Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

Ventos do norte

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Como você analisa a partir de agora, com a posse de Ronald Reagan na Presidência dos Estados Unidos, as prováveis mudanças que ocorrerão na política externa norte-americana em relação à América Latina e, mais especificamente, em relação ao Brasil?

-Evidentemente, a eleição de Ronald Reagan significou uma tendência mais conservadora do eleitorado americano. Isto é indiscutível. Depois do ciclo do Vietnã, Watergate, agora deu uma vontade de voltar a ser o que se imagina que os Estados Unidos foram num dado momento de sua história. Portanto, há ventos conservadores. Esses ventos, no entanto, não são uma particularidade dos Estados Unidos. São ventos que hoje também sopram na Europa. Eu acho que a eleição do Reagan é um sinal desses ventos. A grande questão é saber se esse vento vai virar ventania. Eu acho que ele vai ser suficientemente forte para incomodar aquelas áreas mais próximas dos interesses americanos. Por exemplo, na América Central o primeiro ato de seu governo foi aumentar a ajuda à junta de El Salvador. Isso aparentemente deixa claro que, na região do Caribe, seu governo vai pôr em prática uma política de preservação da presença americana. Real ou imaginária, porque às vezes não havia presença nenhuma, às vezes imaginam que deviam ter uma presença. Na medida em que se vai afastando dessas áreas de interesse imediato dos Estados Unidos, dificilmente esse vento vira ventania. Eu não creio que no Brasil, por exemplo, isso tenha conseqüências imediatas. Os ares conservadores do mundo estão aí, e isso já é um sinal, mas não creio que tenham uma força direta sobre o Brasil. Com relação ao resto do mundo — o Leste, o mundo socialista — as relações não se regem pelos humores do presidente americano, nem pela direita ou esquerda eventual da opinião pública. Estão regidas pelo poder relativo de cada bloco, que não muda porque o Reagan se elegeu. Talvez eles procurem aumentar o poderio americano que, diga-se de passagem, é muito grande. Contudo, cada vez que há uma eleição nos Estados Unidos a imprensa americana difunde que os Estados Unidos estão em uma situação difícil, que a União Soviética está ganhando pontos. Isso é habitual na maneira de o candidato à Presidência criticar o presidente. A política militar americana tem a sua dinâmica própria, e eu não creio que ela vá se alterar sensivelmente, mesmo porque eles são extremamente preocupados com isso, do mesmo modo que a União Soviética.

Em relação ao ex-presidente Carter, qual a desvantagem do presidente Reagan, em matéria de imagem internacional?

-Quase seguramente, o que Reagan vai perder em relação ao Carter é o charme da política de direitos humanos. Isso é evidente. Apesar das recentes declarações feitas em Madri, de que o governo americano vai manter o mesmo interesse pela política dos direitos humanos, leia-se: vai manter o mesmo interesse em criticar o abuso dos direitos humanos na União Soviética. Mas eu acho que vai diminuir o interesse em criticar a violação do lado de cá. Quando o Carter veio ao Brasil em 1978, ele falou com algumas pessoas bastante representativas de um ponto de vista liberal, incluindo o cardeal de São Paulo, Dom Paulo Evaristo Arns. Eu duvido que o Reagan, vindo aqui, tenha gestos desse tipo.

Apesar dos militares americanos não terem condições de seguir o modelo latino-americano preconizado por seus colegas de farda, a ala dos falcões não está, a partir de agora, sentindo-se revigorada?

-Ela já está revigorada. Tanto que eles estão com o general Alexander Haig, o novo secretário de Estado, que foi o homem que sustentou a fase de transição do governo Nixon. Quando já se estava em plena fase de escândalo de Watergate, era ele quem dava as cartas para, mais ou menos, manter o sistema de poder. E ele, que foi chefe da OTAN (Organização do Tratado do Atlântico Norte), evidentemente é um homem de pensamento articulado, conservador: um falcão.

Contudo, em face dos meandros do poder, dos interesses das multinacionais, etc., a importância de um presidente não seria relativa?

