Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
A dívida e as verdades
A dívida e as verdades 54
A reunião do Fundo Monetário Internacional em Otawa não dá margem para dúvidas: o clube dos ricos enrijeceu na mesa de negociações. O fantasma da quebradeira internacional ronda o mundo e os banqueiros. FMI à frente, se apressam a exigir pagamento em dia e austeridade econômica.
Há poucos anos, na euforia dos petrodólares, eram os mesmos banqueiros internacionais que abriam as burras de Londres, Nova York ou Genebra, incentivando os tomadores dos países subdesenvolvidos. Quem não se lembra dos anos do milagre e da euforia? Foi um corre-corre danado.
Agora, depois da recessão; não se ouve nem de longe a litania das antigas musas. São reprimendas e severos conselhos, chamando à ordem chefes das economias ao sul do Equador (e também ao norte: é só pensar no México). Não se renegociará dívida alguma, dizem. Ponham ordem na casa, acrescentam. É só acabar com o déficit público, congelar os salários, cortar os subsídios, exportar mais e importar menos e pronto: paga-se a dívida.
Naturalmente, boa parte disso é “pra inglês ver”. Na prática a dívida de vários países já está sendo renegociada: o México obteve moratória parcial, a Polônia também. E não são os únicos. É certo, entretanto, que o remédio amargo da desaceleração da economia com a coorte de malefícios sociais será a contrapartida da aceitação prática da moratória (muito pouco prática, aliás) via dilação dos prazos de pagamento do principal, pontualidade nos juros e empréstimos do FMI.
E nós?
O governo insiste em que deve, não nega e pagará em dia. Para pagar há duas alternativas não-excludentes: superávits na balança comercial e... novas dívidas (o “roll-over”). Como superávits ou são inexistentes ou não vão além de 1 a 2 bilhões de dólares — altamente insuficiente para pagar os bilhões do serviço da dívida — resta mesmo continuar de pires na mão, à busca de novos empréstimos.