Um novo capítulo para o amor

Jenny Colgan · Capítulo 50 de 50 · parte 3/6

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Um novo capítulo para o amor

Parte 3

Este capítulo é longo, por isso está dividido em 6 partes.

Os dançarinos estavam ficando cada vez mais empolgados e Zoe passou por casais dançando, cambaleando e rindo enquanto tentava seguir as crianças, que estavam se embrenhando em meio à multidão de adultos, caminhando de mãos dadas como em uma longa brincadeira de roda, e tudo que ela conseguia ouvir era um resquício da risada de Patrick no ar enquanto tentava acompanhar para onde eles estavam indo.

Em um canto, ela conseguia ver a figura alta de Shackleton rodeada por garotas do vilarejo, irreconhecíveis sem os uniformes escolares, arrumadas, com os cabelos longos ao vento, as bochechas rosadas e entusiasmadas.

– Esta é a sua casa? – uma delas estava perguntando. – Tudo isto aqui?

Shackleton, todo alto e bastante elegante em seu kilt, piscou e sorriu, encabulado, e disse:

– É, sim.

Zoe revirou os olhos, deixou-o com as garotas e continuou no encalço de Hari e Patrick. Ela já conhecia praticamente todo o vilarejo àquela altura, então certamente nada de terrível poderia acontecer. Lá estavam a Sra. Murray e o velho delegado, e Lennox, em uma máscara preta que lhe conferia um aspecto sinistro, arruinado apenas pelo fato de que ele pegava o celular a cada quinze segundos para mandar mensagem para Nina, só para garantir.

Ela ainda conseguia ouvir o riso de Patrick, sobressaindo, de alguma forma, ao som bem alto da música, da dança, dos passos fortes e da crepitação do fogo, cada vez mais longe, e ela se entranhou novamente na multidão, seu vestido vermelho sendo manchado pela fuligem da fogueira, e alguém pisou na barra e o rasgou, mas ela não percebeu, visto que o tecido se esparramava atrás dela.

– Hari! Hariiiiiiii! – gritou ela em meio à multidão, empurrando homens de kilt com a cara pintada de azul e dreadlocks; garotas em vestidos longos, com os cabelos esvoaçando como sereias; jovens e velhos.

– Hari!

Mas nada além do som de um riso evanescente no ar. Zoe começou a ficar apavorada. Havia bastante gente perto da fogueira, mas se você perambulasse para os lados do bosque escuro ou das águas negras e profundas…

– Você viu o Hari? – gritou para Shackleton ao passar por ele novamente, mas ele meneou a cabeça.

Ela subiu correndo a escada da frente da casa e então se virou, com o coração na boca, para olhar além da multidão, para a água.

Desesperada, atravessou a multidão de novo, gritando o nome dele, convencida, de repente, de que seu filho havia sumido; de que, enquanto ela estava se arrumando, ele tinha atravessado as ondas rumo às profundezas do lago, tudo porque ela ousara, tudo porque passara por sua cabeça que talvez pudesse fazer algo tão impensável quanto ir a uma festa.

Longe da multidão, a escuridão e o frio fluíam no trajeto até a água, como que surgindo do nada. O vento uivava entre as árvores, que assobiavam e gemiam a seu bel-prazer; a água batia e respingava na orla de pedras.

– Hari! Hari!

– Zoe!

A voz era pungente e autoritária. Veio de trás dela. Lentamente, Zoe se virou.

Capítulo sessenta e três

 

Enquanto Zoe se virava, seu coração foi parar na boca. Será que era alguém trazendo más notícias? Alguém com coisas terríveis a compartilhar?

Em um primeiro momento, ela não conseguiu identificar a figura, apenas uma silhueta preta com o fogo rugindo atrás. Era uma figura estranha, parada a menos de três metros de distância. Zoe se aproximou e a figura se revelou, e ela quase desmaiou de alívio quando percebeu para quem estava olhando – a Sra. MacGlone, bem ereta, com um Patrick inquieto debaixo de um braço e um Hari beatífico debaixo do outro. Não parecia que o peso dos dois estivesse causando qualquer dificuldade a ela, apesar de sua baixa estatura.

– Vou colocar estes dois na cama – disse ela cautelosamente. – Não acho que esta festa seja para crianças.

– Mas a gente absolutamente quer ficar! – protestou Patrick. – Acho que a gente deveria ficar, você não acha, Babá Sete?

– Eu absolutamente não acho – respondeu Zoe; o alívio se espalhou por ela como água gelada.

Hari estendeu os bracinhos e ela o pegou e o abraçou forte; suas lágrimas encharcaram o pijama de flanela dele.

– Nunca mais fuja da mamãe! – disse ela.

– A gente não estava fugindo! – protestou Patrick. – A gente estava numa festa! Eu comi quatro salsichas e o Hari comeu nove.

– Não brinca!

– Nove – reiterou Patrick.

– Vou colocar os dois na cama – disse a Sra. MacGlone. – Eu ficarei com eles. Vá…

Só por um segundo, a luz da fogueira iluminou o rosto dela, e, se fosse qualquer outra pessoa, talvez Zoe dissesse que ela parecia melancólica.

– … Vá aproveitar a festa.

Aquilo era, de longe, a coisa mais gentil que a Sra. MacGlone já tinha dito ou feito por ela. Zoe mordeu o lábio.

– Obrigada.

– Sim.

Ela se virou, como se as duas crianças não pesassem nada, e as carregou, com Patrick tagarelando sem parar, e seguiu até a porta dos fundos da casa e subiu as escadas. Zoe os observou se afastarem, então percebeu que estava tremendo, tanto de medo quanto de frio. Chegou mais perto do fogo e se viu parada ao lado de Kirsty, que instantaneamente lhe deu um copo de sidra quente. Zoe virou rápido demais, sentindo o sangue pulsar em seus ouvidos, e esticou o braço para ganhar mais uma dose, sentindo o álcool atingir sua corrente sanguínea. As crianças estavam a salvo – pela primeira vez, parecia. Ela não precisava se preocupar. Zoe estava acostumada a se preocupar com tudo o tempo todo, cada segundo do dia. Tudo. A van. Os livros. O futuro. Hari. O futuro de Hari. O pai de Hari. As crianças. A casa. Dinheiro. Tudo.

Mas ela pensou que era como se um peso enorme tivesse sido tirado de seus ombros. Não naquela noite. Não naquela noite. Na fissura do universo, no vislumbre minúsculo entre a luz e o mergulho nos longos meses de escuridão, na véspera do Dia de Todos os Santos, o Samhain celebrava o desgoverno de quando os mortos retornavam à Terra…

Só que, no caso de Zoe, ela sentia que a morta era ela.

