Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Maio de 1968: não passou do começo?
Maio de 1968: não passou do começo? 25
Nada mais pretensioso do que tratar a história como crônica pessoal e reminiscência. Mas existe também o perigo contrário; o de não perceber o momento vivido e banalizar tudo. Contam os maldosos que nosso José Bonifácio (o de verdade) viveu em Paris alguns dos momentos da Revolução Francesa. Não se deu conta. É que é mesmo difícil perceber quando um protesto social ou uma agitação mais forte não passam de rotina e quando anunciam algo substancialmente novo. Para não parecer pretensioso, convém começar estas reminiscências contando que em 1968, sendo eu professor de Nanterre, onde ensinava teoria sociológica à classe de Daniel Cohn-Bendit, almocei com alguns amigos brasileiros e conversamos sobre a situação francesa. À mesa estavam, além de mim, dois outros brasileiros professores na França, um de economia, outro de sociologia. O convidado de honra era um político que havia sido ministro no pré-64 e visitava a Europa, continente com o qual tinha pouca familiaridade. Perguntou-nos logo: o que vai acontecer aqui?
Nós, doutamente, sentenciamos: nada. De Gaulle, como então se dizia, era o governante que mais se aproximava de Luís XIV. Com uma diferença: “le Roi Soleil” governara com o apupo popular. O General tinha apoio da massa. Por certo, dissemos ao amigo, as negociações salariais serão duras, mas a vida sindical francesa, apoiada na força política dos comunistas e socialistas, jogava uma partida conhecida. Ao plano contrapunha-se o antiplano, tudo, porém, dentro das normas da racionalidade. E os estudantes, ora os estudantes... Um mês depois, Paris virava de novo a Comuna.
É que para mim Nanterre tinha outro sabor. Eu chegara a Paris em outubro de 1967, depois de ter vivido quatro anos no Chile, na época de Frei, mas também na época em que o Che Guevara clamava pela revolta latino-americana. Em Nanterre havia muita agitação, mas ao redor de temas que, vistos do ângulo latino-americano, pareciam estar mais próximos à discussão sobre o sexo dos anjos. De fato não se tratava de anjos. Discutia-se o direito dos rapazes freqüentarem os aposentos das moças nos dormitórios acadêmicos. Permissão para que as moças passassem a noite com os rapazes havia. Mas, no caso contrário, quem assegurava que as jovens pobres e desprotegidas jovens, raciocinavam tradicionalmente os administradores não teriam sido coagidas? Seria incompleto dizer que apenas os problemas existenciais atraíam a atenção. A distribuição de panfletos era intensa. Trotskistas, maoístas, estalinistas, libertários anarquistas e toda a gama das esquerdas disputavam as preferências do estudantado (e dos professores). Mas não sei se lia nos tracts, nem nos slogans — basta ver o livrinho Les Murs ont la Parole — as palavras candentes de crítica ao imperialismo, ao militarismo, à miséria e à exploração, que constituíam o dia-a-dia da preocupação dos estudantes latino-americanos. A polêmica francesa variava das questões relativas à liberação (a desalienação social e pessoal) às questões políticas mais abstratas. Por trás disso, uma desconfiança enorme frente às burocracias, inclusive partidárias e a tudo que tivesse o travo de velho, do “déjà vu”. (...)
É um engano pensar que Maio de 1968 correspondeu à filosofia de Marcuse, em sentido estrito. Não apenas porque ele era pouco influente entre os jovens, mas também porque a revolta que Marcuse pensou e propagou viria dos guetos, dos deserdados da terra. A de Paris, não. A seleção de matriculas para as várias escolas na Universidade de Paris se faz conforme o bairro. Os estudantes de Nanterre eram habitantes das áreas prósperas da Cidade. (...)
Não digo isso para minimizar a importância do movimento estudantil de Maio. Ao contrário. Acho que o aspecto “liberador” que ele tinha era novo. A mobilização das “jeunes filles bien rangées” que, de repente, se politizavam e jogavam na luta todas as angústias da opressão cultural, por exemplo, dava à luta tradicional por melhores condições de vida um verniz novo. A ação revoltada dos jovens arquitetos, do pessoal da TV e de propaganda, dos técnicos dos escritórios de planejamento e de serviços mostrava que, na sociedade contemporânea, mesmo os que não demandam pão têm um potencial favorável à transformação da sociedade.
Mas o Maio francês não foi só Nanterre, a Sorbonne e as barricadas. (...) O que se tornou politicamente importante foi a fusão deste aspecto com a reivindicação social dos operários e com a crise do sistema político. As negociações entre sindicatos e patrões, com mediação governamental, marchavam conforme o figurino (e como havíamos informado ao brasileiro que nos visitara em março). Até que... houve também uma rebelião de jovens operários, de operários estudantes. E começaram as ocupações das fábricas. A admoestação arrogante dos estudantes (Ah, se todos fizessem como nós...) dera frutos. A CGT, a CFDT, o PC, o PS, não controlavam mais as bases. Simultaneamente havia o debate político-institucional: prenunciava-se a “union de la Gauche” contra De Gaulle. Se este não tivesse agido rapidamente para buscar apoio onde, em última instância, se encontra o poder nas horas de crise (De Gaulle foi à Alemanha e se assegurou do apoio das tropas de elite) teria possivelmente caído. E o PC aceitou o desafio legal das novas eleições, brecando a revolta.
Era nítido, para mim, que assistia a um movimento de outro estilo, em comparação com as “greves gerais” tradicionais; mas ele não havia encontrado ainda sua linguagem. As bandeiras negras do anarquismo e da repetição do refrão da Internacional (de pé, famintos da terra) emocionavam trabalhadores relativamente bem nutridos e a classe média tecnificada, mas revoltada. Não se estava mais no século 19, mas usavam-se os velhos símbolos. Por quê? Talvez porque (como o é hoje) não se dispusesse de uma visão do mundo íntegra, renovadora, revolucionária mesmo, capaz de dar conta da realidade contemporânea.
Naqueles dias tensos, Paris se transformou. A Cidade burguesa e exibida, fútil mesmo, virou um “foyer” de discussões. Sobre tudo e sobre cada um. Uma catarse coletiva, entre tiros de festim, espaldeirações, pernas quebradas e intensa discussão política. Deu para sentir o gostinho dos grandes momentos de transformação social. E aprendi lições práticas de sociologia: as sociedades “apáticas” de repente tornam-se participantes e podem mudar; a mudança social, mesmo “revolucionária”, não é predeterminável: depende da fusão de múltiplas contradições e anseios, localizados em planos sociais distintos e motivados por valores desencontrados. Mas, na hora da onça beber água, se não houver uma força política, uma vontade organizada que conduza a mudança e que esteja em consonância com as pressões populares, o impasse reaparece. Se houver, do lado conservador, como houve na França, uma inteligência política organizada, a ordem se restabelece. Mas não será nunca mais aquela. Pode ser pior se faltar a inteligência política conservadora (veja-se o Chile de Pinochet), ou pode ser mais contemporizadora, como a França de Giscard. Mas o equilíbrio anterior se rompe para sempre.