Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 62 de 80

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Diário de África

Catarata de Cale

 

Pouco depois, outros rápidos foram passados com igual felicidade; sendo o resto da navegação desse dia por entre pontas de rochas açoutadas por violenta corrente de água, sem que outros desnivelamentos rápidos aparecessem.

Ao acampar, eu sentia-me gravemente doente. A febre havia recrescido, e a falta de alimentação vegetal era sensível. O dormir sempre ao relento, e o nenhum resguardo que era forçado a ter, tendo de sustentar a minha gente pela carabina, faziam piorar o meu padecer constante. Nessa noite, rebentou sobre nós uma violenta trovoada, e com ela caíram as primeiras gotas de água daquela nova época das chuvas.

O dia 8 de Outubro veio encontrar-me mais doente, mais abatido de corpo, mas não mais fraco de espírito. Segui viagem, e meia hora depois, encontrava os grandes rápidos de Bombue.

O rio forma um grande rápido central, onde o desnivelamento é de 2 metros. Do lado deste três canaletes obstruídos por inúmeras rochas, e de Oeste um canal mais largo, onde o desnivelamento é mais rápido.

A montante dos primeiros desnivelamentos, uma ilha coberta de vegetação divide o rio em dois braços iguais. Bombue tem mais dois desnivelamentos, sendo o segundo trezentos metros a jusante do primeiro, e o terceiro duzentos metros a jusante deste. Todos estes rápidos são cheios de pontas de rochas desencontradas, tornando impossível a navegação.

Os barcos descarregados foram lascados junto a terra, operação fadigosa, que levou muito tempo.

Posemos os barcos a caminho, encontrando um rápido que sem querer passámos embarcados com inaudita felicidade; e depois de 4 horas de viagem, parámos junto à confluência do rio Joco. Viajei nesse dia por entre ilhas de uma beleza admirável, que apresentavam os panoramas mais pitorescos à minha vista, fatigada da monotonia do planalto Africano.

Nessa tarde, estando a repousar, fui acordado em sobressalto por os negros, que tinham visto perto alguns elefantes. Apesar do meu mau estado de saúde, tomei a carabina e segui-os.

Na margem do Joco avistei eu os enormes paquidermes, que se enlodavam num pântano.

Tomei-lhe o vento e aproximei-me cauteloso. Eram sete soberbos animais.

A floresta espessa que descia até junto ao pântano, permitiu-me aproximar-me sem ser visto.

Por um momento contemplei aqueles gigantes da fauna Africana, e não posso ocultar que tinha remorsos prematuros de lhes fazer mal. A necessidade venceu o escrúpulo, e atirei ao mais próximo, dirigindo-lhe a bala ao frontal. O colosso oscilou um momento, sem mover as patas, e dobrando os joelhos, foi caindo devagar sobre eles-posição que conservou um momento, tombando depois para o lado, e fazendo tremer a terra com o baque enorme.

Os outros seis atravessaram o rio Joco em apressado trotar, e desapareceram na floresta.

Acerquei-me do inofensivo quadrúpede, e ao contemplar a minha obra de destruição, não pude deixar de olhar para mim, depois de olhar para ele, e de me achar bem pequeno. O meu estado era tão melindroso, que já não pude voltar pelo meu pé, e tive de ser amparado pelos negros para chegar ao acampamento.

No dia imediato estava pior, e sobreveio-me uma grande inflamação do fígado. Deitei cáusticos, que pulverizei de quinino depois de cortados.

A doença não me permitia partir naquele dia, e resolvi ficar ali até experimentar melhoras. Nesse dia aconteceu ao meu Augusto a mais extraordinária aventura de que tenho tido conhecimento. Atirou a um búfalo que ferio, e que correu rápido sobre ele. Augusto tirou o machado, e no momento em que a fera baixava a cabeça para lhe marrar, atirou-lhe um golpe à cara, com a sua força hercúlea.

Homem e búfalo rolaram por terra. A gente que estava perto do meu valente negro, julgara este morto, quando vira o feroz ruminante levantar-se e fugir. Augusto levantou-se, e além do abalo do choque, não tinha sofrido nada.

Os negros acercaram-se dele, quando o meu moleque se abaixou, e depois de apanhar o machado, apanhou, tão admirado como os que o viam, um corno do animal, cortado cerce pelo golpe vigoroso.

Nas matas da região das cataratas, há o Cuchibi, o Mapole, o Opumbulume e a Lorcha, frutos que mais ou menos se encontram no planalto, e além desses, dois frutos privativos dali, a Mocha-mocha, e o Muchenche. Este último é muito sacarino, e dele fiz eu um refresco muito agradável.

Os cáusticos pulverizados de quinino, e três gramas dele que introduzi no organismo, em três injeções hipodérmicas a curtos intervalos, acalmaram o meu estado febril, e no dia 10 levantei-me com sensíveis melhoras. A primeira notícia que me deram foi que o meu Augusto desaparecera desde a véspera, e não tinha sido encontrado por alguns homens que o foram procurar ao mato.

Esta notícia deu-me grande cuidado, porque o Augusto é de um atrevimento louco, e fez-me recear uma desgraça. Mandei gente em todas as direções a busca-lo, e eu mesmo fui com alguns homens, apesar do meu estado, e do muito que me faziam sofrer os cáusticos. Foram infrutuosas as nossas pesquizas, e da excursão apenas trouxemos dois seb-seb (Rubalis lunatus) que eu matei, e muitas varas de madeira, que os Luinas colheram próprias para hastes de azagaias, e que são do mesmo pau de que fazem os remos. Chamam-lhe Minana.

De volta ao campo, secámos ao fogo muita carne dos antílopes.

Esta região, a que chamam o país de Mutema, é abundantíssima de caça da floresta, e desde o elefante até à codorniz, há milhares de animais de todas as famílias, géneros e espécies do planalto Africano. No Zambeze, ao contrário, escasseia a caça de água, abundantíssima na região das planícies.

Pela tarde apareceu o meu Augusto, dizendo que se tinha perdido na floresta, e que encontrara uma povoação de Calacas, onde lhe tinham furtado tudo o que ele trazia, exceto a espingarda.

Os Luinas, ouvindo isto, declararam que iam desforçar o Augusto, e por mais esforços que empreguei não consegui conte-los.

Alta noite voltaram os marinheiros, carregados com os despojos do saque, e entre eles vinha o casaco do meu moleque.

É costume deles, logo que encontram povoações de Calacas na região das cataratas, saqueá-las e destrui-las. Nessa noite o meu estado de saúde agravou-se bastante, mas apesar de me sentir gravemente doente, dei ordem de partir no dia imediato.

Uma hora depois de ter deixado a foz do rio Joco, encontrei os grandes rápidos de Lusso.

Desembarquei e segui por terra, fazendo três quilómetros em três horas.

O rio em Lusso toma uma grande largura e divide-se em muitos ramos, formando ilhas cobertas de vegetação esplêndida.

Depois do belo panorama de Gonha, nada vi mais belo do que os rápidos de Lusso.

Embarquei de novo por baixo dos rápidos, e tendo navegado por duas horas, parei a montante da catarata de Nambue.

As ilhas, com a sua vegetação pomposa, continuavam a apresentar os mais atraentes aspetos.