A música ribombava em um crescendo, cada vez mais alta, enquanto ela se aproximava do centro da festa, um palco montado perto da fogueira, ao lado da banda.

Os assustadores dançarinos vermelhos ainda estavam girando com suas tochas, mas algo estava mudando: eles tiravam a multidão do caminho, abrindo uma passagem. Na sequência, apareciam dez mulheres trajando vestidos brancos, rodopiando enquanto avançavam, jogando punhados de folhas aqui e ali, com crânios pintados em seus rostos. Atrás delas vinha a procissão, carregando uma plataforma, liderada por homens enormes de kilt berrando vigorosamente. No topo da plataforma que eles carregavam nos ombros havia uma cadeira, um trono grande e ornamentado, diferente de tudo que Zoe já tinha visto. O trono parecia uma árvore, com galhos e ramos encaracolando-se naturalmente para formar os braços e as pernas. Devia ter sido entalhado, mas parecia que tinha sido retirado do bosque exatamente daquele jeito.

Empoleirado no trono, a metros de altura do solo, bloqueando o céu estrelado, havia alguém com uma grande capa e o rosto escondido.

– ABRAM CAMINHO! – gritou um dos homens barbados em uma voz estrondosa. – ABRAM CAMINHO PARA O SENHOR DOS MORTOS, O SENHOR DO SAMHAIN!

Em algum lugar sinos repicavam, melodiosos e graves, à medida que a procissão seguia adiante, com os violinos agora tocando uma música lamuriosa intensa e longa, e Zoe olhou para cima, meio horrorizada com aquela figura. Kirsty apareceu e ficou ao seu lado.

– É esquisito, não é? – sussurrou. – Eu me assusto todo ano, mas é só o Lennox vestido de monge.

Não era o Lennox, no entanto. Ele estava em um canto, filmando para mostrar a Nina.

A comitiva chegou até o palco e, lentamente, colocou a plataforma no chão. A figura alta se levantou do trono encarando a multidão, que rugiu em aprovação, e o Senhor da Morte ergueu seu dedo grande e ossudo, e todos ficaram em silêncio. Ele deu um passo adiante; Zoe o observava, finalmente percebendo quem era a figura alta e prepotente. Ele se levantou, com o capuz encobrindo seu rosto, e pegou do trono um grande livro, de capa de couro costurada, com letras douradas na lombada, e começou a entoar, com clareza e volume suficientes para que até os últimos dançarinos ouvissem:

Mas os prazeres são como um campo florido.

Se arrancas a flor, o botão está perdido;

Ou como a neve suave que no rio cai,

Branca um instante – e para sempre se esvai;

Ou como a azáfama boreal,

Tão depressa se vai, nem parece real;

Ou como o arco-íris, a majestade

Que desaparece em meio à tempestade.

O tempo e a maré nenhum homem pode impedir.

Aproxima-se a hora em que Tom deve partir.

O poema de Robert Burns foi entoado conforme o original e Zoe não entendeu todas as palavras, mas compreendeu suficientemente seu significado enquanto o ritmo do recital acelerava:

E juro! Tom avistou uma cena estupenda.

Feiticeiros e bruxas em uma dança;

Não o cotilhão, novíssimo da França,

Mas reels, contradanças e jigas,

Bailados com vigor ao som de cantigas.

A banda começou a tocar de novo, começando uma valsa lentamente. Virando-se, Zoe viu a multidão formar um círculo e, antes que percebesse, foi arrastada para dentro dele, com um garoto de cada lado puxando-a enquanto começavam a saltitar.

Enquanto Tomas olhava, estupefato e curioso,

Amplificou-se o divertimento furioso;

Cada vez mais alto a gaita tocava;

Cada vez mais veloz a dança se tornava;

Pondo-os a girar, a pausar, a unir, a cruzar,

Até cada uma das bruxas feder e suar,

E suas roupas em farrapos extrair,

E em roupas de baixo com a dança prosseguir!

A primeira rodada para um lado, depois para o outro, então eles se dividiram em duplas e Zoe se viu rodopiada na valsa, puxada e empurrada para um lado ou para outro, movendo-se para o centro e retornando, à medida que o círculo avançava, se desfazia, se recompunha e nunca parava de se mover, e a música se amplificava, e Zoe percebia que estava exausta, e rindo histericamente, e dançando enlouquecidamente, tudo ao mesmo tempo.

E assim permaneceu Tom, como que seduzido,

E julgou os próprios olhos enriquecidos;

Até mesmo Satã assistia, de luxúria exaltado,

E estremecia e bufava com seu vigor afiado;

Até uma cabriola, e então uma segunda,

Tom foi assolado por uma insensatez profunda,

E rugiu: “Saia Curta, te congratulo!”

E em um instante, tudo se pôs escuro;

E mal havia com Maggie se reunido,

A legião demoníaca já havia partido.

Então todos os violinos berraram ao mesmo tempo e um grande sino da banda badalou a meia-noite e, naquele momento, para espanto total de Zoe, uma das mulheres de branco, com outra mortalha com capuz, atravessou a comitiva, vindo das profundezas da floresta iluminada montada em um cavalo, e galopou ao redor da comitiva com um grande cesto trançado, do qual ela retirava grandes punhados de folhas pintadas de dourado, jogando-as para trás.

Os dançarinos pararam imediatamente e partiram atrás delas, pegando as folhas douradas que pairavam no ar, enquanto ela desaparecia na floresta escura e eles a seguiam para fazer sabe-se lá o quê no bosque.

Completamente sem fôlego e desorientada, Zoe permaneceu imóvel, enquanto todo mundo passava correndo por ela, rindo e gritando e movendo-se adiante sem parar. Os músicos mudaram para uma valsa mais tranquila para os poucos que ficaram para trás. Os olhos de Zoe se voltaram para Ramsay, que, rindo para si mesmo da magnificência ridícula daquilo tudo, havia se jogado novamente no trono enorme, com uma perna dependurada na lateral, enquanto tomava longos goles de uma grande taça ornamentada que alguém tinha deixado ali.

De súbito, à luz do fogo, no palco com a casa de pano de fundo, na cadeira enorme feita da floresta, ele deixou de parecer aquela figura levemente absurda e apologética que exibia na casa, quando precisava se abaixar para entrar na maioria dos cômodos, onde seus pés eram grandes demais para os degraus das escadas, onde ele parecia sempre distraído, como se, onde quer estivesse, ele, na verdade, precisasse estar em algum outro lugar, olhando constantemente para o relógio, desaparecendo na biblioteca, sumindo da casa.

