Diário de África
Objetos fabricados pelo gentio entre a Costa e o Bihé
1. Machado de Trabalho.
2. Ferro de Frecha para a Guerra.
3. Frechas.
4. Ferro de Frecha para Caçar.
5. Pé das Frechas.
6. Machado de Guerra.
7. Enxada.
8. Azagaias.
Findo que é o metal e transformado em obra, voltam os ferreiros a suas casas carregados com a sua manufatura, que vendem em seguida depois de terem reservado o necessário para seu uso.
Todos estes povos não admitem causas naturais de doença ou de morte. Sempre que adoece ou morre alguém, ou foram as almas do outro mundo (uma certa é designada) que produziu o mal, ou então foi algum vivo que fez feitiço ao doente ou ao morto. Logo que morre alguém, se os parentes não estão na localidade, mandam-nos prevenir, e no entanto penduram o cadáver num grande pau a 200 ou 300 metros da porta da povoação, e esperam que eles venham para fazer o enterro.
Logo que eles chegam ou se estão na localidade, procede-se imediatamente à adivinhação para saber a causa da morte.
Para isso amarram o cadáver a uma vara comprida, e pegando dois homens nas extremidades, levam o corpo ao lugar destinado ás adivinhações, onde o espera o adivinho e o povo formado em duas alas.
O adivinho tomando na mão direita um coral branco, começa a adivinhação.
Depois de fazer mil momices e grande grita e de ter feito mexer o morto, que o povo acredita que mexeu sem intervenção estranha, o adivinho declara que foi a alma de fulano ou de fulana que o matou, ou então que foi feitiço dado por alguém que ele designa.
No primeiro caso, o enterro faz-se em paz, abrindo uma cova no mato, em qualquer lugar indistintamente, e lançando nela o cadáver que cobrem de pedras, paus e terra; mas no segundo caso, a pessoa designada pelo adivinho como feiticeiro é agarrada, e, ou paga ao mais próximo parente a vida do morto, ou lhe cortam ali a cabeça, indo dar parte do ocorrido ao sova, a quem tem de levar de presente uma cabra para ele escutar o caso.
Contudo pode dar-se o caso de um acusado negar firmemente a sua culpabilidade na morte, e então tem direito de defesa.
Para isso, vai ele buscar um cirurgião que vem, na presença do povo proceder ás provas da inocência ou culpabilidade do acusado.
O cirurgião chega à presença dos parentes e do povo, e compõe uma bebida venenosa de que tomam quantidades iguais o acusado e o mais próximo parente do morto.
A beberagem produz uma espécie de loucura temporária, e é naquele dos dois em que ela se manifesta com mais intensidade que recai a culpa da morte.(*)
(*)Isto é quase a prática seguida entre os Maraves, a prova do Muave. (Gamito, e Muata Cazembe.)]
Se é no acusado, ou paga a vida do defunto, ou morre; se é no parente, tem este de indenizar o acusado pela acusação feita, dando-lhe logo um porco para lhe pagar o trabalho de ir buscar um cirurgião, e depois tem de lhe dar o que o acusado exigir, sejam dois bois, dois escravos, um fardo de fazenda, etc. etc.
Antes de continuar, devo fazer sentir uma grande diferença que existe de três entidades importantes, nos povos da África Austral, e que muitas vezes são confundidas.
Sam elas o cirurgião, o adivinho e o feiticeiro. Efetivamente, estas três entidades que parecem à primeira vista ter pontos de contacto, nenhum tem na realidade.
O cirurgião fica definido pela palavra. É um curandeiro, tem conhecimento de um certo número de plantas e raízes, que empega sempre empiricamente, bem como as ventosas sarjadas, de que faz grande uso; sendo bem certo que a ciência de curar está muito em atraso naqueles países. O cirurgião, que nunca faz diagnóstico da moléstia, faz sempre o prognóstico. A dosagem das plantas medicamentosas é sempre empírica, e nas suas polifarmácias entram os mais absurdos e inúteis componentes. É verdade que entre nós ainda não vai longe o uso da Triaga. O cirurgião, que é ao mesmo tempo farmacêutico, emprega durante a preparação das suas drogas, um certo número de cerimónias e de palavras sem as quais elas perderiam a virtude. Fazem grande segredo das plantas que empregam, e dão-se ares de sábios pedantes quando a esse respeito são interrogados. O cirurgião é pessoa muito importante, e muitos actos solenes requerem a sua presença. Ele decide altas questões, porque a sua opinião prevalece à do adivinho (Ditangja), sendo que o cirurgião nunca a emite sem fazer antes um certo número de remédios e cerimonias, já com plantas, já com sangue do homem ou dos irracionais, a que chamam, fazer os curativos.
