Diário de África
Capítulo 4 · Ainda em Busca de Carregadores
Alfredo Pereira de Melo, Governador de Benguela, ao ouvir o meu pedido de hospedagem, mostrou um embaraço que percebi, e disse-me, que não tinha meio de me receber na sua casa. Surpreendeu-me o caso, sabendo eu que o Governador era bizarro de génio e de natureza franco. Tive convites, logo à minha chegada, já de António Ferreira Marques, já de Cauchoix; mas persisti no intento de hospedar-me em casa do Governador.
Ele disse-me, que não tinha cama a oferecer-me, e eu mostrei-lhe a minha cama de viagem; porque fui logo pondo em casa dele a minha bagagem. Disse-me, que não tinha quarto; apontei-lhe para um canto da sala em que estávamos, onde ficaria otimamente.
Não havia mais que dizer, e fiquei. Aguçava-me a curiosidade a resistência do Governador em negar-me a hospitalidade que pedia; mas cedo desvendei o mistério.
Alfredo Pereira de Melo era homem novo, ainda que tinha já uma patente superior na armada. Simpático e inteligente, é estimado por todos aqueles que o conhecem de perto; porque a uma finíssima educação, reúne grande retidão de caracter, e a energia peculiar a tudo bom marinheiro. Serviu na marinha Inglesa, e tem de viagens larga prática.
Viu as Américas, e antes de ir para África como Ajudante-de-Campo do Governador Andrade, tinha visitado a India, a China e o Japão.
O Governador, que já me conhecia de nome, ao ouvir o meu pedido, esqueceu que tinha diante de si o explorador, para só se lembrar do homem habituado a viver no meio do luxo e das comodidades. Pereira de Melo teve vergonha de hospedar-me.
Um Governador de Benguela, se é reto e probo, vive mesquinhamente com a paga que recebe.
A casa do governo é arrendada. A mobília, um pouco menos de modesta, guarnece a sala e um quarto.
Na sala, destoa da mobília, ricamente amoldurado, um retrato d’el-rei, o melhor que tenho visto.
E contudo a este porto, vêm repetidas vezes navios de guerra estrangeiros, cujos oficiais visitam o Governador, regalam-no a bordo; e ele nem um copo de água lhes pode oferecer na sua casa, porque a preta ou o moleque tem de trazer o copo num prato velho. O serviço de mesa era, creio eu, a espada de Damocles suspensa sobre a cabeça de Pereira de Melo, ao ouvir a minha teimosia em ficar. Não tinha razão. O asseio que presidia a tudo, supria o vidrado da louça gasto com o tempo, e os manjares simples, mas bem cozinhados, avivavam o apetite já derrancado pelos ares Africanos; e não se ofenda o cozinheiro do Hotel Central em Lisboa, se eu lhe dizer, que comi melhor em casa do Governador de Benguela do que comia dos seus opíparos manjares, ainda que a preta Conceição, cozinheira do Governador, nunca ouviu falar do herói das caçarolas, o célebre Brilat-Savarin.
Pereira de Melo, logo ao primeiro dia de convivência, abriu-me o seu coração, mostrando-me a menos que singeleza da sua vida interior. Três ofícios dirigidos ao Governo da Província, em que pedia autorização para fazer algumas reformas caseiras, tinham ficado sem resposta.
Isto não é de estranhar, porque foi sempre assim.
Em um copiador de correspondência, que existe nos arquivos do Governo de Benguela, li eu uns ofícios datados de 1790, em que o Governador de então já se queixava a El-Rei das mesmas faltas; por a elas lhe não dar remedio o Governador Geral da Província, e entre outras coisas que pede com urgência, figuram os reparos para duas peças de bronze que designa, e que ainda hoje os carecem.
Sam as mesmas de que fala Cameron; o que ele vai saber agora é, que os reparos já foram encomendados e não podem tardar em chegar; porque, sendo a encomenda deles feita em 1790, deve estar quase concluída a sua construção.