Ali, com a capa jogada para trás, um ribombo de riso em seu peito, ele parecia realmente ser a fantasia que trajara aquela noite: um senhor do desgoverno. Zoe deu um passo adiante, hipnotizada. Ele parecia alguém totalmente diferente – poderoso, no comando e… perigoso? Mas não do jeito que ela um dia pensara. Ele parecia – com as labaredas roçando a lateral da enorme casa de arenito vermelho, com as sombras que tremulavam nas paredes – mais elementar e confortável naquela posição.

E Zoe sentiu um abalo bem lá dentro – algo espesso e visceral, que ela não sentia há muito tempo, que ela achava que nunca mais sentiria. No calor das chamas e do barulho estridente, ela sentiu, como que do nada, um lampejo absoluto de desejo.

Ele não conseguia ver quem estava na frente do palco; o fogo crepitava bem na sua linha de visão. O vestido dela, ela finalmente reparou, estava quase todo rasgado do joelho para baixo e ela estava absolutamente imunda – com lama nas pernas de quando foi procurar por Hari na praia, manchas de fuligem no rosto, os cabelos desgrenhados pelo vento. Ela estava bem vermelha e, sem sequer pensar, estendeu os braços.

Ramsay, empolgado, um tanto embriagado com o espírito da noite, bem como com todo o resto, sem pensar nem por dois segundos, estendeu o braço comprido, puxou-a para cima do palco, conduzindo a bela jovem em uma dança, rodopiou-a – ele era alto o bastante para conseguir fazer isso ainda sentado – e a trouxe mais para perto.

– “Saia Curta, te congratulo” – recitou ele, puxando-a e envolvendo-a.

De repente Zoe teve a sensação mais esquisita: percebeu que estava desesperada para se ver nos braços dele, desesperada para ser abraçada por ele. Ele era tão grande e largo, e ela se viu praticamente desaparecer dentro dele, como se tivesse sido vergada em algo bem pequeno e bem seguro. Ela sentiu a batida do coração dele, seu peito largo pressionado contra o peito pequenino dela, e percebeu-se enterrando a cabeça nele. Ele cheirava a madeira queimada, a uísque, a livros, a tudo que Zoe mais queria no mundo.

Então os violinos e as gaitas estrondearam, e ele a girou e então percebeu – Zoe reparou –, para seu pavor, que a garota que ele havia escolhido da multidão era – bem, era ela.

O rosto dele, que um segundo antes era orgulhoso, bárbaro, um pouco assustador enquanto ele falava aquela língua estranha do poema que leu, ajustou-se instantaneamente, como se tivesse retornado à Terra, como se o fogo estivesse morrendo e ele tivesse se lembrado de tudo que era real, e a vida real assolou ambos.

Ele piscou e franziu a testa de uma maneira que ela reconhecia muito bem e disse, em uma voz bem diferente e um tanto gaguejante, como que se desculpando:

– Ah, Babá Sete… Digo, Zoe…

E Zoe deixou de se sentir como uma fanática rodopiante, com seu vestido de seda vermelho, os cabelos bagunçados e o coração inflamado, dançando como o vento e de pés descalços diante da grande fogueira, e voltou a se sentir a au pair londrina suja num vestido rasgado, com a maquiagem toda borrada – ela percebeu que devia estar ridícula.

– Desculpe, eu…

– Eu não queria agarrá-la – afirmou Ramsay, largando a mão dela como se estivesse quente. – Meu Deus. Me desculpe mesmo… Eu me empolguei um pouco…

Ele pareceu subitamente apavorado, como se ela estivesse prestes a acusá-lo de alguma coisa.

– É claro que foi muito inadequado. Eu…

Zoe meneou a cabeça.

– Está… Está tudo bem – garantiu ela.

Seu cérebro estava efervescendo demais de decepção e vergonha para dizer qualquer outra coisa. De repente ela percebeu como estava fria, com o vestido leve, e enquanto os foliões começavam a retornar das árvores, rindo e empunhando as folhas douradas, e começavam a formar uma fila onde se estava assando um enorme porco no rolete, ela se sentiu completamente ridícula.

– Eu… Eu vou dar uma olhada nas crianças – gaguejou.

– Hum, é claro, é claro – concordou Ramsay.

Ele ofereceu gentilmente o braço para ajudá-la a descer do palco e, enquanto se apoiava nele, Zoe não conseguia evitar se achar ridícula, não conseguia assimilar o papel de palhaça – de palhaça completa – que ela quase fez. Seu coração palpitava enquanto ela caminhava, de cabeça baixa, como que em desgraça, repetindo para si mesma que ela havia sido movida pelo álcool, pela noite. Nada tinha acontecido. Nada.

Ramsay a observou se afastar, sentindo-se mais estúpido do que nunca. Que diabos ele estava pensando? Que ridículo… Ó céus. Por um instante, antes de perceber quem ela era, ele apenas pensara que ela era… Ele tinha vergonha só de pensar. Uma aparição linda. Uma bruxa de cabelos escuros e vestido escarlate conjurada na noite de Halloween, adorável e fugidia, livre e selvagem e tão sensual…

Ele tinha enlouquecido? Ele de repente quis… a babá de seus filhos. Meu pai amado, ele acabaria nos jornais. Coçou a testa, exausto, e voltou-se para os foliões, mas o ponto alto da noite já tinha passado e não havia muito que fazer além de entreter educadamente os convidados que ainda estavam sóbrios o suficiente para conseguir ficar em pé e agradecer aos rapazes e moças locais que tinham aparecido com os sacos de lixo.

Ele não percebeu que eles tinham sido observados: o vestido branco comprido e os cabeços longos escuros de uma garotinha que poderia ser um fantasma e um espírito nos corredores; uma garota magra, sentada sozinha em seu quarto, assistindo por entre as cortinas, no escuro, sem dormir, aguardando, que havia visto tudo e, agora, tinha certeza de que o pior aconteceria.

Capítulo sessenta e quatro

 

O tempo iminente do inverno não havia detido o fluxo de turistas. Zoe costumava pensar que o turismo na Escócia, como na maioria dos lugares, seria sazonal, mas descobrira que, no geral, era bastante constante – ninguém esperava tempo bom em qualquer mês do ano, então realmente não fazia muita diferença em que época do ano você iria. E as pessoas se alegravam ainda mais quando eram agraciadas com um outono seco e glorioso ou primaveras verdejantes e desvairadas quando esperavam chuva pesada.