O adivinho só adivinha, e mais nada. No caso de doença, o adivinho é sempre chamado para adivinhar se são almas do outro mundo ou feitiços, e só depois dele, vem o cirurgião.
Estes dois sujeitos entendem-se sempre.
O adivinho não é só consultado em caso de doença ou morte, é ouvido em tudo e por tudo, e nada se faz sem que ele adivinhe primeiro.
Para a consulta, coloca-se ele no centro de um círculo formado pelo povo, que deve estar sentado. Arma-se de uma cabaça e um cesto. A cabaça contem missanga grossa e milho seco, o cesto é cheio das coisas mais disparatadas, ossos humanos, legumes secos, pedras, paus, caroços de frutas, ossos de aves, espinhas de peixes, etc.
Começa por sacudir freneticamente a cabaça, e durante a chocalhada que faz invoca os espíritos malignos, ao mesmo tempo sacode o cesto, e nos objetos que vão aparecendo na parte superior, vai lendo o que se quer saber do passado, do presente, ou do futuro. Este uso encontrei eu desde a costa, mas não tão seguido como aqui.
Falei em espíritos malignos, e é preciso dizer, que ali os espíritos malignos emparelham em malignidade com as almas do outro mundo (Cassumbi) e com os feiticeiros. Ás vezes entram no corpo de alguém, e custa muito faze-los sair. Outras vezes, fazem tropelias maiores, tomando conta de uma povoação, onde durante a noite não deixam sossegar ninguém, sendo preciso que o cirurgião faça grandes curativos para os expulsar.
Estava ali um adivinho, e eu calculei o partido que podia tirar dele.
Chamei-o em particular, e fiz-lhe alguns presentes, mostrando por ele grande respeito, e fingindo acreditar na sua ciência.
Pedi-lhe para adivinhar o meu futuro, e ele logo convocou o povo da libata, e muito da povoação do capitão, para assistirem à adivinhação.
A cerimónia fez-se com grande aparato, e ele começou a ler nas trapalhadas do cesto as coisas mais lisonjeiras ao meu respeito. Eu era o melhor dos brancos, passados, presentes e futuros; a minha viagem seria feita com grande felicidade, e felizes seriam aqueles que fossem comigo.
Este vaticínio produziu o melhor efeito, e teve grande influência no resultado da minha partida do Bihé.
Já falei do cirurgião e do adivinho, e vou dizer o que é feiticeiro. Esta palavra tem uma significação que, tendo alguns pontos de contacto com a que lhe damos na Europa, não é contudo a mesma coisa.
Ali qualquer é, ou pode ser feiticeiro, e feiticeiro é mais o envenenador do que homem que governa nos espíritos.
Efetivamente, o feitiço ali é veneno, e dar feitiço a alguém, é dar veneno, que determine, ou doença, ou morte, ou loucura.
Esta é a rigorosa aceção da palavra, mas ainda assim o feiticeiro pode causar grandes prejuízos, e como tudo se atribui a feitiço, a perda de um combate, a epidemia nos gados, as tempestades, etc., tudo provem da sua malevolência.
Não se julgue porém que se pode designar o feiticeiro; não pode. O feiticeiro aparece como causa do efeito, e como essa causa é logo destruída, o feiticeiro é como um meteoro que se desvanece logo depois de aparecer. Esta prática dá lugar a terríveis vinganças, como bem se pode supor.
Além destas três entidades, duas das quais são definidas e uma indefinida, há ainda um sujeito que tem certa importância entre estes povos bárbaros.
