Diário de África

Alexandre de Serpa Pinto · Capítulo 26 de 80

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Diário de África

Mulher Quimbande carregada

 

Quantas vezes a pobre rima pouco volumosa das fazendas e missangas me não despertava uma atroz angústia!

Quantas vezes uma dor pungente me não cerrava o coração, fazendo-me antever um futuro bem sombrio!

Quantas vezes ficavam sem resposta as caricias da minha cabrinha Cora, e os cantares folgazões do meu meigo papagaio, que voava para o meu ombro pedindo-me uma meiguice!

Quantas vezes uma fé sem limites me invadia o coração, e o desalento era banido do meu ânimo!

A razão queria lutar contra esses raios de infundada esperança que me alegravam o espírito; mas essa esperança era tão tenaz que procurava argumentos e sofismas para combater a razão.

Sam momentos indescritíveis, essas lutas do espírito, estando o homem isolado, sendo ele mesmo o pro e o contra das suas ideias, sem um amigo, ou um inimigo, que lhe adule um pensamento ou lhe combata outro.

Fui jovem e tive amores, e com eles as penas dos amores; fui pai, e vi morrer-me nos braços uma filha que adorava; mas confesso que nunca senti na alma tão profunda tristeza, tão cruel melancolia, como a que por vezes, em dias aziagos, experimentei em África.

Só! sozinho, no meio de uma multidão ignara, e estridente, cuja língua e falares não compreendia, tinha momentos horríveis, que se traduziam logo em febre e doença!

Não conto como sofrimento as fomes, as doenças, a miséria. Não! que homem é e deve ser superior à matéria bruta, que deve dominar, para se afastar do irracional.

O sofrimento é a dúvida. O sofrimento é não saber como se há de vencer o abismo que a razão nos mostra cavado ante os passos que queremos dar. O sofrimento é ver dezenas de pessoas, que nos acompanham cegas, dizendo: "Ele sabe o que faz;" e que arrastamos connosco ao abismo! O sofrimento é a responsabilidade tremenda da missão que nos impusemos. Se me não importava hoje muito que os meus detratores experimentassem um pouco da fome, da sede e das privações que passei; não lhes desejo, mesmo a eles, que sofressem a milésima parte do que eu sofri moralmente. É verdade, que, para sofrer como eu sofri, é preciso ter alma, coração e uma consciência.

A carta que de Mavanda escrevi ao Dr. Bocage, ressentia-se já do que eu sofria então. Foi escrita num dos meus dias nebulosos. Deixemos porém esta divagação, que pouco interessa; e falemos dos acontecimentos de então.

Os Quimbandes fabricam alguns objetos de ferro e de madeira, muito mais perfeitos do que os fabricados no Oeste-Cuanza.

 

1. Cachimbo.

2, 2. Facas.

3, 3. Cacetes de guerra.

 

O frio de noite era muito intenso, e já era grande a diferença entre as máximas e as mínimas. Apesar da carta que recebi do sova Capoco, não acreditava muito na promessa dos carregadores, nem na volta do meu Doutor Chacaiombe; e por isso, ia sempre reduzindo as cargas quanto era possível; o que só podia fazer distribuindo o conteúdo de uma pelas outras. Isto tinha um limite, com o limite do peso que podiam carregar os homens.

Estávamos a 22 de Junho, dia em que expirava o prazo que eu decidira esperar por os carregadores do sova Capoco.

A minha angústia era grande, e só então avaliei bem o mau bocado porque tem passado outros exploradores, tendo de abandonar cargas que lhes são absolutamente precisas.

A escolha é coisa séria, quando todas se nos afiguram indispensáveis.

O pouco que de comodidades eu levava já tinha sido abandonado; o resto de algumas latas de comida dei-as aos moleques.

Os meus carregadores, vendo o meu embaraço, pedem-me que os carregue até ao máximo peso com que puderem caminhar; mas, ainda assim, é impossível ir tudo.

Depois de todas as reduções, e de ter distribuído as cargas, ficam 4 sem carregadores.

Sam elas as duas do meu barco Macintosh, um barril de água-ardente, e 50 libras de pólvora.

Decidi abandonar o barco, com grande pesar, e pedir ao sova Mavanda dois homens para me levarem a pólvora e o barril de água-ardente de acampamento em acampamento, até que dois dos meus carregadores ficassem sem carga, o que não tardaria a suceder pelo grande gasto que fazíamos.

O sova tomou conta do barco, e deu-me os dois homens que lhe pedi, ficando tudo pronto para seguirmos no dia imediato.

