Perspectivas: Fernando Henrique Cardoso, idéias e atuação política

Elis Regina

Você não “herdou” certo autoritarismo do seu pai? Ele era um general.

-Meu pai nunca foi um autoritário. Rigorosamente democrata e homem muito aberto, era liberal, tolerante, com sentido absoluto de moralidade pública. A tolerância dele me marcou profundamente. Agora, ao contrário das gerações atuais, as passadas — inclusive a minha — não faziam confidências facilmente; o subjetivo era recalcado. Hoje observa-se que ao menos numa camada da sociedade houve grandes mudanças culturais: a divulgação da psicanálise, o reconhecimento público da subjetividade, maior liberdade. Tenho duas filhas e nem se coloca a questão de saírem ou não à noite, ou que relação têm com o namorado.

Entre tudo o que você já aprendeu na vida, qual a lição mais importante?

-Que as coisas são difíceis, exigindo certa humildade — não total — e perseverança com tolerância, para mudar com esperança. As coisas que mais atrapalham hoje são a intolerância, o dogmatismo, a presunção de quem acha que tem o monopólio da moral, ou a falta de generosidade daquele que é intelectualmente superior e disso se aproveita para acachapar o outro.

Você, por formação, é um “inventor de sociedades”. Como seria a sua nova sociedade brasileira?

-Creio que nossa sociedade está cansada da fórmula do econômico-social. Falta uma dimensão estética, quase psicológica. Então, pronto, está aí a sociedade que eu inventaria: igualdade com soltura; liberdade no plano pessoal.

 

Elis Regina29

Hoje eu não quero escrever sobre política. Chega de pacotes, prorrogações, reeleições, sabujices de toda ordem. Há dias em que, por respeito a sentimentos genuínos, não dá para perder tempo com tanto lixo, tanta desonestidade e tanta ousadia de mequetrefes, que viram manchete de jornal por melhor servir ao poder desservindo ao País.

Morreu Elis Regina.

Não cheguei a conhecê-la pessoalmente. Admirei-a de longe, como todo mundo. Recebi dela, certa vez, um bilhetinho que dizia: “Professor, será que vai receber meu voto sem nos conhecermos?” Foi no dia em que ela fez um “show” e doou a receita para ajudar a campanha eleitoral. Campanha quase sem recursos. Mas os que vieram, vieram assim, no embalo da generosidade.

Eu não pude sequer ir ao “show”. Estava imerso no cotidiano da campanha, sei lá por onde neste São Paulo imenso. Enviei a Elis um livrinho de entrevistas à imprensa. E fiquei amargando, agora para sempre, a falta do abraço de reconhecimento. Anos depois, conversamos pelo rádio. Fiz-lhe uma pergunta genérica sobre sua participação na vida política e recordei, envergonhado, minha dívida: faltava aquele abraço.

Hoje dá tristeza. Elis Regina não se interessava por política no sentido banal. Era uma intérprete, como poucas, do sentimento que há nas ruas e em cada um de nós. Não sei se jamais foi “partidária”. Tinha, por certo, partido. Tomava partido. Em tudo: basta ouvir suas entrevistas. Sabia-se tímida, achava-se feia; era pequenina. E naquele peito, naquela voz, tremia muito sentimento. Das coisas fundamentais; das pessoais. No canto, não explodia revoltada contra a ordem injusta: não precisava. Bastava ser, como era, capaz de sentimento mais simples para, sem nada dizer, dizer tudo.

Parece que morreu no desespero. Por não saber e por respeito, é melhor não conjecturar. Morreu triste. A morte é sempre triste. Tinha, possivelmente, um livro em aberto de ajustes de contas pessoais.