Decidi passar a catarata nesse dia, e houve grande trabalho, com a pouca gente de que dispunha, para arrastar os barcos por terra. Levou quatro horas aquele fadigoso lidar, mas consegui dormir a jusante da queda.

A catarata de Nambue tem quatro desnivelamentos: o primeiro é de meio metro, o segundo, 150 metros a jusante, é de dois metros, e perfeitamente vertical, o terceiro, 60 metros abaixo, é de um metro, e o último, também de 1 metro, fica a 100 metros deste.

Ocupam por isso as quedas uma extensão de 310 metros. O Zambeze corre ali N.S., mas logo abaixo verga a S.O. para tornar a tomar o seu curso regular a S.S.E.

Durante a noite estive à morte. A febre intensa devorava-me, e nunca pensei chegar a ver nascer o dia 12 de Outubro, dia sempre festivo para mim, por ser o aniversário da minha mulher. As repetidas injeções hipodérmicas de sulfato de quinino em alta dose, conseguiram dominar a febre. Eu chamei o Veríssimo e Augusto, e entreguei-lhes os meus trabalhos, recomendando-lhes, que, se eu morresse, prosseguissem na viagem até encontrar o missionário, e lhos entregassem.

Fiz-lhes ver, que o Mueneputo os recompensaria bem se eles salvassem aqueles papéis, e os entregassem em mão segura, que os fizesse chegar a Portugal.

Ás 6 horas da manhã do dia 12, senti um grande alívio e decidi seguir viagem.

Parti ás 6 e meia, e ás 7 e 15 minutos, passei uns pequenos rápidos, e logo abaixo outros, mais desnivelados, extensos e perigosos. Entestámos ao único canal praticável, e logo que o barco se achou envolvido na corrente, um hipopótamo veio resfolgar a jusante. Estávamos entre cila e Charibdis, ou a fera ou o abismo. Tornámos a entestar com a corrente e subindo o rio, por uma hábil manobra, posemo-nos a coberto do perigo junto a um rochedo quase em seco.

Nos rápidos

 

O barco da carga, receando o cavalo-marinho, desviou-se do canal, e foi impelido com velocidade enorme de encontro ás rochas de um canalete obstruído. Nunca pensámos que se salvasse, mas ele derivou por entre as fragas e passou o perigo, tendo recebido apenas um golpe de água que quase o encheu.

Ás 7.50, outros rápidos, e ás 8, uns muito desnivelados e extensos. Quisemos sair em terra, porque sentíamos a jusante um ruido enorme, semelhante ao rebombar dos trovões pelos alcantis das serras, que nos fez recear grandes rápidos, ou uma catarata impossível de transpor. Foi baldado esforço. A margem mais próxima, a esquerda, ficava-nos a 600 metros, e a corrente rápida, quebrando-se entre os cabeços basálticos, e ressaltando em ondas de espuma, tornava impossível o abeirar à margem. Sam momentos indescritíveis estes.

Levado por uma corrente vertiginosa, tendo diante de si o desconhecido, pressentindo o perigo iminente a cada desnivelamento do rio que se lhe mostra, arrastado de voragem em voragem pelos turbilhões da água revolta, o homem experimenta a cada momento sensações novas, e cem vezes sofre a agonia da morte, para sentir outras tantas o prazer da vida. Das 8 horas e 5 minutos ás 8 e 40, passámos seis rápidos de pequeno desnivelamento; mas a essa hora, uma queda desnivelada de um metro se nos apresentou na frente. Semelhante ao homem que, em corrida, estaca por um movimento instintivo, ao ver o abismo aberto sob o seu caminho, o meu barco, como se fosse animado, parou, por um impulso dos remos; maquinal e inconsciente nos tripulantes. Esse momento de hesitação produziu o desgoverno, e a comprida piroga atravessou na corrente, e saltou ao abismo, na coroa de espuma de uma onda enorme. Foi um segundo, mas foi o pior momento da minha vida. Era a Providencia que nos salvava. Se o barco tivesse atestado de proa com a voragem, seria submergido, e estaríamos perdidos. O desgoverno dele foi-nos a salvação. Logo abaixo destes, outros rápidos menores; e então fizemos força de remos para uns rochedos, que a meio rio estavam colocados em ponto onde a corrente era mais fraca. Abeirámos a eles, e estivemos a tirar água e a arrumar as cargas, desarranjadas pelo abalo dos rápidos. Segui ás 8 e 55 minutos, e logo, ás 9 e 15, encontrámos novas cachoeiras. Ás 9 e 25, os grandes rápidos da Manhicanga. Ás 9 e 30, outros; e daí aos grandes rápidos da Lucanda, que passámos ás 11 e 8 minutos, saltámos em sete cachoeiras mais. Depois de passarmos um pequeno rápido, encontrámos a catarata de Catima-moriro (apaga o fogo) ao meio-dia.

É Catima-moriro o último desnivelamento da região superior das cataratas do alto Zambeze. Dali até à nova região de rápidos, que precede a grande catarata de Mozi-oa-tunia, o rio é perfeitamente navegável.

O espírito também se fatiga como o corpo, e foi verdadeiramente fatigado de espírito, que eu cheguei ao termo dessa perigosa jornada do dia 12, jornada que não posso relembrar sem terror. As comoções daquele dia tinham sarado o corpo, e achava-me sem febre, mas muito fraco. Apareceu muita caça, mas a minha fraqueza e as dores que me produziam os cáusticos ainda abertos, não me permitiram caçar.

O curso do rio foi sempre a S.S.E.

Daí em diante, o rio torna a ter o mesmo aspeto do Baroze, planícies enormes, fundo de areia, e nem mais um rochedo. As margens são formadas por camadas sobrepostas de argila esverdeada. O vento leste era de novo fortíssimo, e encrespava a superfície das águas, levantando ondas bastante grandes. Apesar disso, segui a 13, e fui acampar junto da povoação de Catongo. De novo tinha piorado, e era prostrado pela febre que me metia no barco para seguir.

Ali em Catongo encontrei a minha gente, que tinha deixado na foz do Joco, e que chegou nessa noite.

Soube, que na véspera tinham corrido um eminente perigo, sendo atacados por um bando de leões. Subindo para cima de árvores ponderam escapar-lhe, mas estiveram muito tempo cercados por eles. A minha cabrinha Córa foi içada por um pano que lhe ataram aos cornos, e esteve amarrada a um tronco junto de Augusto. O Augusto matou um dos leões, atirando-lhe de cima da árvore, e trocou em Catongo a pele dele por uma grande porção de tabaco.

No dia 14, naveguei a leste, direção que toma o Zambeze, e fui acampar, pela tarde, já perto da povoação do Quisseque.

O rio continua a dividir-se, formando grandes ilhas, mas não como as da região das cataratas. Sam canaviais monótonos, que cansam a vista.

Tivemos nesse dia pescadores, que nos forneceram abundante peixe. Foram os Uanhis, como lhes chamam os Luinas, e que não são mais do que pigargos gigantescos que povoam as margens do rio. Foram perseguidos alguns, que abandonaram o peixe que levavam.

Uma dessas Águias aquáticas, tinha nas garras poderosas um peixe mais corpulento do que uma pescada, e levou-o fugindo dos meus remadores, sem que mostrasse esforço ao voar.

