Diário de África
No Deserto
Só ás 8 horas do dia seguinte, depois de uma jornada de três horas, entrei no meu rumo, entrando no caminho abandonado na véspera. O terreno continuava acidentado, mas era preciso seguir nele.
Ao descer uma eminencia, as rodas de um lado do vagão entraram num sulco profundo, e o vagão tombou, ficando encostado a duas árvores que lhe ampararam a queda. Eu já desconfiava que o meu Stanlei não prestava para nada, mas tive a convicção disso no primeiro embaraço que encontrámos. O homem, ao ver o vagão tombado, sentou-se, fechou as mãos na cabeça e julgou-se perdido.
Mandei dejungir os bois, e fui estudar a maneira de levantar o carro sem o despedaçar. Augusto, Veríssimo e Camutombo foram cortar três fortes e compridas estacas, que amarrei ao vagão e por meio de cordas dadas ás árvores do outro lado, consegui sustenta-lo na sua posição natural, empregando para isso apenas uma junta de bois.
Em seguida, enchi o sulco com paus e folhagem, para que as rodas daquele lado pudessem descansar ao mesmo nível das do outro lado. Este trabalho durou mais de quatro horas, e quando consegui por o vagão em estado de rodar e mandei jungir os bois, ao primeiro esforço que eles fizeram, a corrente tirante partiu-se em bocados.
Nova demora, novo trabalho a ligar os elos da corrente partida com tiras de couro de girafa, isto debaixo de uma chuva torrencial, e o meu Stanlei sempre pasmado e sem saber o que havia de fazer.
Consegui partir ás três horas e meia, mas tive que parar logo depois, porque o temporal recresceu, e o terreno argiloso encharcado não permitia o rodar do vagão, que, muito abalado pela queda, se desfazia em pedaços. A tempestade foi horrível até ás 10 horas da noite, e durante duas horas, os raios caíam muito próximos, lascando as árvores da floresta. O terreno, sempre acidentado, é coberto de mata espessa, que vegeta num solo de argila muito plástica.
Fli, o meu Cavalo do deserto.
(De uma foto. Feita em Pretoria.)
No dia 18, parti ás seis da manhã, e meia hora depois entrava numa planície completamente encharcada, e onde as rodas do carro se enterravam na argila até aos cubos. Fazia-se um quilómetro por hora naquele terreno difícil.
Ás 10 horas pude alcançar uma pequena eminencia, mais enxuta, onde parei.
Estava junto à margem esquerda do Limpopo, conhecido ali pelo nome de rio dos crocodilos.
Fui logo ao rio, que tem ali 50 metros de largo, com uma corrente de 30 metros por minuto. Não tinha meio de lhe avaliar a profundidade.
O tempo tinha melhorado, e eu, ao deixar o rio, segui paralelamente à margem, deixando Fli ir a passo, as rédeas largas e pendentes.
De repente, o meu fino cavalo fitou as orelhas, rinchou e precipitou-se de um salto no meio do esteval, começando numa carreira desenfreada. Sem saber explicar o caso, sobressaltei-me e tentei suste-lo, mas ele não queria obedecer ao freio.
Nada tranquilo e pensando que o nobre animal fugia por evitar um perigo, estava perplexo, quando percebi diante de mim um rumorejar nas estevas, e vi os cornos retorcidos de alguns ongiris.
Percebi tudo; eu não fugia, perseguia. Desde esse momento comecei a ajudar o cavalo, que ganhava terreno sobre os ligeiros antílopes.
Quanto tempo durou aquela corrida vertiginosa não sei. Passei matas, onde ficaram os restos dos meus andrajos, com alguma pele do meu corpo, passei clareiras e planícies, onde os antílopes e cavalo se atascavam em lodo. O cavalo ganhava terreno, mas lentamente, só tarde me acerquei dos ongiris e pude atirar-lhes. Um caiu, e os outros seguiram mais ligeiros ainda, instigados pelo medo que lhes causou o estampido do tiro.
Fli parou, e foi cheirar o animal, que se estorcia nas vascas da morte, com o mesmo prazer com que o faria um cão de caça.
Onde estava eu? Onde me ficava o vagão? Não o sabia; porque não sabia a que rumos tinha andado.
Isso preocupava-me um pouco, mas eu lembrei-me de caminhar a leste até encontrar o Limpopo.