Então, na verdade, havia até mais turistas à medida que o tempo ficava mais fechado, e muitas pessoas gostavam da ideia de ficar sentadas dentro de um ônibus durante boa parte do dia em vez de ter que ficar andando. E a notícia da presença da van tinha começado a se espalhar: o motorista do ônibus (por vergonha, Zoe tinha certeza, de ter mentido sobre o acidente) tinha falado para todo mundo sobre a van de livros e agora havia um bocado de bibliófilos, tanto que até o motorista do ônibus (que se chamava Ross) estava considerando lançar um tour de leitura e tinha comprado vários livros e montado uma pequena biblioteca ao lado do banheiro – um lugar nada lisonjeiro, mas o espaço era limitado e era melhor do que nada.

Enquanto isso, Zoe também tinha começado a levar Shackleton junto com ela nos fins de semana (para evitar as perguntas inevitáveis de por que ele não estava na escola), colocando-o para trabalhar algumas horas na cozinha com Agnieszka.

A alegria dele em conseguir produzir bolinhos impecáveis os deixou incrivelmente felizes, e daquele dia em diante eles passaram a oferecer itens de panificação deliciosos, e Shackleton começou a ganhar um dinheirinho por seu trabalho, e Zoe ficou imensamente tocada quando ele gastou a primeira remuneração com duas fantasias de Super-Homem para Patrick e Hari, embora tenha ficado um pouquinho mais cansativo quando os garotos passaram a se recusar a tirar as fantasias sob qualquer circunstância e, quando finalmente as tiravam, ficavam sentados diante da nova máquina de lavar até estarem limpas e corriam diante do fogo com suas cuequinhas minúsculas até as fantasias secarem, unindo-se para lutar contra o crime, o que geralmente acabava com eles chutando a Mary (embora, verdade seja dita, eles quase sempre mirassem a perna boa dela).

Certa noite, Zoe os estava observando fazendo isso enquanto mexia o risoto no fogão, tentava proteger Mary – que se recusava a sair de seu lugar perto da janela enquanto lia O jardim secreto e deixava a perna pendendo no ar, o que teria, para falar a verdade, minimizado o estrago que os garotos podiam fazer, e estava, em geral, agindo assim mais para provocar do que qualquer outra coisa – e afastar Porteous, que volta e meia ia participar das brincadeiras dos meninos e depois voltava para ver se Zoe não tinha derrubado um pouco de arroz, e então saía novamente. Todos estavam tentando fazer Shackleton parar de tocar a nova música do Drake em seu laptop, tirando sarro dela sem dó, o que o estava deixando zangado e aborrecido, defendendo seu ídolo.

Ramsay colocou a cabeça para dentro da porta quando chegou em casa, com frio e cansado depois da longa jornada, com muito trabalho a fazer, e, lembrando-se bem das noites frias, raivosas e estridentes do passado, ficou surpreso ao ouvir o barulho e o riso emanando da cozinha; o calor, os aromas deliciosos e, minha nossa, aquele era o Shackleton dançando? Até mesmo a Mary estava sorrindo! Então ele se lembrou da noite do Samhain e, morrendo de vergonha, estava prestes a dar meia-volta quando…

– PAPAI! – berrou Patrick, que, por algum motivo, não estava usando nada além da cueca, que parecia ter alguns furos.

O garotinho correu na direção dele, seguido, Zoe percebeu, com o coração partindo de leve, por Hari, ambos correndo na direção da figura alta que se ajoelhava no chão.

Ah, não, pensou ela. Ah, não. Não tinha notícias de Jaz há muito tempo. Ela sabia que era terrível – ele precisava ir visitá-los, precisava. Ela mandou mensagens, mandou fotos pelo WhatsApp, mas nada.

E ela sabia que isso era ruim para Hari. Todo o restante estava melhor, ela vivia reforçando para si mesma. A casa, a companhia, o ar fresco, até mesmo a creche. Tudo. Ela estava fazendo a coisa certa.

Mas, ah, como ele precisava de um pai! Zoe virou o rosto, sem conseguir olhar, mas Ramsay, espontaneamente, sem sequer pausar o que estava fazendo, segurou a cabeça encaracolada de Hari com sua mão enorme e o puxou para ele.

– Oi, rapazinho – disse.

Zoe ergueu os olhos e não percebeu o desespero com que estava olhando para Hari até Ramsay reparar e soltar o garoto, endireitando-se.

– Hum… A janta está com um cheiro ótimo – comentou ele.

Zoe piscou.

– Quer jantar com a gente?

– Bem… Se não tiver problema.

– A casa é sua – disse Zoe de forma um tanto sucinta. – É claro que não tem problema.

Ela ainda se sentia envergonhada pela reação visceral que tivera a ele; como, em um instante, pareceu – injusta e terrivelmente – que tudo estava diferente, e ambos enrubesceram.

– Ótimo, então – disse Ramsay no exato momento em que o celular de Zoe apitou e ela olhou para baixo e viu que era Jaz.

 

Quando saiu para ler a mensagem, a primeira coisa que Zoe percebeu foi que, em algum momento – ela não conseguia lembrar quando –, ela havia parado de seguir o Instagram dele. Aquilo era esquisito. Ela costumava passar tanto tempo fuçando o perfil dele, examinando cada foto, tentando ver quem estava ao fundo, se era a mesma pessoa, a mesma garota…

Quando será que isso tinha cessado? Quando ela havia parado de pensar nele daquele jeito, preocupando-se obsessivamente ao pensar nele, como quem cutuca uma ferida que sabe que precisa deixar em paz? E agora…

“Ver o garoto, aham”, dizia a mensagem. E então: “Onde vc se meteu, cacete?”

“Escócia”, digitou ela alegremente. “Vem pra Inverness.”

“Você tá em Inverness?”

“A três horas de lá.”

“PQP.”

Ela mandou um emoji sorridente para ele.

“H. louco pra te ver.”

“Ele já tá falando?”

“Não.”

“Ok. Pelo menos não foi culpa minha.”

Zoe ficou olhando para a tela. Deixe pra lá, disse a si mesma. Deixe pra lá. Ele não sabia o que estava falando. Nunca sabia. Esse era o problema.

“Quando vc vem? Vou mandar o CEP.”

“Passa o número da casa.”

“Não tem número. A casa tem um CEP só dela.”

“Se deu bem.”

