Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Frente eleitoral de oposição
Fosse só este o diagnóstico e não haveria perigo, mas certeza. Não há mágica que transforme 30% em parte maior do que 70%, e é este o resultado das pesquisas eleitorais; o PDS, com manobras ou sem manobras, mesmo somado ao PTB, não passa de um terço do eleitorado.
É por isto que há perigo à vista: no desespero, os donos do poder tratam de convencer os militares e o País de que existe “radicalização” e “confronto”. Como se não vivêssemos hoje época diferente dos anos 60 e 70. Como se a oposição, hoje, fosse principalmente ao “sistema” ou mesmo ao “regime”. Os 70% que esperneiam, fazendo contra este governo, contra este PDS. E a linguagem da oposição, durante a campanha, será menos a de crítica genérica ao autoritarismo e mais de crítica ao preço do feijão com arroz que não pára de subir, ao aluguel que aumenta, aos impostos incessantes e à corrupção sem freios.
Não há razão para as Forças Armadas assumirem o ônus de uma dívida com a nação que não é a delas, mas da oligarquia que ocupa o poder. Para evitar este perigo — o da oligarquia enganar as Forças Armadas e o país — é necessário vigilância e ação das oposições. Coerente. Firme. Responsável. Para que se chegue às eleições e para que o país sinta que os ganhadores governarão com competência em favor do povo e do país.
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Em política, não basta querer. É preciso poder. Muita energia se despendeu para mobilizar os novos partidos. O PP, glamouroso, parecia ser o barco seguro do setor mais ilustrado da burguesia liberal e de setores das classes médias educadas. O PMDB pintava como uma possibilidade: não seria, talvez, o partido puro dos sonhos de muitos; nascera do berço esplêndido da oposição ao regime mais do que do impulso de movimentos sociais, mas aprumava no rumo de um partido democrático de massas.
Assim foi, e até com garbo: a decisão de não aceitar o janismo deu força àqueles que viam o PMDB no caminho de fortalecer-se como partido.
Ninguém, conhecedor dos meandros da sociedade, imaginava que o caráter de partido, no caso, equivaleria à inexistência de correntes internas de opinião. No limite elas poderiam ser — e eram — até conflitantes. Nem se imaginava que o caráter classista predominasse com exclusividade. Mas, em que sociedade moderna existem partidos democráticos, mesmo socialistas (e até alguns comunistas) que sejam exclusivamente de uma classe? A pitada de modernidade do PMDB não estaria precisamente no policlassismo e na capacidade de conviver cornos movimentos sociais sem ser canal exclusivo deles?
Hoje, feita a incorporação do PP no PMDB, estas cogitações parecem anacrônicas. A nau pepista encalhou no “pacotão” eleitoral e não teve outro jeito senão buscar o calado de uma aliança com o PMDB. Formou-se, de novo, a frente eleitoral contra o governo.
Não houve, contudo, uma volta a 1978. Hoje a frente é contra uma oligarquia desgasta da, dividida internamente pelo problema da sucessão, isolada, em parte, de sua base anterior de apoio, tanto no mundo dos negócios como nas Forças Armadas. A batalha eleitoral que se travará será contra este arremedo de Sistema: contra a corrupção eleitoral, contra o personalismo prepotente dos Maluf e Antônio Carlos, contra a volúpia de poder dos pequenos grupos encastelados no Estado.
Só que há a circunstância: a luta eleitoral trava-se num ano de queda do PIB, de desemprego, de expansão dos meios de pagamento apesar dos esforços recessivos, de dívida externa galopante e de projetos econômicos grandiosos, mal formulados e parcialmente fracassados.
Ou seja, se não deu para assegurar nestes dois anos de pluripartidarismo partidos de verdade (salvo, talvez, o PT: a ver nas eleições), tornou-se mais evidente, pelo menos, que os donos do poder (estes sim) são guerreiros cansados. E politicamente sem rumo.