A esse tempo, um enorme temporal caiu sobre mim. Era-me impossível carregar o antílope sobre o cavalo, porque não tinha força para isso. Decidi abri-lo, e tirar-lhe os intestinos, a ver se então o poderia elevar do solo.
Bastante prático no serviço de magarefe, em breve concluí aquele trabalho.
A minha esperança não foi perdida, e pude, ainda que a custo, guindar o animal sobre o arção, onde o amarrei.
Fli perseguindo os Ongiris Pus-me a caminho para leste, mas Fli embirrou em querer caminhar ao norte, e comecei a pensar que talvez o cavalo tivesse mais razão do que eu, e deixei-o tomar aquele rumo. Uma hora depois, avistava o vagão, onde a minha gente não estava sem receios, pela demorada ausência que tive.
Era já tarde, e estava extenuado de fadiga; por isso decidi ficar naquele ponto. Ao anoutecer, apareceram ali uns pretos do régulo Sesheli que iam a Shoshong, e por eles escrevi ao missionário
Coilard, a preveni-lo do mau estado dos caminhos, e a dizer-lhe, que não seguisse o meu rumo.
Durante a noite caiu uma horrorosa tempestade, e de novo ficámos encharcados. Apesar disso, a fadiga do dia trouxe o sono e dormi profundamente, para acordar com uma dor horrível no sangradouro do braço direito. Levantei a manga da camisa, e fiquei trémulo ao ver um enorme escorpião negro que me picara o braço naquele ponto mesmo, sobre a artéria braquial. Era impossível sarjar sem ferir a artéria, empregando para isso a mão esquerda, com a qual sou pouco jeitoso, e o receio de agravar a situação fazendo algum disparate, levou-me a decidir não fazer nada. Em poucos minutos a inchação era enorme e as dores violentíssimas.
No maior desespero, tomei três gramas de hidrato de cloral e caí em modorra.
Era alto dia quando saí daquele sono, provocado pelo poderoso anestésico.
As dores tinham abrandado, e só existia uma inflamação local, com um tumor do tamanho de uma ervilha no sítio do ferimento, tumor que só desapareceu meses depois.
O engorgitamento dos tecidos era grande, e tolhia-me os movimentos.
Apesar disso, ainda fui caçar nesse dia, e tanta caça encontrei que resolvi ficar ali. Matei dois leopardos.
A noite foi de tempestade, e os insetos torturaram-me.
Alguns leões rondaram o campo, e fizeram-nos estremecer com os seus rugidos estridentes.
Seguimos ás 8 horas do dia 20, mas o terreno argiloso, encharcado da chuva, pegava-se ás rodas do vagão, e formava blocos que as impediam de girar, sendo a cada momento preciso tirar-lhos a machado.
Foi um fatigante labutar, e ás 10 horas parei, porque estávamos todos extenuados de fadiga. A chuva caía forte, e só podemos de novo por a caminho o vagão ás 2 horas, parando ás 4 e meia junto do rio Ntuani.
Ao chegar ali, uma triste deceção nos esperava. O rio Ntuani, que é um riacho sem importância, e quase sempre seco, tinha 60 metros de largo, e deu-me, nas sondagens que fiz junto à terra, 7 metros de água.
Impossível era atravessa-lo com um vagão, antes de muito tempo.
Tratei, pois, de acampar ali, e construí para isso um bom acampamento, de barracas cobertas de erva.
Havia muitos dias que eu andava completamente molhado, mas felizmente a minha saúde não se ressentia disso.
A nossa posição era melindrosa, porque tínhamos falta de víveres, e havia já dois dias que estávamos reduzidos a uma alimentação puramente animal, e só tínhamos para comer a carne da caça que eu matava.
Não havia perigo da fome, e eu não receava dela em país de caça como aquele; mas comer só carne assada, sem sal nem outro condimento, é duro e pouco higiénico.
O tempo melhorou um pouco, e eu pude continuar caçando. Um Inglês, em Shoshong, dera-me muitos cartuxos das armas Martini-Henri, que serviam perfeitamente na Carabina d’el-rei, e eram os que eu então empregava com grande resultado.
Tínhamos carne em abundancia, mas eu já não a podia suportar.
Fazia uma nova coleção de peles, e a facilidade que me oferecia o vagão para o transporte delas, como a nenhuma necessidade que teria de as vender, deixava-me a esperança de que estas chegariam à Europa.
Na manhã de 21, vi com prazer que o rio baixara trinta centímetros durante a noite.
