Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
VI – Lenta, gradual e insegura
O passo político 31
O Brasil está crescendo, se desenvolvendo. Igual ao que se está dando nos Estados Unidos. Não é o desenvolvimento lento e progressivo da Europa. O capital nasce aqui sob a forma oligopólica, com grandes unidades de produção e grandes empresas. Mas não se homogeiniza essa sociedade como a norte-americana. E não há um breque possível nesse tipo de desenvolvimento num prazo previsível.
E em termos de civilização?
-Aí é outra coisa. Pode ser que haja uma decadência da civilização, uma hecatombe, uma ruptura ecológica. Não havendo grandes opções desse gênero, num prazo previsível, uma década ou duas, eu não vejo nenhuma força de contenção. Pelo contrário. Vamos crescer ainda mais no Brasil. Não podemos nos esquecer de nosso tamanho territorial, essa base física. Quantos países têm, como o Brasil, uma fronteira agrícola em expansão? Isso é um amortecedor das pressões sociais. No século 19, a Europa botou para fora 60 milhões de pessoas. Aqui temos uma super-exploração de um lado e simultaneamente o que há de mais avançado. E muita fronteira disponível. E eu pergunto: o que é uma teoria política para isso tudo? Para o povo? Que povo? O do Nordeste? O da Amazônia? Como juntar às aspirações de todo mundo num só projeto?
Como crescer nesse contexto?
-Há um processo de crescimento, por mais cruel que ele seja. No governo Médici houve mortalidade infantil, contenção salarial e tudo mais, mas isso não impediu que houvesse mobilidade social. Então você tem ao mesmo tempo mobilidade e exploração. Você tem uma classe média que consome, uma expectativa de consumo em certos segmentos da classe popular e muita miséria do outro lado. Você falou em fracasso da nossa geração. Eu acho que pelo menos intelectualmente nós entendemos o que está acontecendo. Tínhamos mitos na cabeça. Mas a única maneira de desmistificar é entender o que está acontecendo. O que está havendo aqui é o desenvolvimento sob a forma oligopólica do capitalismo. O que significa: grande unidade de produção e o Estado. Não existe capitalismo oligopólico sem que o Estado esteja metido no próprio coração do crescimento. Daí, essa briga entre o setor privado e o setor público, que a meu ver é um pouco falsa. Ela é verdadeira por um ângulo, o daqueles que são eliminados, mas os outros sabem que sem o Estado não vão para a frente.
E como mudar as coisas?
-Numa sociedade de base oligopólica, você não pode dar as costas para o Estado e para a política. Daí a importância dos partidos políticos. Daí o perigo do preconceito anti-partido. Aqueles que pensam que só têm de olhar para a base da sociedade. Isso pode deslocar a luta de sua arena, que é o Estado.
Quais os benefícios e malefícios da Revolução de 64, nesse aspecto?
-Eu não falaria em benefícios. Mas ela acelerou as transformações econômicas. Acelerou o crescimento que já era tendencial. As grandes linhas de desenvolvimento não foram feitas em 64, mas antes, com Getúlio, Juscelino e por aí afora. É preciso um pouco mais de perspectiva histórica para saber o que realmente ocorreu. Mas é óbvio que eles souberam pilotar no sentido do desenvolvimento. Esse crescimento é baseado no oligopólio, na exploração do trabalho e na concentração de rendas. Mas, o mal, mesmo, foi a revolução não ter, em certos momentos, cortado os nós górdios, ou seja, foi reposto todo o sistema autoritário tradicional. Nenhum passo foi dado, não digo no sentido da esquerda, do socialismo, mas não foi dado um passo sequer no sentido da modernização capitalista dentro da sociedade. A estrutura da propriedade agrária não foi mexida. A estrutura de fixação de impostos não foi mexida. Os privilégios foram reproduzidos numa escala ampliada. Não houve um esforço consistente no sentido de elevar o piso da sociedade.
-Por isso, não resolveram o sistema político. Fizeram uma montagem do estilo tradicional. A versão nova do “bico de pena”. Tudo vem de cima para baixo, como na República Velha. Estamos na República oligárquica, só que essa oligarquia agora é composta de plutocratas, dos grandes bancos e de burocratas, unidos na tarefa de deter a marcha da participação popular.
Até que ponto há eficiência nesse processo?
-Eles poderiam criar um partido da ordem estabelecida que seja mais modernizador. Contudo não é ainda o que eles estão fazendo. A montagem ainda não é essa.
E as oposições?
-Também têm que chegar a isso. Têm que formar os partidos contemporâneos para juntar os assalariados, em termos de reivindicações sociais e culturais. E é simultâneo esse negócio. Têm que elaborar uma estratégia de transformação que pegue a classe média, o pessoal do campo e os trabalhadores, que têm reivindicações muito diferentes. Eu não acredito que a teoria tradicional dos partidos resolva isso. A sociedade é muito heterogênea para suportar um partido desse tipo. Ela comporta melhor partidos como o PTB ou o MDB mesmo, que sejam confederações de partidos. Mais elásticos do que rijos, porém não tão frouxos que comportem tudo. Ele tem que se identificar com o partido dos assalariados e não dos poderosos.
Na formulação teórica dos novos partidos não está havendo uma cegueira?
-Imensa, a meu ver. E isso deriva da idéia de que estamos na Europa, e não nessa América contraditória. Imagine que a discussão se faz assim: isso pode ser uma social-democracia ou um partido bolchevique? Nem social-democracia nem bolchevique. Social-democracia supõe a existência de uma burguesia próspera, de um Estado que não esteja controlando os setores importantes do sistema produtivo, com uma classe trabalhadora também ampla e poderosa que possa fazer uma aliança com a burguesia. Não temos nada disso. Por outro lado, como um partido bolchevique? Qual é a classe social que está disposta a suportar esse tipo de transformação rápida de cima para baixo, controlada por um grupo de quadros que tem a noção do que é conceito de classe e do futuro, e que se não for aceito impõe esse conceito pela força?