Levantei campo no dia 23 ás 8 horas, e depois de três e meia horas, cheguei à margem esquerda do rio Varea, que passei sobre uma sofrível ponte de madeira.

O soveta de Divindica, povoação que assenta na margem esquerda do Varea, na confluência do riacho Moconco, veio pedir-me alguma coisa pela passagem da ponte, e dando-lhe eu quatro jardas de fazenda, retirou-se satisfeito.

 

O País dos Quimbandes

 

O rio Varea corre ali ao N., e vai afluir ao Cuime. Tem 25 metros de largo por 2 de fundo, e pequena corrente, não tendo cataratas a jusante de Divindica. Marquei a uma milha ao sul as povoações de Moariro e Moaringonga.

Segui a leste, indo acampar, pelas 2 horas, na margem esquerda do rio Onda, em frente à grande povoação de Cabango, capital dos povos Quimbandes de Leste.

Eu levava duas garrafas de vinho do Porto de 1815, resto de um presente do meu amigo E. Borges de Castro, e ao chegar ao ponto em que acampei, o moleque Moero, que as levava, caiu, quebrando-se uma delas, e entornando-se o precioso néctar, sem que se pudesse aproveitar uma gota.

Desde Mavanda até ás nascentes do riacho Moconco, cujo curso segui até à confluência com o Varea, a vegetação arbórea é esplêndida, e no cimo dos montes que marginam o riacho é também pomposa. Para além do Varea é ainda mais rica.

Desde que passei o Cuanza ouvia falar no rio Cuime, como o rio maior do país dos Quimbandes, afirmação que me era confirmada pelos grandes afluentes que lhe ia encontrando, o que me fazia arder em desejos de lhe ir lançar uma vista de olhos.

Do Cuanza a leste o planalto apresenta um aspeto muito diferente do que até ali.

As paisagens são mais pitorescas e não apresentam a monotonia do Bihé. Os rios e ribeiros cavam os seus leitos mais fundos, tornando mais sensíveis os acidentes do terreno. As margens dos rios e ribeiros além dos limites das cheias, já se apresentam cobertas de vigorosa vegetação arbórea, e a vegetação arborescente forma barreiras impassáveis nas florestas.

Na parte leste do país dos Quimbandes, a população começa a rarear. O sova de Cabango é ainda tributário do sova do Cuio ou Mucuzo.

Os costumes destes povos são os mesmos dos Bihenos, salvo na atividade, que é entre os Quimbandes substituída pela mais vergonhosa preguiça.

Os Quimbandes andam quase nus, não trabalham, não viajam e não negociam.

Poucos tem espingardas, por não terem com que as comprar. Já apanham alguma cera, que os Bailundos lhes vêm permutar a búzios e missangas, mas isto em pequeníssima escala.

A terra é cultivada pelas mulheres, e a sua produção é rica. O que mais tenho visto nas plantações é mandioca e ginguba.

Este país deve merecer particular atenção. Cortado com rios navegáveis que vão afluir a um grande traço navegável do Cuanza; tendo um clima magnífico e ubérrimos terrenos, onde produz bem o algodão, a cana de assucar, os cereais e virentes pastagens, ocupado por uma população que facilmente se submete, está nas melhores condições de um desenvolvimento rápido.

No dia 24 de Junho passei o rio Onda, e fui acampar na sua margem direita, três milhas além do meu campo anterior.

O rio Onda tem, em Cabango, 15 metros de largo por 5 de fundo, e vindo de leste corre depois a N.O. a afluir ao Varea.

Depois de ter determinado a posição do meu acampamento, fui passear rio acima, e encontrei bastante caça. Logo acima de Cabango, o Onda estreita a 10 metros, mas profunda a 6, tendo uma corrente de 10 metros por minuto; corrente que se estende até ao fundo; o que me foi denunciado não só pela sonda, mas também pela inclinação que tomam as plantas que vegetam no fundo; o que se vê facilmente, por serem as águas muito cristalinas e o fundo de área alvíssima.

Ditassoa, peixe do rio Onda

 

Neste rio não vi outro peixe, a não ser um que os naturais chamam Ditassoa, e que é sofrível.

Percorrendo as margens do rio, vi, a distância, um grupo de árvores que se destacava da paisagem, e que julguei serem palmeiras; mas aproximando-me reconheci um lindo grupo de Fetus arbóreos, da mais elegante beleza.

As margens do rio são cortadas verticalmente, e por isso apresentam junto à borda a mesma profundidade que no meio.

