Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

São Bernardo “rides again”

São Bernardo “ 20 rides again ”

A decisão dos trabalhadores da Volkswagen de rejeitar a proposta de redução das horas de trabalho para enfrentar a crise econômica sem dispensas constitui um fato marcante. Mesmo para quem conhece bem a situação do ABC, a enorme margem de votos contrários à proposta da empresa constitui, senão surpresa, motivo para aprofundar a reflexão.

Vi São Bernardo-comunidade, durante as greves. Todos sabem da força de sua liderança operária. Nunca deixei de reconhecer que se algo de novo ocorreu no Brasil nos últimos anos foi o surgimento de um setor da classe trabalhadora altivo e com consciência da dignidade do trabalho. Já foi assim antes: mais do que uma discussão sobre o nível de salários, a categoria dos metalúrgicos lançou-se à luta no ano passado para exigir reconhecimento social e autonomia.

O surpreendente, portanto, não é a reiteração do tema. É que ela se dá numa conjuntura obviamente desfavorável. O desemprego operário (e não só: que o digam os profissionais da classe média) não é um fantasma que ronda no ar: é uma realidade duríssima. Mesmo assim, os trabalhadores da Volkswagen preferiram assumir a responsabilidade do desafio e disseram não à proposta conciliadora dos interesses patronais que pedia uma aparente solidariedade. Solidariedade só pode haver — verdadeira — entre iguais. Não entre o pescoço e a guilhotina.

Duro exemplo a todos os brasileiros. Exemplo que, por sorte, não é isolado. Ainda agora, em Itaici, na discussão dos bispos sobre as Comunidades Eclesiais de Base, reafirma-se o princípio da autonomia do interesse popular, mesmo frente aos mais próximos partidos.

Será áspero demais o caminho? Injusto nas circunstâncias atuais? Quem sabe. Mas é o preço que uma sociedade elitista, baseada na exploração sem tréguas, terá de pagar para democratizar-se de verdade. É certo que a tarefa não é fácil. E requer reflexão mais profunda que simplesmente imaginar que a autonomia da sociedade civil é panacéia universal. Não é, até porque os empresários são membros da sociedade civil com títulos iguais aos dos trabalhadores. Não se trata, no caso, de luta em bloco entre a sociedade civil e o Estado, mas de luta popular e democrática para obrigar o Estado a processar as demandas de uma parte da sociedade civil — constituída pelos trabalhadores — pelo menos com chances formais iguais às dos patrões.

O reconhecimento prático disso vem da liderança de São Bernardo, a de juri e a de fato: pedem agora reuniões entre o sindicato, os representantes dos empresários e os ministros do governo. Reuniões para atrelar o sindicato à política do Estado? Não: para fazer política no sítio em que ela assume conotações decisórias, obrigando os ministros a aceitarem os trabalhadores como classe que se constitui na luta e na representação ideológica que têm de seus interesses e de seu papel. Assim como Walesa pede que o Solidariedade seja informado dos planos de investimento do partido e do governo na Comissão do Plano, os sindicalistas brasileiros começam a exigir que as políticas sociais e econômicas se façam sob sua mira.

O fundamento para tal exigência deu-o um empresário-político, Olavo Setúbal, na televisão. A indústria automobilística é fruto de subsídios e preferências governamentais. Por que não podem agora os mesmos canais servir para a garantia de emprego, objetivo nacional mais importante que a mera garantia do lucro pelo lucro, a expensas de todos?