Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 50 de 50 · parte 6/6

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Um novo capítulo para o amor

Parte 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

No nível do mezanino, debaixo de uma pilha de hinos religiosos, finalmente encontrou o tipo de coisa que estava procurando. E assobiou.

A capa cinza-clara com os telhados de Londres; os dois garotinhos galopando ao lado da Catedral de São Paulo. Consultou a data na folha de rosto. Era uma segunda edição, não a primeira, mas, mesmo assim, valia uma verdadeira fortuna: uma edição antiga de Entre os telhados.

Deixou as crianças verem, um tanto relutantemente, e explicou que eles iriam vendê-la.

– Mas esse é o livro que a gente está lendo! E ainda nem terminamos! – grunhiu Patrick. – A gente ainda nem sabe se a Delphine está na Rainha do Galeão dos Nethers! Os Corsários a pegaram!

– Eu tenho – afirmou Zoe. – Tenho no meu Kindle. Não se preocupe. É possível ter várias cópias de um mesmo livro.

– Mas... eu fico preocupado! – disse Patrick, piscando.

– Eu sei – respondeu Zoe. – Mas confie em mim. Vai valer a pena. Nós vamos fazer uma festa de Halloween!

Os garotos arfaram.

– A gente pode… chamar umas meninas? – quis saber Shackleton.

– Todos podem vir – disse Zoe.

Mary olhou para ela. Os remédios a deixavam sonolenta, lenta para reagir às coisas.

– Que tipo de festa? Como o Samhain?

– Não – afirmou Zoe com veemência. Aquela festa tinha saído do controle. – Uma festa infantil. Pensei que podemos decorar bem a casa e comprar várias coisas assustadoras, fazer brincadeiras divertidas… essas coisas.

– Vamos ter muitos doces? – perguntou Patrick.

– E bolhas.

– Bolhas?

– Bebidas com bolhas, ele quis dizer – explicou Patrick.

– Ah. Está bem – respondeu Zoe. – Bem. Sim. Tudo isso. Pensei que seria legal convidar as crianças que vão estudar com vocês.

– OOOHH! – exclamou Patrick.

– Elas são horríveis – disse Mary.

Shackleton estava observando de perto da lareira.

– Bem – disse Zoe em tom conspiratório –, pensei que a gente poderia arranjar as fantasias mais legais de todas pra vocês, convidar todo mundo, deixar a casa incrível, fazer a melhor festa do mundo e aí todo mundo perceberia que vocês são superlegais, e a menina que você mordeu…

– Stephanie – rosnou Mary. – Ela disse que a minha mãe era maluca.

Zoe ia sugerir uma conciliação, mas acabou se decidindo por outro rumo.

– Stephanie. Bem, a gente pode dar um gelo nela.

– Como assim? – indagou Mary, parecendo interessada.

– Bem, obviamente, em circunstâncias normais, o ideal é tentar ser legal com todo mundo.

– A Mary não tenta – disse Patrick.

Mary quase franziu o cenho, mas deixou passar, como se não importasse para ela. Todos sabiam que era verdade.

– Mas neste caso acho que a gente pode ser superlegal com todo mundo, e daí quando ela chegar…

– Talvez ela não venha – ponderou Mary.

– Todo mundo vai querer vir – garantiu Zoe. – Confie em mim. Então você vai ficar superfeliz de ver todo mundo, mas aí, quando ela chegar, você pode falar, tipo: “Ah, oi.” Aí eu posso falar “Ah, você é a Stephanie”, mas tipo, de um jeito bem maldoso. – Ela repetiu: – “Ah, então você é a Stephanie.” Claro, eu sei que isso é muito feio, bem horrível…

– Ela disse que a minha mãe era doente da cabeça.

– Exatamente. Circunstâncias extremas.

– E eu posso morder ela! – sugeriu Patrick.

– Não – disse Zoe. – É isso que estou falando. Vocês não vão morder mais as pessoas.

– Circunstâncias extremas – alegou Patrick.

– Mesmo assim, não.

– Que fantasia eu vou usar? – perguntou Mary timidamente.

– A que você quiser! Princesa zumbi? Bruxa apavorante?

– E a gente vai arrumar dinheiro vendendo um livro? – indagou Shackleton.

 

Eles se reuniram para ver Zoe tirar as fotografias e colocar o livro à venda no eBay. As ofertas começaram rápido e eram generosas, e foi extremamente empolgante de assistir. Quando chegou a hora de todos irem para a cama, o valor já era suficiente para uma festa bem farta. Quando Ramsay chegou em casa, já era suficiente para…

– Caramba! – exclamou ele, olhando para ela. – Minha nossa!

– Obrigada – disse Zoe, que tinha mandado mensagem para ele antes, perguntando se podia colocar o livro à venda. – Foi legal da sua parte nos deixar gastar o dinheiro.

– Bem, eu nem saberia que esse livro estava lá se não fosse por você.

Zoe se levantou, afastando-se timidamente dele. Ele percebeu, contrariado, o que ela fez e franziu a testa.

– Eu… Eu sinto muito por aquela noite – murmurou.

– Não… Eu que sinto – disse Zoe antes que pudesse pensar. E então: – Me desculpe. Quer dizer. Está tudo bem. Esqueça.

Ele concordou, entristecido.

– E então? – perguntou Zoe com delicadeza. – Como foi hoje?

Ele respirou fundo e eles se afastaram da cozinha. Aquilo era novo, poder conversar sobre aquele assunto.

– Tem uma… Bem. Uma boa notícia, eu acho. É difícil saber. A polícia entrou em contato comigo. Eles me deixaram revogar o mandado judicial. – Ele meneou a cabeça. – Ela não… Ela não é mais considerada uma ameaça, aparentemente.

– Ótimo – disse Zoe. – Isso é bom?

– Significa que as crianças podem…

Ele meneou a cabeça, olhando para as quatro cabecinhas rindo ao redor do computador.

– Ah – lamentou ele. – Ah. Aquelas drogas malditas. O preço que ela pagou. – Ele tentou conter o choro. – Me desculpe, estou sendo ridículo.

– De forma alguma – afirmou Zoe. – Teria sido melhor se essa notícia tivesse chegado muito tempo atrás.

Ela entregou a ele um pedaço de papel toalha e ele agradeceu.

– Você vai levar as crianças?

Ramsay suspirou.

– O Shackleton se recusa terminantemente. Ele… Ele se lembra. Ele a viu em seu pior estado e ela o decepcionou repetidas vezes. O Patrick simplesmente não a conhece. Ele nunca teve mãe.