Benguela é uma bonita cidade, que se estende desde a praia do Atlântico até ao sopé das montanhas que formam o primeiro degrau do planalto da África tropical. É cercada de uma espessa floresta, a Mata do Cavaco, ainda hoje povoada de feras; e isso não admira, que os Portugueses, em geral, de caçadores não tem manhas. As habitações dos Europeus ocupam uma grande área, porque todas as casas tem grandes quintais e dependências.
Os quintais são cuidados; produzem todas as hortaliças da Europa, e muitos frutos tropicais.
Vastos pátios cercados de alpendres servem para dar guarida ás grandes caravanas que do sertão descem à costa em viagem de tráfico, e que repousam três dias na casa onde efeituam as permutações.
Um rio, que na estação estia apenas é larga fita de área branca, que se desenrola das montanhas ao mar, através da floresta do Cavaco, é ainda assim a grande fonte de Benguela, que os poços ali cavados dão água boa filtrada pelas áreas calcárias.
Nas ruas da cidade, largas e direitas, crescem dois renques de árvores, pela maior parte figueiras sicómoros, de pouco arraigadas, e por isso ainda pequenas. As praças são vastas, e num a ajardinada, crescem bonitas plantas de vistoso aspeto.
As casas, todas térreas, são construídas de adobes, e os pavimentos são, num as de tijolos, e de madeira em outras.
A alfândega é bom edifício, recentemente construído, e tem vastos armazéns para as mercadorias do tráfico. Esta alfândega, e o largo ajardinado, como outros melhoramentos de Benguela, foram de um Governador, Leite Mendes, que de si deixou rasto.
Uma ponte magnífica de arquitraves de ferro, creio que encomendada pelo mesmo Leite Mendes, mas muito posteriormente montada pelo Governador Teixeira da Silva, é guarnecida por dois guindastes e carris, por onde, em vagonetes, se transportam as mercadorias das lanchas à alfândega. Eu aqui cometi um erro de gramática, escrevendo o verbo transportar no presente do indicativo, quando no condicional é que era.
Transportariam, se houvesse pessoal para isso; mas não transportam, porque o não há.
Tem a cidade um templo decente, e um cemitério bem colocado e murado.
A povoação Europeia é cercada, por todos os lados, de senzalas, ou povoações de pretos, e mesmo entre a povoação branca há pequenas senzalas, em quintais abandonados. O seu aspeto geral é agradável e asseado.
Tem Benguela má fama entre as terras Portuguesas de África; e supõem muitos, ser aquilo um país infecto, que exala de miasmáticos pântanos a peste, e com a peste a morte.
Não é assim. Eu não conheci Benguela como ela fora em tempos passados; mas hoje, não é nem melhor nem pior do que outros muitos pontos de África.
O asseio e as plantações de arvoredo, decerto tem modificado muito as suas anteriores condições higiénicas, e com uma pouca de boa vontade, não seria difícil o seu saneamento; o que estou certo se fará, porque não pode deixar de merecer verdadeira atenção um ponto de tão subida importância comercial, e em fácil contacto com tão ricas terras nos sertões.
Os principais produtos que alimentam o comércio de Benguela são cera, marfim, borracha e urzela, que chegam à cidade trazidos pelas caravanas dos sertões. Estas caravanas são de duas espécies. Umas, dirigidas por agentes das casas comerciais, trazem ás mesmas casas que os despacham os produtos do seu tráfico no interior; outras, exclusivamente compostas de gentio, descem a negociar por canta própria, onde melhor ganho encontram.
O tráfico com o gentio faz-se por permutação direta do género por fazenda de algodão, branco, riscado ou pintado. Os outros produtos Europeus são objeto de uma segunda permutação pela fazenda recebida; e assim, depois da primeira troca do marfim ou cera pelo algodão, é este trocado por armas, pólvora, água-ardente, missanga, etc., à vontade do comprador; porque a fazenda de algodão é, por assim dizer, a moeda corrente neste tráfico.