Zoe sentiu os pés congelarem sobre o piso frio da cozinha e repetiu para si mesma: não caia nessa. Não. Não reaja. Pense só no Hari. Ele é o único que importa.

“Quando?”

“Meu voo chega 11h15. Amanhã. Vou alugar um carro.”

Zoe engoliu o amargor daquela afirmação despreocupada. Simplesmente alugar um carro, do nada. Passar no cartão de crédito sem nem olhar.

“Ótimo”, escreveu ela. “Manda msg quando aterrissar.”

E então todos os pensamentos do dia se dissiparam, ela se virou e ficou olhando para a cozinha, com o coração acelerado, perguntando-se que diabos ela faria em seguida.

Será que ele iria querer ficar na casa? Ela não tinha se lembrado de perguntar. Talvez ela deixasse. Não queria maltratá-lo de forma alguma. Onde? Havia um milhão de quartos vazios… O que a Sra. MacGlone iria dizer? Ó céus, será que Jaz seria grosso com ela? Ou será que esperaria ficar no quarto com ela… Não. Não esperaria.

Ela afastou aqueles pensamentos de sua cabeça, andou de um lado para outro, jogou água fria no rosto. Quando ela deveria contar para Hari? Ele ficaria louco de alegria. Ela iria gostar de contar para ele. Por outro lado, e se Jaz mudasse de ideia? Ou o voo atrasasse ou algo saísse errado? Isso seria pior que qualquer outra coisa. Ela não ia contar e então o buscaria cedo.

Ó céus. Ela… Droga, por que ela só tinha aquele vestido vermelho idiota pra usar? Ela precisava muito cortar os cabelos; tinha simplesmente desistido de fazer as unhas; não tinha absolutamente nada para vestir… Droga, droga, droga. Não que quisesse impressioná-lo – ela já tinha passado dessa fase há muito tempo –, mas queria mostrar a ele que estava bem. Não tão bem a ponto de não precisar de dinheiro, mas… Bem. Saudável.

Será que ela podia pedir a ele de cara? Talvez devesse mandar uma mensagem para Surinder, analisar o terreno?

Ó céus, por que ele tinha que fazer aquilo com ela? Zoe marchou pela casa silenciosa, com os braços envolvendo o próprio corpo – por que fazia tanto frio? –, e entrou na cozinha abençoadamente aquecida. Ela poderia abraçar o fogão. Mal reparou que Ramsay já estava lá dentro, usando uma camisa xadrez, lendo o Times Literary Supplement, a chaleira fervilhando.

– Shackleton, você poderia finalizar a janta? – ela conseguiu perguntar.

Então refugiou-se até eles terminarem de comer e ela poder colocar os meninos na cama.

Capítulo sessenta e cinco

 

 

– Nunca pensei – disse Kirsty enquanto elas se abrigavam dentro da van em Kirrinfief na manhã seguinte – que eu daria dicas de beleza. Estou bem orgulhosa de mim mesma.

– Eu imagino – respondeu Zoe. – Eu já desisti completamente.

– Como ele é? – quis saber Kirsty. – Estou interessada de verdade. Sou casada há seis anos. Meu marido tira meleca do nariz.

– Quando?

– O. TEMPO. TODO.

– Ah – murmurou Zoe.

– Então. Um pouquinho de emoção não faz nada mal. Deixe-me ver.

Zoe abriu o Instagram de Jaz.

– Aaah – exclamou Kirsty. – Aaah, olhe só pra ele. Bem bonito. Gostei da barba.

– Essas são fotos bem produzidas – alertou Zoe.

– Eu sei. Já apaguei uns 30% de fotos minhas do Instagram. Pareço ser tamanho P em todas as fotos.

– Por quê? – indagou Zoe.

Kirsty suspirou.

– Sei lá. Provavelmente pra enganar uma garota nojenta do meu colégio que agora vive na Austrália.

– Entendi – disse Zoe, balançando a cabeça compreensivamente.

– Enfim – disse Kirsty. – Aqui está um kit completo de amostras.

– Não posso ficar com tudo isso – afirmou Zoe quando Kirsty abriu um kit completo da Avon.

– Pode, sim – insistiu Kirsty. – São da minha mãe. A melhor amiga dela se separou e se tornou revendedora Avon, minha mãe ficou com pena dela e comprou absolutamente tudo e agora a casa dela está abarrotada. Estou fazendo um favor a ela, na verdade.

– Está querendo dizer que você roubou tudo isso?

– Professores não roubam! Por falar nisso, você sabe que está chegando a hora…

– Não sei. Os períodos escolares de vocês são esquisitos.

– Certo. Bom. É a metade do ano letivo. E o prazo final do acordo. Eles precisam voltar depois disso.

– Não consigo nem imaginar – confessou Zoe. – Tenho tentado insistir pra que eles façam uns exercícios escolares, mas a Mary não faz nada além de ler e o Shackleton não faz nada além de cozinhar.

– Está brincando? Isso é incrível! – exclamou Kirsty. – Eles estarão quilômetros à frente de todos os meus alunos. É sério. Se a Mary está lendo, ela vai conseguir alcançar os demais rapidinho. Quando você lê, as portas se abrem. Todo o resto é só um colorido a mais.

– Matemática é um colorido a mais? – questionou Zoe, desconfiada.

– É claro que é! É por isso que a gente usa todos aqueles sinais esquisitos! – Ela franziu o cenho. – Vocês já tiveram notícia do Conselho Tutelar?

– Bem, o Ramsay não disse nada – respondeu Zoe.

– Não seria tão rápido mesmo – disse Kirsty. – Tsc tsc.

– Ou talvez não tenha nada de errado com a Mary e ela só esteja passando por uma puberdade precoce – sugeriu Zoe.

Kirsty sorriu quando o velho Ben entrou na van.

– Aquele livro azul já chegou?

– Sim! – exclamou Zoe, lembrando-se, triunfante. – A Nina disse que essa é a história absoluta e definitiva do Spitfire.

Ela pegou o livro de trás da pequena mesa, onde havia escondido todos os livros sobre a história de Nessie, caso os moradores locais começassem a brigar com ela e a lhe dizer que o monstro não existia.

Ben examinou o belo livro azul-marinho com atenção.

– Opa! – exclamou ele de repente. – É sobre os Spitfires.

– Excelente! – disse Zoe. – Um livro azul sobre os Spitfires!

O rosto dele ficou repentinamente triste.

– Não acho que seja esse, não.

– A Nina disse que é.

Ben franziu o cenho.

– Eu só… Eu só preciso ter certeza.