– A Mary?

– Sim. Sim. Talvez eu leve a Mary. – Ele passou a mão pelos cabelos. – Vai ser um choque e tanto pra ela.

Zoe pensou na mulher plácida, com o olhar perdido, que se sentia perfeitamente contente em ficar sentada alisando sua mão.

– Nunca se sabe – disse Zoe. – Talvez seja o suficiente… simplesmente estar ao lado dela.

– Você acha?

– Não – confessou Zoe. – Mas acho que, na vida, às vezes a gente precisa se contentar com o que tem.

Capítulo oitenta e sete

 

O livro foi vendido por um valor muito acima do que eles poderiam sonhar, e Ramsay sorriu e disse que, tudo bem, eles podiam se esbaldar, e Zoe levou todos em um passeio especial à Poundworld mais próxima (a duas horas de lá), onde eles compraram o máximo de teias de aranha, abóboras, morcegos e esqueletos assustadores que conseguiram encontrar, entusiasmados com a perspectiva de uma tarde divertida e ocupada decorando a casa.

Haveria sidra quente para os adultos e suco de maçã quente para todos os demais, e mais minibarras de chocolates Snickers e Bounty do que já haviam entrado naquela casa em toda a vida. Zoe tinha feito as crianças jurarem, de pés juntos, que não comeriam mais que quatro antes da festa. Mas ela mesma não conseguiu cumprir a promessa.

Ela os tinha levado a uma loja de festas repleta de fantasias de Halloween. Eles ficaram perplexos. Quando será, Zoe se perguntou, que alguém comprou algo para aquelas crianças? Hari e Patrick levaram uma eternidade para decidir e finalmente optaram por fantasias de dinossauro idênticas. Shackleton, singelamente, não queria nada além de presas de vampiro e um pouco de tinta vermelha para o rosto; Zoe supôs que ele não quisesse se descaracterizar demais, por causa das garotas. Ela disse isso a ele e ele ficou todo vermelho e perguntou a ela, aos sussurros, se ela poderia lhe comprar uma lâmina de barbear, o que Zoe fez na mesma hora, reparando em como ele ficou contente. Eles estavam se tornando bons amigos, os dois.

Mary examinou tudo com muita seriedade e, por fim, pegou uma fantasia. A etiqueta dizia “Fadinha”, e era cinza com listras brilhantes e asinhas nas costas.

– Oh! – exclamou Zoe.

– O quê? – perguntou Mary, sonolenta.

– Nada – respondeu Zoe. – Mas é absolutamente perfeita pra você. Perfeita. A gente pode passar um delineador. E eu posso desfiar o seu cabelo!

– O que é isso?

– Deixar bem bagunçado, tipo cabelo de dente-de-leão.

Mary deu um sorriso lento.

– Posso usar batom?

– Bem, por que não?

– Todo mundo vai mesmo?

– É claro que sim – garantiu Zoe, sem mencionar como todos do vilarejo deveriam estar desesperadamente curiosos para ver o que estava acontecendo e dar uma espiada no interior da casa misteriosa, onde não podiam entrar, nem mesmo no festival de Samhain, quando foram limitados ao jardim.

O tom de Mary ficou reflexivo:

– Algumas das meninas são bem legais – confessou ela. – Talvez.

– Algumas pessoas sempre são – disse Zoe.

– O que você vai usar, Babá Sete? – quis saber Patrick.

– Ah, não sei. Talvez eu só pinte umas marcas de mordida.

– NÃO! – Hari se aproximou. – Ah, pegue uma de bluxa!

– Sim! Sim! Ou absolutamente um DINOSSAURO ENORME.

Mary pegou uma versão de adulto da sua fantasia – era prateada, com uma longa saia com cauda e as mesmas asas finas e claras.

– Você poderia… Você poderia usar esta – sugeriu ela. Seus olhos estavam arregalados e denotavam nervosismo.

Zoe ficou completamente surpresa.

– Bem – disse ela. – Sim. Está bem. Hum. Vou usar essa.

Capítulo oitenta e oito

 

Eles tiveram um longo dia de trabalho decorando a casa, mas não havia dúvida de que estava magnífica. Até mesmo – inacreditavelmente – a Sra. MacGlone se envolveu e ajudou a adornar a casa com teias de aranha, abóboras e crânios assustadores de plástico com luzinhas piscantes dentro deles e umas bonecas velhas da Mary, inclusive várias que estavam quebradas e eram bastante apavorantes. Eles envolveram as lâmpadas em papel colorido e Mary estava concentrada, colocando uvas em uma tigela para parecerem olhos, quando a Sra. MacGlone entrou, olhou em volta, cruzou os braços, então descruzou e disse, com as bochechas incomumente coradas:

– Muito bem. Muito bem.

Zoe sorriu para ela.

– Você vai ficar pra festa? – perguntou. – Tem uma fantasia?

– Ah – respondeu a Sra. MacGlone, desviando o olhar. – Acho que não fui convidada.

Zoe foi até ela.

– É claro que foi convidada! – afirmou. – Sra. MacGlone, você é… Você é a espinha dorsal desta casa. Nada funcionaria se não fosse por você.

A Sra. MacGlone meneou a cabeça.

– Ah, isso não é verdade.

– Ora, venha. Por favor – disse Zoe. – E traga o seu marido.

A Sra. MacGlone pareceu contente enquanto tirava o casaco.

– Está bem, então. Talvez. – Então um pensamento lhe ocorreu. – Sabe, já faz muito tempo que não fazemos isso. Provavelmente precisa que todos os fusíveis estejam no lugar. Mas o Wilby mantém tudo em dia… Custa uma fortuna a energia elétrica nesta casa…

– O quê? – perguntou Zoe, enquanto a Sra. MacGlone entrava na cozinha e abria um armário onde ficavam a caixa de fusíveis e a caldeira.

Ela colocou a mão em um interruptor.

– Bem, aqui vamos nós – disse ela, apertando-o.

Em um primeiro momento, Zoe não conseguiu entender o que era aquele brilho alaranjado que entrava pelas janelas. Todas as crianças se alvoroçaram, lideradas por Shackleton, e correram pelo saguão de entrada, abrindo a porta da frente, deixando entrar uma corrente forte de ar gelado. Zoe as seguiu até lá fora e arfou. Toda a fachada da casa estava iluminada de um modo espectral e fascinantemente lindo.

