Diário de África
Objetos fabricados por Bihenos
1. Fole.
2. Fole preparado para servir.
3. Bocal de barro em contacto com a chama.
4. Tenaz.
5. Martelo grande.
6. Um bocado de cano de espingarda encabado em pau que serve ao ferreiro para levar ao lume pequenas peças.
7. Martelo pequeno.
8. Panelas de cozinha.
9. Panela para capata.
10. Tambores dos batuques.
Sentia desde a minha chegada ao Bihé uma grande falta, e era ela a de um despertador. Foi olvido que me custou no correr da viagem muitos incómodos e algumas febres. Sempre que tinha de fazer observações depois da meia noite, tinha de estar acordado até à hora precisa; e asseguro que é triste passar uma noite a lutar com o sono, sem luz, e por isso sem nada poder fazer para matar o tempo.
No dia 19, o Ivens veio ver-me, e causou-me funda impressão o seu estado.
Estava muito magro, de uma palidez cadavérica, e acusava nas feições um sofrimento constante. Eu pedi-lhe para vir jantar comigo no dia imediato, que era o dia dos meus anos. Ele disse-me, que talvez não pudesse vir pelo seu estado de saúde.
Dois dias depois, fui ao acampamento dos meus companheiros pagar a visita ao Ivens. Capelo estava ausente, pois tinha ido determinar a posição da nascente do Cuanza.
No dia 25, tinha eu dez mil balas, ou antes dez mil bocados de ferro, toscamente forjados, com pretensões a terem uma forma esférica. Era o que me bastava, e despedi os ferreiros. Nesse dia chegaram os primeiros Bailundos com as cargas de Benguela, e nos seguintes dias foram aparecendo novas levas com cargas. Estes Bailundos eram insolentes, e iam fazendo uma grande desordem em Belmonte, que teria tomado sérias proporções se eu não interviesse. Tirei das cargas 10 fardos de fazenda, três barris de água-ardente, e dois sacos de caurim.
Faltava-me a pólvora e o sal, que tinham ficado atrás.
Tratei logo de mandar o presente ao sova, e de me preparar para partir, porque, tendo os cartuxos prontos e embalados, em dois ou três dias os carregaria de pólvora. Mandei emissários a reunir os carregadores, que todos estavam justos e prontos.
No dia 29 de Abril, os pretos de Silva Porto fizeram-me um pequeno furto, e eu zanguei-me muito com eles, e ameacei-os de os mandar para Benguela. Eles, para entrarem nas minhas boas graças, vieram denunciar-me, que sabiam onde estavam 4 espingardas que tinham sido roubadas à expedição no caminho de Benguela. Uma delas fora furtada pelo Sr. Magalhães, dono da povoação onde primeiro estive no Bihé.
Pude tê-las todas.
Quinda, cesta de palha que não deixa passar a água
Peneiro para secar a Farinha (fuba)
Peneiro de peneirar
Cabaça para tirar Água a capata
A esse tempo eu mal tinha ocasião de comer. Arranjava as cargas, e era preciso estar presente a tudo, para não ser roubado, porque todos os pretos, os de Silva Porto e os meus, eram uma quadrilha de ladrões.
Havia uma exceção, uma única. Era o meu preto Augusto, que me deu sempre prova da maior fidelidade.
Quando contratei os carregadores em Benguela, contratei entre eles o Augusto, de quem nunca fiz caso, porque ele se não distinguia dos outros, a não ser talvez por ser um pouco mais dado a embriaguez.
Na distribuição das armas, os pretos fizeram repugnância em receber as de Snider, e só o Augusto me pediu logo uma. Foi a primeira vez que atentei nele. Um dia, no Dombe, fiz um exercício ao alvo, e vi que ele era um sofrível atirador. Depois, em Quilengues, soube, que ele dissera entre os pretos, que me não deixaria nunca, e como, pela sua força hercúlea, e pela sua coragem, ele tinha tomado um grande ascendente sobre os outros pretos, chamei-o a mim.
Ao tempo em que vai a minha narrativa ele tinha subido de posição, e de simples carregador, estava chefe da comitiva.
Alguns eram seus amigos, outros respeitavam-no, e muitos temiam-no.
Augusto é o melhor preto que eu tenho encontrado em África; mas ninguém é perfeito neste mundo, e Augusto não quer ser exceção à regra. Entre os seus defeitos avulta um, que eu sou propenso a desculpar, e que sendo um grande defeito em viageiro Africano, fora dali poderia passar por virtude.
Augusto é louco pelo belo sexo.
Forte como um búfalo, corajoso como um leão, entende que deve proteção e apoio ás criaturas frágeis que encontra no seu caminho.
Já não tinham conta as suas aventuras galantes desde Benguela ao Bihé. Casado em Benguela, casou de novo no Dombe, em Quilengues, Caconda, no Huambo, e desde a sua chegada ao Bihé, já tinha feito ali três ou quatro casamentos. É um verdadeiro D. Juan de cor preta.
Obediente em tudo o mais, desprezava completamente as minhas admoestações nesta parte.
Um dia, como as queixas das mulheres fossem muitas, chamei-o e repreendi-o severamente, ameaçando de o abandonar se ele continuasse. Chorou muito, lançou-se de joelhos aos meus pés, fez mil protestos de emenda, e pediu-me para lhe dar uma peça de fazenda, que com isso iria contentar as mulheres, e só ficaria com Marcolina, a sua mulher de Benguela.
Dei-lhe a peça de pano, e fiquei satisfeito de tão sincero arrependimento.