É ele o homem que dá e tira a chuva. Há um certo número de indivíduos que se atribuem o poder de governar nos meteoros aquosos. Possuindo um espírito observador, atentaram em que com tais ventos em certa época do ano chove, e que com outros estia. E servindo-se desses sinais, que são tão vulgarmente observados na Europa, e mesmo recomendados por homens de ciência, como Fitz-Roy e outros, que se observam na vida dos animais, sobre tudo das aves, eles que podem com certa probabilidade fazer um prognóstico do tempo, atribuem a si o poder, de dar e tirar chuva, tendo previamente anunciado que a vão dar ou tirar.
Estes sujeitos são vulgares, mas acreditam neles muito, porque raras vezes se enganam.
Estas práticas que nos causam estranheza, eram há dois séculos vulgares na Europa, e ainda hoje existem entre nós no baixo povo dos campos.
Não é preciso ir à idade media para se encontrarem os Reis consultando os seus astrólogos, e mesmo em Portugal existe um livro, impresso, com todas as licenças necessárias, em 1712, que o seu autor Gaspar Cardozo de Sequeira, matemático da vila de Murça, intitulou Tesouro de Prudentes, livro acrescentado pelo engenheiro Gonçalo Gomes Caldeira, que ensina as coisas mais estupendas e maravilhosas, aos homens cultos dessas eras, porque o povo de então não sabia ler. Desculpemos pois os ignaros pretos de África Austral.
Uma lei engraçada daquele país, é a respeito das mulheres que morrem de parto.
Logo que uma mulher morre de parto, o marido tem obrigação de a enterrar ele só, levando o cadáver ás costas até à sepultura, e fazendo sozinho o trabalho da inumação. Em seguida, tem de pagar a vida dela aos parentes, e se não tem com que, constitui-se escravo deles.
As sepulturas dos proletários não tem sinal algum que as indique, e são feitas em qualquer lugar indistintamente entre o mato.
Quando eu falar do Bihé, serei mais minucioso em certos costumes que são comuns a estes países, e que tive depois ocasião de estudar detidamente, sobre tudo aqueles que se referem aos sovas e aos grandes.
Um costume que é privativo de Caquingue é o que eles chamam “tratar as mulheres”. Logo que uma mulher está grávida, um sujeito pede ao marido em casamento a filha que ela vai ter, e desde logo é obrigado a trata-la, isto é, dar-lhe vestuário e satisfazer as suas exigências de toilete.
Este costume vigora só entre gente rica. Logo que nasce a criança, o noivo redobra de presentes à mãe, e tem o dever de vestir a filha até à puberdade, isto é, à época do casamento. Se acontece nascer um varão, a obrigação de vestir mãe e filho subsiste, e este, logo que chega a ser homem, fica para Quissongo do que o tratou.
Mais adiante direi o que é um Quissongo.
Este costume não é tão extraordinário como parece à primeira vista, e se em África só o encontrei no país de Caquingue, cá na Europa é ele vulgar, não na forma, mas na essência, e na frase polida dos salões chama-se a isso, creio eu, casamentos de conveniência.
Amanheceu o dia 5 de Março, depois de uma noite tormentosa em que a chuva foi diluvial. Eu estava melhor da febre; mas as dores reumáticas eram mais persistentes e estendiam-se dos joelhos aos artelhos. O meu Pépéca estava melhor, e por isso resolvi partir. Receando porém do meu reumatismo, fui pedindo uma maca e carregadores para ela, que me foram obsequiosamente cedidos por Francisco Gonçalves (o Carique). Depois de cordiais despedidas, parti ás 10 e meia ao N., e uma hora depois, passei o ribeiro Cassongue, que corre a S.E. para o Cuchi. Tem 6 metros de largo por 2 de fundo. Ao passar o rio, o meu boi cavalo (Bonito) embaraçou-se num as sarças, perdeu o ânimo, e foi ao fundo; custou muito salva-lo, e só pude seguir ao meio dia. Á 1 h. e 15 m. passei o riacho Govera, de 3 metros de largo por 50 centímetros de fundo, e à 1 e 45 acampava a S.S.O. da povoação de Chindúa. Passei no caminho junto de duas grandes povoações, a de Cacurura, e a de Cachota. Já estava em terras que prestam obediência ao sova do Bihé. O país continua ali a ser muito povoado e cultivado.
