Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
I – 1978
A candidatura2
Como você vê a atual situação política no Brasil?
-Eu acho que o regime autoritário está chegando ao fim; ele se exauriu social e economicamente a partir da crise do petróleo e da crise de uma economia de mercado que cresceu desordenadamente e hoje se encontra “sobregirada”. Tudo isso se agrava pela dependência estrutural da economia, que obriga a importar equipamentos e insumos básicos, sobrecarregando a balança de pagamentos; quando se contraem as exportações ou o seu valor, a dívida externa cresce em progressão geométrica para financiar os instrumentos internos.
-Tudo isso rompeu a unidade do bloco governante. As classes médias, a Igreja e os intelectuais e estudantes, principalmente, reorganizaram-se e começaram a pressionar. Mais recentemente os líderes sindicais e o movimento operário ampliaram esta pressão. Diante disso — e considerando a inflação e a dívida externa — os antigos pilares do regime se abalaram. Inclusive militares.
Qual é o sentido de sua candidatura ao Senado?
-Politicamente o MDB é uma frente oposicionista que, a partir das eleições de 1974, nas quais derrotou o governo, passou a ter apoio popular e a significar um canal político de protesto. Na conjuntura atual eu creio que esta frente deve manter-se unida e, ao mesmo tempo, deve abrigar as oposições extraparlamentares (os movimentos de base da Igreja, a luta pela anistia, as lutas dos profissionais liberais, dos advogados sobretudo, pela volta do Estado de Direito, etc.) e ganhar maior nitidez interna. Eu estou lutando para conseguir uma sub-legenda no MDB, ou seja, haverá dois ou três candidatos ao Senado por cada partido, cujos votos seriam para a legenda; o candidato mais votado do partido que somar o maior número de votos será o eleito. Se conseguirmos isso, dentro do MDB, será possível agrupar nessa sublegenda os candidatos à Câmara Federal e à Assembléia Estadual que forem mais conseqüentes. Não haverá, portanto, divisão alguma da frente oposicionista; ao contrário, ela se ampliará, dando uma saída eleitoral para as oposições extrapartidárias.
Há rumores na imprensa sobre sua participação na criação de um futuro PS. Qual é o fundamento disso?
-Hoje se especula muito no Brasil sobre a reorganização do quadro partidário. Eu acho que isso é salutar, desde que não haja precipitação nem ruptura da frente oposicionista unida em torno do MDB. Primeiro as eleições, a volta ao Estado de Direito; depois os novos partidos.
-Quanto ao PS estritamente, eu acho que é cedo para avaliar a forma que os agrupamentos políticos populares irão adotar. Fala-se também no PTB. Eu diria que o importante será dispormos de organizações políticas que sejam populares, democráticas e nacionais (mas no sentido de povo e não de Estado-forte). Não vejo sentido na criação de partidos ideológicos desligados da massa e apoiados pela universidade. Se é a esse tipo de partido que o noticiário se refere denominando-o PS, ele não tem meu apoio. Tampouco creio que um partido puramente eleitoral, ainda que de massas e que busque identificação com o populismo, corresponda às necessidades presentes, pelo menos de São Paulo, onde existe a maior concentração de trabalhadores do país. Sou favorável a partidos que expressem as preferências dos trabalhadores e dos assalariados, sem personalismos, e que encorajem um horizonte de opções socialistas, mas na prática e não abstratamente.
-Ora, um partido deste tipo vai depender muito mais da força social dos trabalhadores e assalariados, de suas lideranças legítimas, da pressão das comunidades de base da periferia das grandes cidades, do que de um punhado de intelectuais ou de políticos profissionais. Estes são necessários, mas deverão unir-se à dinâmica popular. Por isso, só no futuro poderei ver com mais clareza que tipo de partidos surgirão e poderão ter meu apoio.