Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

A política do cotidiano

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Mulheres, em geral, não querem saber de política. O que você diz a isso?

-Por lidarem com a distribuição de poder na sociedade elas fazem política. Quando aceitam tudo como está, fazem política conservadora; se desejam conquistar maior espaço, promovem transformação. Mudar a relação das pessoas, seja no emprego com os colegas ou com o marido em casa, é política — e importante. Apenas, não é partidária.

Como se faz política de transformação em casa?

-Não aceitando e agindo. Por exemplo, um homem acha que mulheres não devem trabalhar e a esposa dele discorda. Ambos podem passar o resto da vida discutindo, sem mudar nada. Se esta mulher, contudo, arranjar um emprego, obrigará o marido a repensar o assunto. Como dificilmente ele vai querer uma separação, acaba por aceitar e muda-se o relacionamento. Isso é política no cotidiano. Mas a mulher também faz política durante campanhas eleitorais; embora considerando os partidos pouco importantes, ela debate os temas e toma posições. Aliás, esse debate deveria ser cotidiano, com ajuda dos meios de comunicação. Por exemplo, a SBPC (Sociedade Brasileira para o Progresso da Ciência) pronunciou-se contra o acordo atômico. Então, cada um de nós deve preocupar-se com isso. Vale a pena ter um acordo atômico? O que é esse acordo? Precisamos de energia atômica? Ela é para fazer bomba? Tem fins pacíficos? Isso é política, não politicalha. A população deve participar. Precisamos das mulheres.

Você realmente acha que mulheres podem influir na questão atômica?

-Claro. Primeiro informando-se, entrando em contato com pessoas envolvidas. Depois, num dado momento, participando de reuniões, indo às ruas; colando dizeres no automóvel. Não deveríamos ter vergonha de colar no carro opiniões em defesa da ecologia.

Não será por medo?

-Não da polícia. Sentimos medo do vizinho, de outros acharem que somos subversivos ou ridículos. Depois de tantos anos de regime autoritário, ficamos sem ousar as coisas mais óbvias.

E aquela história de que dona-de-casa é para ficar em casa, estudante na escola?

-Se cada um aceitar a idéia do “cada macaco no seu galho”, Igreja para rezar, escola para estudar, militares para mandar, não tem jeito e eles vão continuar mandando. Claro que a dona-de-casa tem de cuidar da casa. Mas não é só isso. Ela precisa ir à universidade estudar, depois trabalhar. Ela, a estudante, a funcionária, a médica, a operária, a secretária, devem entrar num partido político, votar, se candidatar, serem eleitas. E cobrar: olhe lá o preço da carne, do feijão! Faltam escolas, transporte! E os assaltos? Partidos políticos não podem ser apenas instrumentos eleitoreiros. E quem diz que estudante que faz política não progride, não diz a verdade. Vários colegas meus são grandes intelectuais e a vida inteira participaram da política. Todos somos responsáveis pelo todo, que é o conjunto da sociedade.

No entanto, até mulheres interessadas em política não se envolvem em política partidária.

-Bem, poucas são as mulheres que participam de qualquer coisa. Mas quero fazer uma observação: em conferências e debates, quase sempre toco no tema das minorias que, na verdade, são as maiorias marginalizadas na vida política: mulheres, negros. E no interior do Estado, que a gente pensa que é conservador, muitas mulheres se manifestam; freqüentem ente até observo o constrangimento que isso provoca nos maridos.

Quer dizer que está havendo mudança? E por quê?

-Graças, em boa parte, à universidade. O número de mulheres universitárias aumentou muito e lá dentro abre-se o horizonte para a participação.

Mudou alguma coisa na sua casa depois que você entrou na política?

-O relacionamento familiar fica atrapalhado porque muitas vezes há reuniões políticas à noite ou nos fins de semana. Não existe solução fácil — o problema é um pouco tenso. As pessoas podem disfarçar ou diminuir o conflito, mas ele é real: o que você faz com o seu tempo? Dá a seus próximos? A quem você quer bem? Ao público mais amplo? Você tem de encontrar um equilíbrio, difícil principalmente para gente como eu, que se joga muito, se emaranha nas coisas que está fazendo. A questão precisa ser posta e reposta quase permanentemente. Há momentos onde a família deve preponderar e outros onde ela tem de compreender que é a vez do político. Não digo que existe uma fórmula; digo que é possível conviver com o problema.

Conviver com conflitos.

-Uma boa relação não é a inexistência de conflitos, mas a capacidade de lidar com eles. No caso de minha família a pessoa-chave não sou eu mas minha mulher, que sempre teve posições mais maduras e construtivas. Aliás, por toda parte, as mulheres são mais interessantes que os homens — possivelmente porque eles sempre foram os dominadores e não tiveram o desafio. As mulheres estão desafiadas e mostram maior riqueza e sensibilidade na percepção dos problemas.

E esses homens podem ser bons companheiros?

-Amor é uma coisa da cultura — muitos povos nem sabem o que é isso — e em nossa cultura criou-se um estilo que é o amor entre desiguais. Amor entre iguais, ou entre companheiros, é uma experiência muito nova, de algumas décadas; é um amor em que ambos se respeitam e se atribuem graus de liberdade semelhantes. O ponto crucial é que uma relação amorosa tem ciclos; não se gosta das outras pessoas estavelmente, do mesmo jeito, com igual intensidade — em particular da pessoa com quem se vive. É uma ilusão pensar que se tem um pique constante; o próprio pique vai e vem. Quem imagina que, para ser feliz, tem de obrigatoriamente viver no pique, não vai estar bem nunca. Você tem que compreender o ir e vir, dar uma certa corda, conceder tempo ao tempo quando as coisas estão mal — em outro momento se recupera, não é? Então, acho necessária uma concepção menos romântica do amor para ele ser estável no sentido do companheirismo.

Portanto, há aí uma espécie de opção.

-Opção e decisão de tolerância. Você não consegue ter uma relação longa se não for tolerante — a não ser que seja tão intolerante que submeta o outro. Não sendo submetido vai haver momentos de fricção e é preciso entender e acreditar que as coisas se reconstituem. Do contrário, a relação quebra logo.

Em geral, não somos tolerantes.

-Porque absorvemos o autoritarismo da nossa sociedade. Vamos lembrar de onde ele vem: de uma sociedade criada sobre quatro séculos de escravidão. Esse autoritarismo se repôs na sociedade contemporânea sob a forma de uma burocracia prepotente — o Estado é que manda. Na vida cotidiana, o autoritarismo se manifesta no modo como falamos com os filhos, ou dizemos “não”, ou tratamos as empregadas. Veja como crianças as tratam; supondo que não são seres humanos.