Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
A crueldade da história
A crueldade da história 15
Na semana passada, em Paris, encontrei-me com Raymond Aron num almoço em homenagem a Albert Hirschman, que fazia naquele dia a conferência “Marc Bloch” na Escola de Altos Estudos. Aron, a propósito da guerra das Malvinas, desvanecia-se com sua vitória teórica: uma guerra na qual a volúpia do poder, o nacionalismo e a vontade (que levava a equívocos) imperavam sobre a economia, a razão e as classes. Será?
Não há dúvida quanto às circunstâncias precipitadoras da guerra. O fracasso continuado do regime militar argentino na condução do país levou os dirigentes a projetarem sobre as Malvinas a esperança de um reencontro entre a ação do governo e o sentido histórico. Nada disso diminui a crueldade dos acontecimentos e os caminhos tortuosos que escondem o fio condutor da ação. Um exército que nega a seu próprio povo a soberania política efetiva e que se preparava para, eventualmente, ajudar outros exércitos a esmagarem as tentativas de soberania do povo de El Salvador foi buscar na integração simbólica das ilhas longínquas do Atlântico Sul à Argentina a redenção de sua incapacidade política e da carga pesada de mortos, desaparecidos e torturados.
Não deixa de ser também cruel e curioso, para dizer o mínimo, ver como a Inglaterra (a “Pérfida Albion” do colonialismo), também enredada nos desatinos do governo ultraconservador de Margareth Thatcher, desvia a atenção dos problemas do desemprego, da crise econômica e da incapacidade de renovar-se, aceitando passivamente, de início, as ameaças de Galtieri e, depois, jogando o peso da Armada, do preconceito anti-latino-americano e da solidariedade do mundo desenvolvido para restabelecer sua soberania sobre as Malvinas e o direito dos ilhéus de serem britânicos.
Provavelmente, nem o General Oaltieri, nem a Sra. Thatcher calcularam os riscos e as conseqüências. Menos ainda os combatentes poderiam imaginar quantas vidas seriam tragadas pelo mar ou pelas balas. Um só “Exocet” transforma em fogueira os navios de alumínio; um só disparo afoga para sempre centenas de jovens pateticamente patrióticos, vítimas da urdidura sinistra tecida pelos problemas econômicos e políticos internos dos dois países que, de repente, viraram conflito externo.
Quanto às conseqüências, elas sempre vêm depois, como diria o Conselheiro Acácio. Mas algumas já vieram. A solidariedade precipitada dos países do Norte e a sem-cerimônia de Haig facilitariam a ironia da História quebrando antigos alinhamentos automáticos: entre os torturadores de Buenos Aires e os revolucionários da Líbia estabeleceu-se o elo tácito do interesse comum. A doutrina Monroe foi substituída pela solidariedade (tímida e não homogênea, mas ainda assim real) dos latino-americanos.
Outras conseqüências virão depois. Derrotada militarmente a Argentina, como governarão seus generais? Que capacidade de cobrança, senão maior, terão agora as “locas de Plaza de Mayo”? Serão capazes os sindicatos e a multipartidária Argentina de oferecer uma alternativa de governo? A massa trabalhadora reencontrará, na sinuosidade do processo político, caminhos antes barrados? o custo de tudo isso é enorme. Os riscos também (basta pensar nas conseqüências do conflito sobre o sistema financeiro mundialmente debilitado) e seria insuficiente imaginar que na guerra das Malvinas nada mais há do que o sentimento nacional e a vontade do poder. Bem ou mal, à derrota argentina seguir-se-á a fria lógica da imposição dos interesses do Norte sobre o Sul. No rescaldo, não serão apenas os argentinos a pagar o preço. Nós também, como parte do Sul, teremos que pagar nosso quinhão à velha ordem dominante internacional. Basta ver o quanto já custou, no último mês, obter o refinanciamento necessário para manter o “roll-over” da dívida.