Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

O sol e a peneira

Diante disso, o histrionismo janista é bicicleta competindo com avião a jato, e a mobilização direta nos comícios é carro de boi querendo ganhar de automóvel.

É este o desafio que as oposições enfrentarão na campanha eleitoral. Ou elas rompem o monopólio que o PDS tem na TV e criam, paralelamente, formas de arregimentação mais afins com uma sociedade urbana e de massas, ou competirão melancolicamente entre si para ver quem faz melhor o que se fazia noutras épocas para ganhar eleições.

Enquanto isso, o PDS vai correndo por fora da raia, montado num cavalo alimentado às custas de todos.

 

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O saber e a vontade de poder não são coincidentes. No dia-a-dia, o conflito é suportável; em momentos cruciais, entretanto, pode produzir curto-circuito. Esse tipo de tensão é inescapável. Melhor, portanto, assumi-la do que tentar escamoteá-la. Acaba de ser publicado um livro sobre o chaguismo (Eli Diniz, Voto e máquina política), a respeito do qual valem as considerações acima. Ao estudar a generalização da prática de favores, a autora mostra como o clientelismo chaguista mina pela base a democracia. Esta requer partidos abertos à militância e sem controles oligárquicos, independência entre os poderes, valorização das questões políticas gerais, regulamentação objetiva de direitos e acesso aberto e eqüitativo às benesses do Estado e da sociedade. Nada disso pode coexistir com o chaguismo.

A alguns pode parecer “inoportuno” um estudo sobre o chaguismo no exato momento em que o “mal maior”, a Sra. Sandra Cavalcanti, ameaça levar de roldão o PMDB, envolto na trama do chaguismo depois da fusão com o PP. Não penso assim. Nem penso que o apoio ao candidato do PMDB no Rio requeira, para ser justificado, que se tape o sol com a peneira.

Em São Paulo, de igual modo, para justificar a diversidade de partidos de oposição, não se deve minimizar os riscos do malufismo, que constitui versão aproximada e moderna do chaguismo. Está se gerando no Estado o que chamei nesta coluna de “populismo eletrônico”. À prática de favores e à corrupção ao velho estilo, deu-se um toque de modernidade. É através da TV que se procura inculcar na massa a imagem de um governo populacheiro e “com finalidade social”.

Sob o impulso do capitalismo triunfante (monopólico, selvagem ou o que se queira, mas triunfante), o malufismo é a cara moderna da dominação tradicional. Ele se insinua com o sorriso larvar da vitória televisiva, aperta as tenazes da pressão da máquina administrativa nos municípios e esbanja favores, comendas e facilidades corruptivas. Nada disso é novo, salvo a escala. E o fato de que o malufismo está fincado na burguesia e encontra eco no povo anestesiado pelo mass-media. O empresariado preferiria a liderança esclareci da do Dr. Setúbal (especialmente depois que ele se afastou da liça...). Mas engole, tapando ou não o nariz, dependendo do estômago de cada um, a liderança de Paulo Maluf. E as pesquisas eleitorais mostram que o referido senhor abocanhará votos nas sofridas periferias das grandes cidades.

Reconhecer que o PDS e o malufismo são o inimigo principal não obriga a negar as diferenças e a legitimidade das opções oposicionistas. É ocioso discutir se o PT deveria ou não existir e atuar: ele existe e atua. Seu lugar ao sol não desaparecerá com a cortina de fumaça das palavras. É descabido imaginar que o PMDB não representa um amplo espectro de opiniões oposicionistas socialmente enraizadas. Ele não desaparecerá com a lufada de acusações nem virará partido da ordem ao sabor das críticas.