E saiu da van.

– Não sei como você não está morrendo de fome, desse jeito – observou Kirsty.

– Tenho meus métodos – explicou Zoe, olhando para a rua vazia. – Embora o sucesso na venda de livros para moradores locais aparentemente não seja um deles. – Ela olhou mais uma vez para o celular. – Ah, droga. O avião aterrissou.

– Você estava esperando que caísse?

– Nãããão! Bem… Se tivesse seguro… Nãããão. Bem. Não…

Kirsty sorriu.

– Fale com o Ramsay, tá? Fale pra ele vir falar comigo sobre a escola. Nós estamos preocupados com ele. Fico feliz que ele tenha você.

– Ele não “me tem” – retrucou Zoe prontamente, sem humor algum na voz.

– Você sabe o que estou querendo dizer, sua besta. Fico feliz por você estar lá. A Sra. MacGlone não é lá das companhias mais agradáveis. E as outras babás, pobrezinhas, não foram de grande ajuda.

– Você acha… que a mãe deles vai voltar um dia?

Kirsty suspirou.

– Ninguém faz a menor ideia, meu bem. Ninguém sabe.

Se ela não estivesse tão nervosa, seu coração teria derretido quando foi buscar os meninos, que saíram correndo da creche, ambos vestidos de piratas, com um “prisioneiro” com uma cara bastante enfezada que Zoe identificou como Rory.

– Ande na prancha! – gritou uma vozinha familiar.

Tara saiu a toda, parecendo exausta.

– Eles deram – disse ela solenemente – um bocado de trabalho hoje. Sabia que incentivaram as outras crianças a desfazer a roda de música?

– Pensei que o Hari não tivesse permissão para participar da roda de música – retrucou Zoe monotonamente.

– E aquele ali tagarelou durante toda a prática de meditação.

– Porque meditação é absolutamente idiota!

– E eu acho que eles deixaram o Rory chateado.

– NÃO DEIXARAM, NÃO – berrou o pequeno prisioneiro.

– Pois bem! – disse Tara.

– Pois bem – repetiu Zoe. – Vejo você na semana que vem!

Ela colocou os meninos no carro um tanto nervosa.

– O papai está vindo – sussurrou no ouvido de Hari.

O rostinho dele se iluminou.

– Não o meu papai, mas o papai do Hari? – questionou Patrick, que não deixava passar nada. – Ah!

Hari estava sorrindo de orelha a orelha e batendo palmas. Ó céus, pensou Zoe. Talvez não fosse ser tão ruim assim. Ela havia mandado uma mensagem sugerindo que Jaz os encontrasse na cidade, mas ele respondera na mesma hora dizendo que queria ver onde o filho estava morando, em um tom levemente imperioso que não tinha nada a ver com ele.

Ela dirigiu rápido, com medo de que Jaz chegasse lá antes dela. De fato, ela mal teve tempo de entrar na casa, retocar a maquiagem e colocar uma blusa preta, embora não estivesse quente o bastante na sombra. Ainda ficava razoavelmente bem nela.

Zoe não percebia – embora Jaz tenha notado assim que ela saiu do carro, como qualquer um de seus amigos de Londres teria reparado – que ela na verdade estava um milhão de vezes mais bonita do que em muito, muito tempo.

O ar fresco e puro tinha deixado sua face iluminada; o sol do final do verão a agraciara com algumas sardas no nariz. Todas as noites ela caía na cama exausta dos dois empregos e estava dormindo melhor do que nunca – bem como Hari, que agora se exercitava e não a acordava mais à noite, incomodado e agitado. A água cristalina, limpa e pura e o fato de ela não estar mais pintando os cabelos haviam deixado seus fios macios e brilhosos, e a alimentação saudável e simples deixara sua pele lisinha.

Mas também havia algo mais – o estresse da vida diária, de pagar o aluguel, de se preocupar com o futuro não havia desaparecido, é claro, mas estava mais leve. As linhas finas ao redor de seus olhos e a ruga em sua testa tinham se suavizado. Ela ainda estava sem grana e ainda se preocupava com o que viria pela frente, mas não da mesma forma. Não eram mais pensamentos enlouquecedores e terríveis sobre o futuro às três da manhã. Não eram as ondas de ansiedade e pânico que costumavam afligi-la quando ela menos esperava; o nervosismo de ficar diante de um caixa eletrônico, esperando para ver se o dinheiro iria sair. Não havia nada em que gastar dinheiro por ali, de toda forma.

Ela estava, pensou Jaz, enquanto saía do carrinho vermelho – não havia muitas opções –, maravilhosa. Quase como quando eles se conheceram. Se ele pensasse com mais clareza, teria lhe ocorrido que aquele lugar estava fazendo bem a ela.

No entanto, ele pensou que ela estava tentando ficar bonita para ele de propósito. Até era verdade, mas não do jeito que qualquer deles pensava.

– Oi! – Acenou ela. – Só um minuto.

 

O vento soprou os cabelos de Zoe para o lado enquanto ela se debruçava sobre o banco de trás do carro, com o coração batendo forte. Jaz voltou a olhar para a casa. Era absolutamente insana. Não tão sofisticada, quando se olhava de perto, claro, mas, mesmo assim, ele ia tirar um monte de selfies na frente dela. Legal. Enquanto olhava para a casa, dois rostinhos apareceram na janela do térreo, olhando para ele com curiosidade. Jaz olhou de volta. Ele não iria acenar. Não dava a mínima para quem eram aquelas duas crianças riquinhas.

Zoe estava debruçada sobre Hari, que chutava com as perninhas em um esforço desesperado para se libertar da cadeirinha.

– O papai – disse ela, e ele se contorceu e se debateu de alegria.

Vale a pena, disse Zoe a si mesma. Para fazê-lo feliz. Vale a pena. Tudo vale a pena.

Tentando manter uma expressão serena, ela finalmente soltou a cadeirinha e o garoto passou como um foguete por ela, virou-se e saltou.

Eles observaram – Ramsay, que estava na biblioteca e ouviu os carros chegarem, também – a figura pequenina do Hari disparar pelo cascalho barulhento, com as ervas daninhas se erguendo aqui e ali, enquanto Jaz ajoelhava e abria os braços.

Ramsay reparou que Zoe envolveu os braços no próprio corpo, abraçando-se, como que tentando se esconder, tentando impedir que suas emoções viessem à tona. Na enorme via de entrada da casa, ela parecia bem pequena lá embaixo, vulnerável de um jeito que ele não tinha reparado antes.

