Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 35 de 80

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Diário de África

Chimbenzengue

 

 

Machado dos Ambuelas de Cangamba.

Ao contrário dos outros povos Ganguelas, em Cangamba são os homens que fazem as panelas e as mulheres esteiras.

Fiam o algodão, que tecem em teares de ocasião, fazendo uns panos, do tamanho de toalhas de rosto, muito perfeitos.

Vieram vender-me tabaco, que dizem cultivar no país, mas que eu não vi nas plantações que visitei.

As armas de que usam são frechas e machadinhas.

O Cubanguí tem, junto a Cangamba, 15 metros de largo por 6 de fundo, e 12 metros de corrente por minuto.

Tem peixe, a que não posso assinalar o feitio, porque os que vi eram secos, e tinham de 40 a 50 centímetros de comprido.

Mandioca e peixe seco; que opíparo banquete para quem andava condenado ao atroz massango!

O rio Cubanguí, para não escapar à lei geral daquele Continente, tem crocodilos, mas são nada vorazes, e afiançaram-me os Ambuelas, não haver exemplo de uma desgraça causada por eles.

 

Cachimbo Ambuela

 

Fui pagar a visita ao sova, que é sujeito distinto e simpático. Como me não vendiam senão massango, pedi-lhe, que me desse alguma mandioca e algumas batatas doces, presente que ele me fez em minguada porção, escusando-se por não ter mais.

Ainda assim, chegou para três dias. Três dias de férias de massango!

Tendo obtido guias, alguns carregadores, e bastante massango, decidi seguir avante, no dia 22 de Julho, a demandar as povoações do sova Caú-eu-hue, no rio Cuchibi, onde passa, o caminho outrora seguido por Silva Porto, e que eu abandonei no Cuanza, seguindo mais ao norte.

Disseram-me os guias, que teria de jornadear em país deserto por espaço de 8 dias, e por isso precisava ir bem provido de rações. Os meus doentes tinham melhorado com o descanso e mais abundante alimentação; ainda assim, o Muene-Cahenga forneceu-me dez homens para ajudarem a carregar o massango de que me provi.

Tendo-me dito os guias, que durante dois dias devíamos caminhar na margem do rio, tive a lembrança infeliz de o descer embarcado.

A 22 de manhã, mandei transportar o meu barco de cautchuc ao rio, fiz levantar campo, e tendo entregue o comando da comitiva ao Verissimo, dirigi-me ao barco, que tripulei com dois moleques pequenos, o meu Catraio, e outro pequeno de 12 anos, chamado Sinjamba, filho de um carregador Biheno, que escolhi por falar bem a língua Ganguela, e poder servir-me de intérprete, se isso fosse preciso.

Declaro, que não foi sem uma certa comoção que deixei a margem, e me lancei na corrente de um rio desconhecido, tendo por únicos companheiros duas crianças, e governando um barco de frágil tela.

O rio, que nasce trinta milhas ao N., já tem ali 15 metros de largo por 6 de fundo, e pouco a jusante, alarga a 40 e 50 metros, e ás vezes mais.

O seu fundo, que varia entre 3 e 6 metros, é coberto de área muito alva, que decerto cobre uma camada de lodo, porque a flora aquática do rio é verdadeiramente assombrosa.

Muitas espécies de juncos e outras plantas aquáticas enraízam no fundo, atravessam com as suas folhas e os seus troncos finos, sempre agitados pela corrente, 6 metros de água, e vêm desabrochar à superfície, as suas flores de variado colorido, e elegantes formas. Por vezes, esta pomposa vegetação ocupa toda a largura do rio, e parece impedir a passagem. A princípio hesitei em lançar o barco sobre aquele prado aquático, julgando encontrar fundo e falta de água para navegar; mas depois que a sonda ali me acusou, ora 4 ora 6 metros de água, não mais duvidei em deslizar por entre aqueles jardins floridos.