Durante a noite, chuva torrencial e forte trovoada de leste. A minha febre tinha desaparecido completamente, mas as dores reumáticas recresciam numa progressão assustadora, e já ameaçavam estender-se a tudo o corpo. Logo de madrugada, o dono da ponte sobre o Cuchi mandou-me avisar para passar a ponte sem demora, porque estas pontes, dando passagem só a um homem de cada vez, leva ela muito tempo, e é lei, que quando uma comitiva toma conta da ponte, ninguém ali pode passar sem terminar a passagem da gente que primeiro chegou, e constava que uma grande comitiva de gentio se dirigia para ali em sentido inverso ao meu.
Agradeci o aviso, e parti imediatamente, tomando conta da ponte meia hora depois.
O rio Cuchi tem ali 25 metros de largo por 5 de fundo, e corre ao sul ao Cubango.
Da ponte avista-se, 2 quilómetros ao N., a grande catarata do Cuchi, de surpreendente beleza, cujo ruido chega até nós.
Demorei-me um pouco para determinar a altitude, e segui depois a E.N.E., passei o pequeno ribeiro Liapera, que corre ao Cuchi, e mudando de rumo para N.N.E., passei o ribeiro Caruci, que corre a N.E. para o Cuqueima; indo acampar, pelo meio dia, nas matas do Charo, a S.O. da povoação de Ungundo.
Estes dois pequenos riachos, o Liapera e o Caruci, marcam a separação das águas para o Cubango e Cuanza.
O século Chaquimbaia, chefe da povoação de Ungundo, veio cumprimentar-me, e trouxe-me um porco e umas galinhas; retribui o presente, e ele deu-me guias para me acompanharem no dia seguinte. Durante o dia, não só em caminho encontrei muitos ranchos de gente armada que vão reunir-se ás forças do sova de Caquingue, mas ainda depois que acampei, passaram inúmeros pretos armados que levavam o mesmo destino.
Das 7 ás 9 da noite houve moderada chuva, e ouvia-se a N.E. uma trovada longínqua; mas, ás 9 horas, formaram-se trovoadas em muitos pontos do horizonte, e pareciam todas convergir sobre o meu campo, que era situado num alto. Ás 10 horas, 5 trovoadas encontravam-se em choque imenso sobre o campo, e a mais horrível tormenta que até então tinha presenciado se desencadeou sobre mim. Os raios sucediam-se com intervalos de três a cinco segundos, e o estalar seco dos trovões era incessante.
Havia perfeita calma e apenas algumas grossas gotas de chuva caiam aqui e além.
O barómetro apenas desceu dois milímetros, e o termómetro conservava uma temperatura de 16 grãos Cent. As agulhas magnéticas desnorteavam, e conservavam um oscilar constante.
Uma bússola circular Duchemim, chegou a voltear rapidamente.
Durou este estado de coisas até ás 11 horas, hora a que sofreu modificação mais terrível ainda. Um vento fortíssimo, um verdadeiro tufão, começou a soprar de leste, e num momento correu os quadrantes pelo norte até S.O., onde se fixou com a mesma intensidade. Copiosa chuva começou a cair então. O vento, no seu passar furioso, soprou aos ares as barracas do meu campo, e nós ficámos expostos à chuva torrencial que caiu até ás 4 horas, em que a tempestade começou a abrandar.
Quem o não presenciou não avalia o que seja uma tempestade, de noite, no meio das florestas de África Austral, quando ao rebombar dos trovões se une o grito multíssono das feras, que nos vem ferir os ouvidos com acordes terríveis.
A chuva apagou os fogos do campo, o vento soprou longe os frágeis abrigos, e o raio descendo em luminoso zig-zag, torna mais escuras as trevas, depois do seu rápido fulgor.
Muitas vezes, ao estalido do raio sucede outro estalar medonho. Foi a árvore, que levou séculos a crescer, e que num momento, ferida por ele, voou em rachas e baqueou no solo.
O espetáculo é horrível, mas grandioso e sublime!
