou algo assim.

– Não acho que seja na bunda – observou Zoe.

– Ah, obrigada, James Herriot…

Surinder subiu a escada da van e girou a maçaneta.

– Aaah – exclamou, surpresa. – Você mudou tudo!

– Hum… Acho que não…

– O que são esses livros sobre o monstro do lago Ness? E os bichos de pelúcia?

– As pessoas gostam, aparentemente – murmurou Zoe.

– Caramba. Livros pra colorir! E essas coisas de turista… A Nina sabe que você está vendendo tudo isso? – Surinder estreitou os olhos. – Quer dizer, não é o que ela costuma fazer, só isso.

Zoe se encolheu.

– Você está querendo dizer que estou vendendo quinquilharias.

– Nãããão…

– Olha – disse Zoe –, eu não estava conseguindo vender o suficiente das outras coisas. Não sou a Nina, ela é um gênio da venda de livros. Mas existe um mercado enorme aqui, absolutamente imenso, cheio de pessoas interessadas na história da Escócia e da região, então nós temos vendido muitos atlas, e eles são lindos. E os livros sobre o monstro são só uma coisa pras crianças colorirem enquanto passam horas no ônibus, é só isso.

Surinder piscou.

– Hum. Talvez você tenha razão. A Nina não liga muito pros números.

Ela pegou um ou dois livros de mapas grandes, de valores altos.

– Uau! Você está vendendo isto aqui?

– Sim… São da coleção do Ramsay. Coisas que não têm muita saída em Londres.

Surinder balançou a cabeça compreensivamente.

– Sinto como se estivesse sendo inspecionada – comentou Zoe, encabulada.

– Haha – respondeu Surinder. – Eu também.

Zoe sorriu.

– O Jaz parece bem mais… calmo.

Surinder concordou.

– A Shanti faz bem pra ele. Definitivamente. Mas você conhece o Jaz, sempre cheio de boas intenções. Nem sempre se atém a elas a longo prazo.

As meninas colocaram a cabeça para fora da van. Shanti tinha ido se juntar a Jaz e Hari perto do lago.

– Parece que ele gosta muito deste lugar – observou Surinder. Ela suspirou e olhou em volta. – Eu também. Lá em Brum eu me esqueço de que existem lugares como este. É simplesmente… tão livre…

Como que para fazer coro a ela, um bando de gansos selvagens passou voando baixo em sua jornada para o sul, batendo as asas brancas sob o sol que se punha lentamente, a intensa luz outonal.

– Sim, sim, está bem – disse Surinder. Ela estreitou os olhos. – Será que o Lennox ainda tem aqueles inquilinos… Certo. Melhor eu ir ver a Nina.

– Não fale pra ela sobre os livros pra colorir – pediu Zoe depressa.

– Tá, tudo bem.

Surinder olhou para ela.

– Vai voltar pra casa, então?

– Hum… – respondeu Zoe.

Capítulo oitenta e quatro

 

Algumas decisões acontecem para você. Algumas são discretas. Outras, contudo, você consegue identificar.

Naquela noite, ao pôr do sol, Ramsay marchou até o porão, onde raramente tocava nas antigas garrafas que seu pai estocava lá, e pegou duas com os nomes aparentemente mais antigos. Então subiu as escadas e, depois de conseguir convencer os garotos transfixados a se afastarem, acendeu a pilha de madeira e samambaias secas que eles haviam coletado no bosque, juntamente com algumas folhas do jardim. Zoe embrulhou batatas em papel-alumínio e enfiou-as na base da fogueira e levou garfos compridos para os adultos assarem as salsichas, cuja gordura pingava no fogo. Jaz colocou uma música no celular e todos ficaram em torno da fogueira, com as crianças correndo e rindo ao redor, o vinho envelhecido sendo bebericado em canecas e xícaras angariadas na cozinha. Surinder voltou do hospital dizendo que Nina tinha relido toda a coleção de Val McDermid e agora pensava que todos eram assassinos em potencial, mas, fora isso, estava perfeitamente bem, e Jaz e Ramsay precisaram sentar um ao lado do outro, pois os garotos queriam sentar em seus colos – Hari simplesmente adorava ter o pai por perto para exibi-lo –, e Zoe observou Ramsay afagar a cabeça de Patrick, responder a suas perguntas obscuras sobre vagalumes e satélites, e o peso do amor nítido e claro dele pelo garoto que era filho de outro homem a assolou.