Todavia, a maior parte abandonavam a presa, para fugir mais rapidamente.

Estes pigargos do Zambeze, que não vi acima da região das cataratas, tem a cabeça, o peito e a cauda completamente brancos, e as azas e costas de um negro de ébano.

Sam exatamente como a espécie Americana descrita com o nome de pigargo de cabeça branca, mas menos corpulenta do que a ave que serve de emblema ao pavilhão dos Estados-Unidos.

No dia 15 de Outubro, cheguei de manhã ao Quisseque, tendo navegado por uma hora a leste.

Não quis ir para a povoação, já desconfiado do gentio, e fui acampar no meio do caniçal de uma ilha vizinha. Mandei prevenir o chefe de que estava ali, e deitei-me abrasado em febre, que de novo reaparecera intensa.

Pouco depois da minha chegada, apareceu na ilha um homem trajando à Europeia, que, pela cor de café com leite da pele, eu reconheci ser um filho das margens do Orange.

Disse-me, por intermedio do Veríssimo, usando da língua Sesuto, que era criado do missionário, e estava ali esperando a resposta do rei Lobossi a respeito do seu amo. Por ele soube, que o missionário era Francês, o que sobre modo me fez admirar. Este homem, que se chamava Eliazar, vendo-me muito doente, mostrou por mim carinhos que nunca vi em negro.

Dizendo-lhe eu, que vinha de propósito procurar seu amo, ele manifestou-me o seu contentamento, e assegurou-me, que o missionário era o melhor homem do mundo.

Eu não sei explicar porque tive um prazer enorme sabendo que o meu homem era Francês, mas é facto que o tive.

Estava eu conversando com Eliazar, quando chegou o chefe, cujo nome é Carimuque, mas que também é conhecido pelo de Moranziani, nome de guerra dos chefes do Quisseque.

Disse-lhe, que queria seguir viagem no dia imediato, porque estava muito doente, e precisava encontrar o missionário, para ele me dar remédios.

Preveni-o de que não tinha víveres, nem com que os comprar, e ele prometeu-me mandar nesse dia mesmo comida para mim e para os meus.

Nessa tarde os meus remadores começaram a gritar que não deixariam o Quisseque sem serem pagos. Eu chamei-os e fiz-lhe ver, que não tinha nada que lhes dar. Que o marfim só poderia ser convertido em fazendas logo que eu chegasse ao missionário que as deveria ter, e por isso para serem pagos era preciso seguir avante.

Eles pareceram convencer-se com o meu argumento. Passei uma noite horrível no caniçal da ilha. Eram cobras que perseguiam ratos, e ratos a fugir de cobras, os companheiros que tive em torno de mim. A febre aumentou. Carimuque veio ver-me na manhã de 16, e trouxe-me um presente de massambala e uma pequena porção de farinha de mandioca.

Declarou-me ele, que os marinheiros se recusavam a seguir sem serem pagos, e que por isso mandasse eu recado ao missionário para ele me mandar as fazendas, e esperasse ali os enviados.

Recusei terminantemente faze-lo, e declarei-lhe, que lhes não pagava se eles não seguissem no dia imediato. Depois de grandes debates, em que fiz prova de enorme paciência, e em que Eliazar pleiteava por mim, repetindo cem vezes, que o seu amo, logo que me visse, pagaria tudo o que eles quisessem, ficou resolvido que no dia 17 nos poríamos de novo em viagem.

Nesse dia chegaram ali os enviados que Carimuque mandara ao Lui com a mensagem do missionário.

Como se sabe, e eu já narrei no começo deste capítulo, Matagja opusera-se formalmente ao ingresso do missionário no país do Lui. A resposta do rei Lobossi, dada por Gambela, vinha cheia de hipocrisia, e não era uma negativa formal.

Mandavam dizer-lhe, que muito estimariam que ele fosse para ali; mas que, naquele momento, as guerras e a falta de comodidade que poderiam oferecer-lhe em Lialui, cidade novamente construída, fazia com que eles lhe pedissem, que se fosse embora, e voltasse no ano seguinte. Para Carimuque vinha uma ordem positiva para não lhe dar meios de ele seguir para o Norte. Eliazar, que ficou muito triste com a mensagem do rei Lobossi, continuou fazendo-me companhia, e falando-me sempre do seu amo a quem tecia verdadeiros panegíricos.

Nesse dia, ás 4 horas da tarde, desencadeou sobre nós uma horrível trovoada, que despejou copiosa chuva até ás 6 horas. Carimuque veio ver-me de novo, e trouxe-me duas galinhas.

Parti ás 9 horas do dia 17, e depois de navegar por duas horas e meia, encontrei a foz do rio Machila. Naveguei a E.S.E.

O rio Machila tem ali quarenta metros de largo por seis de fundo, mas decerto influi nesta altura a água do Zambeze que o represa.

Corre numa planície enorme, onde pastam milhares de búfalos, zebras e grande variedade de antílopes. Vi ali muitos coronais, e presenciei um efeito de miragem surpreendente, apresentando-me toda aquela manada heterogénea, de patas para o ar.

Nunca vi tanta caça junta como ali, é ela muito esquiva, e não deixa aproximar a menos de duzentos metros.

Pude matar uma zebra, que nos forneceu ótima carne, muito melhor do que a de qualquer antílope. Depois de duas horas de demora ali, segui viagem, e naveguei por duas horas e meia mais, parando, ás 5 da tarde, por vermos na margem uma árvore velha trazida pela corrente, onde fomos fazer provisão de lenha para a noite. Foi um verdadeiro benefício aquela árvore, sem a qual não teríamos lenha para cozinhar em campinas despidas de arvoredo.

Quando íamos a seguir, apareceu um preto, gritando que os outros barcos tinham amarrado muito acima e acampado ali a gente. Tivemos que voltar a traz, por não termos provisões no meu barco, e ir a carne na barco da carga.

Só ás 6 e 30 minutos, já noite, juntei a minha gente, e acampei com eles.

Nessa ocasião já iam todos embarcados, porque Carimuque tinha posto dois barcos grandes à minha disposição, e neles eu havia acomodado Augusto, as mulheres, os pequenos e a minha cabrinha.

Calungo, o papagaio, esse viajou sempre comigo.

Carimuque tinha-me feito um presente valioso, numa porção de farinha de mandioca, o melhor alimento que ali podia ter, para mim tão doente e tão debilitado.

Nessa noite quis comer uma pouca de farinha, e fui encontrar o saquinho que a continha completamente vazio.

Entrando em averiguações do caso, soube que fora o meu moleque Catraio que a furtara e comera.

Nessa noite, um drama terrível passou-se junto do meu campo, no meio das trevas.

Foi o combate cruento entre um búfalo e um leão, que terminou pela morte daquele em arrancos de agonia, ao passo que o seu vencedor dava prolongados rugidos, acompanhados por um coro de hienas. De manhã, a 100 metros do acampamento, fomos encontrar os despojos do búfalo, cuja cabeça estava intata, e do qual existiam apenas ossos e farrapos de carne deixados pelas hienas.

Segui viagem, e depois de cinco horas de navegação, entre ilhas divididas por canaletes, formando um sistema complicado, aportei sobre um rápido desnivelado de um metro, primeiro elo da cadeia de cachoeiras que vai terminar pela grande catarata de Mozi-oa-tunia.

