Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

Populismo eletrônico

Não constato isso como quem se rejubila. A falta de rumo dos poderosos, sem que haja de fato alternância à vista, mais complica do que ajuda. Este é o enigma do PMDB — frente diante do Regime-armadilha. Será preciso, daqui para diante, assentar as bases para o “segundo lance”, para o depois das eleições. Para cumprir seu papel na reconstrução democrática o PMDB-frente não pode voltar a ser a geléia geral em que o MDB antigo quase se transformou, como no caso dos adesistas de São Paulo.

Será preciso dar individualidade às partes componentes da ampla frente eleitoral formada de novo pelo PMDB. Que não se peça aos pepistas que se desfigurem no lusco-fusco do oposicionismo genérico para esconderem suas divergências contra o “radicalismo”. Que não se peça aos socialistas do PMDB que renunciem à sua plataforma de modificações estruturais nem que calem a crítica ao sufoco imposto ao País pelos desmandos financeiros e pela forma oligopólica de nossa economia. Caminharemos juntos em novembro. Não aprofundaremos divergências que sirvam de brecha para que o adversário se preserve. Mas teremos que manter a autonomia de nossos princípios.

O ranço autoritário que dominou o governo Figueiredo impediu que o pluripartidarismo floresce-se. Cabe agora às oposições evitar que no processo de luta contra este estado de coisas e na eventualidade de vitórias eleitorais importantes (mesmo parciais) o ranço da intolerância e do sectarismo impeça que a diversidade democrática se instaure. Desta vez ela não surgirá como manobra divisionista do governo, mas como conquista efetiva de uma sociedade cansada de conformismos e de consensos de fachada.

 

Populismo eletrônico 46

Até há poucos anos não se imaginaria que a transformação do regime autoritário brasileiro nesta desajeitada abertura poderia dar lugar a novos populismos. Hoje, só quem não olha à volta deixa de temê-los.

Estamos assistindo a um esforço imenso do governo para apropriar-se das palavras de ordem das oposições. Não há dia em que o general Figueiredo — perdão, o presidente João — deixe de manifestar com energia e a seu modo (rebentando, estendendo a mão, indignando-se, vestindo a camiseta do PDS, coitado) o amor pela democracia. Nos palanques de comícios bem-orquestrados, ele vitupera contra os inimigos da democracia (os partidos de oposição e em especial o PMDB), contra os revanchistas, contra os que muito falam e pouco fazem. Houve, assim, um changer des dames inesperado. O povo tem agora, na retórica oficial, novos amigos: os algozes de ontem, os do arrocho salarial e do arbítrio.

Ainda assim, houve um avanço. Se os donos do poder falam agora a linguagem que até ontem era a de seus adversários é porque têm de conceder para evitar a derrota nas eleições. E em política a palavra, ao contrário do que se apregoa, tem custo. Algo de tangível tem de ser dado aos eleitores: creches, carteiras novas de casa própria nas Caixas Econômicas, manutenção de reajuste semestral apesar da discordância dos empresários e assim por diante.

De certa maneira, portanto, o País foi deglutindo o autoritarismo, quebrando-o e obrigando os donos do poder a uma mudança de estilo na política.

Aproximamo-nos agora de um ponto perigoso. O governo, PDS a reboque, dispõe de recursos — do próprio contribuinte, é claro — para abusar da manipulação eleitoreira. E não peja isso.

Aqui em São Paulo o Dr. Maluf está inaugurando o populismo eletrônico. Esse custa caro aos cofres públicos, atinge muita gente e não concede quase nada ao povo. Ao invés do velho populismo clientelístico que dava empregos e concedia benesses, o populismo eletrônico dá propaganda. Basta inaugurar meia dúzia de praças e postes de iluminação, agitar cheques do Banespa em palanques de cidadezinhas do interior (como se fossem os pedaços de bacalhau que o Chacrinha atirava às platéias) e depois entrevistar adeptos da política oficial como se fossem populares — tudo pela TV — para criar o clima do “nem rouba e faz”.