Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

Partido dos Trabalhadores

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De forma ultra-sintética pode-se dizer que no Brasil o sistema político sempre esteve mais baseado no espelhismo do que na representação. Os laços entre os que falam pelo povo ou por alguma camada social especifica e a base raramente (se é que alguma vez) estiveram amarrados a mecanismos institucionais que permitissem o controle do representante pelo representado. Os líderes políticos nacionais (mesmo os que falam pelos trabalhadores, pelos camponeses, etc.) procuram espelhar as posições que eles julgam serem compatíveis com os interesses de suas bases respectivas (e que às vezes são mesmo). Mas é difícil que se possa falar em representação de interesses no sentido da democracia clássica: não se estabelecem os limites da “delegação” recebida, que é sempre suposta como plena e, portanto, não requer consultas às bases para a definição das posições dos representantes no cenário nacional (no Parlamento, na imprensa, no governo; etc.). Os representantes imaginam sempre espelhar, por delegação tácita, na maior parte das vezes, o sentimento e os interesses de seus representados. Essa postura é assumida por líderes autoritários (militares principalmente) que sempre falam em nome das Forças Armadas, do interesse nacional ou do povo. Mas não só por eles: os líderes de massa, os sindicalistas e os políticos de oposição fazem a mesma coisa.

Essa forma de relacionamento político existe mais facilmente em sociedades que são segmentadas. Isto é, em situações sociais nas quais os vários grupos definem seus interesses sem referência ao conjunto da sociedade e sem partidos com propostas ideológicas. Sendo assim, dá-se inclusive o caso de que o mesmo líder possa “espelhar” interesses de grupos distintos: a incomunicação entre os segmentos da sociedade e a enorme liberdade que têm os que recebem a delegação implícita permitem que este comportamento, que em outros tipos de sociedade seria considerado oportunista, seja visto como normal. O caso mais flagrante foi o de Getúlio, que presidiu tanto o PSD quanto o PTB e foi eleito senador pelos dois partidos.

Tanto o espelhismo quanto a segmentação social são fenômenos que coexistem e que dão sustentação às formas de dominação elitista. É por intermédio delas que no plano político se procura dissolver os efeitos negativos de uma situação econômica e social espoliativa que gera pólos de riqueza num contexto de privação e pobreza.

Pois bem, custa a crer, mas é provável que estejamos assistindo aos primeiros sintomas do fim deste sistema secular. Há pouco participei de uma reunião organizada por uma comunidade eclesial de base para discutir o problema do Lixão de Osasco. Apesar das soluções encaminhadas pelo prefeito Guaçu Piteri (que esteve presente à reunião) e do endosso a elas dado pelos vários deputados (de ambos os partidos) de maior votação da área e dos senadores presentes, os líderes locais exigiram que todos explicitássemos a forma pela qual lutávamos pelos objetivos da comunidade e as sanções políticas em que as autoridades (e os representantes do povo) incorreriam se nada acontecesse num prazo definido. Pediram mesmo (no que foram atendidos) que cada parlamentar se comprometesse por escrito com o que estava dizendo.

Sinal dos tempos. A delegação implícita e o espelhismo estavam morrendo, na prática, na reunião da Comunidade de Helena Maria, em Osasco. Faltava, contudo, uma visão não-segmentada do interesse popular e do processo político.

Agora são os metalúrgicos reunidos em Lins que se declaram dispostos a organizar um partido de trabalhadores. Para isso não “conchavaram” com os grupos políticos institucionalizados ou com os que pretendem falar novamente em nome dos trabalhadores. Foram explícitos: trata-se de um partido que buscará o apoio dos assalariados amplamente, mas não dos patrões. Mais ainda: sua comissão organizadora será composta por sindicalistas e trabalhadores, mas não por políticos ditos profissionais.

Reparos podem ser feitos quanto à oportunidade da iniciativa, que poderia prejudicar eventualmente a frente de oposições que é o MDB. Lula, entretanto, já retificou: a proposta abre um debate, mas não quer ser fator de implosão do MDB. Os responsáveis pela iniciativa parecem estar conscientes dos riscos de serem usados como massa de manobra dos interesses palacianos que querem dividir as oposições. Haverá um tempo de convivência (pelo que deduzi das declarações do Lula) entre o MDB e a proposta do novo partido. Mesmo porque tanto Benedito Marcílio quanto Ronaldo Cabral, entre outros, disseram que a organização formal do PT supõe a convocação de uma Assembléia Constituinte que redemocratize o País.

Outros reparos poderão ser feitos quanto a que um partido desse tipo, ou fala em nome de uma concepção mais ampla da sociedade que precisamente destrua a segmentação da sociedade brasileira, ou corre o risco de isolamento num “tradeunionismo” que vem com um século de atraso. Mais ainda: pode quebrar a unidade sindical sem conseguir unificar politicamente o povo.

Mas uma coisa é certa: dessa vez pelo menos a proposta de organização partidária não veio de qualquer grupo de notáveis que se auto definiu como representante do povo. Veio de dirigentes sindicais. Eles precisarão, por certo, de tempo para resolver a forma de sua ligação com o resto do sistema político e com as bases operárias e populares (pois podem, sem isso, incorrer em novos “espelhismos”). Mas a iniciativa é um passo adiante em termos de autonomização dos interesses sociais. E precisarão dizer também a que vêm: não basta ser líder sindical; é preciso ter uma proposta política correta em termos dos interesses que se supõem representados.

Diante desse fato parece-me penoso o corre-corre de políticos que querem buscar abrigo novamente na boa vontade dos trabalhadores e que se apressam a despejar manifestações de simpatia e de adesão ao possível futuro partido, confundindo-o com seus interesses políticos. Acho que a posição correta foi assumida pelo Sr. Almino Afonso. Todos sabemos o empenho que ele possui para ajudar à reconstituição do sistema partidário brasileiro. Não obstante, embora saudando com entusiasmo a iniciativa dos metalúrgicos, não se arrogou líder deles nem se dispôs a ser caudatário para pescar em águas turvas. Constatou a importância do fato e advertiu para os cuidados a serem tomados quanto a distinguir entre o debate de novas propostas partidárias e seu desdobramento efetivo para que elas não prejudiquem os interesses nacionais de redemocratização do País.