– Ah, nossa – exclamou ela.

– O bom e velho Wilby – disse a Sra. MacGlone em um tom contente.

 

Zoe tinha desistido de tentar conter as crianças e permitiu que elas fossem se arrumar e colocar uma seleção de músicas de Halloween no último volume e então, ciente do horário, subiu para se trocar.

Ramsay estava parado à porta da biblioteca.

– Acabou de trancar? – perguntou Zoe.

– Ah – respondeu ele. – Bem. Suponho que… – Ele olhou para as chaves em sua mão. – Eu poderia trancar esta noite e depois…

– O que você tem em mente?

– Bem… O motivo pelo qual eu não deixo as crianças entrarem aqui…

– É porque elas se metem em tudo e destruiriam o seu estoque? Porque atrapalham a sua concentração? Porque você precisa dar um tempo delas?

Ele ergueu os olhos, surpreso.

– Céus, não. Livros foram feitos pra serem lidos. Eles querem ser lidos. Não. Não é… Nunca foi nada nesse sentido.

Ele revirou as chaves na mão.

– Não. Meu Deus. É onde eu guardo toda a minha correspondência… Todas as notícias e informações sobre Elspeth e a assistência social e… Você sabe. Tudo. Tudo que elas não sabem.

– Então você está pensando em deixar aberta? Deixar a luz entrar?

Ele deu de ombros. Zoe mordeu o lábio e baixou a voz:

– A Mary e o Patrick sabem… Sabem de tudo?

Ele pareceu subitamente alarmado.

– Mas eu sou o pai deles.

– Eu sei, mas…

Ele balançou a cabeça compreensivamente.

– Entendo o que você quer dizer. Eu só sempre concluí… Eles já passaram por muita coisa.

Zoe suspirou. Era errado, mas também era certo.

– E o Shackleton? Ele sabe?

Ramsay meneou a cabeça.

– É claro que não. Seria simplesmente… Seria injusto demais.

Zoe concordou. Ela compreendia.

– Ele é um bom menino, sabe? – disse Ramsay, refletindo.

– Eu sei, sim! – respondeu Zoe. – Eu amo esses seus filhos!

Sua intenção, Zoe disse a si mesma mais tarde, era que aquilo soasse leve e despreocupado, como “Eu amo toranja!” ou “Eu amo Brooklyn”.

Mas não foi assim que pareceu. Não foi nada assim, e Ramsay ficou olhando para ela com uma sede nos olhos, como se estivesse desesperado para encontrar alguém – qualquer pessoa – que se importasse com seus filhos. E Zoe sentiu as amarras se apertarem novamente – seu desejo profundo de ficar e o fato de que ela não podia. Ela não podia.

– Vou me trocar – murmurou. Então se virou novamente. – Talvez seja melhor você trancar o seu arquivo – sugeriu.

Ele concordou.

– Sim. Sim, é claro.

Capítulo oitenta e nove

 

 

Às cinco da tarde os faróis dos carros começaram a surgir na viela de entrada e estava quase totalmente escuro. Zoe colocou o vestido de tule cinza. As asas de fada eram ridículas, mas, de certa forma, muito encantadoras. Mary colocou a cabeça para dentro da porta e Zoe arrumou seus cabelos, aplicou um pó claro e um rímel preto dramático.

– Eu estou incrível – afirmou Mary.

– Está mesmo – concordou Zoe.

Ouviu-se um clamor lá embaixo.

– Certo – disse Zoe. – Você vai precisar ser a anfitriã agora.

Mary parecia nervosa.

– Você vem comigo?

– Vou.

E, pela primeira vez, Mary pegou sua mão e elas desceram as escadas juntas.

Foi impressionante ver a rapidez com que os medos de Mary se dissiparam. Zoe sorriu para Kirsty, que estava fabulosa de bruxa. Ela obviamente tinha feito uma excelente campanha de marketing – todos estavam ali; a casa tinha se tornado um grande encontro de gremlins, super-heróis, um robô que não parava de cair na escada e uns vampiros bastante barulhentos, bem como dois dinossauros.

– Caraca, Mary, sua casa é incrível – disse um duende verde.

– A gente sente falta de você na escola – Zoe ouviu outra criança dizer. – É chato. Todo mundo se comporta direitinho o tempo todo.

Zoe sorriu e seguiu atravessando a multidão. Para sua total surpresa, ela avistou uma figura com um vestido de baile francês imenso, com brocado na gola, que se projetava dos dois lados, uma peruca branca enorme e uma pinta gigantesca, com uma linha vermelha pintada no pescoço. Levou alguns segundos para entender que se tratava da Sra. MacGlone fantasiada de Maria Antonieta e que ela estava organizando a brincadeira de pegar a maçã no balde d’água com a boca. Ela acenou alegremente para Zoe, que foi até ela.

– Assim – disse ela, agitando o copo de sidra. – É assim que esta casa deveria ser.

No outro canto, crianças formavam uma fila e estavam tentando comer pão de melaço no que parecia ser uma espécie de competição guiada por Agnieszka, que acenou vivazmente. Ela estava usando um chapéu grande de bruxa, com uma peruca verde debaixo, e se achava ao lado de um homem corpulento usando uma fantasia completa de esqueleto, inclusive a máscara. Eles estavam de mãos dadas. Não dava para ter certeza, mas Zoe tinha um bom palpite de quem estaria por trás daquela máscara e por que certo barco sempre estava atracado em um lado específico do lago nos últimos tempos.

Todas as crianças sabiam exatamente o que fazer. Ocorreu a Zoe que o Halloween era bastante diferente por ali. Lá fora, uma garota pequena, vestida de lagarto, estava cantando uma música da Taylor Swift bem alto, enquanto os pais assistiam, satisfeitos.

– O que está acontecendo?

– As crianças precisam apresentar sua arte – explicou a Sra. MacGlone – antes de ganharem doces. Você não sabia disso?

– Não – respondeu Zoe, consciente dos dois dinossaurinhos parados ao lado dela.

– Eu não tenho uma alte pla aplesentar – lamentou-se um deles.

Zoe olhou para baixo e o pegou no colo.

– Você é a arte – afirmou ela – e esta é a sua festa. Então eu digo que você não precisa apresentar nada e que você é perfeito.

– Ou – exclamou o dinossauro maior – você pode contar uma piada engraçada.

Eles confabularam em sussurros altos por um tempinho, depois se voltaram novamente para Zoe, que tentou parecer atenta. Patrick cutucou Hari com o cotovelo.

