Diário de África
Ás 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos.…
Mulher do Sambo.
Ás 10 horas, apresentou-me os carregadores precisos. Verdadeiramente não eram só carregadores, que no grupo divisei 6 raparigas, ainda de manilhas nos artelhos; tal cuidado pôs ele em servir-me, que, para não me demorar, mandando ir homens das povoações distantes, me deu os que na sua tinha disponíveis, e ainda seis das suas escravas, para completar o número pedido. Agradeci muito e mostrei-me sensível a tal prova de cuidado, declarando-lhe logo, que não tinha comigo presente digno, de oferecer-lhe, e que querendo dar-lhe uma espingarda lhe pedia mandasse um homem da sua confiança recebe-la no Bihé, mostrando-lhe desejos de que esse homem fosse o século Palanca seu conselheiro íntimo. Exultei de alegria (que me abstive de deixar transparecer) ao ver o meu pedido satisfeito, e o Palanca nomeado para me acompanhar. O soveta Dumbo entregava nas minhas mãos um precioso refém, que me responderia já pela minha segurança, já pela das cargas que deixei dois dias antes entregues ao Barros, a quem preveni e acautelei em carta deixada ao Dumbo.
Deixei a povoação ás 11 horas, à frente da estranha comitiva, formada dos meus dez bravos de Benguela, dez salteadores do Sambo, e seis virgens escravas do soveta Dumbo. A chuva era torrencial; mas eu, apesar disso, segui sempre, tanto me tardava de ver longe a povoação onde passei tão horrível noite.
Quatro horas depois, tendo andado a N.E., fui acampar junto da povoação de Burundoa, completamente molhado e tiritando de frio e febre.
Não aceitei a hospitalidade oferecida pelo chefe da povoação, porque, depois do que se passou na véspera, recordei-me de um bom conselho que me deu Stanley, e protestei não mais em África pernoitar em casa de gentio.
O meu Acampamento entre o Sambo e o Bihé.
Vieram ao meu campo muitas raparigas vender capata, milho, fuba e batatas magníficas, em nada inferiores ás da Europa.
A chuva continuava mais moderada, mas persistente, e eu sentia-me muito doente.
Junto do meu campo corria um pequeno riacho, cujas águas iam a um ribeiro afluente do Cubango, são as águas que este último rio recebe mais de Oeste.
Durante a noite houve chuva moderada, mais forte das 4 ás 5 da manhã, hora em que parou. Há grande abundancia de ótimo tabaco neste país, onde me venderam muito e baratíssimo. Ali poucos pretos fumam, mas todos cheiram tabaco em pó, que preparam torrando a fogo brando o tabaco de fumo, e reduzindo-o a pó no mesmo tubo que lhe serve de caixa, com um pau, espécie de mão-de-almofariz, que a ele anda preso com uma correia fina.
Parti as 7 h. 40 m. a N.E., atravessando uma região muito cultivada e muito povoada.
Ás 8 h. 30 m. passei junto da grande povoação de Vaneno, e ás 10 parei para descansar junto da aldeia de Moenacuchimba. Segui ás 10 e meia sempre a N.E., ás 11 passei junto da povoação de Chacapombo, muito populosa, e meia hora depois parei perto de Quiaia, a mais importante de todas. O chefe desta aldeia veio ao caminho cumprimentar-me e oferecer-me um grande porco. Dei-lhe em algodão riscado o valor do porco, e ele retirou-se satisfeito, mandando em seguida muitas cabaças de capata para a minha gente. Segui no mesmo rumo, e duas horas depois fui acampar no mato próximo da povoação do Gongo.
Esta última parte da marcha daquele dia foi trabalhosa, porque choveu muito, e o vento S.O. era rijo e frio.
