Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

Fase constituinte

Existem, naturalmente, outras alternativas. Mas estas bastam para o comentário final. O problema com o discurso do Presidente é que ele saltou a primeira hipótese, colocou-se no plano verbal favoravelmente à segunda e seu governo patrocina, na política interna, a terceira hipótese.

Assim não dá!

 

Fase constituinte56

Como o senhor vê o resultado das eleições?

-As eleições mostram que houve uma negociação tácita no Brasil. Vou dar um exemplo com o presidente Figueiredo. Ele entrou na campanha e nós o atacamos, porque ele arregaçou as mangas sem ser candidato do PDS. Ele jogou seu prestígio como presidente para apoiar um partido. Esse é o lado negativo, mas há um positivo. Ele caucionou a eleição.

Quer dizer, os senhores estavam condenando a participação formalmente, mas estavam gostando dela.

-É, ele caucionou, garantiu que a eleição era para valer. Eu já disse uma vez e volto a repetir. Eu acho melhor o presidente brigando num palanque, dizendo que vai fazer e acontecer para garantir seu próprio direito de falar, do que não falando nada e baixando o AI-5.

Pelo que se entende, na sua opinião, essa fase de negociação, que todos estão dizendo que vai começar depois das eleições, na verdade já começou.

-Houve uma negociação tácita. E dentro dela houve o compromisso de que a voz popular seria ouvida.

Nesse raciocínio, o senhor reconhece o mérito do presidente em bancar o jogo...

-Claro, porque ele teve que enfrentar os setores que não queriam nada disso. Mas do outro lado houve o mesmo mérito, também. Nunca vi no Brasil uma situação em que não só os partidos de centro, mas os grupos de esquerda se comportaram tão coerentemente e tão construtivamente. A única tentativa que houve de ruptura do esforço de redemocratizar veio da extremíssima direita ululante. Foi o negócio de fazer panfletos contra o Montora, as lamentáveis jogadas contra o Marcos Freire, todas oriundas dos porões misturados com a ultradireita. Foi só a ultradireita que teve um comportamento nota zero. Os setores de esquerda, que fizeram? Concorreram, numa atitude muito construtiva.

A que o senhor atribui esse comportamento construtivo? Seria resultado ainda de um certo medo ou de um amadurecimento político do país?

-Acho que medo não foi, porque muitos dos que estão aí não demonstraram medo em momentos mais difíceis. Houve um amadurecimento, já que a própria sociedade impôs esse limite de atuação. A intuição política ensina que ou você entende onde está pisando ou escorrega. E eu acho que as oposições não escorregaram.

O senhor inclui o governador Brizola nesse procedimento geral?

-Eu o incluo nitidamente. Não tenho dúvida de que ele jogou nesse mesmo sentido. Ele até exacerbou esse comportamento equilibrado, se é que é possível exacerbar o equilíbrio.

Que o senhor pretende fazer no Senado?

-Primeiro eu vou aprender, porque nunca fui parlamentar. Segundo, eu acho que o ano que vem é importante para o debate geral e institucional, e esses temas eu posso ajudar a debater. O Senado está num patamar que dá aos parlamentares chances para articular politicamente, tanto a nível partidário como da sociedade. Acho que, hoje, quem quer ter algum papel como senador no Brasil tem que fazer um pouco como Teotônio Vilela fez. Tem que andar, tem que estar próximo ao que acontece na sociedade.