-No mundo moderno, a complexidade é de tal natureza que temos pesos e contrapesos. Essas coisas estão muito amarradas. Há sistemas, blocos de interesses. O que pode mudar é um pouco mais, um pouco menos, mas sem que haja uma ruptura. E nos Estados Unidos nunca houve tal ruptura. A vida cotidiana americana não vai mudar. E o sistema internacional — e isto é uma idéia nova — também não vai ser afetado. É um jogo complexo que inclui a ONU, reuniões de cúpula, o diálogo Norte-Sul, enfim, uma série de mecanismos que uma pessoa não muda. Agora — e isto é decisivo para se compreender as atuais transformações — a eleição de Reagan não significa que acontecerá uma mudança, e sim que esta mudança já aconteceu.

E que mudanças são estas?

-Todo o mundo sabe que vivemos uma situação de dificuldade econômica a nível mundial. E, curiosamente, nos dois lados, porque no bloco socialista, em alguns países, há uma situação de crise. Portanto, existe uma inter-relação dessas duas economias, à parte as crises próprias do socialismo, ainda pouco estudadas. Estamos numa situação de dificuldade no mundo inteiro. Recentemente, li em um jornal que o desemprego dobrou na Inglaterra. Claro que nós não estamos como em 1929. Hoje a economia tem mais centros de decisão. É mais difícil que as coisas ocorram com aquelas conseqüências de catástrofe como em 1929. Mas estamos enfrentando uma crise de reorganização da economia mundial em nível muito profundo. Ora, isso provoca uma certa angústia, uma certa insegurança. E é exatamente essa insegurança que provoca esse vento conservador. É um conservantismo preventivo, digamos assim, com medo de que das dificuldades econômicas possa derivar uma pressão das bases, das massas. Então há um conservantismo, e o Reagan é expressão disso.

Esse conservantismo endureceria as decisões da Trilateral?

-Endurece. Eu acho que todos os fenômenos de transição, de mudança de regime, vão ser mal encarados. Um exemplo: a Nicarágua. Bem ou mal, a Nicarágua passou por um processo importante de modificação das suas bases políticas, econômicas e sociais. E essa transição foi feita com forte presença da social-democracia européia, alguma presença de Cuba, e ainda assim a política americana foi de relativa compreensão para com esse processo, que foi tolerado. Agora não. E esta tendência é de lado a lado, tanto que o Afeganistão está mostrando isso, se bem que no bloco socialista também tem a Polônia, que é um desafio sério. Mas eu acho que esse conservantismo pode repercutir até na Polônia, porque o mundo hoje está tão interconectado que o endurecimento de um lado condiciona o outro lado a também endurecer. Portanto, daqui para a frente os blocos do poder aceitarão modificações no equilíbrio de forças com mais dificuldade. Dificuldades, no entanto, não querem dizer impossibilidade, pois a história não se faz segundo a vontade dos donos do poder, ·apenas. Mas haverá mais entraves...

Para alguns, as decisões da Trilateral não têm um peso significativo para o Brasil. Como você encara esta questão?

-Eu acho que no caso brasileiro as pressões de mudança existem independentemente do que os grandes setores de dominação do mundo opinassem a respeito. No Brasil houve uma certa dinâmica própria — pressão da sociedade e problemas internos no bloco de governo que permitiram uma certa flexibilidade. A filosofia da Trilateral é uma filosofia de, primeiro, entender que o mundo tem que ser internacionalizado do ponto de vista do sistema produtivo; segundo, que era preciso, de alguma maneira, inspirar certas linhas de filosofia política para garantir uma hegemonia cultural do mundo; e terceiro, que tanto quanto possível isso fosse feito dentro de um processo não ditatorial. Será que isso mudou? Acho que não. Essas tendências, na verdade, são reforçadas com esse conservantismo. Não creio que o mundo ocidental possa aceitar a ditadura como uma forma normal de convivência. Além do mais, em virtude da disputa entre os dois blocos, eles têm que reafirmar o princípio democrático no bloco do lado de cá. Mas o que acontece é que essa filosofia política vai estar subordinada a um outro princípio — o da ordem. Democracia dentro da ordem. O que é específico do conservantismo não é querer evitar que mude a forma do regime, mas sim evitar que forças irrompam na cena histórica sem que elas sejam controláveis. Se as forças irromperem e existirem canais para que elas se expressem, desde que o sistema dominante possa se manter, eles incorporam a força emergente. O que o sistema conservador repele é aquilo que não é capaz de ser absorvido. Se houver algo nesse sentido, a filosofia do mundo ocidental, de que a Trilateral é um exemplo, vai optar pela ordem. Porém, tão importantes quanto as eleições nos Estados Unidos têm sido os resultados das eleições na Europa, onde a direita tem ganho.