Amanheceu finalmente, e de tudo aquele pelejar dos elementos, só restavam para o lembrar, inúmeras árvores derrubadas e um terreno encharcadíssimo.
A mim restava mais alguma coisa!
O ataque de reumatismo tinha-se declarado com grande intensidade, e estendendo-se a todas as articulações, tolhia-me os movimentos. Sofria muito. Parti ao meio-dia na maca, e fazia esforços enormes para calar na garganta os gritos arrancados pelo sofrimento que infligia o movimento da maca.
Uma hora depois, envolvi-me num pântano extenso, onde a água dava pela cintura aos homens que me carregavam.
O terreno, encharcado pela chuva da noite, estava transformado em pântano enorme. Alcançámos um outeiro, quando, ás 2 horas, nova tempestade, vinda de leste, caiu sobre nós. Da maca, onde gemia dores atrozes, animei a minha gente a seguir sempre, com intenção de alcançar as povoações de Bilanga, onde queria pernoitar.
Sei que, no dia seguinte, me achei, numa cubata, e me disse o Verissimo, estar eu naquelas povoações, na libata do Vicente; mas não tenho a menor ideia, nem do caminho andado, nem da noite velada, que me disseram os pretos ter sido horrível. Ao reumatismo viera juntar-se a febre e o delírio.
A cabeça estava livre, mas o ataque e as dores recresceram, se era possível isso.
Não podia fazer o menor movimento nem mesmo com as falanges das mãos.
Verissimo e os meus pretos dispensavam-me os maiores cuidados.
Soube que o rio Cuqueima levava uma cheia enorme, e não dava passagem no vão; mas, sabendo que existia uma pequena canoa a jusante da catarata, resolvi seguir e passar o rio ali. Chegados ao rio, tratou-se de calafetar com musgo a canoa já muito velha, e que apenas podia suportar o peso de dois homens. O rio, que trazia uma enorme cheia, ia caudalosíssimo. Ressaltando por sobre as rochas da catarata, divide-se, formando uma pequena ilha, e logo depois, une as suas águas num só canal, largo de 100 metros.
Era ali que íamos passar. Eu fui colocado dentro da canoa com mil cuidados, porque o menor movimento que me davam, me arrancava um grito doloroso.
Um hábil barqueiro tomou o remo e a canoa deixou a margem. Tínhamos de atravessar 100 metros de água, mas de água animada de violenta corrente, e encrespada por ondas furiosas produzidas pelos baldões da catarata. O barqueiro dirigiu a canoa para a ilha, e até chegar à junção das águas tudo foi bem; mas ali o frágil barco preso nos enormes remoinhos não quis seguir avante, apesar da perícia do hábil negro. Eu via a água, em ondas espumantes ainda do salto de há pouco, referver em volta de mim, e comecei a compreender o grande perigo em que estava.
Tentei mover um braço e apenas consegui soltar um grito de dor! Julguei-me perdido, porque, se a canoa afundasse, eu não poderia nadar. Sempre presa no rodopiar das águas, não seguia avante, e de repente começou a rodopiar ela mesma. O preto receio que nos afundasse-mos, e decidiu saltar ao rio para alijar o barco. Preveniu-me, e saltou.
Aliviada daquele peso, a canoa flutuou melhor, mas não deixou o sítio em que estava presa pelas forças desencontradas da água.
De repente um baldão entrou na barca e molhou-me. Tive um momento de verdadeira imbecilidade, e não sei o que se passou; só me lembra, que de repente me achei nadando com tudo o vigor, só com um braço, sustentando fora de água com o outro um dos cronómetros que trazia comigo, para que não lhe chegasse a água.
Sentia um verdadeiro prazer em nadar, e cortava rápido os remoinhos das caudalosas águas, o que me era fácil a mim, que desde criança aprendi a lutar com os rápidos do meu pátrio Douro.
Os pretos, sempre tendentes a admirar a destreza física, prodigalizavam-me da margem fervorosos aplausos.
Tinham desaparecido as dores, a febre cessou de repente, e eu sentia-me bem disposto e forte. Ao submergir-se a canoa, do meio de 100 homens que assistiam à cena, e que ficaram boquiabertos e indecisos, um arrojou-se valorosamente à água para me salvar.