Retirei do meu passeio, satisfeito com o que vira. O rio Onda era outro rio navegável, outra estrada natural, que encontrava neste soberbo país.

Ao chegar ao meu campo aguardava-me uma agradável surpresa.

O Doutor Chacaiombe foi a primeira pessoa que veio cumprimentar-me.

Eu, que julgava não mais vê-lo, saudei-o com o maior júbilo, porque o seu desaparecimento era uma nuvem negra na minha viagem.

 

Fetus arbóreos das margens do rio Onda

Já por vezes tenho falado no Doutor Chacaiombe, e não disse quem era.

 

Este homem foi o adivinho que, em casa do filho do capitão do Quingue, me predisse as coisas mais agradáveis a respeito do meu futuro.

Acumulando as funções de cirurgião com as de adivinho, veio ele estabelecer-se junto a mim no Bihé, e não mais me deixou até que se encarregou da missão de obter carregadores no Capoco, donde julguei que não mais voltaria.

Depois de muitos comprimentos, anunciou-me Chacaiombe que os carregadores chegariam dentro de dois dias, e eu resolvi espera-los.

O meu Augusto veio dar-me parte, de que o sova de Cabango viera visitar-me, e se retirara muito contrariado por me não encontrar.

Mandei logo o pombeiro Chaquiçonde ao sova, pedir-lhe dois homens para mandar a Mavanda buscar o barco que ali tinha deixado, com bem pesar meu e da minha gente, que viram os serviços que ele nos prestou nas passagens do Cuqueima e do Cuanza.

Fui em seguida enxugar-me ao fogo, pois que cheguei do rio muito molhado, e ainda me lembrava com horror do reumatismo no Bihé.

No dia seguinte, parti de madrugada para a caça, dirigindo-me ao norte, onde o país é coberto de densas florestas. Depois de ter andado oito milhas, encontrei o rio Cuime, a jusante da sua grande catarata. Voltei e já era noite quando alcancei o meu campo, extenuado de fadiga; mas tendo feito boa caçada, e tendo visto o rio que ardia em desejos de ver, e que efetivamente é uma via importante, sendo como me asseguraram os naturais, navegável desde a sua grande catarata até ao Cuanza.

No seguinte dia, voltei ao rio Onda, e ali surpreendeu-me a vista mais de uma povoação que divisava ao longe. Ao aproximar-me, conheci que eram, não povoações de pretos, mas sim de formigas brancas (termites), que juntavam em grandes grupos as suas construções cónicas, cuja cor alvacenta, devida à da argila que iam buscar ao subsolo, lhes dava toda a aparência de aldeias de indígenas. De volta ao meu campo, encontrei o sova de Cabango, que ali tinha chegado havia pouco, com uma comitiva de 60 homens e muitas mulheres.

Mulher de Cabango com o ferro de coçar a cabeça

 

Esta gente, que se apresenta quase em completa nudez, faz consistir todo o seu luxo nos penteados. Variam-nos ao infinito e são eles verdadeiras obras de arte, e tem tecnologia própria.

Nas mulheres o cabelo, que fica em forma de cimeira de elmo Romano, chama-se tronda, e o que cai em trancinhas, dos lados, cahengue.

Os penteados masculinos, que formam tufos encrespados, chamam-se sanica.

O sova ofereceu-me um boi, e eu dei-lhe um presente com que ele pareceu retirar-se satisfeito.

Chegaram nesse dia os carregadores que vinham do Capoco e eram apenas quatro, mas eram os suficientes, sendo dois para o barco, e outros dois para aliviar algumas cargas mais pesadas.

Á noite os meus pretos e os da terra fizeram grande batuque, que durou até depois das 10 horas.

 

Homem de Cabango

O frio de noite continuava intenso, sendo que ás 3 e meia horas da manhã desse dia, o termómetro marcara 0°C. A desigualdade entre a máxima e a mínima era já muito extraordinária, e grande a secura da atmosfera, como se verá dos boletins meteorológicos.

 

O sova voltou a ver-me, e deu-me alguns esclarecimentos sobre o país. Diz ele, que já não reconhece a soberania do sova do Cuio ou Mucuzo, e se considera independente.

As matas tem muita cera, e os Bailundos vêm ali permuta-la a buzio (caurim) e missangas. Trabalham em ferro, e fazem machados grandes, balas e facas.

Os machados de guerra, frechas e azagaias, vêm-lhes dos Luchazes, e as enxadas dos Ganguelas, Nhembas e Gonzelos.