Era um contraste imenso com a atitude negligente de Jaz de deixar o próprio filho para trás. Se não fosse por ela, por Surinder e por Shanti, Hari poderia estar sem pai naquele momento. Os olhos de Jaz encontraram os seus e, como se estivesse lendo seus pensamentos, ele se encolheu de leve.

Fora isso, dado o constrangimento de toda a situação, a noite foi excepcionalmente agradável e quando eles foram embora para o hotel, com Shanti ao volante, todos ficaram parados na longa viela de cascalho acenando para eles.

– Gosto quando o papai vem me ver – comentou Hari, reflexivo. – É legal.

Zoe sorriu e pegou a mão dele e a de Patrick para levá-los para o quarto.

– Espela – disse Hari.

E correu até onde Ramsay estava com as pernas esticadas na direção do fogo, subiu pela perna dele e deu um abraço no homem, que ficou muito surpreso.

– Boa noite!

Zoe e Ramsay olharam um para o outro, espantados, e Zoe levou o menino para a cama – com ela, bem longe da Mary, e nada de passar a noite com o Patrick de novo – enquanto refletia sobre aquela cena.

Será que ela estava tornando tudo mais difícil para Hari, permitindo que ele se apegasse tanto àquelas pessoas? Por outro lado, o que ela queria? Que ele ficasse infeliz?

Ela ainda estava compenetrada, refletindo, quando foi buscar os garfos e as facas lá fora. Ramsay não tinha saído do lugar e ainda estava olhando fixamente para o fogo, com a taça na mão, seu imenso suéter azul-marinho ao lado, ainda com folhas presas nele.

– Aqui – ofereceu ela, arrancando uma e entregando a ele. – Pode guardar como recordação de um dia feliz.

Ele se virou para ela e seu rosto transmitia uma ânsia tão grande que ela não conseguiu suportar, e ele delicadamente envolveu seu pulso pequenino com sua mão enorme.

– Por favor – suplicou ele. – Por favor, fique.

Capítulo oitenta e cinco

 

A van de livros estava incrivelmente movimentada perto do lago no dia seguinte. Toda a região estava tomada por famílias em férias escolares observando focas e tomando sopa, e Agnieszka estava extasiada. Murdo apareceu e Zoe indicou que ele entrasse.

– Nós temos, Ramsay e eu… Quer dizer… Não “nós”… Não juntos, haha! Nada nesse sentido!

Ela enrubesceu intensamente, lembrando-se da noite anterior, quando gaguejou e inventou desculpas e foi correndo para a cama, extremamente confusa e assustada, e ficou acordada a noite toda imaginando, apenas imaginando, como seria se ele a tivesse pegado com aqueles braços fortes enormes, se ele a tivesse agarrado, levado para dentro de casa… Ou pior, para o bosque… E o que teria acontecido com a família, e como aquilo seria impossível.

– Enfim… Estou tagarelando. Eu só queria dizer que a gente deve tudo a você. O Ramsay queria te dar… Eu sei que não é muito…

Ela pegou a bela caixa de um uísque antigo que foi encontrada no porão.

– Minha nossa – exclamou Murdo. – Caramba. Eu não estava… Quer dizer, qualquer um teria feito o que eu fiz. Todo mundo fez o que eu fiz. Parecia Dunquerque. – Ele sorriu. – Ah, olha só pra isso. É demais.

– Não é nem perto de ser o suficiente – afirmou Zoe em tom sério.

