Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Ainda a Greve
Sabem também os trabalhadores de Osasco, do ABC, de qualquer grande núcleo industrial, que há um momento que é da política. Que sem ele os trabalhadores mais pobres, que são explorados pelas empresas menos dinâmicas, acabam sendo super-explorados quando não há centrais sindicais fortes e partidos políticos nacionais que os apóiem.
É por isso que o movimento dos trabalhadores da Scania, da Ford, da Volkswagen etc., mesmo sendo localizado, e mesmo estando na área em que existe um dos sindicatos mais combativos de São Paulo (o que infelizmente não ocorre em toda parte) o dos metalúrgicos de São Bernardo, tem importância nacional: o encaminhamento positivo dessas reivindicações e o fortalecimento de uma liderança independente abre as portas para a reformulação mais ampla da vida sindical brasileira e vai requerer a discussão dos problemas centrais da democratização do País.
E é por isso também que todos os que têm interesse real no fim do autoritarismo, e não se limitam a pensar a democracia como uma gaiola de cristal para fazer resplandecer o interesse das oligarquias e das elites, saúdam no movimento dos trabalhadores paulistas os sinais de um amanhã mais promissor. Que chegue logo, pois todos queremos democracia, já.
Ainda a Greve 18
A esta altura tudo de relevante já terá sido dito sobre a greve do ABC. Não obstante, o tema da greve ainda é a grande questão. Por quê?
Porque não é São Bernardo apenas que está em jogo; não é apenas a incrível resistência de uma categoria profissional que ultrapassou o mês à mingua de trabalho, de salário e de esperança de diálogo; não se trata sequer da fusão momentânea, em São Bernardo, de tudo que a sociedade possui de mais sensível à hora e à necessidade de mudança: nunca se viu a Igreja e políticos, jornalistas e sindicatos, partidos e demais entidades da sociedade, civil tão unidos como agora para forçar uma solução que não se resuma ao categórico “não” do governo e dos empresários. Mas não é só isso: é a decisão sobre o reconhecimento da legitimidade dos trabalhadores como parte do País que está em jogo.
É este o ângulo crucial da questão. Por certo os líderes sindicais do ABC e a massa operária recorreram à greve porque têm de defender o nível salarial alcançado e precisam lutar com empenho para evitar que novo arrocho despenque sobre eles e sobre o resto dos assalariados brasileiros. Mas os que imaginarem quê a reivindicação de São Bernardo se esgota aí e que a prisão dos líderes é suficiente para desarticular os trabalhadores não terão compreendido que nos anos de resistência democrática e agora de lutas sociais, os trabalhadores aprenderam que para alcançar esse objetivo precisam assegurar sua identidade e sua autonomia. A luta de São Bernardo é também a luta pela dignidade do trabalhador e pelo direito do operário ser reconhecido como parte deste País. Cidadania, tanto quanto mercado; política no mais generoso sentido, tanto quanto sobrevivência econômica. Desapareceu a fronteira entre o sindical e o político.
E tudo isso, queiram ou não os caçadores de bruxas, vem de um sentimento muito generalizado, que passa por cima das diferenças partidárias e dissolve as questiúnculas entre as organizações semi-legais. A decisão da greve e sua duração não podem reduzir-se às “explicações” que as atribuem ao comportamento personalista do Lula e a influências estranhas ao meio operário. Por certo, estes fatores existem. Mas não jogam o peso decisivo que maldosamente lhes atribuem.
Pode-se questionar o acerto das lideranças; pode-se indicar o vezo de palavras de ordem arcaicas de organizações políticas que vêem na greve o início da revolução social. Nada disso explica a duração da greve, a solidariedade real que existe entre os trabalhadores. Vê-se hoje no ABC, e especialmente em São Bernardo, o nascimento do espírito da comunitas de modo muito vivo. E é isso que dá à presença da Igreja o fulgor inegável. Mas, de novo, enganam-se os que pensam que o bispo instiga e o cardeal comanda. A Igreja fornece apenas a moldura; dentro desta o espírito que frutifica é o da igualdade mística num nós coletivo que dissolve momentaneamente hierarquias. É o Alemão chamando de “você”, pelo telefone e diante de toda a polícia e a imprensa, o líder empresário; é o operário que ao reconhecer Ulisses Guimarães grita, chamando o inabitualmente pelo sobrenome, “nós não estamos sós”; é o bispo que se traja comumente e é percebido como irmão; e, no limite, é o informalismo e o quase alívio da relação entre a massa e a Polícia Militar depois da ordem de permitir a passeata e o comício do 1º de Maio.
