Diário de África
Mulheres Mundombes, vendedeiras de carvão.
(De uma fotografia do farmacêutico Monteiro.)
É rio que de inverno traz muita água, mas de verão é seco; sendo que, mesmo nas maiores estiagens, água se encontra cavando poços; o que acontece em tudo o vale do Dombe, onde não é preciso profundar mais de 3 metros para a obter. Junto das montanhas de Oeste na parte em que o vale se estende N. S., há uma lagoa, de 50 metros de largo por 1 quilómetro de extensão, e da forma de S. Esta lagoa é curiosa, porque não é formada por depósitos pluviais, mas sim alimentada por uma forte nascente subterrânea, por nunca alterar o seu nível, e produzir infiltrações, que, um quilómetro abaixo, vão formar nascentes, que são aproveitadas na rega de uma propriedade. Dizem que tem peixe bagre, tainha e muitos crocodilos.
Tenho-a visitado muitas vezes, e nunca vi ali crocodilos ou peixe; mas é certo que os há, porque mo afiançou o meu hospedeiro, dizendo-me mesmo, que são muito vorazes; e que, tendo sido, em 1876, a sua propriedade atacada por um bando de salteadores de Quilengues, estes, rechaçados pelos seus pretos, tentaram na fuga atravessar a nado a lagoa, não logrando um só atingir à outra margem, porque todos foram presa dos vorazes anfíbios.
Nas montanhas de oeste junto à lagoa, montanhas formadas de carbonato calcário e algum sulfato de cal, existem algumas grutas, uma das quais nos afiançou o nosso hospedeiro, nunca ter sido visitada, ser enorme, e parecer, tanto quanto por fora se podia observar, que contém extensas galerias.
Fomos visita-la, eu, Capelo, e o nosso hospedeiro Reis, e verificámos não ter ela merecimento.
É um salão proximamente circular, de 14 metros de diâmetro, arquitetado pela natureza na imensa mole de calcário, que forma a montanha. Parece ser guarida habitual de feras, que o dá a entender o ar saturado do fedor almiscarado de certos animais, bem como as traças de leão impressas no pó impalpável que cobre o chão, onde encontrámos alguns espinhos do Hystrix Africano.
No vale do Dombe há algumas feitorias agrícolas importantes, sendo as principais a do Loache, a de Paula Barboza, e a do nosso hospedeiro Santos Reis. Esta última conta apenas três anos de existência, e produz cana de açúcar de que extrai para cima de 40 mil litros de água-ardente; e note-se, que o terreno era antes mato, e foi desbravado há só três anos. É uma feitoria que começa, tudo ali está ainda em construção; mas pelo resultado já obtido se pode aquilatar a riqueza do solo ali.
Tudo o vale é cultivado de mandioca, pelos indígenas, e tão fértil é, que depois de três anos de falta de chuva, não tem deixado de ter produção regular, exportando cerca de 70 mil decalitros de farinha por ano. É o celeiro de Benguela. Os indígenas ali não permutam as fazendas, mas sim vendem a dinheiro, cujo valor já conhecem.
Mulheres e Donzelas, Mundombes.
(De uma foto. de Monteiro.)
A demora que ali tivemos foi prejudicialíssima à ordem, e disciplina da minha gente.
Todos os dias apresentavam novas exigências, todos os dias levantavam querelas entre si; e eu não podia ser demasiado severo, de receio que me desertassem todos.
Venderam os panos para comprar água-ardente, e chegaram a vender as rações de comida para se embriagarem.
Os soldados eram os piores. Os sobas não mandaram gente, e eu comecei a ver a repetição das cenas de Benguela. Não podíamos seguir.