Comi uma perna de puti (Cefalofus mergens), saltei sobre o meu Fli, e parti para a caça. Na orla de uma mata marginal do Ntuani, o meu nobre cavalo começou num correr desenfreado. Eu já sabia que ia em perseguição de caça, mas não via nada.
Corri assim por meia hora, e só então avistei por sobre os arbustos do matagal uns pequenos pontos negros que se moviam com rapidez prodigiosa.
Era novo para mim o animal que perseguia, e só numa clareira me pode ser a verdade revelada. Quatro abestruzes fugiam diante do meu Fli, que nem um só momento lhe perdia a pista, apesar das voltas furtadas que davam.
Entrámos em planície descoberta, e ali comecei a tomar um verdadeiro interesse naquela caçada de novo género.
Fli era o meu mestre. Abandonei-lhe o freio, tomei as rédeas do bridão, e deixei-o ir. O valente animal agradeceu-me o alívio que lhe dava com um relinchar de alegria, e seguiu mais rápido.
As abestruzes, ainda que podendo produzir uma carreira mais veloz do que o cavalo, não a podem sustentar como este, e param a miúdo. Era isso que me fazia ganhar terreno sobre as ligeiras aves.
Algum tempo depois já não era preciso mais do que o galope para as acompanhar, e chegaram a parar a sessenta metros de mim. Estavam alcançadas, e na primeira corrida poderia atirar-lhes.
Assim foi, e pouco depois a Carabina d’el-rei fazia ecoar na planície o estampido da sua dupla descarga.
Junto das enormes aves estava eu perplexo, e sem saber o que fizesse, deixava pastar o meu nobre cavalo; quando me apareceram Augusto, Veríssimo e Camutombo, que andavam caçando também e ouviram os meus tiros. Disseram-me eles estar perto o acampamento, e por isso mandei depenar cuidadosamente as abestruzes, e esperei o fim daquele trabalho para voltar com eles ao vagão.[12]
Ao chegar ali, verifiquei que o rio tinha descido setenta centímetros.
Ainda nesse dia até à noite o nível da água baixou de quarenta centímetros, o que perfazia desde a véspera 1 metro e 40 centímetros.
Eu punha as minhas marcas num ponto onde a escarpa vertical me permitia medir as diferenças de nível, mas o meu Stanlei não entendia assim, e espetava paus num sítio em que a barreira descia com inclinação suave, o que dava em resultado ele contar jardas quando eu contava centímetros. A cada momento ele vinha muito contente dizer-me que o rio tinha baixado dois pés.
O dia 23 amanheceu bonançoso e límpido, prometendo muito, porque o rio baixou dois metros e meio durante a noite. Senti logo de manhã uma grande gritaria, e indagando o caso, soube que tinham desaparecido as botas do meu Inglês, que se achava descalço. Depois de varias conjeturas sobre aquele importante facto, ele chegou à conclusão, de que os chacais lhe tinham furtado as botas e os tinham comido. Eu nunca pude explicar o caso, mas ele explicava-o assim.
O facto era que o pobre homem tinha de continuar descalço e, eu nada lhe podia fazer, porque além de as minhas botas serem pequenas para o seu enorme pé, só tinha umas também.
Passei o dia caçando, e à noite pude fazer observações astronómicas, e determinar a posição da confluência do Ntuani com o Limpopo.
Durante esse dia o nível da água baixou de 1 metro e 60, mas durante a noite conservou-se estacionário, e tendo chovido na madrugada de 24, receei nova enchente. Muitas vezes ouvi a Mr. Coilard narrativas de casos idênticos ao meu, em que um vagão tinha de estacionar junto a um miserável ribeiro (tornado soberbo com as chuvas), por um mês e mais.
Essa ideia aterrava-me, e resolvi estudar o rio, a ver se seria possível a passagem do vagão. Achei efetivamente um ponto onde a água me dava pelo pescoço em toda a largura, e determinei passar ali.
Stanlei, já habituado com o meu modo de decidir questões, começava a não achar nada extraordinário.
Assou-se muita carne, e almoçámos. Quando estávamos a terminar o almoço, ouvimos grande alarido na margem oposta, e vimos que chegavam um comboio de vagões e dois homens brancos.
Pus-me a observar o que eles faziam, e vi que depois de mandarem um moleque meter-se no rio, moleque que voltou à margem logo que a água lhe cobriu a cintura, contentaram-se de espetar pauzinhos para marcar o nível de água, dejungiram os bois, e acamparam.
