Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Diálogo de surdos
Diálogo de surdos 12
A conjuntura internacional é, para dizer o mínimo, sombria. Desde 1973, as lideranças políticas vêm-se preocupando crescentemente com a crise. Possivelmente nenhuma outra palavra gastou mais tinta nos últimos anos do que essa: crise. A louca disparada dos preços do petróleo teria posto em causa a prosperidade capitalista.
Hoje ninguém pensa mais em termos tão simplistas. Os preços relativos do petróleo caíram a golpes da inflação mundial e da redução da demanda. Enfim, tomou-se consciência de que as economias ocidentais passam por uma mutação, umbilicalmente ligada à recessão econômica. O sonho de que a política keynesiana poderia ser o antídoto universal contra as crises desfez-se, deixando os políticos, os economistas e os empresários desamparados. Mudanças tecnológicas, desemprego, endividamento e inflação constituem a obsessão da conjuntura atual.
Nesse contexto, ao mesmo tempo que em Paris se preparava a reunião da “cúpula de Versalhes”, em Argel se discutiu o destino do Terceiro Mundo e a necessidade da criação de uma nova ordem
internacional.13
No encontro de Versalhes, a guerra assustou mais do que o fantasma da recessão. Agressão no Oriente Médio, nas Malvinas. Por trás delas, embora os acontecimentos atinjam diretamente países que não pertencem ao bloco soviético, é perceptível o temor, nas lideranças ocidentais, de que se precipite um realinhamento. Embora houvesse a participação de cientistas sociais de países que não são membros do “clube dos ricos”, a discussão travou-se ao redor de pontos que nem de longe roçaram o tema de uma nova ordem internacional, tal como esta é entendida pelo Terceiro Mundo. A crise, o desemprego e as mudanças tecnológicas empolgaram o auditório.
O professor Tsuru apresentou um importante trabalho sobre o progresso tecnológico e o desemprego no Japão, mostrando que a “revolução dos robôs” — a “robótica”, palavra feia cujo som vai ferir cada vez mais nossos ouvidos — é um fato. Só para dar um exemplo: a fábrica de automóveis Nussan tinha apenas 10 unidades de robô em 1972; em 1981 contava com 730. Por quê? Porque um robô que trabalha na soldagem pode ser alugado (pelo sistema de leasing) por 180 mil ienes por mês, o que é muito menos do que o custo da mão-de-obra. Mais ainda, enquanto um soldador humano pode trabalhar, no máximo, 2 mil horas por ano, um robô trabalha 8 mil horas, descontado o tempo necessário para a manutenção.
Não é de espantar, portanto, que os japoneses hajam multiplicado o número de robôs em funcionamento quase cinco vezes entre 1974 e 1980. O estoque de capital na indústria aumentou consideravelmente, enquanto a força de trabalho humana cresceu minimamente depois da “revolução robótica”.
No Japão, graças ao sistema de emprego permanente assegurado pelas empresas mais dinâmicas, as conseqüências sociais dessas mudanças tecnológicas têm sido o deslocamento da ocupação de mão-de-obra dentro das empresas e o re-treinamento necessário do pessoal. Mas o que ocorrerá nos EUA e na Europa Ocidental quando a “revolução robótica”, que se está gestando no próprio ciclo da crise, começar a atuar com força? A robotização da produção deverá provocar mais desemprego, pois as empresas ocidentais não dispõem do mesmo recurso das japonesas, que oferecem emprego permanente. A introdução e a generalização da microeletrônica já provocaram mudanças acentuadas na estrutura ocupacional dos países da Europa Ocidental, como mostrei em
artigo recente.14
Diante disso e das especulações que se seguem à constatação de que o estoque de capital cresce de modo exponencial, enquanto a mão-de-obra permanece estacionária ou decresce (processo cujas conseqüências teóricas e práticas foram ressaltadas por Tsuru e são consideráveis, pondo em dificuldades a teoria marxista do valor), outros participantes da reunião, como Kaldor e Leontief, deduziram questões da mais alta relevância. Até certo ponto, a remuneração do trabalhador deixa de ter relação direta com a produtividade de cada ramo industrial. Pode-se, é claro, pensar na “produtividade global” da economia. Mas a repartição da renda passa a ser diretamente um problema de justiça social e, portanto, político, desconectado da produtividade de cada categoria de trabalhador.
