Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

O pior cego

O pior cego 21

As classes patronais começam a preocupar-se com os efeitos da lei salarial sobre o desemprego. Sisudos e bem-pensantes comentários repercutem na imprensa a grave preocupação: não é que, dizem eles, forçadas pelos aumentos relativamente maiores dos salários menores, as empresas, para enfrentar a crise, se vêem na desagradável contingência de dispensar justamente os mais necessitados?

Alguns líderes, como o presidente da Federação do Comércio do Estado de São Paulo, chegam a manifestar preocupações para “preservar o poder de compra dos assalariados e a saúde financeira das micro, pequenas e médias empresas”. Tanta generosidade, entretanto, mal esconde o alvo: criticar o eventual efeito redistribucionista da lei salarial. Em nome da sofrida “classe média”, pede-se que os que menos ganham ganhem ainda menos... Haja lógica!

É certo que a crise está ai. É certo que o desemprego ronda os lares dos trabalhadores e das classes médias. É certo que a rotatividade da mão-de-obra é a defesa cruel que resta às empresas sufocadas pelos juros e pela retração do mercado. É certo que a redistribuição de renda interassalariados em conjuntura inflacionária é enganadora. Mas corrigir distorções acumuladas no passado pela via de aplicação de um percentual fixo de correção do INPC, em nome de elevar o poder de compra da classe média é demais. As correções propostas na sistemática de arrecadação do imposto de renda devem ser encaradas com seriedade. A defesa dos interesses dos assalariados de rendas médias, de igual modo. Mas pedir, para isto, que se reduzam relativamente os salários dos que ganham pouco (cerca de dois terços dos assalariados ganham dois ou menos que dois salários mínimos) é inaceitável.