Menos perito nadador do que eu, não alcançou a margem senão depois de mim, e de nenhum auxílio me foi, mas a sua dedicação ficou gravada no meu coração para sempre. Era o meu preto Garanganja, que enlouqueceu depois, não tendo uma alma assas forte para suportar as misérias que experimentámos.
Quando me firmei em terra andei, sem dores, sem febre. Despi-me imediatamente; mas não tinha roupa para mudar, porque as bagagens estavam ainda na outra margem; e tive de estar exposto a um sol abrasador em quanto a ele enxuguei a roupa que trazia. Voltaram as dores e a febre, e só sei que no outro dia, estava estendido num leito na libata da Anunciada, morada que tinha sido do sertanejo Guilherme Gonçalves, pai do Verissimo.
Cheio de dores e ardendo em febre, mas um pouco melhor, decidi partir e ir encontrar os meus companheiros.
Parti ás 11 horas, e durante uma grande parte do caminho, atravessei uma planície coberta de fetos herbáceos enormes, e vi muitas árvores feridas do raio. Vi também uma planta que ali abunda, e que é, ou a nossa urze das altas montanhas do norte de Portugal, ou a ela muito semelhante.
Os meus olhos, pouco afeitos ás subtilezas das observações que demanda o estudo do reino vegetal, não são bastante penetrantes para diferençar espécies, géneros e famílias, quando elas não se diferençam por si mesmo.
Cheguei ao sítio do Silva Porto (Belmonte) pela uma hora, e fazendo um supremo esforço, fui a casa dos meus companheiros.
Eles, confirmando o que me tinham escrito, disseram-me que iam continuar sós, e que me deixariam uma terça parte de fazendas e material, salvo as coisas indivisíveis que guardariam. O Ivens ofereceu-se para me acompanhar a Benguela, visto o meu precário estado de saúde, se eu quisesse voltar à Europa.
Manifesto-lhe aqui a minha gratidão, por tão generosa oferta.
CAPÍTULO 8
PEREIRA DE MELO E SILVA PORTO
Depois de 20 dias de cruel agonia e grandes sofrimentos, estava enfim no Bihé, muito doente é verdade, mas cheio de fé e contente de mim mesmo. Logo que falei aos meus companheiros, deixei a casa de Belmonte, e fui em maca para a libata próxima do Magalhães, onde caí sem forças sobre as peles do meu leito. Os primeiros sintomas de uma meningite declararam-se, ao passo que redobravam as dores reumáticas.
No dia seguinte, foram ver-me o Capelo e Ivens, que me levaram medicamentos. Piorei, e veio o delírio.
Quando despertei, julguei sonhar. Achava-me deitado em magnífico leito, despido e entre lençóis de fina bretanha. O leito era coberto de elegante cortinado de reps cor-de-rosa e franjado de branco.
Disseram-me, que Capelo viera durante o meu delírio, e me mandara aquela cama; que as havia assim no Bihé, em Belmonte, em casa de Silva Porto.
Tinham-me coberto de sanguessugas, e o muito sangue que me tiraram os pretos, deixara-me num estado de fraqueza indescritível. As dores tinham cedido um pouco, mas continuava a febre. De tarde, vieram os pretos de Novo Redondo procurar-me, e eu recebi-os diante de Magalhães, Verissimo e Joaquim Guilherme José Gonçalves, irmão mais velho do Verissimo. Vinham eles dizer-me, que não queriam seguir com os meus companheiros, e que ou iam comigo, ou voltavam.
Depois de um grande trabalho, convenci-os a voltarem para eles, e a acompanha-los. Soube então, que Capelo e Ivens estavam construindo um abarracamento a 5 quilómetros dali, e já lá tinham as bagagens, devendo em breve mudarem-se de Belmonte.
Dois dias depois, veio procurar-me o Ivens, com quem tive larga conversa.