Olhei para as minhas marcas e vi-as cobertas com um centímetro de água. O Ntuani crescia de novo.
Descarreguei imediatamente o meu vagão, e mandei Augusto e Camutombo passar as cargas, à cabeça, no sítio onde eu reconhecera o vau.
Os meus dois pretos pela sua força hercúlea, e pela destreza adquirida no hábito de superar dificuldades, faziam a admiração dos dois brancos e dos negros que os acompanhavam.
Uma hora depois, estavam todas as cargas na margem direita, e eu dava ordem a Stanlei, espantado daquilo tudo, para jungir o gado. Logo que tudo esteve pronto, fiz que Augusto se metesse através do rio, levando a soga dos bois da frente, que nadaram sem dificuldade, seguidos dos outros, sendo que três juntas tomaram pé na outra margem antes de que o vagão entrasse na água.
Era o que eu queria. Então gritei a Augusto e Camutombo para tanger, e num momento o vagão precipitou-se nas águas do rio. Stanlei, agarrado ao carro, teve um momento de entusiasmo, e ajudou a manobra.
Eu, logo que vi o vagão salvo na outra margem, atirei-me vestido ao rio, e nadei para la.
Chegado que fui, disse ao Catraio que me desse roupa enxuta, isto é, as únicas camisa e meias que eu tinha fora do corpo, e fiz a mudança. Os dois Europeus, que ao ver-me chegar a terra caminharam para mim, suspenderam-se a dez passos, vendo que comecei logo a despir-me. Depois de mudar de roupa, penteei os meus longos cabelos e barba, que estavam encharcados.
Logo que terminei o meu toilete, os dois sujeitos acercaram-se e disseram-me os dois mais sonoros "Good morning, sir," que tenho ouvido.
Correspondi ao comprimento, e perguntei-lhes donde vinham. Disseram-me serem dois negociantes Ingleses, Mr. Watlei e Mr. Davis, e irem para Shoshong, tendo deixado Marico havia um mês.
Eu disse-lhes também quem era, e donde vinha. Ao saberem que eu chegava de Benguela, os dois sertanejos não ponderam conter a sua admiração, e disseram-me, que já se não espantavam com o que me viram fazer ali naquela manhã.
Foram estes os primeiros comprimentos que recebi pela minha viagem, e é-me grato o recorda-los, porque foram aqueles que mais impressão me fizeram, pela rudeza com que foram formulados, e por virem de homens endurecidos nas lides Africanas.
Dei-lhes caça, e eles deram-me uns biscoutos, chá, assucar e sal.
Passámos o dia no mais agradável convívio, e a 25 de manhã, depois de se terem encarregado de uma carta para Mr. Coilard, deixei-os, seguindo no meu caminho.
O rio tinha de novo tomado água, e por isso deviam ter ali ainda muita demora; motivo porque Mr. Davis decidiu seguir só com alguns pretos para Shoshong, deixando com os vagões a Mr. Watlei. Mr. Davis, no momento em que eu ia a partir, fez o que eu tinha feito na véspera e atravessou o Ntuani a nado.
Parei junto ao Limpopo; ao meio-dia, depois de marcha de três horas.
Uma Vista do Alto Limpopo
Muito fatigado, e precisando de por em ordem alguns trabalhos, não saí a caçar. Estava sentado junto à margem do rio desenhando a paisagem, quando senti perto um tiro, e um steinbok passou correndo junto a mim, e precipitando-se no rio começou a nadar para a outra margem.
A água, que em volta dele se tingia de sangue, e o esforço que empregava ao nadar, mostravam-me que ia mal ferido. Augusto apareceu correndo e chegou ainda a tempo de ver o resultado do seu tiro. O antílope ia quase atingir a outra margem, quando a água se revolveu em torno dele, uma cauda verde-negra e dentada espadanou as ondas, e steinbok e crocodilo desapareceram no pego. Estava destinado que eu não provasse da saborosa carne do pequeno herbívoro.
Augusto, tão valente como bruto, queria por força ir matar o crocodilo, "que roubou minha caça," dizia ele.
O bom do preto estava furioso.
Ainda nesse dia fiz uma jornada de uma hora, não indo mais além, por encontrar muita caça.
Já caçava mais para obter peles do que alimentação, porque já abandonávamos a carne, tanta era ela.