O comércio está entre mãos de Europeus e crioulos, e felizmente já ali encontrámos muitos desses rapazes que, aventurosos, deixam pátria e família, para ir em terras longínquas buscar fortuna.
Alguns deportados de menor importância também negociam, já por conta própria, já como empregados de casa alheia.
Os maiores criminosos do Reino, os condenados por toda a vida, são deportados para Benguela, do que resulta, encontrar-se ali quantidade de patifes, de que é bom resguardar-se; não os confundindo com a gente digna e capaz, que a há.
A polícia é confiada à força militar, que um dos regimentos destaca para Benguela; sendo que de Benguela ainda são espalhadas diferentes forças nos concelhos do interior; desfalcando a guarnição da cidade, já de si pequena.
Nós temos dois exércitos, um na Metrópole, outro nas colonias, que nenhuma relação tem entre si.
O nosso exército da Metrópole é bom, porque o Português é bom soldado; o nosso exército das colonias é mau, porque o preto é mau soldado; e os brancos que ali servem de mistura com pretos, são piores ainda do que estes. Deportados por crimes que os excluíram da sociedade, fazendo-lhes perder na Europa o foro de cidadãos, vão desempenhar em África o posto nobre do soldado; sendo a nossa autonomia Africana, e a segurança pública e particular, confiada à defesa de homens, que dão por garantia um detestável passado.
Daí as contínuas cenas de caracter vergonhoso que se presenceiam ali. Durante a minha permanência em Benguela, houve um grande roubo com arrombamento, no cofre militar. O Governador houve-se com a maior energia na maneira porque procedeu para descobrimento dos culpados, sendo muito coadjuvado pelo seu Secretario, o Capitão Barata, que conseguiu descobrir os ladrões, e haver o dinheiro roubado. Fora o roubo planeado pelo próprio sargento do destacamento, e levado a efeito por ele e alguns soldados!
Se o nosso exército Metropolitano não se presta à censura do homem mais pechoso, as nossas forças coloniais são vítimas das merecidas chufas de todos os estrangeiros, que as observam.
Por mais que tenha cogitado, nunca pode atingir ao préstimo de tal exército nas nossas colonias, que para polícia não serve; servindo menos para a guerra, que da minha lembrança tenho visto ser feita por corpos voluntários, levantados no reino, e que além vão servir por certo prazo. Hoje mesmo, em Lisboa, três batalhões estão sempre prontos a marchar para as colonias, e já lá tem ido; o que prova sabermos nós, que o ter exército no ultramar, tal como ele é, não passa de velha costumeira.
Na noite da minha chegada a Benguela, fiz o conhecimento do Juiz de Direito Caldeira, que se associou ao Governador para me certificar, que, como ele, empregaria toda a sua influência para que eu não tivesse vindo de balde a Benguela, e assim o fez.
O Governador convocou os moradores importantes a uma reunião na sua casa, e expondo-lhes os motivos da minha viagem, e o meu projetado itinerário, pediu-lhes que o coadjuvassem na empresa de arranjar carregadores; para que eu pudesse levar a cabo a expedição. Todos assim o prometeram.
O Governador Pereira de Melo, e o Juiz Caldeira, foram incansáveis, e no dia 17, dia em que este último se retirou para Lisboa, tinha eu o número de carregadores que pedira, cinquenta, que, com trinta esperados de Novo Redondo, perfaziam um total de oitenta; tantos quantos eu havia julgado precisos para subir da foz do Cunene ao Bihé.
O velho sertanejo, Silva Porto, encarregara-se de fazer transportar ao Bihé o grosso das bagagens, que nós encontraríamos naquele ponto; onde deveríamos contratar mais carregadores para seguir avante.