Dei-lhe todas as cartas de recomendação que Silva Porto me havia dado em Benguela para obter carregadores, e comprometi-me a não pedir gente ao sova Quilemo, ficando-lhe o campo completamente livre a eles. Ivens disse-me, que iam mudar para o abarracamento que tinham, e que em casa de Silva Porto me deixavam o que me pertencia na partilha. Eu mandara-lhes entregar todas as cargas que trouxera comigo, e as que acompanhou o preto Barros, que já tinham chegado. O preto Barros declarou-me, que não queria continuar a viagem, e por isso despedi-o, bem como a alguns pretos de Benguela, que manifestaram igual intenção. Escrevi poucas linhas a Pereira de Melo, que o meu estado de saúde não me permitia ser extenso. Quando, fatigado de determinar tanta coisa, eu ia embrulhar-me nos lençóis e procurar no sono um pouco de descanso, surgiu diante de mim, como um espectro, um homem alto e magro, de fisionomia enérgica e distinta. Era o meu prisioneiro que eu havia olvidado, era o século Palanca, o conselheiro íntimo do sova Dumbo do Sambo.
"Já despachaste toda a tua gente, me disse ele, uns despediste-os, outros ficaste com eles, o que determinas de mim, e qual é a minha sorte?" "Tu vais voltar a tua casa, lhe respondi, levarás ao Dumbo a espingarda que lhe prometi, e alguma pólvora, e para ti terei alguma coisa também. Devo-te uma indenização por aquela corda que tiveste ao pescoço próximo do Cubango, e pelos sulcos que te fizeram nos pulsos as cordas com que te amarrei." Chamei o Verissimo, e dei-lhe as minhas ordens nesse sentido.
Palanca, sempre impassível diante da liberdade e dos presentes, como o tinha sido diante da prisão e da morte, retirou-se, e deixou logo o Bihé.
Dois homens seguiram-se no meu quarto à saída do século do Sambo. Estava escrito que eu não descansasse no primeiro dia das minhas melhoras. Estes dois pretos eram Cahinga e Jamba, os dois homens de confiança de Silva Porto, que ele me mandava de Benguela.
Depois de lhes ouvir mil protestos de dedicação, muitas vezes repetidos, consegui ficar só. Só, não! Junto de mim estava a única, a grande dedicação que tive na minha viagem através de África. Córa, a minha cabrinha, em pé, com as patas pousadas sobre o leito, berrando e lambendo-me as mãos, pedia-me uma caricia, que eu não lhe fazia há muito.
No dia seguinte, os meus companheiros avisaram-me de que deixavam a casa de Silva Porto, e eu num a maca mudei para ali. Encontrei 7 cargas de fazenda, 6 caixas de rancho, uma mala com instrumentos, e três carabinas Snider, que eles me tinham deixado.
A libata de Silva Porto, ou povoação de Belmonte, está situada sobre a parte mais elevada de um outeiro, cuja vertente norte desce suavemente até ao leito do rio Cuito, que corre a leste para o Cuqueima.
A posição da libata é muito bonita, e forte como ponto estratégico.
Casa de Belmonte (Bihé)
Tem dentro um laranjal, onde as laranjeiras estão sempre em fruto e flor, o que não acontece a outras algumas no Bihé. O laranjal é cercado de uma sebe de roseiras, que atingem uma altura de três metros, e estão sempre floridas.
Vista exterior da povoação de Belmonte, no Bihé
Sicómoros enormes assombram as ruas e rodeiam a povoação, defendida por uma forte paliçada de madeira.
Debaixo dessas laranjeiras, cuja sombra perfumada me abrigava do sol ardente, quantos dias e quantas horas passei cismando na minha posição, e elaborando projetos mais ou menos sensatos!
Foi ali, que, arrastando ainda os membros tolhidos de dores, que, queimado da febre, concebi, e organizei na minha mente o plano que havia realizar depois.
Se de alguma coisa me orgulheço na minha viagem, é desse tempo.
Mais tarde joguei muitas vezes a vida, fui decerto mais de uma vez temerário, mas era obrigado a isso para me salvar.
Ali não! Estava doente, quase anémico, e sem recursos. Uma facilidade relativa me abria o caminho de Benguela e da Europa. Mil dificuldades, que provinham da minha separação dos meus companheiros, apresentavam-me uma barreira quase impossível de transpor, para empreender uma exploração qualquer. O desânimo reinava na minha pouca gente.