Com o basalto reaparece a floresta lindíssima, onde, entre outras árvores, sobressaem já os baobabs, esses gigantes da flora Africana, que eu não via desde Quilengues.

Desembarquei, e fui deitar-me à sombra de um desses colossos vegetais.

Tinha terminado a minha navegação no alto Zambeze, e dali até encontrar o missionário o meu caminhar era de novo a pé.

A povoação de Embarira distava seis milhas do ponto onde eu estava, e para lá partiram os marinheiros com as cargas.

Eu adormeci, e só acordei por noite escura. Só o Veríssimo, Camutombo e Pépéca estavam junto de mim. Perguntei-lhes porque estávamos ainda ali? respondendo-me o Veríssimo, que não tinha querido interromper o meu sono. Apesar do escuro da noite, ia pôr-me a caminho, quando reparei que não tínhamos uma só arma. O Veríssimo, que de vez em quando fazia asneira, deixara levar as minhas armas para Embarira. Não fiquei sossegado, vendo-me sem armas no meio de uma floresta infestada de feras. Mandei-os logo juntar lenha para fazer uma fogueira, mas ás escuras eles nenhuma encontravam que servisse.

Pépéca lembrou-se então de ter visto perto de nós um barco velho, que efetivamente encontrámos, mas a dura madeira do Mucusse resistia ao corte da minha faca de mato.

Lembrei-me de o jogar como aríete contra o tronco do baobab, e logo nós três dando-lhe o movimento de vai-vem, o lançámos com a máxima força. A canoa fez-se em rachas na parte que sofreu o choque. Esta operação, repetida algumas vezes, forneceu lenha e com ela uma boa fogueira.

Estávamos dispondo-nos a dormir ali, quando sentimos gente, e logo apareceu o Augusto com alguns homens, que vinham procurar-me. Parti com eles, e cheguei a Embarira pela meia-noite. O chefe da povoação tinha-me preparado uma casa, onde me recolhi cheio de febre e fadiga.

Estava em Embarira, na margem esquerda do rio Cuando, cujas nascentes havia descoberto e determinado três meses antes.

Estava próximo a alcançar o missionário, de quem esperava auxílio para poder continuar a minha viagem, e estava em véspera de novas aventuras, que não calculava ainda.

O estado da minha saúde muito melindroso, a dúvida no futuro, as apreensões do presente, e milhares de persovejos, que tinha a casa onde me recolhi, fizeram-me passar uma noite atribulada.

Depois, uma outra ideia, não me saía da mente. Ao chegar ali, soube, que um branco (Macua), que não era nem missionário nem comerciante, estava acampado de cara de mim, na outra margem do Cuando.

Quem seria o meu companheiro naquelas remotas paragens?

Ardia em curiosidade, e contava os instantes para o alvorecer do dia seguinte.

CAPÍTULO 14

CAPÍTULO SUPLEMENTAR

 

Em páginas anteriores, em capítulo análogo a este, tratei por modo sucinto, dos países compreendidos no meu caminho entre a costa de Oeste e o Bihé.

Neste capítulo buscarei epitomar o que nos meus trabalhos escolhi de mais interessante, relativo ao vasto território que medeia do Bihé ao curso superior do rio Zambeze, até onde termina a narrativa da minha viagem na página antecedente.

Apresentando um resumo das minhas determinações astronómicas, dos meus estudos meteorológicos, etc., sem pedantismo o faço, e creio apenas, nisso cumprir um dever, tornando públicos um certo número de estudos e trabalhos de que fui encarregado, e que, se não interessam a alguns leitores, podem merecer atenção de outros.

Sem querer alcunhar-me de sábio, declarar-me ignaro seria afetação.

Além da carta geral de África tropical do sul, quis eu apresentar algumas cartas parciais dos países que mais mereceram a minha atenção no caminho que segui, por poder dar a estas um desenvolvimento de detalhes que a pequena escala daquela não comportaria.

Vou tratar desse enorme trato de território, debaixo do ponto de vista geográfico, com tanto mais interesse, quanto ele é desconhecido aos geógrafos; que nas suas cartas o tem preenchido até hoje com linhas mal seguras, traçadas pela mão trémula da dúvida, colhida nas informações pouco idóneas e contraditórias de gente ignara.

Um Europeu, Silva Porto, atravessou aquela parte da planura Africana, antes de mim, e em grande parte muito mais ao sul do caminho que segui; mas Silva Porto nunca publicou as suas interessantíssimas notas, que agora anda pondo em ordem; e é preciso dizer, que, se essas notas dão um valioso subsidio ao estudo da etnografia Africana, pelo muito que a sua vista observadora perscrutou dos costumes e do viver dos negros, dão elas um fraco auxilio ás ciências geográficas, em que ele, por falta de elementos, não pode fazer um trabalho sério.

Sam países completamente novos à geografia aqueles que apresentei nos antecedentes capítulos, e de que vou tratar neste.

As coordenadas geográficas dos principais pontos do meu itinerário foram calculadas dos elementos que adiante público.

Começarei por descrever o sistema fluvial desta parte da planura Africana.

As últimas águas que correm à costa de Oeste nascem em torno do Bihé, dentro de um V enorme formado por dois rios, o Cubango e o Cúito, que, depois de se unirem em Darico, vão correr a S.E. no Deserto do Calaari.

O sistema fluvial da Costa Oeste, entre a foz do Cuanza e a do Cunene, termina quase ali; recebendo ainda o Cuanza alguns afluentes de Leste, que vão buscar as suas águas ao meridiano 18 E. Greenw.; tais são: o rio Onda, que ainda nasce dentro do ângulo formado pelo Cubango e Cúito, e o Cuiba e o Cuime, que entrelaçam as suas nascentes com as do Cúito e as de outro rio, o Lungo-é-ungo, que pelo Zambeze vai lançar no mar Indico águas bebidas nos charcos de Cangala, por 18 de longitude; e que percorrem a enorme distância de mil quatrocentas e quarenta milhas, para atingirem a meta que a natureza lhes marcou. A latitude destas nascentes, que, em amigável convívio, partilham as suas águas para pontos da terra tão distantes, é proximamente de 12° e 30, isto é, está nessa faixa, compreendida entre os paralelos 11 e 13, onde nascem os dois rios gigantes da África Austral, o Zaire e o Zambeze, e os seus principais afluentes.

Entre o Equador e o paralelo 20 austral, esses dois rios formam dois sistemas de águas perfeitamente definidos, mas que tem um traço comum de união no paralelo 12 e na faixa que borda esse paralelo 60 milhas ao Sul e ao Norte, entrelaçando ali as suas origens muitos dos grandes afluentes dos dois colossos, e formando de per-si cada um deles um sistema de águas que vai engrossar as duas artérias principais.

Assim pois, entre os meridianos 18 e 35 a leste de Greenwich, e os paralelos 8 e 15 austrais, toda a água que corre ao Norte vai entrar no Atlântico por 6°, 8, com o nome de Zaire; toda a que corre ao sul entra no Oceano Indico por 18°, 50, com o nome de Zambeze.