Nesse dia mudei eu para a casa que antes ocupava o juiz, continuando a ir jantar com o Governador, ou com António Ferreira Marques, da Casa Ferreira e Gonçalves, que porfiavam em obsequiar-me.
No dia seguinte, um preto meu serviçal furtou-me uns 75 mil réis, e desapareceu, sem que dele mais se soubesse.
A 19 chegaram os meus companheiros na canhoneira Tâmega, e nesse mesmo dia resolveu-se, que não iríamos à foz do Cunene, mas sim entraríamos diretamente ao Bihé.
Esta nova resolução que tomámos, alterava o que havia contratado com os carregadores, e além disso, a gente de Benguela, que, transportada a país distante, não pensaria em desertar, não me inspirava garantia, viajando logo no começo em país de que conhecia a língua e os costumes.
Começou nova campanha. Eu tinha presentes as narrações de Cameron e Stanley a respeito dos embaraços causados por deserções, e até as do próprio Livingstone, que foi abandonado por trinta homens na viagem de Tete com o Dr. Kirk.
Logo depois da chegada dos meus companheiros, combinámos em ser o Ivens encarregado dos trabalhos geográficos, o Capelo de Meteorologia e ciências Naturais, e eu do pessoal auxiliar da expedição, coadjuvando-nos mutuamente. Assim, pois, tive de me por logo em campo, e o primeiro passo que dei, foi ir tomar conselho de Silva Porto.
Narrei-lhe a nova decisão que havíamos tomado, de seguir diretamente ao Bihé, e expus-lhe o meu embaraço. Silva Porto veio a Benguela comigo, pois que a sua casa da Bemposta dista 6 quilómetros da cidade, e percorremos as casas onde tinham caravanas de Bailundos, sem que eles quisessem anuir a levar as cargas ao Bihé. Á casa Cauchoix tinha chegado uma grande caravana, e este cavalheiro chegou a oferecer uma avultada gratificação ao chefe, e paga dupla aos carregadores, se quisessem conduzir as nossas bagagens, mas nada conseguiu.
Cabe aqui narrar um facto muito curioso. Os Bihenos são os primeiros viajantes de África, e nenhum outro povo estende mais longe as suas correrias, nem se lhe iguala em arrojo e robustez de caminheiros; mas os Bihenos viajam só do Bihé para o interior como assalariados; e se de maravilha vêm à costa, é por conta própria. Os Bailundos alugam os seus serviços entre a costa e o Bihé, e não vão ao interior para leste; mas ao norte estendem suas viagens até ao Dondo e Luanda.
Assim, pois, os negociantes sertanejos fazem transportar as mercadorias de Benguela ao Bihé por Bailundos, e dali aos pontos remotos do interior por Bihenos, que voltam, com os produtos permutados, ao Bihé. Deste ponto à costa tornam a servir-se dos Bailundos.
Depois de informado disto, só me restava mandar assalariar Bailundos, para me virem buscar as cargas; e disso se encarregou Silva Porto, despachando logo cinco pretos ao Bailundo, a ir buscar a gente. O velho sertanejo disse-me logo, que eles teriam muita demora, porque os enviados levavam 15 dias a chegar ao país, e outro tanto tempo, pelo menos, gastariam a reunir os carregadores, e estes, 15 dias para vir; fazendo uma soma de 45 dias; afiançando-me ele, que antes não os teria. Nós estávamos em fins de Setembro, e por isso só poderíamos partir por meado de Novembro. (*)
[(*)Parte destes carregadores, 200, só chegaram a Benguela a 27 de Dezembro, e outros 200 por fins de Fevereiro.]
Vim participar isto aos meus companheiros, e depois de conferenciar com eles, resolvemos não perder tanto tempo em Benguela; e entregando as cargas a Silva Porto, para que no-las enviasse pelos Bailundos, partirmos imediatamente com as cargas indispensáveis, indo esperar no Bihé; tempo que aproveitaríamos no arranjar de carregadores ali para seguir avante.
