Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Perspectivas da oposição
Perspectivas da oposição3
(...) É óbvio que a ampliação da frente emedebista se fará para alcançar o objetivo número um das oposições: estado de direito, anistia, Constituinte, liberdades fundamentais.
Entretanto, pelo menos para uma parte significativa das oposições, isto já não é suficiente. Será preciso não só desmistificar o jogo político atual e restabelecer a decência e a semântica (basta dizer que a escolha monárquica do presidente teria recaído, a crer em certos comentaristas, num general-candidato que seria “de centro-esquerda”...) mas também propor algo novo.
Eu acho que a maioria da população está cansada de farsa. O palavreado sobre as convenções da Arena, sobre a seleção dos candidatos a candidato aos governos estaduais, sobre os biônicos, etc. produz enjôo de estômago nas pessoas de boa fé. E acho também que é preciso dar o nome aos bois: eu sou favorável, sem subterfúgios, a um programa político para o Brasil que favoreça políticas mais igualitárias (na distribuição da renda, na divisão do bolo entre as regiões do país, no estilo de produção industrial que será implantado, etc.) e' que assegure maior participação popular nas decisões e no controle das políticas. Isso de modo amplo: não só — embora a partir daí — através de eleições diretas e da democratização interna dos partidos, mas também na discussão pública das questões nacionais. Tanto, por exemplo, na questão da localização de um aeroporto como o de Caucaia, quanto na questão atômica (pois sem que se esclareça melhor a política oficial será difícil mais tarde, quando for necessário, contar com o povo para sustentar essa política), na questão dos níveis salariais, nas questões educacionais, nas questões urbanas, etc., etc. E sou favorável também a uma política de defesa dos interesses nacionais que não confunda a nação com o Estado e que dê preeminência às aspirações populares na valorização da política nacional. Só a partir deste ângulo se completa a discussão sobre a independência econômica e o fortalecimento do Estado-nação.
Acho que já é mais do que hora de as tendências populares e substantivamente democráticas do MDB darem o passo necessário para — sem quebrar a grande frente de oposição política ao estado de exceção — ganharem o apoio estável das camadas de assalariados em sentido amplo. Ou bem as oposições políticas se reencontram com os movimentos da base da sociedade (do nascente impulso sindical, das comunidades de base, das associações educacionais, dos movimentos das mulheres e dos negros, das lutas da periferia), ou seu empenho parlamentar pela reconstitucionalização corre o risco de ficar isolado e será flanqueado pelos “diálogos”, “salvaguardas” e outros expedientes que os fabricadores da política de “centro-esquerda” do regime estão preparando.
Já não basta, para setores importantes das oposições, a denúncia das injustiças sociais e o clamor por melhores salários. Será preciso que a oposição se junte, na prática, à articulação das campanhas que a base da sociedade, especialmente os jovens e os homens da periferia, começam a encetar contra essas injustiças e por melhores condições de vida. E não me refiro apenas aos movimentos populares. Também os da classe média devem ser incluídos. Para mim o “partido dos assalariados” deve englobar as lutas do professorado, do funcionalismo público, dos médicos-empregados, dos jornalistas, enfim, de todos quantos sentem em seus bolsos e em suas almas o peso de uma sociedade injusta, desigual e cujos centros de decisão estão sempre afastados daqueles que vão sofrer as conseqüências das políticas adotadas pelas elites de poder, onde quer que se situem (nas fábricas, nas escolas, nos hospitais, na burocracia, etc.).
Tenho insistido há muito e volto a fazê-lo: não se trata apenas de propor a democratização do regime; é preciso lutar pela democratização da sociedade. E este processo é abrangente: ele vai desde a relação na família e na escola até à relação no trabalho. Democratizar substantivamente não quer dizer declinar do princípio da direção. Quer dizer que a ordem há de ser explicitada em seus fundamentos e assegurada pelo conhecimento das necessidades e pela força que só a deliberação assegura. Deliberar não quer dizer impor a partir da vontade cega (como na escolha do sucessor do presidente), mas quer dizer analisar, escolher o caminho com conhecimento de causa e compartir com os que obedecerão a decisão os elementos de juízo.