Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

IV – O ABC da participação

 

Os trabalhadores e a democracia 17

Há tempos não se ouvia falar de greve. Para muitos, para os muitos ricos e conservadores e para os pobres de espírito, isto era um sinal de ordem. Para a maioria dos brasileiros, já cansados de tanta arbitrariedade e soluções de fôlego curto, era apenas sinal de que as amarras do autoritarismo, embora mais estridentes no Parlamento castrado, na imprensa censurada, nas prisões inchadas, estavam bem assentadas na fábrica, no mundo do trabalho.

De repente, com vigor, mas sem alarido, com firmeza e sem provocação, espocaram greves no ABC. Seriam “selvagens”? Seriam espontâneas? Estariam os sindicatos por trás ou seriam fruto da ação de algum partido encapuzado? — foram as primeiras indagações propostas. E mal-propostas. Não foi nada disso e foi tudo isso: é a democratização em marcha, em dura marcha batida, a partir dos pés do povo, de cada um de nós, de todos os que não são direitistas empedernidos ou exploradores sem grandeza. Renasce o movimento sindical, renasce a esperança por dias melhores, renasce o afã de organizar, falar, propor alternativas, negociar. Sem medo, com firmeza, com esperança.

Agora sim, pode-se começar a falar de democracia, sem adjetivá-la. Ela vem da base, da demanda de mudanças por parte dos que estão cansados de tanta equação matemática do salário perfeito. Não foi só o arrocho salarial por anos a fio, a utilização do PIS e do Pasep para financiar as empresas (até mesmo para ajudar a especulação financeira) ao invés de melhorar as condições de vida dos trabalhadores, o Fundo de Garantia para desestabilizar o emprego através das despedidas rotativas da mão-de-obra, etc. Foi também o peso surdo de uma ordem política e de um clima de desrespeito aos trabalhadores no cotidiano da fábrica, que garantiu o “rigor” das equações ministeriais. Ridículos tecnocratas que luziam fórmulas matemáticas para melhor comprimir os salários, como se as equações enchessem barrigas. O voto, de agora em diante, ao contrário do que dizia a demagogia populista, vai encher as barrigas. Democracia, sim, partidos sim, eleições diretas, sim. Mas para tirar do Congresso e das Assembléias, enquanto não se pode tirar dos governos, os que defendem a teoria do “primeiro acumular para depois dividir”.

Subordinação dos sindicatos aos partidos? Manipulação eleitoreira através de projetos de efeito para iludir os trabalhadores? Basta ouvir a voz direta, ríspida, dos líderes sindicais: nem os partidos, nem os que pensam que sabem o que os trabalhadores devem fazer encontram ressonância nos Lula, nos Gonçalves, nos lideres das oposições sindicais, e muito menos em suas bases. A greve não lhes foi concedida por decreto. A inteireza das reivindicações e sua simplicidade — melhores salários para permitir uma vida decente — não surgiram de qualquer panfleto. Vieram da dura experiência de anos de opressão e exploração. E vêm com o sopro forte do novo e do autêntico.

Os sindicatos vão ao cerne da questão política: sem cortar o nó górdio da tutela do Ministério do Trabalho e sem assegurar, mesmo frente aos partidos, a independência relativa dos trabalhadores, a manipulação desfigura as lutas, as reivindicações viram concessões e com a mesma mão que são dadas podem ser retiradas.

Por certo não se pode encarar esses temas com simplismos. Os trabalhadores não reivindicam que, de repente, suas esperanças por melhores condições de vida e pela mudança da sociedade fiquem à mercê da relação direta entre patrões e operários. Sabem que o grosso dos trabalhadores não dispõe dos mesmos recursos de luta com que contam os trabalhadores das grandes fábricas modernas do ABC. E sabem também que a sanha patronal, em média, pode ser tão ávida quanto é castradora a ação do Ministério do Trabalho. Ninguém propõe a eliminação da Justiça do Trabalho, nem se pretende acabar com o salário mínimo. Longe disso. É preciso elevá-lo. Mas, a partir de um porcentual geral de aumento e de certo nível de salário mínimo, as negociações entre sindicatos de operários e de patrões devem operar livremente.