Caminhando a E.S.E. afastava-me da bem pronunciada linha divisória das águas dos dois grandes rios, e ao passo que os meus ex-companheiros se entregavam ao estudo de um desses sistemas de águas filial do Zaire, eu seguia passo a passo outro filial do Zambeze; e à medida que avançava no interior do continente, esse sistema ia-se apresentando firmemente definido e claro.

Os países de que falei nos anteriores capítulos, os mesmos de que estou tratando aqui, são a sede de um sistema fluvial, que forma um dos principais, se não o principal, afluentes do Zambeze.

O rio Cuando, artéria principal deste sistema, nasce, por 18°, 57 de longitude, 12°, 59 latitude, num pequeno charco apaulado, superior ao nível do mar em 1362 metros.

A sua foz, na confluência com o Zambeze, está colocada em 17°, 49 de latitude, 25°, 23 de longitude, na altura de 940 metros do nível do mar. A extensão do seu curso é de 540 milhas geográficas, ou proximamente mil quilómetros. O seu desnivelamento da nascente à foz é de 422 metros, ou de um metro em cada 2369 metros de curso.

Os afluentes do rio Cuando, pela maior parte navegáveis, representam uma extensão de vias fluviais não inferior a mil milhas geográficas, ou proximamente mil e oitocentos quilómetros, que com o curso daquele rio perfaz um total superior a 1600 milhas, ou perto de três mil quilómetros. Estes algarismos enormes representam a importância daquela parte do planalto Africano.

Forçando a minha marcha, entre mil dificuldades, pude seguir a linha das nascentes do grande rio e os seus principais afluentes, que ficaram perfeitamente determinados nos seus cursos superiores.

Aos traçados hipotéticos, a que a maior parte dos geógrafos preferiam deixar na carta daquela parte de África um branco enorme, pude substituir um traçado firme e seguro do país ignoto.

O rio Queimbo, o Cubanguí, o Cuchibi e o Chicului, são todos rios navegáveis, banhando férteis países e prometendo um futuro aquela parte do continente negro, livre do ze-ze, a mosca terrível, que corta cerce o porvir de muitos outros terrenos Africanos.

Agora, que em breves traços apresentei o grande e principal sistema de águas das terras compreendidas entre o Bihé e o Zambeze, vou sucintamente falar da sua orografia.

Para isso preciso antes dizer duas palavras da constituição geológica do solo, que facilmente explica os pequenos acidentes dele.

O solo Africano Austral é rocha das épocas primitivas. Se junto ás costas, nos terrenos baixos observamos os depósitos sedimentares, e o trabalho da água, eles acabam ali, para não deixar perceber mais do que a ação do fogo.

Os calcários terminam nas escarpas oeste das montanhas que formam os primeiros degraus do planalto. Sucede-lhes imediatamente o terreno plutónico, e encontramos até ao Bihé o granito primitivo, profusamente distribuído. Do Bihé para leste o granito vai desaparecendo, e além Cuanza é substituído pelos xistos argilosos, e micaxistos.

É sempre o terreno eruptivo, mas debaixo da ação do metamorfismo. Efetivamente, do Cuanza ao Zambeze o solo é metamórfico.

Sam xistos e micaxistos, tornados de tal modo plásticos, pela ação das grandes águas, que do Bihé ao Zambeze, se algum viajante tencionar um dia ali atirar alguma pedrada, eu recomendo-lhe, que leve pedras do Bihé e donde termina a região granítica, porque em todo o caminho que segui não encontra uma só.

A natureza do terreno explica por si mesma o seu pouco acidentado, e a falta de cataratas e rápidos nos rios desta região Africana. Em todo o caminho que segui há uma depressão constante no terreno até ao leito do Zambeze, formando uma inclinação suave. Esta depressão é de 292 metros, em 720 quilómetros, que medeiam da margem do rio Cuanza à planície do Nhengo.

A orografia daquela região é produzida pela ação da água, e perfeitamente marcada pelas depressões dos leitos dos rios.

30 a 40 metros acima do nível das águas correntes, se elevam sistemas de montes de cumeadas arredondadas e uniformes, acompanhando sempre sem exceção o curso das águas.

A flora que se nos apresenta no Bihé, e onde a planura atinge a sua maior elevação, mais pobre em árvores, mas riquíssima em arbustos e plantas herbáceas; na parte leste do país do Bihé, e sobre tudo além-Cuanza, já recupera, com a menor elevação do solo, toda a sua riqueza tropical.

A caça, que escasseia desde o país do Huambo até próximo da nascente do Cuando, reaparece abundante dali até ao Alto Zambeze. Seis raças perfeitamente distintas, e que os sertanejos da costa confundem debaixo do nome genérico de Ganguelas, assentam as suas povoações do Cuanza ao Nhengo.

O país a leste do Cuanza, na parte que é cortado pelos rios, Cuime, Onda e Varea, e os seus pequenos afluentes, é habitado pelos Quimbandes.

Do Cuito à nascente do Cuando, assentam as suas povoações os Luchazes. Os afluentes de E. do Cuando, este mesmo rio, são povoados de gentes de raça Ambuela.

Como disse na minha narrativa, o país dos Luchazes está sendo invadido por uma emigração enorme de Quiocos ou Quibocos, que tendem a estabelecer-se nas margens do rio Cuito. Entre este rio e o Cuando e muito para o sul, o país, sem povoações fixas, é com tudo ocupado por uma grande população nómada, os Mucassequeres.

A margem sul do rio Lungo-é-ungo e os seus pequenos afluentes, são habitados por os Lobares. Três destas raças, os Quimbandes, Luchazes e Ambuelas, falam a mesma língua, o Ganguela, com pequenas modificações.

Os Quiocos e Lobares falam dialetos diferentes, e os Mucassequeres uma língua original, tão diversa das outras, que é impossível serem compreendidos de povos estranhos.

Os Quimbandes são indolentes e pouco guerreiros, pouco agricultores e pobres em gados, ocupando um país fertilíssimo, em todas as condições de dar a riqueza aos seus possuidores.

Formando federação, não deixam de andar em questões continuadas com os vizinhos da mesma raça.

Não são bravos, mas são ladrões, e atacam sempre as comitivas do Bihé que vão negociar cera mais ao interior, logo que essas comitivas são fracas e eles conhecem que podem vencer.

É certo, logo que desfila uma comitiva no país, estarem eles emboscados a contar as espingardas que traz, e o número de caixas de pólvora, que se distinguem pelo seu invólucro de pele de leopardo, costume adotado pelos sertanejos Bihenos.

Se alguém entrar no país dos Quimbandes com 50 espingardas e seis ou oito caixas de cartuxos, pode dormir descansado, que só terá deles amizade e respeito.

Os Luchazes, um pouco mais agricultores do que os Quimbandes, não possuem já rebanhos bovinos, e apenas há aqui e além algum gado caprino de inferior espécie.

Já cuidam de colher cera, e são um pouco mais industriosos do que os seus vizinhos de oeste.

Em quanto a valor e honestidade, orçam pelo mesmo. Constituídos em federação como aqueles, cada povoação tem um chefe independente, um pequeno senhor, que não se dá ares de tirano com o seu povo.

Os Ambuelas, de muito melhor índole, não são nada guerreiros. Sam talvez a melhor gente indígena de África Austral.

Grandes cultivadores, não trabalham menos na colheita da cera. Sam pobres, podendo ser riquíssimos se tivessem gados.