Dos carregadores contratados em Benguela apenas uns 30 mereciam alguma confiança para seguir tal caminho; e estes, com 36 de Novo Redondo, faziam um total de 66 homens. Tínhamos, além disso, 14 soldados; os meus moleques pequenos de serviço; uns Cabindas de serviço de Capelo, e Ivens; e 2 chefes pretos, um contratado por mim na Catumbela, o preto Barros, e outro por Capelo, em Novo Redondo, o Catão.
Em toda esta gente não tínhamos um só homem de confiança.
Tratámos de separar as cargas julgadas indispensáveis, e conhecemos que eram 87; isto é, tínhamos 21 cargas mais do que carregadores. Foi de balde que trabalhei para os haver, não me foi possível obter um só.
Os pretos, não compreendendo o que íamos fazer, ao sertão, estavam receosos, e com a sua desconfiança natural, imaginavam loucuras e recusavam-se.
Chegou o fim de Outubro sem nada termos adiantado.
Resolvi, por conselho de Silva Porto, ir ao Dombe, experimentar se os Mundombes fariam menos dificuldades, do que a gente de Benguela; mas, sentindo-me incomodado, pedi ao Capelo ali fosse por mim.
No dia 29, partiu o Capelo, e voltou no dia 3 de Novembro. Nada fez. Os Mundombes prestam-se com facilidade a ir a Quilengues por caminho conhecido deles; mas, fora disso, não fazem outras viagens; e recusaram as pagas avultadas que lhes oferecíamos para irem ao Bihé.
Tornava-se necessário tomar uma resolução, e essa foi logo tomada; seguiríamos sempre para o Bihé, mas tomaríamos por Quilenges e Caconda.
O Governador Pereira de Melo deu logo ordem ao chefe do Dombe, que tivesse prontos 50 carregadores, para seguirem connosco para Quilengues.
Silva Porto encarregou-se das cargas que deviam ser mandadas ao Bihé, e eram umas 400.
Pôs o Governador à nossa disposição uma lancha, para transportar por mar ao Cuio (Dombe Grande) as cargas que dali deviam ser carregadas até Quilenges, e alguns carregadores de Benguela que estavam doentes.
No dia 11 de Novembro, estávamos prontos a deixar a costa, e fixámos a partida para o dia 12. Nesse dia fugiram 4 carregadores de Novo Redondo, e no seguinte 5 de Benguela.
Enfim, no dia 12 deixávamos a Cidade, depois das mais cordiais despedidas dos amigos, que se reuniram para nos dizer adeus.
Pouco antes tinha eu ido à praia, e por muito tempo tive os olhos fixos na vastidão do Atlântico, desse mar enorme que ia perder de vista; e mal cogitava então, que só o volveria a ver dois anos depois, na França, em Bordéus.
Não sei se a outros tem acontecido o mesmo; eu, no momento da partida, senti uma pungente mágoa, uma indefinível saudade, uma dor profunda, que me produziram como que uma embriaguez, e confesso que não tenho muito a consciência de ter deixado Benguela.
A bandeira das Quinas estava desenrolada, e afastava-se da cidade ao passo cadenciado da caravana; segui-a.
No dia 13, chegávamos ao Dombe, tendo feito uma jornada de 64 quilómetros. Tínhamos connosco 69 pessoas, e seis jumentos, que foram, homens e burros, alojados na fortaleza. Nós três, com os nossos moleques de serviço, fomos obsequiosamente hospedados em casa de Manuel António de Santos Reis, distinto cavalheiro que porfiou em obsequiar-nos.
Dois dias depois, chegaram as cargas que tinham vindo por mar, e inventariando tudo, conheci, que para seu transporte precisava de 100 homens, além dos efetivos que comigo tinha.
Isto proveio de termos abusado da facilidade que nos ofereceu a lancha, metendo a bordo mais cargas do que tínhamos julgado absolutamente necessárias.