– POL QUE – começou Hari, olhando para Patrick novamente.

– Pol que o dinossauro…?

– Pol que o dinossaulo…?

– Pol que o dinossauro fez “mu”?

– Pol que o dinossaulo fez “mu”?

– Não sei – respondeu Zoe. – Por que o dinossauro fez “mu”?

O dinossauro pequeno deu de ombros.

– Porque ele estava absolutamente aprendendo outra língua! – gritou o dinossauro maior, e ambos explodiram em gargalhadas, embora Zoe tivesse quase certeza de que Hari não fazia a menor ideia do significado da piada.

Então eles saíram correndo e começaram a contar a piada aos gritos para a Sra. MacGlone.

Despreocupadamente, Zoe pegou o celular para tirar umas fotos e notou um e-mail de Jaz.

Seu coração disparou enquanto ela o abria. Quando ela mandava fotos e notícias de Hari para ele, eles sempre usavam o WhatsApp. Um e-mail era algo bem incomum.

De fato, ela viu o que era. Uma lista de imóveis.

Em meio ao frio e à escuridão, Zoe saiu da casa para ler, sem querer que qualquer pessoa visse.

“Isso é o que está disponível”, dizia Jaz. “Conversei com o conselho, mas eles disseram que, como você saiu da sua última residência por escolha própria, a fila de espera seria longa.”

Zoe rolou a tela. Apartamentos no estilo estúdio, pequenos e úmidos, em ruas movimentadas. Quartos grandes, mas em casas compartilhadas com estranhos, sabe-se lá onde. E todas as opções muito, muito caras.

Ela se virou e arfou. A casa, com todos os cômodos acesos, a iluminação nas belas paredes antigas – como ela um dia pôde achá-la sombria e estranha em vez de maravilhosa? Como ela um dia pôde achar aquele lugar frio e solitário?

Tá, tudo bem, estava frio. Ela estremeceu em seu vestido de tule cinza.

De repente uma figura escura apareceu de trás das árvores, onde os carros estavam estacionados. Ramsay não estava fantasiado – o dia tinha sido longo –, mas ele se lembrara, de última hora, de uma velha máscara de fantasma que estava perdida em algum lugar da casa – sempre havia algo perdido em algum lugar da casa – e a colocara. Ele até que gostou do resultado. As pessoas o estavam cumprimentando alegremente porque não o reconheciam em vez de lhe lançar olhares encabulados, como acontecia nas raras ocasiões em que ele ia à cidade.

Todos estavam ali aquela noite, e ele estava prestes a voltar para a casa, congelando em seu terno preto, quando viu a silhueta dela contra as luzes da casa. Ela combinava com o vestido que estava usando, pensou Ramsay, sem sequer perceber que era uma fantasia até ela se virar de leve e ele ver as asas. Suas bochechas estavam coradas do frio e ele sorriu; ela estava linda. Então ele percebeu que ela estava com a cabeça apoiada na parede, de certa forma desesperadamente triste, e começou a correr.

Capítulo noventa

 

Assim que o viu, com aquela máscara estranhamente sexy, Zoe decidiu uma coisa. Se tinha que partir, se tinha que ir embora, voltar para sua vida ordinária e aflitiva em Londres, arrastar Hari para longe da vida que ele criara com Patrick, Shackleton e até mesmo Mary, então – que se dane – ela teria alguma coisa. Alguma coisa para ela. Porque tudo que estava fazendo era para os outros, e valia a pena, sim, mas de repente ela sentiu a injustiça daquilo. Por que nunca podia ter o que ela queria?

Seu rosto indicou a Ramsay que não fizesse barulho e o convidou para ir até as árvores, onde a luz se dissipava.

No meio do bosque, longe das luzes e do barulho da casa, estava silencioso e congelante. As estrelas eram como lascas de gelo lá em cima, e as árvores emitiam seu ruído farfalhante ao vento. Uma coruja chilreou, e Zoe não disse uma única palavra, apenas parou ao lado de uma árvore, recusando-se a abrir a boca, a discutir todas as dificuldades, todos os problemas.

Naquela noite ela não seria a au pair e ele não seria o patrão. Ela seria a garota do morro encantado e ele seria o estranho bonito.

Ramsay compreendeu total e imediatamente e arrancou a máscara, jogando-a para o lado.

Zoe precisou se esticar tanto que, no fim das contas, ele simplesmente a pegou nos braços e a pressionou contra a árvore para poder beijá-la melhor, e ela nem sequer notou a aspereza do tronco, o farfalhar das folhas que caíam suavemente, a mordedura do vento. Ela não tinha consciência de mais nada enquanto ele a beijava, com cuidado e concentração, muito diferente do Ramsay desajeitado e hesitante do dia a dia. Era uma revelação. A boca dele, suas mãos enormes nos cabelos dela e em sua cintura, seu peito forte. Ele era avassalador; beijá-lo era tudo, tudo que ela sempre quis.

Zoe parou, olhando para Ramsay sob o luar.

– E pensar que eu achava que você tinha uma esposa trancada no sótão.

– Ah, eu tenho – respondeu ele. – A minha outra esposa.

Ele parou ao ver o rosto dela.

– Ah, por favor – disse ele. – Me deixe fazer piada com isso… uma vez na vida.

– Eu acho – disse Zoe – que você é melhor beijando. A gente devia fazer isso de novo.

Capítulo noventa e um

 

Zoe não sabia dizer quanto tempo eles ficaram lá. Perdeu toda a noção de tempo e espaço e do mundo, e Ramsay não estava com pressa alguma, embora ambos estivessem plenamente conscientes da excitação crescente, do calor que aumentava entre eles no bosque escuro.

Ela ouviu chamarem seu nome ao longe e, aos poucos, recobrou os sentidos, embora não pudesse suportar a ideia de se afastar dele.

– ZOE!

– Deve ser uma das crianças – disse ela, reparando que estava ofegante e que a boca dele estava manchada com seu batom.

Eles olharam um para o outro, o encanto se quebrando. Ele se afastou com um grunhido profundo, mas ergueu a mão e acariciou sua face.

– Ahh!

Ela deu um suspiro.

– ZOEEEEEE!

– Fique aqui – instruiu Zoe. – Eu não posso… A gente… Você sabe.

– Ah, céus, eu sei – respondeu Ramsay.

