Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

IX – Crise e democracia

 

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O índice da inflação do mês passado, somado aos meses anteriores, assegura novo recorde para o Brasil: superamos nossa própria marca em matéria de inflação. É certo que na conta do mês a mês houve pequena redução. Mesmo assim, é melhor manter as barbas de molho.

Já passamos por agruras equivalentes. No passado dizia-se que tudo era culpa do governo, acusado de ser populista, empreguista, corruptor. E agora?

Seria profundamente injusto acusar a democracia, que não temos, da culpa de todos os males. Mais ainda: as políticas de contenção — a nova febre causada pela economicite aguda que bem se pode chamar de “moléstia de Freedman” — estão aí, à disposição do czar da economia. Por certo, no trópico a febre ganha outras características e alguns, mais afeitos à doença nos países frios, chegam a pensar que nosso ministro-rei padece de males menos ortodoxos do que a “moléstia de Freedman”. Nessa discussão, já não se sabe quem é o paciente, se o País, que estrebucha, ou o curandeiro, que aplica mal as ditas políticas contencionistas.

De qualquer modo, entramos aqui nos trópicos na “austeridade econômica”. É de prever, portanto, que cá, como lá, a convalescença venha com desemprego, correção do déficit público, “saudável” paralisia do crescimento e tudo o mais. Com um complicador: a maldita dívida externa que serpenteia tudo e, como um parasita, suga o elã das políticas monetárias.

Diante desse quadro é bom parar para pensar.

A crise é econômica, sim. Mas a saída dela vai mais longe. Para impor (o melhor seria, ao invés de impor, compor e convencer) nova disciplina econômica e social é preciso ter força política. Essa, nas democracias modernas e talvez mais generalizadamente nas sociedades industriais complexas, como já é a nossa, depende, muito mais do que das urnas e da autocracia, da crença de que se vai no rumo certo.

É isso que falta hoje. Confiança do povo nos governantes, dos empresários nos ministros, dos trabalhadores nos donos do poder, de quase todos em quase tudo.

Não me refiro apenas à crise — real, mas não exclusiva — que separa governo de oposição, com todas as conseqüências de um bloqueio permanente às tentativas de diálogo, que logo são percebidas como manobras para não mudar nada, fingindo que algo mudou. Refiro-me à crise mais profunda, que separa a massa dos partidos, os movimentos sociais das lideranças institucionais, cada segmento da sociedade do outro.

Não será já tempo — se é que ainda é — para armar a saída da crise através de um ato de confiança — que seja uma Assembléia Nacional Constituinte — depois de uma manifestação popular clara e explícita sobre os rumos do País e as regras para uma convivência mais decente?

Há alguns anos pensava-se que talvez a Igreja, os trabalhadores, a Universidade — dariam a saída democrática. Agora, com a gravidade da situação, não será a hora de essas forças somarem-se para exigir que governos, partidos, militares e empresários dialoguem de público com o País e proponham, sem casuísmos, um esquema de saída da crise que passe pelo consentimento popular?

Será esse um clamor ingênuo, talvez. Mas no buraco em que estamos, sem uma pitada de utopia não se vê saída, senão à custa de exploração e sofrimento, em benefício de poucos. Assim, é melhor devanear do que aceitar, com realismo, que o que é será.