Formam federação como os outros, mas os chefes conservam um pouco mais de independência.

Em geral, vi na África, que mais felizes e livres são os povos governados por pequenos senhores. Não se praticam ali as Cenas de horror tão vulgares nos grandes impérios regidos por autocratas.

Se o roubo é vulgar, é desconhecido ali o assassínio, ao passo que entre os grandes potentados o roubo vem depois do homicídio.

Sem pretensões a profeta, quero crer, que, um dia, será entre aqueles povos que se estabeleceram os mais seguros elementos de civilização Europeia na África.

É minha opinião, que nos países ocupados pelas confederações Africanas, regidos por pequenos régulos, de índole menos guerreira, por se reconhecerem mais fracos, é que deve entrar a civilização com mão forte, debaixo da forma do comércio, do missionário e do explorador.

Divirjo, por tanto, da opinião do mais ousado dos exploradores, do mais enérgico trabalhador Africano, do mais dedicado apóstolo da civilização do continente negro, do meu amigo H. M. Stanlei.

Diz ele, que devem os missionários atacar a África pelos grandes potentados.

Não penso assim, e o estudo dos factos demonstra-me o contrário.

O Matebele desde 25 anos que possui missionários Ingleses, e não há ali um só cristão! Se o chefe é catequizado, o seu povo obedece e finge seguir a lei de cristo.

É como a estátua de Nabuchodonosor, tem pês de barro aquela civilização.

Morra o chefe, venha outro que não queira trocar o harém onde ceva a brutal lascívia, pelo tálamo nupcial onde uma só esposa lhe acompanhe os passos na carreira da vida, e caiu o monumento, a civilização desfez-se, e não há amanhã um só cristão na igreja que hoje regurgitava de povo.

O comércio é bem recebido pelo grande potentado, porque representa interesses imediatos materiais de que ele colhe o fruto.

No Matebele, onde os missionários Ingleses não tem podido fazer escutar a doutrina de cristo, os negociantes Ingleses tem introduzido com o vestuário e com outras necessidades que tem sabido criar, uma civilização relativa.

Podem apontar-me o exemplo do Bamanguato, mas eu respondo com o que já disse. Morra o rei Khama, e vá ao poder um sova que não queira ser cristão, e todos os catequizados se esvaíram como fumo. Os negociantes continuaram o seu tráfico, mas o missionário terá de repetir com ele as orações do Domingo, ás pessoas de família que o rodeiam.

Digo-o sem receio de errar.

No Transvaal, entre pequenos régulos, vemos muitos indígenas que seguem a lei do Evangelho. No Basuto há cristãos convictos, independente da influência dalguns chefes que o não são.

Se os exemplos são estes, aqueles que veem no missionário o primeiro mensageiro da civilização Africana, que ataquem os pontos fracos do reduto, e não vão perecer ingloriamente onde o cruzamento dos fogos é mais ativo.

Eu sou apologista do missionário, merecem-me a maior consideração não só as missões, em si mesmo, mas os seus membros espalhados no meio dos povos bárbaros do continente negro. Tenho visto em quase todos os que conheço a tendência para seguirem um caminho diferente daquele que aponto.

Todos querem um grande número de adeptos para a catequese, sem olharem ao terreno em que semeiam.

Uma vez que incidentalmente falei dos missionários Africanos, vou rapidamente dizer duas palavras mais sobre o assunto, que me proponho a ratar um dia largamente em obra adequada.

Eu francamente não creio o cérebro do preto à altura de compreender um certo número de questões, comezinhas entre povos de raças evidentemente superiores.

As questões abstratas são sublimes e incompreensíveis a tão inferiores organizações.

Explicar teologia a um preto equivale a expor as sublimidades do cálculo diferencial a uma assembleia de campónios.

Mas, se o preto não está à altura de poder jamais compreender as verdades da religião de cristo, tem sem dúvida o sentimento do bem e do mal, e está nas condições de compreender os princípios de moral comum.

Marchem por entre os povos ignaros de África Central os missionários, sigam sem trepidar o caminho que lhes impõe a sua missão evangélica, mas desvendem os olhos.

Tomem para si o que há de abstrato na ciência de Deus, e não queiram ensinar aos negros o que há de sublime nela para cérebros mais bem organizados. Ensinem moral e só moral, com o exemplo e com a palavra; criem necessidades aos que a ignorância faz prescindir de tudo; criem-lhes necessidades, que elas farão nascer o trabalho, e só por ele se regenera um povo.

Quero missionários, mas quero missionários do cristianismo e da civilização, homens que compenetrados dos seus deveres para com Deus e para com a sociedade, saibam firmar o edifício social em sólidas bases; ensinando o bem e o trabalho, e tudo o que o preto possa compreender; esperando a ocasião que o tempo, a civilização, não deixará de trazer, se ele bem trabalhar, para ir pouco a pouco incutindo nos ânimos as verdades da teologia e da moral.

Busque primeiro fazer do preto um homem, que tempo terá de fazer do homem um cristão. Seguir o caminho contrário é edificar na areia.

No correr desta obra terei ainda de falar nas missões Africanas, e falarei desassombradamente com a consciência de que presto um verdadeiro serviço à causa das missões e à causa da humanidade, apontando erros de que elas estão eivadas.

O homem que mais poderia coadjuvar o missionário em África seria o negociante.

Infelizmente o comércio sertanejo está em mãos de bem tristes apóstolos da civilização.

Já falei dos Portugueses, e com bem pesar meu tenho de meter estrangeiros em linha igual. Por um lado, a invasão do comércio pelos Árabes de Zanzibar não dá em civilização e cultura o que devia dar, porque a dissolução de costumes de tais gentes destrói tudo quanto o comércio adianta.

Por outro lado, os traders (traficantes) Ingleses, creio que deixam muito a desejar em moralidade, segundo ouvi dizer a missionários seus conterrâneos. Esta questão, do comércio sertanejo como meio civilizador, é questão que me proponho a tratar um dia, e que não é cabida aqui, onde só por incidente falei de missões e comércio.

Volvendo a entrar em assunto, dizia eu, que os países compreendidos entre o Cuanza e o Zambeze estão em condições de receberem com mais facilidade do que os outros povos que conheço em África, o impulso civilizador que a Europa hoje se empenha em imprimir aos esquecidos povos do grande continente.

Deixando estes países, dos quais já falei detidamente nos anteriores capítulos, vou entrar no Alto Zambeze.

Até ali era eu o primeiro explorador a pisar aquelas paragens, o primeiro a descreve-las, o primeiro a apresentar uma carta geográfica que as representasse; ali havia sido já precedido por outro, e por outro que se tornou tão distinto na obra da civilização Africana, que ganhou um túmulo em Westminster Abei, e repousa hoje junto dos reis, dos grandes homens de Inglaterra. Vinte anos antes de mim, David Livingstone percorreu aquele país.

Nesse tempo era ele governado por outra raça, e eu fui encontra-lo em condições bem diferentes.

As condições de geografia física eram as mesmas; mas os geógrafos que seguirem outros, terão sempre retificações a fazer, terão sempre alguma coisa a acrescentar.

Entre a carta de Livingstone e a minha há diferenças que já deram nas vistas a alguns geógrafos Europeus.