Ela o fitou como quem pede desculpas, então saiu correndo do bosque, esfregando a mão na boca. Seu coração estava acelerado. Ó céus. Ó céus. Ela o queria tanto.

– ZOEEEEEE… – Surinder parou abruptamente. – Que diabos você está fazendo aqui fora?

– Hum, lanternas – respondeu Zoe inutilmente, mas Surinder não se importava.

Ela estava um tanto zonza.

– Zoe! A Nina entrou em trabalho de parto! Ela vai ter o bebê!

– Ah, caramba – exclamou Zoe. – Isso é maravilhoso!

– E todo mundo tomou sidra demais. Você bebeu?

– Não tomei sidra – respondeu Zoe, embora se sentisse completamente embriagada e avoada.

– Ótimo. Certo. Bom. Você pode me levar pro hospital?

– O quê? Não! Estamos no meio de uma festa!

– Não exatamente – observou Surinder.

Na verdade, as crianças já tinham comido doces e brincado de pegar maçãs com a boca e dançado ao som de “Monster Mash” o suficiente e muitas estavam descendo a viela de entrada.

– Eles se divertiram muito – disse Surinder, que estava vestida como uma enfermeira vampira sexy, o que Zoe não conseguiu deixar de pensar que poderia causar certa confusão no hospital. – Todo mundo estava querendo saber onde você tinha se metido.

– Deixe pra lá – disse Zoe. – É sério?

– VAMOS LOGO! BEBÊ A CAMINHO!

– Certo, claro – respondeu Zoe. – Venha. Me deixe pelo menos pegar um casaco!

– Não dá tempo!

Surinder a arrastou. Zoe se atrapalhou com o celular e disse apressadamente a Ramsay que voltasse para a casa e tomasse conta das crianças. Então elas foram até o carrinho verde, mas o encontraram encurralado, por todos os lados, pelos veículos das pessoas que ainda não tinham ido embora. Ramsay não tinha coordenado o estacionamento com muito esmero.

– Vou avisar… – começou Zoe.

– Não! – interrompeu Surinder. – Nós temos que ir! Ela precisa da gente! A mãe dela só vai conseguir chegar amanhã!

– O Lennox estará lá.

– Sim, tratando a garota como se fosse uma ovelha parindo. Ela precisa da gente.

Só havia uma solução. Elas entraram na van azul.

 

A viagem até o hospital foi surreal: Surinder não parava de tagarelar e Zoe tentava se concentrar na estrada à frente, sua mente fervilhando com pensamentos sobre tudo que havia acontecido aquela noite.

O pequeno hospital que Zoe sentia estar começando a conhecer bem demais estava silencioso àquela hora da noite. Surinder saltou da van e passou correndo pela porta, com Zoe a seguindo com mais discrição, desejando mais do que tudo não estar vestida de fada (ela também teria desejado, se soubesse, que sua cabeça não estivesse cheia de galhinhos), embora, quando passaram pelo pronto-socorro, elas tenham visto uma múmia de muletas e um jovem vampiro extremamente bêbado vomitando em um balde, o que a fez concluir que sua fantasia não seria nada que os funcionários já não tivessem visto.

Surinder entrou como um furacão na ala da maternidade na qual já havia passado bastante tempo, pronta para a ação, mas apenas encontrou Nina sentada em sua cama, com a cabeça enfiada em um livro de Ngaio Marsh, e Lennox perambulando pelo quarto, procurando uns trocados para a máquina de café.

– O quê?! – exclamou ela. – Cadê o bebê?

– Ah – respondeu Nina com tristeza.

– Alarme falso? – perguntou Surinder.

– Não – disse Nina. – Estou em trabalho de parto. Mas aparentemente… Bem. A parteira veio aqui, deu uma olhada e disse: “Vai demorar.”

– Ah! – exclamou Surinder. – Aaaah, imagino que não seja algo que você queira ouvir de uma parteira.

– Foi isso que eu pensei – concordou Nina. – Vi um zilhão de mulheres tendo bebê nas últimas oito semanas. E você realmente quer que termine de uma vez. De preferência, dois segundos depois da anestesia. Porque agora eu já vi muitas delas parindo.

Ela pareceu triste e suspirou.

– Ó céus. Não me diga que vai ficar tudo bem.

– Não vou dizer! – prometeu Surinder. – Ouvi dizer que o parto é como um acidente de carro.

– Ah. Obrigada.

A parteira apareceu.

– Aí está você! Agora o que você deveria estar fazendo é se mexer. Levante-se e comece a se movimentar.

– Você passou dois meses me dizendo que não era pra eu levantar um dedo! Tem certeza que essa não é uma péssima ideia?

– Tenho. Pode levantar. Comece a se mexer.

– Não me lembro mais como – grunhiu Nina. – E também acho que talvez eu precise usar pijama pelo resto da minha vida.

– Eu também pensava assim – comentou Zoe, sorrindo.

– E olhe pra você agora; você é uma fada – observou Nina, sorrindo de volta para ela. – Como estão os monstros?

– Hoje – respondeu Zoe, reflexiva – estão apenas fantasiados de monstros.

Nina ergueu as sobrancelhas e então, com certa dificuldade e um pouco de ajuda, levantou-se da cama.

– Muito bem. Vamos dar um passeio. Já estou quase terminando o livro, de toda forma.

– Tudo bem, a gente veio com a van – disse Surinder.

Por dentro, Zoe se encolheu. Ó céus. Ela realmente não queria que Nina visse a van. Não do jeito que estava; não naquele momento.

Mas o rosto de Nina se iluminou.

– Ah, que bom! Sim, por favor! Eu sinto tanta falta dela!

Ela se moveu sem muita segurança, sua barriga tão ridiculamente grande que parecia absurdo e impossível que ela sequer conseguisse estar em pé.

– Vocês se importariam – perguntou ela, ofegando, enquanto a parteira removia o monitor de batimentos – de me apoiar, cada uma em um braço?

E as três garotas saíram em direção ao estacionamento.

Capítulo noventa e dois

 

Estava congelante lá fora. Zoe não conseguiu acreditar que não tinha reparado antes.

– Eu já devia ter tido outra contração a esta altura – comentou Nina, entristecida. – É sério. Se a gente estivesse na era vitoriana, levaria cinco dias e todo mundo ficaria de luto por mim.

– Eles não pensam em induzir? – perguntou Zoe, tremendo novamente com o ar gelado, que Nina achava reconfortante.

– Querem que ele tenha a chance de… AH! – disse Nina.

