Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política
O sentimento do novo
Mas deixou esperança: um País que produziu, apesar de toda a canalhice que por ai reina, uma mulher capaz de ser mensagem, e mensagem captada por milhões de pessoas, sem nenhuma demagogia e de não precisar da retórica para que todos sentissem que ela era, era sim, parte da política verdadeira dos que querem mudar tudo para que a tristeza não esteja sempre pontilhando o sucesso de cada um — um País que produziu Elis Regina não está perdido.
Eu choro hoje pelo abraço que não dei. Choro pelo que de sofrimento há espalhado nestas ruas de São Paulo de adeus a quem venceu sem encontrar o sossego. Mas enxugo a lágrima na certeza de que o estofo deste tipo de artista é o arcabouço de um mundo que, a despeito de tudo, ainda será construído.
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Do ponto de vista sociológico, como se analisa esta participação maciça dos artistas na campanha política deste ano?
-Eu fui candidato ao Senado em 78, e foram os artistas que me ajudaram violentamente. Devo muito aos artistas ter conseguido alguma coisa. Agora, este ano, a coisa se generalizou. Isto tem a ver com a democratização da sociedade. E, não só, tem a ver também com a inquietação dos artistas. Nós passamos no Brasil, ao mesmo tempo, por um processo político de democratização, de forçar a abertura, como passamos por um processo social de mudanças profundas, que está pondo em jogo um padrão de civilização. As antigas verdades ficam um pouco abaladas, as novas não estão claras e os artistas são pessoas sensíveis que intuem muitas vezes que algo novo está acontecendo, sem saber muito bem o que, por que e como. Isso dá a toda uma camada de gente — cineastas, atores, músicos, cantores, compositores, romancistas — uma vontade de expressar seus sentimentos. Eles estão expressando seu apoio político aos vários partidos ou candidatos, mas por baixo disto estão expressando que o mundo está mudando e que precisa mudar.
Nós temos pela primeira vez no Brasil uma ministra. Como o senhor vê isto politicamente e, também, em relação ao movimento de mulheres no país, que às vezes se retrai e outras avança?
-Apesar da ministra Esther de Figueiredo Ferraz ser uma pessoa de formação conservadora, professora de Direito em São Paulo, muito dedicada, mas de formação e de visão política conservadora, é importante que uma mulher tenha sido indicada como ministro. Isto é sinal do que eu disse antes, de que as coisas estão mudando, que até mesmo os governos conservadores, como o nosso, são obrigados a tomar uma posição diante dos fatos. E como não se trata de um conservantismo botocudo, mas de quem quer manter o poder, eles perceberam que seria uma coisa simbolicamente importante colocar uma mulher como ministro. É verdade que educação sempre foi considerada seara das mulheres no Brasil. Acho que seria bom colocar uma mulher no Ministério do Exterior, como há em tantos países. A Golda Meir, em Israel, foi ministro durante tantos anos. Mas, apesar disto ser importante, precisamos dar outro passo. É preciso que exista não apenas uma mulher ministro, mas que a participação da mulher seja muito maior do que é atualmente. No Senado há duas mulheres, ambas suplentes, que chegaram lá por via quase de acaso; não foram elas que capitanearam os votos. Mas isto também vai mudar. Nós temos feito em São Paulo certo esforço no sentido de colocar mais mulheres nas chapas, mas é insuficiente ainda. É preciso que se criem também algumas áreas de preocupação deliberada do Governo sobre a questão feminina. Na França existe um Ministério que se ocupa disso. Não sei qual seria a forma ideal, um ministro ou não, e não creio que fosse uma coisa para cuidar, simplesmente, da mulher, isolada do homem, mas para verificar a igualdade de tratamento em toda parte. Um órgão que suscitasse o problema das mulheres.
Existe um projeto da deputada Lúcia Viveiros, sobre a criação do Ministério da Mulher.
-Exato. Mas precisamos ver como vai se colocar esse Ministério. Acho que deve ser um órgão que não se restrinja: aqui é o reino das mulheres. Aí ficaria uma separação inaceitável, muito discriminatória também. Deveria ser um Ministério que se ocupe de ver nos outros Ministérios como está a participação das mulheres. Esta questão, aqui no Brasil, nunca foi apreciada com profundidade.
24 Da entrevista a Jorge Cunha Lima, Status, fevereiro de 1978.
25 Isto É. 10 de maio de 1978.
26 Entrevista com os estudantes Artur Ortiz de Araújo (4º ano de Engenharia, USP), Paulo Kliass (4º ano de Arquitetura, USP), Marcelo Tragtemberg (pós-graduando de Física, USP). Fábio de Castro Ferreira (3º ano de Computação, diretor do DCE-Mackenzie), Francisco Borba Ribeiro Neto (2º ano de Ciências Sociais), Marcelo Barbieri (vice-presidente da UNE), Antônio Carlos Nobre Santana (secretário-geral da UEE-SP) e Mauro Pereira Lopes. “Folhetim”, Folha de São Paulo, 9 de novembro de 1980.
27 Da entrevista a Wilson Teixeira Soares, Ele e Ela, de fevereiro de 1981.
28 Da entrevista a Judith Patarra, Nova, novembro de 1981.
29 Folha de São Paulo, 21 de janeiro de 1982.
30 Da entrevista a Arlete Bonelli, Jornal de Brasília, 12 de setembro de 1982.