Os que testemunharam as assembléias da Vila Euclides e os que se deram conta da rápida mudança que se processou quando, depois da retirada da polícia, ainda com os olhos lacrimejantes das bombas de gás, os operários começaram a confraternizar e, mais do que a “marchar”, a caminhar na direção do estádio, viram que a dimensão lúdica — de festa — coexistiu com a 'decisão firme de manter a greve.
Basta não ser cego pelo reacionarismo passadista dos que estão afinados a uma concepção de sociedade que não pode sobreviver ao mundo industrial moderno, para perceber que a reivindicação de São Bernardo transcende à fábrica e ao partido: é o batismo de cidadania de uma massa jovem, trabalhadora, nordestina em larga proporção, urbana e combativa, democrática e, no limite, radicalmente contra as estruturas de opressão na sua integralidade — sociais, econômicas e políticas.
Talvez o governo derrote momentaneamente São Bernardo. Lula está preso e com ele valiosos líderes. Pesa-lhes a ameaça da cassação atual: o enquadramento na Lei de Segurança veda-lhes o caminho institucional dos partidos e dos sindicatos. A sociedade é frágil — ou melhor, seus setores democráticos o são — para dar um basta a mais esta onda de arbitrariedades: O próprio movimento operário não foi capaz de impedir que as lutas se circunscrevessem ao ABC. Com isso, o Sistema recria os inimigos de que necessita: joga fora da Lei — mas que lei é esta, meu Deus? — os porta-vozes da reivindicação social e democrática.
Mas do rescaldo sobrará o essencial: o sentimento de autoconfiança dos trabalhadores e a capacidade que desenvolveram de comportarem-se como massa que pressiona.
Deu-se assim, nesta greve, um passo decisivo para a constituição de nova ordem política. No momento em que Igreja e grandes lideranças da oposição institucional vão à assembléia dos grevistas — dita ilegal pelo governo — e, juntas, reagem à arbitrariedade do Sistema que quer seqüestrar as lideranças operárias, mais do que prendê-las e obrigam ao reconhecimento de uma formalidade, a ordem de prisão, nesse momento a Lei começa a emergir como a possibilidade de futuro. Contrasta com esta atitude o vaivém de um Tribunal do Trabalho que se desdiz sob pressão oficial, e do próprio Superior Tribunal Militar que fecha os olhos à forma arbitrária das prisões e nega o habeas-corpus.
(Mesmo neste caso, houve duas vozes de protesto e um relator que se justificou na televisão alegando que os advogados não argüiram este aspecto da ilegalidade no requerimento do habeas-corpus.)
É de lastimar (embora não surpreenda) que, diante deste quadro de reivindicação democrática, não tivesse emergido o apoio decidido sequer dos setores empresariais habitualmente menos cegos pelo autoritarismo e pelo interesse econômico imediato. Eles sabem, tão bem quanto os operários, que o que está em jogo não são os magros 7% a mais ou a menos nos salários, que um mês de inflação consome. Sabem que da agenda de reivindicações operárias quase tudo refere-se a procedimentos e não a cruzeiros. Procedimentos, diga-se de passagem, corriqueiros nos países sede de muitas das empresas envolvidas na crise. Sabem também que o argumento de que é preciso quebrar a crista do movimento operário para controlar as pressões sociais que virão é o mesmo invocado para passar pitos em empresários independentes: o da força, como razão de Estado. Não obstante, calaram e com isso comprometeram a saída democrática para este tipo de impasse no futuro.