– É um menino! – exclamou Surinder. – Meu Deus, sua mentirosa! Sua mentirosa de uma figa!

Nina deu um sorriso tímido.

– Eu só… Eu não… Eu não queria saber o sexo, na verdade. Juro que não queria. Mas eles fizeram tantas ultrassonografias! Eu fiquei tão entediada!

– Mas por que não me contou?

– Porque… – A voz de Nina se perdeu no ar. – Eu sei. Me desculpe. Mas… Eu sinto que é algo nosso. Meu e do Lennox. Algo tão especial que era só pra gente. Desculpe.

– Tá, beleza – respondeu Surinder.

Zoe, contudo, soltando um longo suspiro de saudade, entendia completamente. Algo entre ela e Lennox; algo tão particular, tão precioso.

Elas precisaram ajudar Nina a subir os degraus. O coração de Zoe estava na boca. Talvez o fato de Nina estar prestes a passar por um evento sísmico… Talvez isso mudasse as coisas? Talvez ela não reparasse muito?

– MAS O QUE É ISSO?!

 

– Mas a van… – disse Nina. Elas precisaram sentá-la na escada, mas ela continuava virando a cabeça para trás. – Tem… Tem toda uma “curadoria”. Argh, eu detesto essa palavra. Mas são… São livros que eu amo, e que eu sei que as pessoas vão amar. O espaço é limitado, e eu queria preenchê-lo com livros simplesmente maravilhosos!

Parecia que ela estava prestes a chorar. Zoe sentia-se absolutamente terrível.

– Tipo… Quem é que vai amar um livro de colorir do monstro Nessie?

– Todas as crianças de 5 anos que entraram na van – respondeu Zoe, mas sua voz saiu fraca.

– É tipo… É tipo suvenir! Suvenir escocês barato que você pode comprar em qualquer esquina!

– É… É o que as pessoas querem! – argumentou Zoe. – Não sou você, não consigo decifrar de cara o que as pessoas querem! Você tem um poder mágico pra isso! Eu… Eu só… Eu só achei que minha função fosse garantir que você ganhasse dinheiro.

Nina meneou a cabeça.

– Mas não vai dar dinheiro! Talvez no curto prazo, mas no longo prazo… Você precisa de clientes que voltem, que confiem em você, que saibam que você encontrará os livros certos pra eles!

– Mas lá no lago existe uma quantidade infinita de novos clientes! Que querem uma lembrança da viagem, algo para se lembrar da Escócia!

– Vender porcarias com sabor de uísque? É isso que você pensa que este país… Aaaaiii!

Nina se contorceu.

– Ó Deus – disse Surinder. – O que foi que você fez agora?

– Nada! – afirmou Zoe, sentida.

– AAAHH – gritou Nina, ofegando e se curvando nos degraus. – Caceta!

– Bem, isso é bom, certamente – disse Surinder.

Nina fitou Zoe enquanto se endireitava aos poucos. Então outra contração a acometeu.

– Ai, meu Deus – disse ela.

– Venha – disse Zoe –, vamos levar você de volta pro hospital.

Nina meneou a cabeça com veemência.

– Não consigo me mexer… Aaahhhh. DROGA!

– Vamos pegar uma cadeira de rodas pra você.

Surinder se levantou de imediato.

– Não… – disse Nina enquanto outra contração a fazia estremecer.

– Bom – disse Surinder –, eles não estão errados quando dizem que o choque ajuda no trabalho de parto.

– Fique aqui com ela – instruiu Zoe. – Vou chamar ajuda.

– E o Lennox! – coaxou Nina. – Ah, droga, droga, DROGA.

Zoe correu para dentro do hospital, voltando acompanhada por uma parteira, que pediu a Zoe para ligar a van e então acendeu as luzes para examinar Nina.

– Ah – disse ela. – Eu… Eu…

Nina gritou.

– Parece que está acontecendo bem mais rápido do que a gente imaginava…

 

Depois daquilo, tudo parecia um borrão. Zoe se afastou, sentindo que não fazia parte daquele momento, e tudo de que se lembrava era de funcionários do hospital correndo para lá e para cá e da voz incentivadora de Lennox acalmando Nina, dizendo que ela estava indo muito bem, e Zoe percebeu que ele estava falando com ela – como Surinder havia previsto – exatamente como falava com as ovelhas, e seu jeito tranquilo com os animais parecia se manifestar por conta própria, embora Nina emitisse tudo quanto é tipo de ruído e xingamento. Zoe ficou parada sob o luar congelante e olhou para o céu, lembrando-se da noite em que Hari nasceu e do medo, da alegria e da quantidade incrível de fluidos – e, muito embora ela soubesse que Nina estava sentindo dor, não conseguia se lembrar da dor, não conseguia recordá-la.

Tudo de que ela se lembrava era da força daquela alegria. Jaz não parara de tirar fotos idiotas pros amigos idiotas dele, e ela sabia, mesmo naquele instante, mesmo quando engravidou sem ter sequer conhecido os pais dele, que aquilo estava errado, aquilo estava muito errado – mas, assim que Hari chegou, ambos se fundiram, de alguma forma, não um com o outro, mas com o bebê. Ele o achou tão maravilhoso quanto ela. Ainda achava. Não havia como negar isso.

Zoe de repente ouviu um choramingo cortante e uma nova alma veio ao mundo. Ela olhou para o relógio. Meia-noite, exatamente meia-noite. O minúsculo vão por onde os espíritos conseguem se esgueirar; onde os vivos e os mortos podem se encontrar; onde os mundos colidem.

Lágrimas encheram seus olhos.

E uma outra coisa; um lembrete. De que quando Hari nasceu ela tinha jurado, diversas vezes, que não faria nada – nada – que não fosse o melhor para ele. Nunca.

E ali, em uma noite congelante de outono, em um pequeno hospital em meio a grandes morros escuros cujas silhuetas eram visíveis contra o céu estrelado, ela se lembrou dessa promessa.

De fazer o que era o melhor para ele.

Então se virou e foi cumprimentar a mamãe, que, de volta à segurança da cama quente e aconchegante do hospital, com um pacotinho embrulhado nos braços, tinha esquecido todo o rancor. Ela havia ganhado uma medalha: a das mulheres que haviam passado pelo parto, sangrado na mesma guerra.

Nina não conseguia fazer nada além de chorar e olhar para aquele rostinho e abraçar todos (e, às vezes, debruçar-se para fora da cama e vomitar).