Decidimos partir a 18, depois de recebermos cartas da Europa, porque o paquete, de costume, está em Benguela a 14; mas a 18 nem o vapor tinha ainda chegado, nem o chefe tinha também assalariado um só homem.
A 21 chegou a mala, mas de gente só tínhamos a trazida de Benguela. O chefe declarou-nos, que no dia 26 poderíamos partir; mas, precisando nós de 100 homens, apenas nos mandou nesse dia 19. No seguinte dia apareceram mais 27; e eu, receoso que eles viessem a debandar se os fizesse esperar, despachei-os logo para Quilengues, acompanhados por dois soldados dos que comigo tinha.
O chefe declara-me que lhe é impossível conseguir mais gente. Faço reunir na fortaleza os três Sobas do Dombe, no dia 28, e fui eu mesmo tratar com eles. Sam três tipos magníficos.
Um chama-se Brito, nome que tomou de um dos Governadores de Benguela, que o restaurou no poder; outro, Bahita; o terceiro é Batara. Os meus companheiros perdem o assistir a esta cena joco-séria, porque desde o dia 24 estão com febre.
O Soba Brito apresenta-se com três saias de chita, pintada de ramageus, muito enxovalhadas; veste uma farda de capitão de infanteria, desabotoada, deixando ver o peito nú, porque camisa não usa; e na cabeça, sobre um barrete de lã vermelha, põe nobremente um chapéu armado de estado-maior.
O Bahita traja saias de lã de vistosas cores, uma rica farda de Par do Reino, quase nova, e na cabeça, sobre o indispensável barrete, uma barretina de caçadores 5.
O Batara está literalmente coberto de andrajos, e traz à cinta um espadão enorme.
Estes ilustres e graves personagens estão rodeados dos séculos e altos dignitários das suas negras cortes, que tomam assento no chão em torno da cadeira do soberano. O Bahita era acompanhado de um menestrel, que tirava de uma marimba, monótona toada.
Esta marimba é formada de dois paus de 1 metro de comprido, ligeiramente curvos, em que assentam em cordas de tripa tabuinhas pequenas de madeira, cada uma das quais é uma nota da escala. O som é reforçado por uma fila de cabaças colocadas inferiormente, sendo a que corresponde à nota mais baixa da capacidade de 3 a 4 litros, e à mais alta 3 a 4 decilitros.
Os Sobas portaram-se com grande seriedade, e eu fingi também que os tomava a sério.
Depois de me prometerem carregadores, vieram acompanhar-me a casa, que distava uns dois quilómetros da fortaleza; e como eu desse uma garrafa de água-ardente a cada um, mandaram eles dançar a sua fidalgaria, e o Bahita mandou entrar na dança umas raparigas que tinham ficado de parte.
Eu pedi-lhes que dançassem eles; mas responderam-me, que a sua dignidade lho não permitia; sendo isso contra as pragmáticas estabelecidas. Eu ardia em desejo de ver o Bahita dançando, de saias e farda de Par; e conhecedor do império da água-ardente nos pretos, mandei dar outra garrafa aos sobas.
Foi o bastante. Atropelaram as suas leis, e ei-los saltando em brutesca dança no meio do seu povo, que entusiasmado por tal honra, redobra de contorções e momices, que chegam a atingir o delírio. O Bahita é magnífico, e com certeza o tipo do rei Bobeche foi criado sobre este molde. Fala continuamente em mandar cortar cabeças, sentenças estas que os seus escutam com a maior submissão, mas de que interiormente se riem, porque bem sabem o Governo Português lho não consente.
O Dombe Grande é um fertilíssimo vale, que se estende primeiro do Sul ao N., e depois a Oeste, quase em angulo reto, até ao mar. É enquadrado por dois sistemas de montanhas, um por oeste, que borda a costa, e outro por leste, em cujo sopé corre o rio Dombe, Coporolo, ou Quiporolo, e até rio de S. Francisco-que todos estes nomes tem.