Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Ética e política
É certo que, pelo menos quanto à sub-legenda, os partidos podem e devem reagir: a lei, eventualmente, facultará, mas não obrigará. Impera, nesta matéria, entretanto, o velho maquiavelismo. Dada a oportunidade, o interesse pessoal e de diques torna-se incontrolável. Em nome de qualquer pretexto, mal escondendo-se o interesse pessoal, rebentam as ambições, atropela-se o interesse popular e violenta-se a coerência ideológica.
Isso não redime as oposições de suas culpas se elas escolherem o caminho da facilidade e da fragmentação. Queiram ou não os partidos, se não reagirem ao casuísmo buscando meios de articulação para contornar a armadilha da lei eleitoral, terão sido cúmplices do regime que aí está.
Ética e política 40
O almirante Bierrenbach declarou que ele pensa sobre a bomba do Riocentro a mesma coisa que outros cinqüenta milhões de brasileiros estão pensando. O almirante foi modesto nos cálculos. Provavelmente porque descontou· as crianças e os que não tiveram qualquer informação sobre o caso. Melhor seria dizer: pensam como ele (que nem precisou dizer o que pensava) todos os que sabem algo sobre o episódio.
O brigadeiro Délio Jardim de Matos acrescentou que se trata de fato “muito pequeno para um País tão grande”. A bomba, em si, talvez seja um fato pequeno. O IPM, sobre o qual todos pensam a mesma coisa — e calam, porque falar é pior —, não é, entretanto, um fato pequeno. Ao contrário, é a evidência de que em nosso País a política (ao menos a do Estado) espanta a ética.
Pobre sociedade. Pobre abertura democrática.
Anteontem viu-se a pirotecnia dos “slides” e provas balísticas para esconder o óbvio. Na véspera a imprensa publicara a fotografia do líder do governo no Senado votando por um colega ausente. Simultaneamente, condena-se um padre que compôs versos capazes de pôr em dúvida a honradez da Justiça que expulsou outro padre por seu comportamento aberrante.
Até quando? Até que ponto o realismo político — a necessidade de salvar as eleições de 82 — será comparsa obrigatório da mentira? Até quando o esprit de corps da instituição militar servirá de escudo para proteger os que deslustram por seus métodos a essência mesma da justificativa da existência do poder armado? O descrédito das práticas atuais corroeu tanto a respeitabilidade da palavra militar que se não houver uma reação interna corporis o desapreço da sociedade minará o eventual papel do Exército no reencontro futuro do Brasil com seu povo.
Já não são os radicais do verbo — os “termocéfalos” — os que protestam. São os próprios almirantes, brigadeiros e generais que se vêem constrangidos a nada dizer para assim dizerem tudo. Porque também há de doer, a alguns pelo menos, ter de mentir para esconder o que todos sabem.
Talvez haja tempo. Talvez os donos do poder percebam a gravidade de tudo isso. Talvez o próprio Presidente “expluda” em defesa de sua palavra. Que o façam. Não tanto pelas oposições, pela sociedade civil, pelos políticos que aceitam uma ética de responsabilidade pela qual podem elidir questões e calar para evitar o pior, mas não consentem com o prosseguimento do terror e da mentira como armas do Estado. Mas que façam por eles próprios. Para que fique uma marca que mostre às gerações futuras e à história que não queriam compactuar com a farsa.
Se os homens do governo insistirem que os fatos já foram apurados, terão uma vitória de Pirro. A sociedade responderá com descrença e indignação. Descrença da palavra dos governantes; indignação diante da tentativa de tomar a todos por beócios. À aparente unanimidade oficial opor-se-á a barreira silenciosa mas eficaz de um povo cansado de politicalha, mas pronto a acompanhar, nas urnas e quem sabe se nas próprias ruas, quem esteja disposto a mostrar na prática que a ética é dimensão inseparável da verdadeira política.