Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
A volta por cima
Conviria olhar para São Paulo com a mesma obstinação pela verdade com que Eli Diniz olhou para o chaguismo. Ao escalpelar o malufismo não resolveremos as angústias da conjuntura eleitoral, mas pelo menos não alinharemos argumentos em nome da ciência para justificar nossas paixões e interesses políticos. Eles não requerem essa artimanha para serem expostos à luz do dia e para serem assumidos abertamente.
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Já se escreveu muito sobre a convenção do PMDB de domingo passado. Os mais entusiasmados não poupam palavras para reconhecer o caráter democrático do resultado. Mesmo os que são menos entusiasmados registram que “Deus escreve certo por linhas tortas”. Os reparos aos procedimentos não obscurecem o fato político fundamental: prevaleceu a vontade de união e aumentaram muito, por isso mesmo, as chances de êxito nas eleições.
Há anos o PMDB preparava este desfecho. A cada reunião, a cada convenção, todos — candidatos, dirigentes, base partidária — reafirmávamos a necessidade de unir o partido para vencer o autoritarismo.
Então, por que a surpresa?
Possivelmente porque a opinião pública, a direção, o público interno e os próprios candidatos não acreditavam que fosse possível chegar ao que quase todos queriam. O fragor da disputa pré-convenção, o acirramento natural de ânimo entre as facções, a desconfiança com relação aos objetivos e ao procedimento do “outro lado”, tudo enfim, toldava o óbvio: o amadurecimento democrático de uma legenda que vive da metamorfose permanente entre “frente” e “partido”.
A convenção, paradoxalmente, mostrou que essa “frente de oposição”, apesar de suas facções e sem que elas tomassem consciência plena disso, é um partido. A vontade geral se impôs, não sem fricções naturais, a cada um dos setores e dos atores.
É possível que Quércia jamais quisesse ter saído da convenção como vice de Montoro. Este talvez preferisse outro resultado. A Executiva — que desejara ardentemente ter obtido a anuência prévia de Quércia para a vice — terminou moralmente comprometida com Covas, que não queria ser o vice. E a maioria dos convencionais, de início, preferiria a chapa Montoro-Covas. Nada disso impediu que, derrotado Quércia na prévia, o PMDB sentisse a necessidade férrea de cicatrizar feridas, para sair fortalecido. No ardor do diálogo travado entre galeria-convencionais-direção-candidatos houve, portanto, uma reavaliação política autêntica.
No final não estava mais em jogo a questão dos procedimentos. A mudança de candidato estava respaldada pela vontade do partido, que se refez no recinto da convenção. A resistência prolongada a essa vontade seria vista como manobra de cúpula. A tentativa de abri-la poderia deixar rachaduras irreparáveis.
Prevaleceu a razão política. O PMDB deu a volta por cima.
Restam alguns problemas. Para evitar a manipulação das assembléias, tanto pela cúpula, como por caudilhos ou por segmentos das convenções, é necessário que as principais correntes do partido se organizem.
É certo que a semente só prospera quando há campo fértil. Foi o que ocorreu na convenção do PMDB; por isso houve grandeza no resultado.
Ainda assim a maioria do PMDB, composta por militantes e lideranças independentes, deve tirar as conclusões cabíveis. Sem organização para assegurar a capacidade de iniciativa e de resposta, as maiorias podem reduzir-se à condição de meras espectadoras. Só a organização interna dos independentes preservará no futuro a necessária espontaneidade das relações e o equilíbrio democrático dos resultados.