– E – continuou Murdo –, de toda forma, não fui eu. Alguma coisa me arrastou por aquele lago…

– Pare com isso – ralhou Zoe. – Você trabalha aqui há tempo demais, procurando pelo monstro. Já mexeu com a sua cabeça.

– Talvez sim – disse Murdo. – Talvez não.

Juntos, eles levaram o uísque até o barco.

– Muito bem – disse Murdo. – Isso foi bacana. Os pequenos estão bem?

– Estão, sim – respondeu Zoe, sem querer falar mais do que o necessário sobre aquele assunto.

 

Kirsty se juntou a ela para o almoço – com uma excelente sopa de alho-poró e frango e pão rústico – no bar de Agnieszka e Zoe contou toda a história a ela – ou melhor, partes dela. Kirsty assobiou entre dentes.

– Qual o diagnóstico?

Para falar a verdade, Ramsay tinha… Antes de… Bem. Eles tinham discutido o assunto. Os médicos foram categóricos ao afirmar que era preciso entrar com medicação. Uma dose bem baixa, apenas para estabilizar o humor dela. Ramsay era totalmente contra qualquer medicação. “Uma menina de 9 anos tomando remédios?” Ambos ficaram indignados, e ficaram mais surpresos ainda quando a médica contara a eles exatamente quantas crianças de 9 anos tomavam medicação na Escócia. Eram muitas. Então Zoe simplesmente perguntou se outras crianças estariam seguras vivendo sob o mesmo teto que Mary enquanto ela estivesse medicada, e eles lhe garantiram que sim, e isso bastou para Zoe. Não seria para sempre. Apenas uma Mary mais calma. Para que ela lhes desse ouvidos; para que eles pudessem ajudá-la. Zoe perguntou a opinião de Kirsty e ela concordou.

– Vai ficar tudo bem – afirmou Kirsty. – Tem um monte de crianças tomando medicação. É sério. Esses remédios mudam vidas.

– Ela quase mudou as nossas – lembrou Zoe, taciturna. – Preciso ficar repetindo pra mim mesma que não foi culpa dela.

– Eu acho, de verdade – disse Kirsty –, que vocês vão perceber que os remédios ajudam mesmo. E também significa que ela provavelmente terá uma adaptação um pouquinho melhor na escola.

– Sim. Bem menos mordidas – concordou Zoe, dando um sorriso triste. – Eu estava me perguntando… Eu estava pensando… A gente precisa agradecer às pessoas do vilarejo pelo que fizeram. E as crianças… Elas não tiveram um Halloween de verdade. Elas se acham muito impopulares e esquisitas pra saírem por aí pedindo doces.

– É uma pena – disse Kirsty, falando com sinceridade.

– E eu pensei que o Samhain compensaria, mas… – Zoe corou com a lembrança. – No fim das contas, não era nem um pouco adequado. Bem, enfim, eu estava pensando… Sei que já passou da época, mas, se a gente organizasse uma festa de Halloween, a gente poderia convidar todo mundo? Aí as crianças poderiam… meio que voltar à normalidade? Ou seria loucura?

– Todo mundo? São sessenta crianças!

– Eu sei.

– Por outro lado – ponderou Kirsty –, não imagino que qualquer criança vá detestar ter dois Halloweens.

– Ótimo – disse Zoe. – Espalhe a notícia.

Capítulo oitenta e seis

 

 

Foi necessário fazer uma busca ferrenha. Ela fazia de madrugada. Ramsay não estava em casa, e Zoe sabia por quê. Ao menos, apesar de tudo, ela sabia onde ele estava.

Ela precisava encontrar alguma coisa. Na biblioteca. Algo que permitisse que eles dessem uma festa; algo que preparasse as crianças. Para a escola; para a vida normal que as aguardava.

Descartou os livros que não estavam no almanaque, como enciclopédias antigas que não sabiam do que os átomos são feitos e uma coleção dourada linda sobre a vida dos santos que só um sádico hediondo compraria para uma criança. Ela precisava de algo bom. Algo que conseguisse vender imediatamente.

Continuar: parte 6 de 6