– HARIIIIIIIIIIII!

Jaz pegou o garotinho e o girou, e o menino jogou a cabeça para trás de alegria.

– Bom te ver, meu chapa!

Ele não é seu chapa, pensou Zoe pela bilionésima vez, mas permaneceu em silêncio. Hari estava se contorcendo nos braços de Jaz e Zoe percebeu que ele queria que o Patrick fosse conhecê-lo. Ela se virou e acenou para as crianças. Patrick saiu do carro e Shackleton, da casa; Mary não quis nem saber.

Zoe caminhou pelo cascalho.

– Oi, Jaz – cumprimentou.

Ramsay se percebeu observando para ver se eles se abraçariam, mas se perguntou por que estava fazendo aquilo (eles não se abraçaram) – então virou-se, sentindo que estava espionando, que estava fazendo algo errado, perguntando-se por que ele se importava e por que sua mente o estava levando a lugares aonde definitivamente não podia ir.

Capítulo sessenta e seis

 

– Uau – disse Jaz.

Ele não parava de tirar selfies na sala de visitas, ou de posar ao lado da armadura ou de uma das espadas dependuradas na parede, e toda vez que ele fazia isso, a Sra. MacGlone pigarreava alto na cozinha.

– Qual o problema dela? – perguntou ele em voz alta. – Ela é racista?

– Jaz – repreendeu Zoe. – Eu trabalho aqui. Venha, vamos tomar uma xícara de chá. Quer um bolinho?

– Um bolinho? – perguntou Jaz, soltando uma gargalhada. – Ah, um bolinho. É isso que você faz agora? Comer bolinhos?! Você mudou, cara. Um bolinho.

Zoe franziu a testa.

– Vai querer ou não?

Hari estava confirmando alegremente com a cabeça.

– Ah, claro, eu provo um bolinho – disse Jaz, como se aquela fosse a ideia mais engraçada que ele já tinha ouvido na vida.

Zoe sabia que aquela palhaçada toda era para esconder quão deslocado se sentia, e ela entendia – ela se sentira exatamente assim logo que chegara. Ela sempre supôs que a Escócia fosse um afloramento um pouquinho mais ventoso que a Inglaterra. Ela não sabia, nunca tinha visto como era diferente na essência, nas pedras das paredes, nas árvores e na própria terra.

Sem contar que nenhum deles crescera em casas como aquela. Nada parecido. Para ambos, a palavra “propriedade” tinha conotações bem diferentes.

– Bolinhos são gostosos – disse ela.

A cozinha estava deliciosamente quente e aconchegante, mesmo com a Sra. MacGlone mexendo na louça suja e ficando de costas para eles.

– Este é o Jaz – anunciou Zoe no tom mais alegre que conseguiu. – O pai do Hari. Ele veio fazer uma visita.

A Sra. MacGlone olhou para trás, sua boca tensionada em uma linha fina.

– Bem – grunhiu ela –, não precisa me dizer que é o pai do Hari. Cara de um, focinho do outro.

Hari enfiou a cabeça na barba do pai e ambos sorriram, e Zoe sentiu o coração vacilar.

– Vou fazer chá – disse Zoe. – Sra. MacGlone, eu vou ficar a tarde toda em casa… Posso assumir…

– Você quer que eu vá embora, não é?

– Não!

– Você sabe que eu não faço fofoca.

– Sei, sim – confirmou Zoe, que ficaria contente com um pouquinho de fofoca nas muitas noites longas, até mesmo de pessoas que ela não conhecia.

– Pois então.

Entretanto, ela se afastou da pia e colocou o casaco.

Patrick os estava seguindo e não aguentava mais esperar, então parou bem diante de Jaz.

– Sou o melhor amigo do Hari – informou.

– Ah, legal. Ótimo – disse Jaz. – Você consegue ensiná-lo a falar?

– Jaz! – repreendeu Zoe.

Ele sabia muito bem que não deveria tocar no assunto.

– Eu absolutamente gosto do Hari do jeito que ele é – afirmou Patrick, e Zoe sentiu vontade de dar um beijo no garotinho por isso.

– Venham – disse ela subitamente. – Vou botar um filme pra vocês verem.

Houve uma alegria geral com aquele regalo raro. Hari, no entanto, parecia arrasado, dividido entre duas opções maravilhosas: assistir a um filme ou ficar com o pai.

– Você pode assistir também – disse Zoe. – Estaremos aqui, tá? Só por um tempinho, enquanto conversamos.

Hari concordou e desceu do colo do pai enquanto Zoe colocava o filme. Ela havia desenterrado uma fita surrada de O mágico de Oz e um videocassete antiquíssimo para eles. Até mesmo Shackleton gostava de assistir a O mágico de Oz.

Então, finalmente na cozinha, eles estavam a sós.

– Então, quem é esse seu chefe esquisitão?

– Quanto você sabe? – perguntou Zoe.

– Só o que a Surinder me contou. Um esquisitão podre de rico que foi abandonado pela mulher.

– Hum, boa tarde – disse Ramsay, que tinha se materializado na porta da cozinha, concluindo que seria falta de educação deixar a visita esperando e querendo, por algum motivo obscuro, acabar com aquilo de uma vez.

Ele estava carregando uma pilha enorme de livros, sobre a qual apenas o topo da cabeça podia ser visto, chegando até o teto.

Zoe se sobressaltou, enrubescendo.

– Meu Deus – disse ela. – Eu não ouvi você entrar.

Ramsay piscou e procurou um lugar para colocar os livros, mas decidiu não largá-los e permaneceu parado, obstruindo a porta da cozinha.

– Obviamente.

Jaz não se acanhou nem um pouco.

– Foi mal, cara! Prazer em conhecê-lo. Sou o Jazwinder.

– Ramsay Urquart – respondeu Ramsay, estendendo a mão.

Vários livros caíram e Zoe correu até ele e catou metade do chão.

– Bela casa – comentou Jaz, olhando em volta. – Parece que a moça aqui se deu bem.

Ramsay piscou e olhou para Zoe, que ainda estava vermelha feito um pimentão.

– Ah. Desculpe, eu não sabia que vocês estavam…

– Nós não estamos – afirmou Zoe com veemência.

Jaz riu.

– Ela está adorando, de verdade.

– Então, você vai passar a noite aqui?

– Nem – respondeu Jaz. – Peguei um quarto na cidade. Volto cedo pra casa, né?

O fato de que, novamente, Jaz faria algo tão casual – reservar um quarto de hotel, em vez de economizar com hospedagem – enquanto continuava sem lhe dar qualquer ajuda financeira realmente irritou muito Zoe.

