Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

O Presidente e a crítica

Até quando?

Só mesmo uma política irresponsável, de esconder a cabeça na areia, pode supor que iremos pelos tempos afora “enganando os trouxas”. Mesmo porque os banqueiros nada têm de trouxas.

Sendo assim, só resta ao País tomar consciência de que, cedo ou tarde, a catástrofe internacional vai se abater sobre nós. Como o governo não assumiu a postura correta, de renegociar a dívida com soberania, de deixar de lado a prática de contratar obras novas com o fim principal de obter financiamentos para “rolar” a dívida e não de investir de fato nos setores produtivos, de concentrar os investimentos nos setores que permitam utilizar a capacidade ociosa das indústrias de bens de produção e possam recriar tecnologia, cabe aos partidos de oposição levantar estes temas e discuti-los perante a Nação.

É pena que, à proposta contida nos documentos do PMDB, a resposta dada pelos dirigentes do País e do PDS tenha sido apenas o insulto. Importa menos saber se nalgum ponto em particular o PMDB ou seus técnicos estão errados. O que importa é reconhecer que vamos mal no atacado e para sairmos da encalacrada (e não há saídas fáceis) precisamos ter, em primeiro lugar, credibilidade. E esta requer a exposição franca da verdade, doa a quem doer.

A hora não é para politiquice. O País requer sinceridade e seriedade. Se o governo não é capaz delas, que a sociedade civil e os partidos as assumam. E quanto antes.

 

O Presidente e a crítica 55

Tomo de empréstimo comentário de um amigo jornalista para abrir a coluna falando sobre o discurso do presidente Figueiredo na ONU: “O Reagan bem pode cobrar do Figueiredo suas reiteradas declarações sobre as oposições que criticam sem parar e não sugerem nada”.

Pois é. Só assim o Presidente começa a entender como é duro estar do outro lado do muro e como à oposição cabe criticar e não remendar erros alheios. É verdade que a fala presidencial dá alguns conselhos e diz que o importante é que os países ricos dêem dinheiro aos países pobres. Dar, naturalmente, é eufemismo: que emprestem a juros escorchantes. Mas nada diz sobre a crise dos países ricos.

Este é o busílis da questão. A crise, bem e acacianamente disse o Presidente, está aí. Ela lembra 1930, crê ainda nosso general na ONU. Se é assim, como produzir o milagre? Os homens do FMI pensam que sabem como: austeridade, equilíbrio dos déficits fiscais, equilíbrio no balanço de pagamentos, excedentes na balança comercial.

Só que a receita, já ponderou Olavo Setúbal em artigo recente, é antiga e inadequada. Não estamos diante de uma crise tradicional. Não se trata de desequilíbrio no comércio exterior, que seria corrigido importando-se menos, exportando-se mais e recebendo uma injeção de óleo canforado de créditos (ou de direitos especiais de saque).

O problema é muito mais sério: o desequilíbrio das contas externas dos países que se industrializam advém de investimentos maciços, em projetos ainda não maduros, com a necessidade de novos investimentos para completar os primeiros, de créditos para re-financiar as dívidas já contraídas e da crise do comércio mundial, tudo em conjunto. Mais ainda, boa parte dos investimentos feitos e dos créditos abertos operam em circuito fechado: são firmas multinacionais que devem às matrizes. Portanto, a própria antiga noção de que os países pobres devem aos países ricos precisa ser reposta para expressar a situação de internacionalização da produção.

De tal forma que é impossível separar a crise geral da economia mundial da dívida nacional e vice-versa.

Há alternativas distintas, entretanto, para enfrentar a crise. Todas elas dependem, em primeiro lugar, de opções políticas. Se a idéia política central for a de manter o atual equilíbrio mundial, com hegemonia norte-americana e com engajamento brasileiro na solução, têm razão os que propõem novas formas de rolar a dívida, aumentando-a, assegurando-se aos banqueiros internacionais garantias (tanto na condução da política econômica quanto na participação no filé-mignon dos novos investimentos, como por exemplo, no que houver de melhor no projeto Carajás). Em contrapartida, o Brasil teria assegurada a continuidade relativa do mesmo estilo de desenvolvimento dependente-associado.

Se, entretanto, a idéia política for a de romper este equilíbrio, buscando-se novos ajustamentos especialmente ao nível de acordos bi ou multinacionais entre países do Sul (como propõe com coerência, há muito tempo, Severo Gomes), é óbvio que a moratória prática deve ser enfatizada sem tantas garantias aos financiadores e investidores internacionais. Neste caso haveria ruptura maior dos países do Sul com o sistema mundial e provavelmente um processo político interno e uma série de acomodações sociais que abalariam qualquer idéia de re-equilíbrio da ordem mundial tal como ela funciona hoje.

Existe ainda outra possibilidade. Se a primeira hipótese aqui mencionada corresponderia a uma, espécie de solução “conservadora ilustrada” e a segunda à solução “reformadora utópica”, a terceira seria, pura e simplesmente, “retrógrada”. Esta consiste em “ir levando” a presente situação, ajustando os desequilíbrios, apertando os cintos, pagando com atraso os juros e a dívida (mas sem recusar-se ao pagamento). Mesmo que para isso fosse necessário diminuir a taxa de crescimento, provocando o desemprego, e provocar uma dês-industrialização relativa do País e um engajamento automático na ordem gerida pelo FMI.