Pela tarde chegou um enviado do sova grande do Sambo, cuja povoação me ficava uns 15 quilómetros a N.O., mandando-me pedir alguma coisa, e dizendo-me o portador do recado, que se eu houvera passado à porta do sova, ele me daria um boi. Agradeci a boa intenção, e resolvi dar-lhe no dia seguinte alguma coisa, receoso que o enviado, se eu o despedisse sem dar nada, influísse nos carregadores a abandonarem-me, o que seria fácil porque já o tinham querido fazer, e foi preciso toda eloquência do Verissimo para os convencer a seguirem avante.
O século Capuço, chefe da povoação próxima, mandou-me cumprimentar por três das suas mulheres (todas feias), e por elas um presente de uma galinha e três cabaças de capata. Mandei-lhe seis côvados de riscado e dei algumas missangas ás mulheres. Junto à noite vieram algumas mulheres vender farinha, milho e mandioca. Usam elas ali os mais extravagantes penteados, e a carapinha é enfeitada com coral branco e reluz da grande profusão de óleo de rícino, que elas prodigalizam na sua toilete. Os homens do soveta Dumbo eram verdadeiramente insubordinados, querelavam-se com a gente de Benguela, e durante a noite só houve tranquilidade na barraca onde dormiam as seis virgens negras, as minhas gentis carregadoras.
A noite foi tormentosa de chuva e vento. Ao alvorecer o século Capuço, veio agradecer os 6 côvados de riscado que lhe dei, e em lugar das três mulheres feias que me enviou na véspera, trouxe-me um lindo porco e uma gorda galinha.
O enviado do sova veio receber o presente que lhe tinha prometido; e que foi muito insignificante, sendo como era em troco da intenção de me dar um boi, se eu passasse junto da libata dele.
Segui pelas 8 horas, e ás 9 passei junto das povoações de Chacáhonha, primeiras da raça (Ganguela) na África de Oeste.
Passei o riacho Bomba, cuja margem esquerda segui por dois quilómetros, quando os carregadores pousaram as cargas, recusando seguir avante, e pedindo os seus pagamentos para voltarem. Eu estava a dois quilómetros do Cubango, e querendo passar o rio, instei com eles a que andassem mais aquele curto espaço, e que logo que estivesse na outra margem lhes daria os seus pagamentos e os despediria.
Recusaram-se formalmente, dizendo, que eu tinha sido muito ofendido na sua libata, pelo soveta Dumbo, e por isso não iam para diante, sendo certo que, logo que eu os tivesse na outra margem do rio, fora do seu país, me vingaria neles das ofensas recebidas.
Foram baldados os meus esforços e tudo foi eloquência perdida. Recusei-me a pagar-lhes se eles não passassem o Cubango; responderam-me que se retiravam sem pagamento, e logo chamaram as seis raparigas e ordenaram-lhes que os seguissem.
Eu estava no desespero; ali perto era a povoação do Cassoma, e eu vi ser aquilo plano combinado de antemão para me entregarem a ele, que me havia precedido no caminho.
As cargas abandonadas naquele ponto eram cargas perdidas. Calcule-se com que olhos eu vi partirem os carregadores, abandonando-me.
Olhei para as cargas e estremeci de prazer. Sentado num a delas estava um homem alto e magro, de figura impassível, com a longa carabina atravessada sobre os joelhos.
Era o século Palanca, que eu havia esquecido. Saltar sobre ele e derruba-lo foi obra de um momento. Mandei-o amarrar de pés e mãos, e dei ordem a Augusto e Manuel que o enforcassem no ramo de uma acácia que se estendia sobre as nossas cabeças. Ao ver que a ordem ia ser cumprida, ele, transido de medo, gritou-me, "Não me mates, os carregadores vão passar o Cubango," e logo soltou um grito agudo que fez reunir os carregadores já dispersos.
Ordenou-lhes que pegassem nas cargas e seguissem, e eles obedeceram.
Mandei que lhe desamarrassem os pés, e prometi-lhe um tiro na cabeça à menor excitação dos carregadores. Meia hora depois passava o Cubango numa bem construída ponte, e acampava na margem esquerda junto das povoações de Chindonga.