Que o vulto respeitável do célebre explorador me perdoe se eu o contradizer em alguns pontos da sua geografia do Alto Zambeze. Era a sua primeira viagem, e o Missionário ousado estava longe ainda de ser o explorador geógrafo do futuro. Ele mesmo não se vexa de confessar que, nesse tempo, de balde tentou medir a largura do rio por um processo trigonométrico comezinho.

Da confluência do Liba à do Cuando, o Zambeze apenas recebe na margem direita dois afluentes, o Lungo-é-ungo e o Nhengo.

Quem viaja da Costa de Oeste vê logo, que entre o Nhengo e o Cuando nenhum rio pode existir. Assim pois o rio Longo, o Banienko, etc., são traços filhos de informações erróneas.

Na longitude do Zambeze, no paralelo 15, encontrei também diferença grande para oeste; notando-se que essa diferença envolve um erro manifesto; porque eu observava os reaparecimentos do primeiro satélite de Júpiter, e havendo erro da minha parte era esse erro prejudicial a mim, porque envolvia aproximação da determinação de Livingstone.

Cada quatro segundos que eu visse mais tarde o reaparecimento, era uma milha mais a favor dele.

O que poderia produzir um erro que me afastasse da posição determinada, era eu ver o satélite antes do reaparecimento, o que é materialmente impossível.

O curso do Alto Zambeze, na parte em que o visitei, isto é, do paralelo 15 à catarata de Mozi-oa-tunia, é dividido em quatro troços perfeitamente distintos. Do paralelo 15 (e mesmo muito mais do Norte) até próximo do paralelo 17, é perfeitamente navegável em todas as épocas do ano.

Aí começa a aparecer o terreno vulcânico, e com ele o basalto. É a primeira região dos rápidos e cataratas, onde fora um serio obstáculo, a grande catarata de Gonha; tudo mais com pequeno trabalho se tornava facilmente navegável, abrindo um canal junto de uma das margens. Mesmo em Gonha, era de pequena dificuldade profundar um canalete que existe na margem esquerda junto do caminho que segui por terra, e que vem designado na carta, por onde se escoam águas na época das cheias.

Da última catarata, Catima-Moriro, até à confluência do Cuando, torna o rio a ter uma navigabilidade fácil.

Daí para jusante novos rápidos vão terminar na enorme catarata de Mozi-oa-tunia, e essa região não poderá nunca ser aproveitada como via importante, porque uma série de abismos lhe corta um futuro melhoramento qualquer quanto a navegação.

No vale do Alto Zambeze há terrenos produtivos e férteis. Vastas pastagens alimentam milhares de rezes nos vales, acima e abaixo da região das cataratas. Na região montanhosa há a mosca Ze-ze, e torna-se difícil passar os gados de Lialui ao Quisseque.

Contudo, a mosca está concentrada nas florestas da região das cataratas, e para leste do Baroze não existe, porque os povos Chuculumbes são grandes pastores.

O vale do Alto Zambeze, cheio de beleza, fértil e rico, exala do seu seio envolto nos aromas das suas flores o miasma pestilente. Os Macololos foram dizimados pelas febres, e quando as azagaias do rei Chipopa libertaram o país dos últimos conquistadores, já o clima tinha feito a sua obra de destruição.

Os Bihenos, que resistem ás febres de quase todos os países Africanos que visitam, são fulminados pelos miasmas do Zambeze.

No país entre o Bihé e o Zambeze, onde as caravanas se demoram muito tempo a permutar cera, é raríssimo haver um caso de febre no gentio Biheno; além da planície do Nhengo, multiplicam-se as sepulturas deles.

Veríssimo, indígena e possuindo uma organização refrataria ao miasma, Veríssimo, que nunca na sua vida estivera doente, não pode escapar ao clima do Baroze, e vimos no capítulo antecedente ser ele prostrado pela febre. Eu mesmo, que resisto bastante ás endemias Africanas, sentia respirar a morte com o ar que respirava ali.

Esta verdade, se tivera sido apregoada há mais tempo, teria poupado a vida à família Elmore, que só de abeirar-se ao país sucumbiu; porque o clima na região do Quisseque, e da confluência do Cuando até Linianti, não tem melhores condições de salubridade do que o Baroze.

Cumpro um dever falando bem alto a linguagem da verdade a respeito de um país que está merecendo a atenção da Europa.

Aí fica ela, e salva está a minha responsabilidade de informador consciencioso, para todas as desgraças, que aquela voragem ainda há de causar aos que não crerem.

Será por isso o Lui um país de que se deva fugir e ao qual ninguém se deverá abeirar? Não é, e eu vou procurar demonstrar, que ele deve merecer uma séria atenção, não só à Europa em geral, como muito particularmente a Portugal.

A África Austral, entre os paralelos 12 e 18, tem uma largura média de dois mil e seiscentos quilómetros, e a partilha das águas para as duas costas faz-se a um quinto desta extensão, junto à Costa de Oeste; porque se faz próximo do meridiano 18 E. Greenw., isto é, a 600 quilómetros apenas, da Costa Oeste.

Daí já se lançam dois rios, cujas águas se juntam ao Zambeze, o Lungo-é-ungo e o Cuando.

Antes de vermos a importância destes dois cursos de água, estudemos o próprio rio gigante, aquele que bebe as águas de todo o planalto Africano ao sul do paralelo 12 até ao paralelo 20, e a leste do meridiano 18.

O Zambeze divide-se naturalmente em três grandes troços perfeitamente distintos:

O alto curso, o curso medio, e o curso inferior.

O Alto Zambeze compreende o rio desde as suas nascentes, ainda ignotas, até à sua grande Catarata Mozi-oa-tunia.

O curso medio estende-se desde Mozi-oa-tunia aos rápidos de Cabrabassa; e o Baixo Zambeze daí ao Mar Indico.

Vejamos agora quais são as condições de navigabilidade de cada uma destas partes do rio, e qual a sua importância relativa, e a dos seus afluentes.

Já neste mesmo capítulo descrevi as condições do Alto Zambeze e por isso começarei por tratar do seu curso medio.

Conta ele de Mozi-oa-tunia a Cabrabassa uma extensão de 460 milhas geográficas, ou de 828 quilómetros, e divide-se em duas regiões perfeitamente distintas, a superior e a inferior, cada uma das quais é extensa de 230 milhas, ou 414 quilómetros.

A região superior, que começa na grande catarata e termina nos rápidos de Cariba, não tem importância como via navegável, nem pelos afluentes que recebe, todos pequenos e inaproveitáveis à navegação.

Tem esta região alguns troços navegáveis, mas em pequenas extensões, e logo interrompidos com rápidos. A segunda parte do curso medio, de Cariba a Cabrabassa, está em condições bem diferentes, tanto por oferecer uma fácil navigabilidade como por os importantes afluentes que recebe do Norte. De um destes afluentes me ocuparei em breve.

O Baixo Zambeze, de Cabrabassa ao mar, conta uma extensão de 310 milhas geográficas, ou 560 quilómetros, onde apenas poucas milhas são ocupadas pelas cachoeiras de Cabrabassa; sendo o resto do curso navegável, ainda que em más condições, por falta de água na estação estia.