Que lord Kaldor, trabalhista histórico, conclua isso e se rejubile não surpreende. Que Leontief deduza que a questão principal do mundo contemporâneo é a da justiça social e a da organização dos assalariados e dos consumidores para participarem do bolo da renda é encorajador. Dito noutros termos: os cientistas sociais reunidos para discutir a agenda que deveria orientar as discussões dos presidentes dos países membros do “clube dos ricos” não têm dúvidas em dizer que tecnologicamente, apesar da crise e até incentivadas por ela, as economias capitalistas estão preparando um novo salto à frente. Nele o desemprego e a abundância coexistirão. Logo, ou se recria a sociedade, aumentando a participação de todos na cultura, no lazer e na força de trabalho não diretamente produtiva — e ao mesmo tempo buscando-se critérios sociais para a redistribuição dos frutos do progresso técnico —, ou se criará um horroroso mundo novo, repressivo e cheio de derivativos anti-sociais, como a droga e a violência.
Nada se disse na reunião, entretanto, sobre o Terceiro Mundo, salvo algumas observações quase de provocação de Emma Rotschild, de Enrique Iglesias e minhas. A tal ponto que, na discussão sobre as conclusões, foi apenas graças à insistência de representantes da UNCTAD e de alguns outros funcionários ligados às agências internacionais que o tema relativo às “negociações globais” — como a estabilidade dos preços das matérias-primas — entrou. Em geral ele foi considerado como uma retórica que não inova. Em Argel, ao contrário, as poucas observações críticas sobre o irrealismo de propostas terceiro-mundistas pareciam cair na desconfiança de todos. A injustiça na repartição da renda entre o Norte e o Sul e na concentração do progresso técnico no Norte dava o tom aos discursos iniciais. O elo entre um Norte dominador e um Sul explorado parecia evidente. Mais ainda, a prosperidade do Norte, em larga medida, era vista como resultado da miséria do Sul, causada pela forma colonialista e imperialista da relação Norte-Sul.
Este diálogo de surdos é algo patético. Enquanto os países industrializados preparam a decolagem para um novo século de avanços tecnológicos e dominação mundial, os subdesenvolvidos gemem ao peso de uma realidade cruel. O preço da crise, pela lógica do Norte, tem seus pagadores: não haverá nova ordem internacional. Basta olhar a questão do endividamento mundial. Segundo relatório do Banco Mundial, de 1981, nos dez anos que vão de 1970 a 1980, os desembolsos acumulados feitos pelos financiadores alcançaram 490 bilhões de dólares. Foi, portanto, multiplicado por sete vezes seu valor anual, pois este, em 1970, não ultrapassava 13,9 bilhões de dólares e, em 1979, chegou a 98,5 bilhões. Pois bem, do total da dívida, o que foi realmente transferido aos países do Sul não ultrapassou 203 bilhões de dólares, sendo que, em 1970, foram 5,9 bilhões e, em 1979, alcançaram 28,3 bilhões, tendo crescido apenas 4,2 vezes.
Dito de maneira mais simples, para cada 3 dólares novos tomados de empréstimo, menos de 1 dólar é realmente transferido, sendo que os outros 2 dólares são gastos para pagar o próprio serviço da dívida anterior (fluxo que aumentou 6,4 vezes na década) ou para pagar os juros, fluxo que cresceu dez vezes no período considerado. Convém acrescentar que em 1980 essa dívida era sustentada em 63,7% por fontes privadas.
No plano interno, para os países ricos, também está claro o que pode ocorrer: se os assalariados não se organizam e reagem, a nova prosperidade coabitará com o desemprego e eventualmente com um aviltante welfare, cujos prenúncios se vêem nas ruas do Harlem de cada grande cidade norte-americana.
É essa ameaça que, paradoxalmente, exaspera a formação de convicções generosas, embora nem sempre realistas, nas lideranças políticas e intelectuais do Sul. As contradições entre um sistema produtivo tão dinâmico tecnologicamente e as formas de controle da propriedade e da distribuição de renda são tão flagrantes que parece ser sempre iminente uma grande transformação. Até hoje, entretanto, as lideranças dos países mais avançados industrialmente têm conseguido contornar o temporal.
Chegamos, nesta altura da década de 80, a uma verdadeira ruptura nos quadros culturais e civilizatórios. Mesmo a esquerda nos países avançados tem dificuldade em perceber a natureza da demanda do hemisfério dos pobres. E, neste, mesmo sua vanguarda cultural e política custa a entender que os arsenais da imaginação criadora do Norte, tantas vezes perversa, podem germinar saídas para a crise que não contemplam a distribuição da renda entre as nações, embora possam contemplar algum redistributivismo entre as classes nos países ricos. Será que diante deste impasse a única saída seria um coquetel que misturasse o conflito Leste-Oeste para dar mais realismo à todos e, quem sabe, permitir ao Sul arrancar concessões mais substanciais do Norte?
É difícil prever. Mas por acaso a Guerra das Malvinas, com um mau ponto de partida, não estará paradoxalmente enveredando por esta direção, juntando inimigos de ontem e permitindo a Moscou botar as castanhas no fogo, ao invés de tirá-las, com a mão do gato?