Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

Duas vocações

Duas vocações9

O que significa ser um intelectual no Brasil?

-Ser subversivo. Não no sentido de pegar a pistola e sair por aí, mas no sentido de duvidar do que está sendo dito como verdade oficial em qualquer lado — existe a verdade oficial da oposição, também. Portanto, intelectual é a pessoa que, além de ser capaz de saber, faz perguntas. Questiona. No Brasil, o ofício é arriscado, pois volta-o contra a ordem dominante; o Estado vem, ataca-o e a universidade não o defende. Fica mais difícil ousar. Na França, nos EUA, quem é professor pode questionar e criticar, que a universidade resguarda. Lá a polícia não diz impunemente que você é comunista. Outro risco, no Brasil, é o da badalação: você vira gênio muito cedo, algo que consome a energia criativa. Quem acredita, julgando-se muito bom quando não é, está perdido — deixa de se expor, não muda: de opinião e se repete, repete, repete. Por isso viajo tanto. Aqui não há oxigênio suficiente para ser posto em xeque. E quando nos põem, é pelas razões erradas: você “já era”.

Os intelectuais têm grande vocação para intimidar os outros mortais. Por quê?

-A visão elitista brasileira; faz a pessoa que se distingue ser algo de intocável; muita gente não chega perto, sentindo um misto de respeito e raiva. Os intelectuais têm sua responsabilidade: querem marcar uma distância grande entre eles e o resto da sociedade. Mas quem conhece o mundo intelectual sabe que não há base para tanta intimidação: nas questões realmente importantes, fora da própria especialidade, todo mundo tateia. Até alguns que são gênios dizem muita bobagem quando falam de outros setores. O intelectual não é diferente do operário, do funcionário público.

E você? Sente distância em relação aos outros?

-Sim, e por razões contraditórias. Existe o tal distanciamento reverente diante do intelectual que sou. De outro lado, as pessoas querem proximidade com os políticos. Desejam-nos acessíveis. Como tenho essa duplicidade de papéis, a relação fica um pouco ambígua: acham a um só tempo que sou difícil de acesso e que estou querendo voto.

E a ambigüidade dentro de você?

-É complicado. A gente foi treinado na universidade para a vida científica, e com enorme estrelismo de intelectual: temos de descobrir as coisas primeiro e formulá-las depressa, antes dos outros. A própria ética da Ciência manda não calar devemos denunciar, falar. Já o estrelismo do político requer malícia, sagacidade: nem sempre ele pode abrir o jogo. Na lógica e mesmo na ética da política, para se obter um resultado, muitas vezes temos de nos calar; se a gente diz tudo o que sabe, não chega lá. O choque é real. Eu confesso o seguinte: normalmente, quando escrevo um trabalho de análise — à medida que posso estar consciente — procuro limitar a ótica partidária. Tento avançar a compreensão das coisas. Escrevo o que penso, faço a crítica e a autocrítica da situação política, do partido ao qual estou ligado, tudo a um nível sem eficácia do ponto de vista da ação. Porém, quando escrevo para a imprensa cotidiana ou vou a encontros políticos, não levanto — mas também não nego certas questões colocadas no meu trabalho científico, politicamente inoportunas.

O jogo político enriquece a análise?

-Sim. Não sei se a recíproca é verdadeira. Em termos de ação, a análise pode até tolher. Olhe, não sou capaz de um discurso rigorosamente político. Conheço políticos que passaram muito tempo no exílio, se intelectualizaram e hoje são incapazes dos discursos de antes. Percebem a freqüente vacuidade do político, essa exaltação da emoção sem argumento.

Você não acha que mulheres evitam os partidos porque políticos são considerados corruptos?

-Bem, isso pode pesar um pouco. A imagem do político ainda é negativa. E piorou muito porque ao regime autoritário valia a pena depreciá-lo, afastando assim o povo da participação. Mas na verdade a corrupção é ligada ao aparelho do Estado, à alta burocracia. Por exemplo, a pessoa encarregada da seção de compras de uma grande empresa estatal vai fazer a compra, recebe dólar e o povo nem fica sabendo. O alto burocrata é que mama nas famosas tetas do Estado, não é? Depois, acho que vale a pena analisar o conjunto dos políticos e verificar se a imagem de corrupção é verdadeira. Conheço muitos políticos que chegaram ao Chile, exilados, sem tostão. Amigos intelectuais e eu fazíamos caixinhas de solidariedade para ajudá-los a sobreviver no começo. Eram extremamente pobres, apesar de ex-ministros, ex-deputados: Almino Afonso, Darcy Ribeiro, Max da Costa Santos são alguns que me ocorrem, sem falar de líderes sindicais como Salvador Losaco. E os que não se exilaram? Está aí Franco Montoro, com décadas de vida pública, e rigorosamente um homem de classe média; ou Saturnino Braga; e tantos outros, que não se locupletaram. Não quero dizer que sejam todos assim, mas não creio que a classe política seja particularmente corrupta. Nós temos de afastar essa imagem e eu sugiro que se faça um levantamento da vida dos deputados, senadores e que se torne obrigatória sua declaração de bens. A população temerosa de entrar nos partidos por causa da imagem de corrupção constataria que a maioria dos políticos é gente de classe média, com uma vocação muito maior para o poder do que para o dinheiro.

O que tanto atrai no poder?

-O aspecto de vaidade e a vocação para cacique — neste país, gostamos de mandar nos outros. Esses são aspectos negativos do poder, dos quais todos temos um pouco. Você mesmo tem de se auto-limitar, porque não é bobo. Limitações são também criadas se a população entra nos partidos reais, ou seja, aqueles formados por diretórios onde mulheres e homens votam, cobram. Faço a advertência porque há diretórios fantasmas, constituídos só pelas famílias e amigos de um político. Bem, excluídos aqueles aspectos, digamos, perversos — da vaidade, do caciquismo — há o lado positivo do poder: ser instrumento de transformação. O político de real vocação para o poder, o estadista, vai ajudar o povo a se organizar, pensar e votar sabendo o que faz; vai preparar a argumentação. Por exemplo, o que devemos fazer em relação ao petróleo? E à cana-de-açúcar? Democracia é muito mais deliberação que voto; e o debate precisa ser organizado.

De que forma você se descreveria como homem e político?

-Sou fundamentalmente um intelectual, embora não afaste o conhecimento intuitivo. A dimensão política disto é acreditar que as coisas são de um jeito, podendo sempre ser de outro: creio na conversa e na possibilidade de mudar a situação. Por freqüentemente me expor, achando que vou ganhar, pareço presunçoso. Mas é que não me desconcerta a variedade das coisas e expor-se, a meu ver, é um componente ético da condição intelectual.

Por enquanto você é suplente de senador. Valeria a pena ser o titular?

-Nem sei. Bem, em certos momentos. Por exemplo, se uma nova Constituição for discutida; ou leis importantes. Mas para a rotina da política não tenho paciência: debates, discussões, convencer as pessoas a entrar no partido. E, mais, impacientam-me as infindáveis especulações que os políticos gostam de fazer sobre o que vai acontecer amanhã, quem vai ser quem. São vazias, me cansam. Então, participo de forma dosada.

 

7 Da entrevista a Jorge Cunha Lima, Status, fevereiro de 1978.

8 Da entrevista a Oswaldo Martins, Interview, fevereiro de 1981.

9 Da entrevista a Judith Patarra, Nova, novembro de 1981.