Esta parte do rio, mesmo nas más condições em que está da confluência do Chire a Tete, é ainda uma grande via por onde se faz todo o comércio do interior com Quelimane. Recebe ele um afluente importante, o Chire, magnífico rio, que da sua foz a Chibisa, não tem cataratas, sendo perfeitamente navegável. O Chire que vem do Norte, no seu terço medio corre a S.E. quase paralelamente ao Zambeze; e por isso de Chibisa a Tete apenas medeia uma distância de 65 milhas geográficas, ou 117 quilómetros, em terreno pouco acidentado, e que hoje, sem caminhos, se vence facilmente a pé em cinco dias.

Esta circunstância é muito para merecer a atenção; porque, sendo o rio Zambeze pobre em profundidade da foz do Chire a Tete, não o é do Mazaro ao mar; e assim, navegando-se por ele e pelo Chire até Chibisa, chegamos a 5 dias de jornada a pé, de Tete, com toda a rapidez que nos podem proporcionar aquelas magníficas vias. Os 117 quilómetros que separam Chibisa de Tete, podem ser vencidos num dia com uma simples estrada de rodagem, e em três horas com uma ferrovial.

Estão pouco ou nada estudados os rápidos de Cabrabassa, e não faço ideia até que ponto eles constituem um sério obstáculo à navegação, e se com pequeno ou grande trabalho se poderia remover esse obstáculo.

Sei porem, que a região que eles ocupam é pouco extensa, o que já constituí uma vantagem indiscutível.

Voltemos ao curso medio do Zambeze.

Recebe ele pelo norte dois importantes rios, o Aruangua do norte, e o Cafucué.

O primeiro, em cuja foz assentou outrora a importante e comercial vila do Zumbo, cujas ruinas atestam até que ponto a ousadia Portuguesa, ia fundar os seus mercados, introduzindo a civilização e o comércio nas mais remotas terras Africanas, é um rio volumoso em águas, mas, (dizem os sertanejos Portugueses) muito cortado de cataratas.

Seria contudo importantíssimo o seu estudo, ainda que não lhe vejo a mesma importância que tem o outro rio, o Cafucué, de que vou falar.

Os pombeiros Bihenos passam ao norte do Lui, atravessam o país dos Machachas, e encontram um rio enorme a que eles chamam o Loengue. Esse rio é percorrido por eles nas suas viagens de tráfico, que o sobem até ás origens, e descem até à foz, onde toma o nome de Cafucué.

Alguns dos que estavam comigo fizeram muitas vezes essa viagem, e raro é o Biheno que não tenha estado em Caiuco.

Miguel, o meu caçador de elefantes, de quem mais de uma vez falei no correr da minha narrativa, passou dois anos naquele país caçando elefantes, e muitas vezes percorreu o rio embarcado de Caiuco a Semalembue; isto é uma distância que eu calculo grosseiramente em 220 milhas geográficas, ou 400 quilómetros.

De Lialui a Caiuco deve a distância ser de 220 quilómetros, porque é facilmente vencida pelos Luinas em dez dias, havendo exemplos de ter muitas vezes sido ganha em 8 e 7. Em virtude destes dados, lancemos um rápido golpe de vista ao estudo que temos feito do Zambeze, e reconheceremos que, numa extensão de 900 milhas geográficas, ou 1620 quilómetros, seguindo pelo Zambeze, Chiri-Tete, Cafucué ou Loengoe, a Caiuco e Lialui, temos apenas 18 dias de caminho por terra, 5 de Chibisa a Tete, 3 de Cabrabassa, e 10 de Caiuco a Lialui; representando uma extensão de 400 quilómetros, e por isso sendo aproveitados 1220 quilómetros de vias fluviais perfeitamente navegáveis.

Voltemos agora ao Alto Zambeze, e vejamos quais as suas circunstâncias com relação aos seus afluentes. De um sabemos nos já que é navegável, o Cuando, mas sabemos também, que ele desagua entre duas regiões de cataratas; o que o isola das partes importantes do curso do Zambeze.

Mas da região que está entre a sua foz e o Lui, já disse que não vejo impossibilidade de ser facilmente tornada em via aproveitável; e logo que assim seja, e mesmo agora, poderíamos descer do Lui, e subir pelo Cuando até perto do meridiano 18.

Contudo, outro rio poderia fornecer-nos o meio de atingir aquele ponto mais direta e facilmente, se fosse navegável.

Era ele o Lungo-é-ungo.

O Lungo-é-ungo é a grande estrada dos Bihenos para o Alto Zambeze, e por isso muito conhecido deles. Afirmam-me, que não tem cataratas, e não deve tê-las, correndo em terreno igual ao do Cuando e do Ninda.

O seu desnivelamento é de 400 metros em 540 quilómetros de curso.

Dizem os Bihenos, e afirmaram-me os naturais, sempre que andei próximo desse rio, que ele não tem cataratas, como já disse, mas que por vezes a sua corrente é muito violenta, sendo preciso puxar as canoas à cirga. Sendo isto verdade, como suponho, chegaríamos do Mar Indico, quase à Costa de Oeste de África, apenas com 18 dias de caminho por terra, a pé! Isto é, numa extensão superior a dois mil quilómetros, apenas teríamos de caminhar em terra 400!

A exploração do Loengue ou Cafucué e a do rio Lungo-é-ungo são hoje das mais importantes a empreender na África Austral, e são relativamente fáceis e pouco custosas.

 

Não pude deixar de chamar a atenção para este ponto, que resolve o problema da fácil comunicação entre as duas costas.

Já vão longas estas divagações, num capítulo onde eu apenas tencionava apresentar os meus trabalhos geográficos e meteorológicos.

Nas seguintes páginas vai publicado desses trabalhos, o que eu julguei mais interessante para alguns leitores.

Ás observações iniciais de astronomia que me deram a determinação dos pontos do meu caminho, seguem-se aquelas que me permitiram fazer o relevo do continente. (*)

[(*) NOTA: Optámos por não incluir os vários gráficos feios por Serpa Pinto por serem demasiado grandes para este E-book.]

 

Vem depois as notas meteorológicas, com interrupções inevitáveis quando se é só a fazer um trabalho tal.

Constam elas de dois boletins, que registam as observações feitas 0 h. 43 m. de Greenwich, e ás 6 horas da manhã do lugar em que me achava, hora a que dava corda aos cronómetros.

O estudo desses boletins mostra sempre a grande uniformidade das oscilações barométricas, e as enormes desigualdades de temperatura e de humidade do ar nos países a que se referem.

Vê-se também, que os ventos reinantes são do quadrante Este em todo o país do Bihé ao Zambeze.

Como já tive ocasião de dizer, e bem se compreende ao ler a minha narrativa, não pude fazer coleções naturalistas, e apenas, aproveitando muito pouco papel de que podia dispor, levei das nascentes do rio Ninda algumas plantas, que estão em poder do Sr. Conde de Ficalho, para serem estudadas, e onde parece já terem aparecido algumas espécies novas.

É opinião do Sr. Conde de Ficalho, que o cereal muito cultivado entre os Quimbandes e Luchazes, a que eu chamo Massango, e erradamente chamei Alpiste, é uma espécie de Penicilária, a que chamavam outrora os botânicos Penicetum tifoideum.

Aquele que eu designo com o nome de Massambala é o Sorghum.