Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Voto de oposição
Professor, dentro dessa situação em São Paulo, as Pesquisas mostram que o PMDB está na frente e uma série de analistas e observadores garantem que o PMDB ganha. Levando a coisa mais para o lado da sociologia, sob o aspecto do comportamento da população, o senhor já imaginou o Lula, governador de São Paulo? De repente, ele pode até ser eleito. Vamos pelo lado da hipótese.
-Não, não pode ser não. O PT não está organizado no Estado de São Paulo todo, não ganha porque o apoio do PT é, basicamente, o apoio da classe média estudantil, de profissionais liberais e de um segmento da classe de trabalhadores metalúrgicos. Mais alguma repercussão via Igreja, Comunidades de Base e setores de massa mais atrasada. O PT não tem condições sociológicas para ganhar, porque ele é muito segmentado, fragmentado e encurralado em setores limitados da população. Isso não é possível. Não porque o Lula seja operário, ao contrário, ele é uma pessoa com uma vivacidade fora de série, eu o conheço, sou seu amigo. É certo que ele não sabe muitas coisas. Mas quem é que sabe tudo? Será que o governador atual sabe alguma coisa? Não creio que saiba. Acho que o Lula sabe mais que ele. Não é por isso que o Lula não pode ser governador. Como pessoa, ele pode ser governador de São Paulo, tem acuidade suficiente para isso. Ele não pode por outras razões, não representa uma força social capaz de governar São Paulo. Como ele não representa essa força social, embananaria tudo. É justamente por isso que não dá credibilidade, e ele terá menos votos do que poderia ter. Se o Lula fosse candidato pelo PMDB, ele estava eleito governador de São Paulo. E governaria o Estado muito bem.
Voto de oposição 50
Na Europa os partidos socialistas substituíram os liberal-conservadores onde houve eleições. Desde a França e a Grécia, até recentemente, a Suécia e a Espanha. Parece que os social-democratas e os socialistas despertam mais esperanças como gestores da crise econômica do que os homens do centro-direita e da direita.
Nos Estados Unidos (até à hora em que escrevo esta nota) ocorre algo semelhante, embora com menos nitidez. Os democratas beneficiam-se da confiança popular, na expectativa de pôr um fim à política antisocial de Reagan.
No Brasil, dentro de poucos dias, é provável que a mesma tendência se reflita nas eleições. É claro que, com o sistema representativo em frangalhos e com uma democracia de meia sola, torna-se mais difícil espelhar pelo voto a vontade popular. Ainda assim, com a vitória do PMDB em vários Estados e eventualmente de outro partido de oposição nalgum Estado, o sinal de que o povo quer mudar reaparecerá nas urnas.
É má política, como vêm fazendo certos setores oposicionistas, tratar de diminuir o impacto democratizante e a vontade de mudança que as eleições terão. Cabe menos insistir — remando contra a maré e contra as evidências — na tecla de agrado pedessista de que PMDB e PDS são farinhas do mesmo saco, do que reconhecer democraticamente que o PMDB se tornou, na presente circunstância, o desaguadouro da insatisfação popular. E por isso vencerá, onde vencer.
Há momentos em que o processo político escapa de apreciações subjetivas e mesmo do sentido concreto, psicológico e sócio-individual dos líderes, para consubstanciar-se na expressão de uma realidade. Não cabe chorar pelo leite derramado: em 19 Estados da Federação, PMDB e PDS somados alcançam 95% das preferências manifestas do eleitorado. No Rio Grande do Sul existe um terceiro partido, o PDT, e ainda assim os dois principais somam mais de 80% das preferências. Em São Paulo, onde o PDS capota, o PMDB sozinho aproxima-se dos 50% dos votos válidos. Apenas no Rio as chances são mais eqüitativas entre os três principais partidos cariocas.