Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

Esquerda, “Beautiful People”

O senhor se alinha entre aqueles que crêem que ele não chegará ao final do mandato?

-Dadas as circunstâncias da mudança da sociedade brasileira e se for verdade o que estou comentando, que falta a ele essa linha, acho que vai ser difícil porque ele terá um Congresso combativo, uma opinião pública hostil, uma imprensa hostil, uma Igreja hostil, um operariado hostil. Só se demonstrar que não é o que a gente pensa que ele é.

Como o senhor vê a transição final do Brasil para o pleno estado de direito?

-O pleno estado de direito supõe uma Assembléia Nacional Constituinte, é fundamental. Agora, tão importante quanto isso é nós passarmos por um período de exercício de liberdades. Por isso eu acho que é um pouco precipitado tudo com relação aos partidos. Você precisa ter um momento em que a sociedade se repense, se reorganize e se reestruture. Acho que deveríamos ter um período de convocação dessa Assembléia em que as forças políticas pudessem se rearticular em função disso. Para tanto é preciso haver anistia, acabar o pacote de abril e as leis restritivas. É claro que não teremos uma democracia que perdure se não formos capazes de usar esses instrumentos todos de uma maneira coerente. Então eu digo que é preciso ter um momento de exercício de liberdade e tudo isso tem de ser cercado com uma Assembléia Constituinte, que é a tese do MDB.

 

Esquerda, “Beautiful People” 6

Quando você foi candidato, teve uma expressiva votação de esquerda aqui em São Paulo e também, com o que muita gente se surpreendeu, uma expressiva votação do chamado Beautiful People. Como é que você explica essa aliança?-Essa aliança não é peculiar a mim, nem ao Brasil. Em certas circunstâncias se dá esse fenômeno pelo lado da inovação, de alguma coisa não rotineira. O chamado beautiful people gosta do novo. E a esquerda, quando tem vitalidade, propõe algo de novo também. Então, é por aí que se juntam as duas coisas. E, por outro lado, eu sou professor e intelectual, e o Brasil é um país onde isso é valorizado. Ao mesmo tempo que pode ser uma coisa muito mal vista, pode ser também um fator de atração. Eu acho que também é pelo lado racional, ou seja, gente que pelo menos propõe alguma coisa.

Mas se a gente recuar um pouco e mesmo na sua campanha política, a sua pregação política, quer dizer, a novidade que você representava, era a de um político que fazia uma proposta até certo ponto socializante. Isso para a chamada burguesia seria uma atitude suicida, pois embarcar nessa novidade seria contrário aos seus interesses.

-Mas você sabe que, especialmente nos países como o Brasil, um setor da burguesia, do empresariado, das classes dominantes é ilustrado, passa pelas universidades, gosta de um relacionamento que não é um relacionamento a partir de seus interesses, mas a partir da sua visão do mundo. E quando não se está numa situação definitiva, e não há um confronto de classes importantes, eles arriscam bastante. Não é um fenômeno novo. A esquerda toda aqui em São Paulo tem votação nos bairros de classe média e classe média alta. Eu verifiquei os dados e descobri que os deputados mais combativos têm a grande votação aí, não na grande periferia. Isso porque, para você chegar até lá, leva tempo, precisa que os nomes sejam divulgados pelos veículos de comunicação. Enquanto nos bairros de classe média e de classe média alta, a coisa vai mais rápido. Eles aceitam as críticas. Num país como o nosso onde a desigualdade é tão grande, onde as injustiças são tamanhas, onde a concentração de renda é tão brutal, onde o Estado é tão prepotente, um setor das classes dominantes fica revoltado com isso e aceita as críticas mesmo sendo elas socializantes.

Pelo que você está dizendo, as classes menos informadas são mais conservadoras?

-As classes menos informadas, no seu comportamento dentro do trabalho não podem ser conservadoras, porque elas são exploradas e aí elas têm uma posição mais dura. Mas no que diz respeito ao conjunto das coisas, a mudança de comportamento, ela é mais conservadora.

Quando eu digo conservadora, digo a que retém por mais tempo seus valores, porque demora mais para conquistá-los.

-Não tenha dúvida. Elas são submetidas a menos fluxos de renovação.

Politicamente, não é mais fácil você encontrar um reduto janista na periferia do que no Jardim Europa?

-Certamente, certamente. Há os deputados chamados populistas, fisiológicos, alguns adesistas do MDB, vá ver onde está a votação deles. Na periferia! Isso não quer dizer que seja sempre assim. Eu fiz um grande esforço na campanha para chegar a esses lugares. Eu ia com o Lula, que me ajudou muito, nas portas de fábricas. Você se lembra como não era fácil a coisa. Quer dizer, eu sempre fui bem recebido, mas a gente percebia que mesmo o Lula não era conhecido naquela época. E o pessoal ouvia, ouvia e ia votar: Montoro. Por quê? Porque o Montoro já estava enraizado. Acredito que normalmente a inovação tem um momento em que ela parte das classes que têm ilustração, que têm uma certa cultura, etc., etc...

Que lê jornal...

-Vê a televisão, ouve rádio. Mas hoje nós temos um movimento contrário, ou seja, a Igreja, muita gente trabalhando com grupos de base, em termos de partido, e já começa a ter um certo fluxo que vem da periferia. E aí, quando isso acontecer com mais força, eu acho que a periferia vai propor os seus candidatos. Eu mesmo tive, na zona Leste de São Paulo, 300 mil votos, que é voto pra burro, para quem não era conhecido. Mas tudo isso graças à ação molecular, quase, desse tipo de gente e também de alguns deputados que têm curso grande nessa região.

 

2 Da entrevista à Revista de Política. México, maio de 1978.

3 Escrito em fevereiro de 1975.

4 Folha de São Paulo, 10 de setembro de 1978.

5 Entrevista a Jefferson Dei Rios, “Folhetim”, Folha de São Paulo, 25 de novembro de 1978.

6 Da entrevista a Oswaldo Martins, Interview, fevereiro de 1981.