Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
Temos rei?
Temos rei?41
Ontem tomou posse da Presidência quem de direito. Parece incrível que ninguém no País — nem nos mais empedernidos escaninhos da oposição — lembrou-se de questionar a legitimidade de um vice-presidente escolhido pelas mesmas regras e forças que ungiram o Presidente-titular...
Bom sinal. Menos do que o apego ao passado, começamos a sentir a possibilidade de um futuro. Futuro que será difícil, sem dúvida, e que não se construirá na tranqüilidade, por mais que se queira.
Ajuda pouco, neste momento, especular os dias do vazio de poder que mediaram entre o enfarte do general Figueiredo e a posse do novo Presidente. É possível que muita negociação nos bastidores haja ocorrido. Mas o que importa, neste momento, é o resultado: por fim um civil assume a Presidência por dois meses, pelo menos, e sem que tenha ocorrido ruptura institucional.
Até aqui, o óbvio. Por certo dá para imaginar que se o general Figueiredo não puder reassumir no prazo indicado por motivos que, do ângulo humano, ninguém deseja, de novo as bruxas estarão soltas.
Soltas, mas meio perdidas. O País inteiro está cansado de tropelias. A repulsa geral ao episódio do Riocentro e o desgaste para o governo da solução ao arrepio da verdade são provas disto. Toda gente sente que é preciso dar uma guinada para que possamos sair das crises sucessivas, de confiança, da economia e da própria sociedade. Os azares da história devolveram a chance de ação à sociedade civil. São necessários prudência, firmeza, entendimento e leme firme no rumo da democracia.
Hoje importa pouco saber o conteúdo do novo manifesto do Sr. Jânio Quadros, cujo comprometimento com as palavras dura o tempo de uma viagem de ida e volta à Europa. Faz pouco tempo acusava o descalabro do governo e bramia oposição; agora acusa esta última de causadora do enfarte presidencial. Que vá para o PDS ou fique nalguma oposição desavisada que o receba: não é por este passe de mágica que se define o futuro do País. Eu ousaria até dizer que mesmo a repetição da critica aos casuísmos e a torpe insistência do governo neles se apequenaram diante do desafio que temos e da oportunidade que se abre.
Falta um gesto. Dirão que o presidente Figueiredo estava de mãos estendidas e ninguém (ou quase ninguém) seguiu seu gesto. Mas é diferente agora. Há sinais visíveis de que a normalização institucional caminha. E o vice Aureliano se opôs abertamente aos casuísmos da sub-legenda e a alguns desatinos da política econômica. Não espero dele gesto algum: seria suicídio institucional arvorar-se já em rei. Ainda não temos rei.
Por isso, porque de alguma maneira, na cúpula do Estado — e da Revolução de 1964 — há espaços vazios, cabe à sociedade e aos partidos construir um roteiro para a democratização. Insisto no ponto de sempre: que os presidentes dos partidos — de todos eles — juntem-se para propor à Nação os passos que nos permitam sair do buraco. Que o Congresso respalde e a sociedade civil, a começar pela Igreja, mas sem esquecer dos sindicatos e da Universidade, se imbua de grandeza para que se possa restituir, de fato, a soberania política ao povo. Só assim 1982 será o ano da transição e todos os que acreditam que é isto o que deseja o general Figueiredo (a despeito de como aja a “comunidade de informações”) estarão prestando a ele uma homenagem e ao País um serviço.
31 Da entrevista a Jorge Cunha Lima, Status, fevereiro de 1978.
32 Folha de São Paulo, 14 de janeiro de 1979.
33 Folha de São Paulo, 28 de janeiro de 1979.
34 Folha de São Paulo, 24 de maio de 1979.
35 Folha de São Paulo, 17 de junho de 1979.
36 Folha de São Paulo. 21 de novembro de 1979.
37 Folha de São Paulo, 4 de abril de 1980.
38 “Folhetim”, Folha de São Paulo, 17 de maio de 1981.
39 Folha de São Paulo, 18 de junho de 1981.
40 Folha de São Paulo, 2 de julho de 1981.
41 Folha de São Paulo, 24 de setembro de 1981.