– Ah, que ótimo – disse ela em um tom sarcástico. – Um hotel. Que maravilha.

– Um hotel na Escócia – argumentou Jaz. – Qual é, isso aqui não é Ibiza.

– Eu não teria como saber – retrucou Zoe, detestando o amargor em sua voz.

Para se conter, ela entrou na cozinha e serviu o chá, automaticamente entregando uma xícara a Ramsay, que pegou sem agradecer. Jaz os fitou com curiosidade. Ramsay murmurou algo sobre ter que sair, pegou os livros novamente e tropeçou nos próprios pés ao subir as escadas. Jaz se sentou e o observou.

– Que magricela mais desengonçado – disse. – Meu Deus. Fala sério.

– Por que você está sendo grosseiro assim na casa dele? – questionou Zoe, repreendendo-o. – Não tem a menor necessidade.

– Não tem a menor necessidade disso – retorquiu Jaz. – Atravessei um bilhão de quilômetros pra ver o garoto e só estou levando patada.

Zoe respirou fundo.

– Que bom que você veio vê-lo. Você deveria dar uma volta com ele nos jardins. É lindo lá fora.

– Vou fazer isso – prometeu Jaz.

Um silêncio se instaurou.

– Então, parece que você se deu bem – repetiu ele.

– É isso que parece? – perguntou Zoe, dividida entre o desejo de mostrar a ele que estava bem e sem querer isentá-lo de suas obrigações. – Ainda bem que a Surinder existe.

– Sim, claro.

Ele piscou e desviou o olhar.

– Olha, eu queria te contar. É que… eu entrei pra firma.

Ele estava se referindo à empresa têxtil do tio para a qual Surinder trabalhava em Birmingham.

– Você vai se mudar para Brum?

– Não. Vou administrar o departamento de exportação de Londres.

– Certo – disse Zoe, perguntando-se aonde ele estava querendo chegar. – Bem, isso é ótimo.

Houve uma longa pausa.

– Então… tipo... você poderia voltar, se quisesse.

Zoe piscou.

– Como assim?

– Voltar pra Londres.

Ele passou a mão pela parte interna da gola de sua jaqueta bomber de cetim um tanto ridícula. Zoe fez uma careta.

– Não entendi. Você quer que eu vá morar com você ou algo assim?

– Ai, meu Deus… É tipo... Bem. Eu meio que pensei que você poderia encontrar um lugar pra morar e eu poderia te dar um dinheirinho. Pagar uma pensão decente. – Ele baixou a voz: – Fazer a coisa certa.

Ele estava brincando com a xícara, olhando para a mesa.

– Sei que eu não… Eu... Poxa vida, Zoe, me dá uma mão aqui.

Zoe não poderia estar mais surpresa.

– Mas… não sei do que você está falando. Pensei que estivesse viajando pra tocar em festivais, como DJ.

– Estou dizendo… Volte pra Londres. Volte pro seu emprego antigo. Eu fico com o Hari a cada dois fins de semana, ou algo assim, vou buscar na creche. Morar perto. Te dar dinheiro.

– Mas você nunca fez essas coisas quando a gente morava junto!

– Eu disse pra você que mudei. As coisas mudaram.

– O que foi que mudou?

Jaz deu de ombros. Zoe tomou um longo gole de chá. Seu coração estava apertado, embora, é claro, ela não o quisesse de volta, é claro que não.

– Você conheceu uma pessoa – disse ela por fim.

Ele deu de ombros mais uma vez.

– A gente já tinha terminado, não? – respondeu ele, tentando descontrair a conversa, embora não tivesse graça alguma.

– Você conheceu uma pessoa… que sabe do Hari – disse Zoe, tentando encaixar as peças.

A verdade a atingiu como um soco no estômago.

– Minha nossa, você está apaixonado.

Jaz parecia envergonhado como um garotinho.

– Beeeeeem…

– Está, não está?

Ele deu um meio sorriso.

– Ela… Ela me faz querer ser uma pessoa melhor – afirmou ele, como se estivesse tentando ser nobre em um filme.

Zoe bufou.

– Bem, talvez eu precise de um pouquinho mais de motivação que isso, se não se importar.

Capítulo sessenta e sete

 

Jaz estava falando seriíssimo. Assim que a verdade tinha vindo à tona, ele não parou mais de falar da nova namorada. O nome dela era Shanti, era absurdamente linda, totalmente incrível, dirigia o próprio negócio e tinha, Zoe reparou, revirando os olhos de leve, 23 anos. Ele chegou a mostrar fotos – ela era, sem dúvida, deslumbrante: cabelos longos escuros, olhos verdes grandes. Zoe se sentia como se fosse tia dela.

– Bem, isso é ótimo.

– Tudo bem por você, não é, Zoe? – perguntou ele, em um tom de quem parecia estar pedindo desculpas. – É que, tipo... a gente… é passado, né?

O passado estava sentado no cômodo do lado, escondendo-se atrás de Shackleton toda vez que a Bruxa Malvada do Oeste aparecia, mas Zoe não mencionou isso.

– Claro – disse ela. – Fico contente que você esteja feliz.

– Pois é, a gente começou a conversar sobre, tipo, tudo. A gente viu o sol nascer em Goa, e ela é superespiritualizada, sabe?

Zoe pensou que havia uma conexão forte entre pessoas espiritualizadas e pessoas que nunca precisaram revirar as almofadas do sofá em busca de moedas para colocar no parquímetro, mas conseguiu se conter e não disse isso.

– Ela me fez enxergar tudo diferente, que é um privilégio ter um filho, que eu precisava ensinar a ele a ser homem e que um homem de verdade cuida de sua família.

Zoe apertou os lábios e pensou no filho deles, seu maior orgulho, e em fazer o que era melhor para ele.

– Ótimo então – disse ela, sem deixar o sarcasmo permear sua voz ou, ao menos, escondendo bastante bem. – Vou adorar conhecê-la.

– Você vai adorá-la – garantiu ele. – Todo mundo adora.

Zoe se perguntou se ele um dia havia falado dela com tanto entusiasmo. Tinha certeza que não.

– Certo – disse Zoe. – Mas, pra falar a verdade…

Ela olhou em volta. O fogo crepitava na lareira. Ela conseguia ouvir o riso abafado no cômodo ao lado, o que provavelmente significava que o Leão Covarde tinha acabado de aparecer. Ela já deveria estar preparando o jantar.

Continuar: parte 4 de 6