Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Coisas que os livros não ensinam
-O que os intelectuais precisam se indagar é: Qual é a nossa? Como é que se pode organizar e mudar a sociedade?
Qual seria a distinção entre o desempenho dos intelectuais e o da classe operária?
-O papel do intelectual não deve nem pode ser muito mais do que tentar articular as grandes linhas para serem submetidas ao debate. Eu acho muito perigoso quando um intelectual se supõe líder, pensa que substitui o pensamento efetivo das classes. Isso dá autoritarismo. Quando você está convencido de que sabe, vai impor ao outro que você sabe. E o intelectual, quase por profissão, é o homem que pensa que sabe. Então, deve ter uma participação ampla, mas controlada. O decisivo não pode ser dado por ele, deve ser dado pelos trabalhadores, pelas associações de bairro, pelos sindicatos, pelas igrejas, etc., etc., numa interação que controla a intelectualidade.
Coisas que os livros não ensinam 8
Quantos livros você já publicou, Fernando?
-Eu não poderia dizer o número exato; teria que olhar lá no meu curriculum, mas é qualquer coisa entre doze e quinze.
E tem algum período na sua produção literária que você considera mais fértil?
-Olha, se você olhar, vai ver que o primeiro livro que eu publiquei foi em 1960, que eu escrevi durante os anos 50. É um livro de pesquisa publicado na coleção Brasiliana, aquela famosa coleção da Editora Nacional e com o qual nós ganhamos o Prêmio Fábio Prado, um livro que eu fiz com a colaboração do Octávio Ianni. Chama-se: Cor e Mobilidade Social em Florianópolis, sobre as barreiras do negro no Brasil, na região Sul do País. A esse seguiu-se um outro chamado Capitalismo e Escravidão no Brasil Meridional, que foi a minha tese de doutoramento. Pra elaborar esses dois livros, especialmente o segundo, eu levei muitos anos; foram os primeiros. Depois, daí até 80, já publiquei 15 livros. Em média, um livro em cada 18 meses. Eu diria que foi com uma certa regularidade. Mesmo agora que estou tão envolvido na vida política, continuo publicando. Possivelmente, a época em que tive mais tempo para a vida intelectual foi a que eu estava fora do país. Entre 64 e 67, no Chile. E depois 67/68 na França.
Alguma vez você viveu de escrever livro?
-Não, não é possível. Eu digo que não é possível para quem faz livros do tipo que eu faço, que são livros científicos. Talvez um ou outro romancista, cito Jorge Amado, por exemplo, tenha uma renda razoável de livros. Mas a nossa renda é muito pequena, apesar da circulação entre o público para o qual eles se destinam ser elevadíssima. Eu tenho um livro, por exemplo, chamado Dependência e Desenvolvimento na América Latina, que eu escrevi em espanhol e foi traduzido para o português, o italiano, o inglês, o francês, o alemão e está sendo traduzido para o persa e o japonês.
Então tem um livro seu que está escrito: “Tradução de fulano de tal para o português”?
-Não, não está assim porque eu mesmo revi a tradução. Esse livro, só em espanhol, já tem dezoito edições. Isso significa aproximadamente 100 mil exemplares em espanhol. E quando você vai ver a renda que um livro desses dá, é mínima. Eu devo receber de direitos autorais desse livro, no mundo hispânico, coisa de 60 mil cruzeiros por ano, já que é um livro de co-autoria com o meu amigo Enzo Faletto, e nós dividimos o que recebemos em dólar.
Mas de qualquer forma, você vive da sua atividade intelectual.
-Exclusivamente. Eu sempre vivi disso.
Como é a sua rotina de trabalho?
