Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Perigo à vista
Importa pouco, a esta altura, a aritmética eleitoral. Achincalha-se hoje, mais do que o resultado eleitoral, a crença nesta abertura de meia sola. E a oligarquia no poder (serão mais de dez pessoas?) usa o nome das Forças Armadas, apela a argumentos relativos ao interesse nacional, fala em democracia, acusa gregos e troianos de radicais, apenas para manter o controle do colégio eleitoral que escolherá o Presidente em 1984 e para assegurar que as pepineiras, as mordomias, as mamatas, os juros altos, os salários baixos, o leilão da soberania nacional, o pires de pedinte do ministro da dívida externa, enfim, toda a parafernália desta infâmia que aí está continue por mais uma década.
Como ocorreu com a Argentina da fraude patriótica e da década infame, fechadas as portas ao bom senso, à decência e à negociação limpa, será que o Brasil de 1980 desaguará no inglório fim dos condestáveis do regime quando a sociedade vomitar tudo isto e proclamar sua força e sua autonomia?
Não vêem os generais brasileiros até que ponto pode levar a sede de poder de um pequeno grupo que fala em seu nome e abusa do arbítrio com o propósito único e exclusivo de manter-se no poder e de usá-lo seguindo um Maquiavel senil que, ao invés de fazer todo o mal de uma só vez para ir recompondo a confiança pela distribuição gradativa de benesses (como pregava o florentino), faz o mal todo o tempo, aos poucos se não houver outro jeito e maciçamente sempre que possível?
Perigo à vista44
A partir da rejeição pelo Congresso do “pacotão” da Previdência e das sub-legendas, o governo entrou em vôo cego sem radar. A liberalização proposta desde o governo Geisel e implementada pela dupla Golbery-Portela está de pé quebrado. O “pacotão” eleitoral só agravou a crise. Esta, que antes era palaciana, tornou-se também do PDS. O decreto-lei impondo a reforma da Previdência não serve de consolo: prevê novos recursos, mas não estanca os gastos e joga ainda mais o eleitorado contra o governo.
As tentativas que se fazem agora de atropelar a incorporação do PP ao PMDB vão na mesma linha: com ou sem emenda Badaró, politicamente o PP já optou por sua reintegração à frente democrática. É possível que, em função de situações regionais, alguns deputados do PP não venham para o PMDB; alguns militantes do PMDB, inconformados com a transformação do partido em frente eleitoral, buscarão outros caminhos. Nada disto, entretanto, desfaz o fundamental: os equívocos do governo levaram as oposições a reagir taticamente pela incorporação, e a imensa maioria do eleitorado e do País viu nisto um recurso de legítima defesa.
Dito em outras palavras: o PMDB voltou a ser o depositário da fúria anti-governista de que o País está possuído.
Quanto mais o governo manobra para dificultar a vida do PMDB (como no caso da legítima reivindicação de tornar elegíveis os líderes sindicais) mais conspurca sua imagem perante a sociedade. É necessário, sim, que Lula e os demais sindicalistas sejam elegíveis: caberá a eles, na prática, mostrar que, apesar de serem considerados pelo governo como “massa de manobra”, não o são e não cairão na armadilha de fazer o papel sujo que o governo espera, atacando o PMDB.
Adianta ainda menos que governadores e prefeitos biônicos pretendam dizer quem é “bom de administração” na oposição. É ridícula a postura dos que falam como “administradores experimentados”: o povo está farto precisamente dos desmandos, da corrupção e da prepotência dos que envelheceram prematuramente no gozo de privilégios do oficialismo. É contra estes que sopra o vento renovador do eleitorado: que venham pessoas descomprometidas com tanto desmando, sem “experiências” de corrupção.