– E aí? – perguntou Surinder. – Darcy? Heathcliff? Rochester. Willoughby. Willoughby, definitivamente. Lawrie. Gatsby. Aahh, eu gosto de Gatsby.

Nina olhou para Lennox, que olhou de volta para ela e sorriu.

– Para de palhaçada – respondeu Nina. – Este é o John.

Capítulo noventa e três

 

Zoe as deixou e voltou sozinha dirigindo a van até a casa silenciosa.

Ramsay estava aguardando por ela na cozinha, sentado no escuro sem fazer nada, apenas esperando que ela voltasse. Ele sabia que ela teria tido tempo para pensar nas coisas; tempo para refletir.

Ele olhou para seu rosto. Ela não estava sorrindo.

Zoe foi até ele, sentou em seu colo, aninhou-se no peito dele e ambos choraram.

– Eu tenho que ir – disse ela. – Tenho que ir. Uma criança precisa de uma mãe e de um pai.

Ramsay concordou, suspirando.

– E não é nada bom pra Mary, e ela vai precisar de muito apoio, você sabe disso. Ela não vai ser “consertada”.

Ele concordou novamente, afagando a cabeça dela.

– Será que podemos… Será que podemos vir visitar? – perguntou ela cheia de esperança.

Contudo, tinha a forte sensação de que, depois que retornasse a Londres, voltasse a pegar o metrô todos os dias, se desdobrasse para dar conta de tudo e pagar as contas – já que, infelizmente, naquela cidade o dinheiro parecia escapar pelos dedos –, o encanto seria quebrado. Ambos sabiam disso.

– É claro – disse ele.

– Eu acho que a Nina vai ficar bem – comentou Zoe. – Se o Lennox um dia largar o menino.

(Zoe ficou estranhamente presciente quanto a isso: Lennox simplesmente não largava o bebê.)

Ramsay balançou a cabeça de forma compreensiva.

– Ela quer as coisas do jeito dela – disse Zoe. – Eu entendo isso.

Eles não voltaram a se beijar. Não com as fotos das crianças ali na frente deles, ao redor da nova cafeteira. Simplesmente ficaram sentados ali, ela no colo dele, as duas cabeças juntas, uma pequena e uma grande, por um bom tempo.

 

Lá em Londres, em uma pequena cozinha em Wembley, as coisas estavam fervilhando.

– Mas que diabos! – esbravejou Shanti. – Que merda é essa?

Ela estava lendo o e-mail dele.

– É o que a gente pode pagar, meu bem. Isso é tudo que estou ganhando.

Shanti olhou para baixo.

– São horríveis! Eu não colocaria nem o meu cachorro em um lugar como esse!

– Mas… eu quero o garoto perto de mim! Especialmente agora que ele fala! A gente pode passar um tempo juntos, ir ao estádio de futebol, e eu posso ensiná-lo a ser DJ, e a gente pode ser amigos…

Shanti o encarou.

– Querido – disse ela –, você sabe o que a gente combinou. Você sabe o que a gente conversou sobre o que é melhor pro seu filho.

– Trazê-lo pra perto de mim – respondeu Jaz, teimoso.

– Você viu como ele está lá na Escócia.

Jaz ficou olhando para o chão.

– Você viu como ele está feliz lá.

– Mas fica a quilômetros de distância.

– Não é tão longe quanto Ibiza, meu amor.

Jaz ficou olhando para os próprios sapatos.

– Conte pra ela – disse Shanti. – Ela ficará superchateada.

– São duas da manhã.

– Conte pra ela – insistiu Shanti. – Se fosse eu, não conseguiria pregar o olho.

Capítulo noventa e quatro

 

Zoe estava sentada na cozinha, enquanto Ramsay fazia café, quando seu celular começou a vibrar. Quem é que estava mandando mensagem àquela hora da madrugada? Ah, é claro. O DJ Jaz não dormia no mesmo horário que todo mundo.

– Não preciso nem ver – resmungou ela em voz alta. – Você já venceu.

Ela abriu a mensagem mesmo assim, é claro.

“Olha. Aqueles apartamentos são uma porcaria. Vamos deixar como está por enquanto, beleza, querida? Vocês parecem felizes. Só faz o garoto parar de falar escocês e ensina ele a torcer pro Tottenham.”

Zoe levou a mão à boca.

– Meu Deus.

– O que foi?

– Ele… Meu Deus! Meu Deus!

Ela franziu a testa.

– Ele jamais vai torcer pro Tottenham.

Zoe ficou olhando para a tela, ofegante, por uma eternidade, então respondeu com uma avalanche de emojis: incontáveis coraçõezinhos e beijinhos.

– Coraçõezinhos e beijinhos? – indagou Ramsay, espiando por cima do ombro dela. – Posso ganhar também?

Ela olhou para ele. A casa rangeu, como se também estivesse prendendo a respiração. Do lado de fora, as árvores sussurravam suavemente em meio à escuridão. Foi um momento muito silencioso.

Zoe olhou para ele, enorme, à vontade, encarando-a com desejo e esperança. Ele estava absolutamente irresistível à luz da lareira moribunda da cozinha.

– Suponho que… você poderia… visitar os aposentos da criadagem.

– Você vai precisar me mostrar onde ficam.

– Pare com isso! – disse ela enquanto ele a puxava para perto.

– É impressionante – comentou ele – como você é baixinha. Tenho pensado muito nisso.

– Tem, é? – disse Zoe enquanto ele a tomava nos braços. – Direita. Escada dos fundos.

– Senhor… – murmurou Ramsay, pausando para beijá-la.

Então ele a colocou no chão, pegou as duas xícaras de café, enxaguou-as na pia e as colocou no lava-louça.

– Bem – disse Zoe –, acho que você ficaria surpreso ao saber quão afrodisíaco isso é.

– Ficaria, é? – perguntou Ramsay, pegando sua mão enquanto eles desligavam as luzes da cozinha, indicando, um para o outro, para não fazer barulho.

 

Lá em Londres, Jaz largou o celular.

– Ela respondeu? – perguntou Shanti, afagando as costas dele.

Ele meneou a cabeça.

– Ela deve achar que eu sou um babaca, brincando com ela desse jeito.

– Eu acho – disse Shanti – que, neste momento, ela te acha menos babaca do que sempre achou. E eu estou muito, muito orgulhosa de você.

Lágrimas se formaram nos olhos de Jaz.

– É que eu… Eu sinto saudade dele.