-Você tinha me perguntado se dava para viver de livro e eu disse que não. Mas o livro te dá um prestígio e conhecimento para que você possa ter trabalho intelectual que te remunere. E que trabalho é esse? Eu diria que há dois tipos de trabalho. Muitas vezes você faz alguns textos que não são propriamente literários e são mais técnicos, que são textos que remuneram bem. Eu funciono como especialista em matérias sobre desenvolvimento, por exemplo, às vezes para a ONU, às vezes para uma Universidade estrangeira, às vezes para um projeto de pesquisa aqui no Brasil. Um texto desses é bem pago. Conforme o texto eu posso receber de 5 a 10 mil dólares. Eu trabalho numa instituição chamada CEBRAP — Centro Brasileiro de Análise e Planejamento, que é uma associação de vários pesquisadores e intelectuais, sem ligação nenhuma com entidades oficiais. Lá nós funcionamos como uma cooperativa, ou seja, nós temos dois tipos básicos de recursos. Uns são os recursos dados à instituição para que ela, no seu conjunto, faça os seus programas de pesquisas. Quem dá esses recursos? Às vezes as Nações Unidas, agências internacionais e nacionais de financiamento de pesquisas, principalmente nos países nórdicos, como Suécia, Holanda, Canadá. Os trabalhos são publicados e eles não pedem nada em troca, porque não há um fim prático e sim cultural. Você vê que os livros te dão o aval e o prestígio para pedir os recursos dessas agências. No Brasil há duas ou três instituições que financiam pesquisas. Uma é a FAPESP, ligada ao governo do Estado de São Paulo, e que financia pequenos projetos individuais. Outra é o CNPq e outra é a FINEP, que é ligada ao Ministério do Planejamento e a que tem mais recursos para pesquisa, financiando grandes projetos. A dificuldade aí é uma só: política. Aqui as organizações não são tão isentas da pressão política como acontece nos organismos internacionais. Devo dizer que se tem conseguido verbas para projetos com uma relativa isenção. No Brasil, já começa a se civilizar o mundo científico e, com uma pressão política bloqueada, você pode viver de pesquisa.
Você já escreveu muito sobre política. De dois anos para cá, desde que se candidatou a senador em 78, passou a fazer política na rua, comícios, andando por todo lugar, como candidato. Na prática a teoria é diferente?
-Na prática a teoria é um pouco diferente, sim. Eu acho que quando você está envolvido num processo político concreto, tem que ganhar um sentido de realidade muito mais agudo, senão você tropeça. A dificuldade que eu vejo é de como guardar a fidelidade aos seus princípios e, ao mesmo tempo, transformar a ação em alguma coisa eficaz. Porque se você não guarda fidelidade aos seus princípios, você é um oportunista, ou um reles realista. E se você fica só falando em termos de seus princípios, fica um surrealista, uma pessoa deslocada, que não sabe dar o recado de uma maneira necessária, de um modo que as pessoas entendam esses princípios.
O que é que você aprendeu na prática política que você não tenha escrito em seus livros e não tenha lido em livros alheios?
-Para começar uma coisa bem geral. Quando você está fazendo uma análise, de alguma maneira, transforma as coisas, mesmo que não queira, em algo estático. Então você fecha um pouco. Na prática, percebe-se que os pontos de vista não podem ser fechados, eles têm que ter um ir e vir. Quem faz política tem que partir da idéia de que a sua opinião e a do outro são ambas modificáveis. Porque a política é justamente a mudança. Política não é simplesmente a reafirmação de um ponto de vista.
Não é uma ciência exata.
-É a mudança. Mas como é que você faz essa mudança? Isso eu acho que a gente aprende bastante, e ganha um certo sentido de humildade. Você percebe que o seu saber pode ser importante, mas ele não é tudo. E não adianta saber, se ele não convence. Para você convencer, veja a expressão que diz “convencer”, quer dizer, vencer junto. Quem tem o saber quer vencer, acredita que com uni argumento vence, demonstra. Ele tem é que fazer com que as pessoas passem pelo seu percurso também. E tem também algumas outras coisas que eu não havia escrito. A relação política, que é uma relação de poder, é muito pessoal. Nós, quando escrevemos, falamos das estruturas, das classes, dos partidos, do Estado. Quando você está na política prática, tem uma relação muito mais pessoal. E esse vencer junto implica você aumentar o seu grau de sensibilidade. Eu senti que na relação política as pessoas te consomem fisicamente, até. Te pegam. Pelo menos aqui nos países latinos. Quando você vai a um comício, ou mesmo numa reunião fechada, as pessoas te dão abraços, te dão barrigadas, te apertam, e isso tem um valor simbólico. Você vê que a relação política não é fria, tem que transmitir alguma coisa que é muito pessoal. Isso eu nunca vi escrito dessa maneira. Como é que vamos fazer política no mundo contemporâneo, se a política, em si, exige essa presença física, quase de consumo, quando esse mundo é um mundo de massas e elas são anônimas? Se você tem que usar a televisão, o grande veículo da política moderna, e através dela não há esse consumo físico? Eu acho que na política do futuro nós temos que pensar na televisão, que é um veículo que te obriga a mudar o modo de fazer política, te obriga a ser mais argumentativo, mais informal. Não fica bem em televisão aquela gritaria que se faz em comícios... E não creio que os nossos políticos tenham tido um treinamento nessa matéria, que a gente aprende improvisando.