– A gente pode visitá-los – ponderou Shanti. – Você sabe que ele está melhor lá. Sabe que aquele é o melhor lugar pra ele, com espaço ao ar livre, perto de outras crianças; não sozinho em uma quitinete xexelenta. Você viu o que era melhor pra ele. E fez a coisa certa. Estou tão, tão orgulhosa de você…

Jaz se sentou e aquiesceu com a cabeça; as lágrimas escorriam por seu rosto e Shanti enterrou o rosto nas costas dele e o abraçou forte.

Capítulo noventa e cinco

 

Mary permanecia parada, parecendo encabulada, enquanto Zoe fazia uma trança em seu cabelo diante do espelho. Ela vestia um uniforme escolar novo, que parecia estar pinicando e era grande demais, e a gravata estava torta. Ela fez uma careta.

– Você está linda – garantiu Zoe. – E a Dra. Wainwright disse que você podia ir visitar a sua mãe depois da sua sessão.

– Ela gosta de escovar meu cabelo – disse Mary, reflexiva. Olhou para Zoe. – Mas não sei se ela vai voltar a falar. Será que ela vai falar um dia?

– Não sei – respondeu Zoe com franqueza. – Mas acho que nada a deixa mais feliz do que ter você por perto.

Mary balançou a cabeça compreensivamente, como se estivesse assimilando aquilo.

– Muito bem – disse ela, respirando fundo. – Escola.

– O Shackleton falou que está disposto e a Kirsty vai sair pra encontrar vocês.

Mary suspirou.

– Todos aqueles livros… Todas aquelas aventuras. Nenhuma delas acontece na escola. Acho que não acontecem aventuras na escola.

Zoe sorriu.

– Ah, Mary – disse ela, finalizando a trança com um belo laço xadrez –, eu tenho uns livros novos pra você.

Capítulo noventa e seis

 

Já é quase Natal e a geada cristalina se espalha por todo o gramado. Patrick e Hari estão encasacados como pequenos esquiadores, esperando ansiosamente na escada.

Shackleton e Mary esperam dentro de casa, sem muito entusiasmo para sair no frio. Mary está fazendo o dever de casa e conversando com as amigas sem parar no Snapchat. Shackleton está fazendo bolinhos. Eles conversam ocasionalmente.

Ramsay está na biblioteca, com a porta escancarada, trabalhando, com a lareira acesa. Os meninos estavam correndo por ali mais cedo, mas agora todos estão um pouco nervosos.

Além disso, Zoe e Ramsay não estão muito perto de contar às crianças, tendo se convencido de que elas não perceberam, o que é estranho, pois se existe uma coisa que Zoe sabe é que crianças reparam em tudo. Mas eles se encontram apenas tarde da noite e usam um dos inúmeros quartos de hóspedes vazios (eles achavam que estavam se escondendo bem, até que, certa noite, quando foram se encontrar, perceberam que a Sra. MacGlone tinha acendido um braseiro, trocado os lençóis e colocado um vaso de flores frescas ao lado da cama). É seu refúgio particular, e eles o manterão secreto pelo tempo que conseguirem.

Wullie, do vilarejo, apareceu com outra van de segunda mão e fez Zoe se sentir uma completa idiota por não ter pensado naquilo. Ela ficou tentada a pintar a van de xadrez só para chocar Nina, mas decidiu, sabiamente, não pintar. Nina está de volta a Kirrinfief, com seus clientes regulares. Ela leva John às vezes, mas Lennox arrumou um canguru de bebê e raramente vai a qualquer lugar sem levar o moleque, de modo que ela não tem achado a maternidade o desafio que esperava. E Zoe leva sua van ao lago Ness, e elas se encontram regularmente e servem de cobaias para os novos sanduíches de Agnieszka – queijo, presunto e tomate – e conversam sobre livros e bebês. Zoe não vai muito à fazenda. Ela realmente odeia aquela galinha.

Em The Beeches, o carro branco grande sobe a viela lentamente. Zoe dá um passo adiante e a porta da frente, pela primeira vez, está aberta.

Jaz salta do veículo primeiro e abre a porta de trás para Shanti em um gesto muito cavalheiresco.

Do banco do passageiro emerge uma figura curvada, levemente careca, usando terno e gravata.

Jaz dá a volta no carro, ainda – pensa Zoe – com um leve sorriso no rosto, exibindo-se de leve. Do outro lado, emerge uma mulher de rosto angelical usando um sári e um casaco pesado. Zoe teme que ela esteja com frio.

– Papai! – grita Hari, saltando para a frente, e então se paralisa ao ver os dois idosos.

Ele sabe, pensa Zoe. Ele sabe. Só não consegue processar direito na cabecinha dele.

Então ela dá um passo adiante, pega a mão dele – e a de Patrick também, porque as famílias existem em todos os formatos e tamanhos –, dá outro passo à frente e diz “Olá”.

Agradecimentos

 

Obrigada a: Jo Unwin, da JULA; Maddie West e Rachel Kahan, da Sphere and William Morrow; Milly Reilly, Joanna Kramer, Charlie King, David Shelley, Stephie Melrose, Gemma Shelley, Liz Hatherell, Hannah Wood e todos da Little, Brown; Jake Smith-Bosanquet, Alexander Cochran e a brilhante equipe da CW.

E também a: Rona Monroe, por delicadamente sugerir algo bem importante; Shirley Manson, por me dar suporte com relação à questão do monstro do lago Ness; ao lindo hotel Betsy, em Miami

(www.thebetsyhotel.com), que me emprestou o Quarto do Escritor para terminar o livro; Muriel Gray, pelos nomes das flores e por ser incrível no geral; Agnieszka Ford, que pediu que seu nome constasse no livro em um leilão de caridade – muito obrigada, Agnieszka, e oi, Sophia!

E mais: a Diretoria, Lit Mix, Laraine e meus amados Beatons.

Sobre a autora

 

JENNY COLGAN nasceu em 1972, na Escócia, e é autora de comédias românticas, ficções científicas e histórias infantis. Seus mais de 40 livros foram publicados em dezenas de países e já venderam milhões de exemplares. Jenny adora bolo, Doctor Who e livros muito, muito longos – quanto mais longos, melhor. Mora em Edimburgo com o marido, os três filhos e os cachorros.

CONHEÇA OS LIVROS DE JENNY COLGAN

 

A pequena livraria dos sonhos

A padaria dos finais felizes

A adorável loja de chocolates de Paris

Um novo capítulo para o amor

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