Diário de África
Mulheres do Bihé pisando Milho
Indo agradecer-lhe à sua povoação, passei pelas plantações, onde andavam algumas mulheres cavando, completamente curvadas, empunhando as enxadas pelos seus dois cabos.
De volta ao acampamento, encontrei um preto dos de Novo Redondo, que não tinha podido seguir com Capelo e Ivens, pelo seu estado de saúde. Não se sustinha em pé, e uma ardente febre o devorava.
Vi que o seu estado era melindroso e que pouco poderia viver; mas ele pediu-me que o não abandonasse, e eu agasalhei-o no campo, entregando-o aos cuidados do doutor Chacaiombe.
Veio visitar-me Tibério José Coimbra, filho do Coimbra, Major do Bihé, o qual me obteve alguns carregadores de gente da sua povoação.
Nesse dia apareceram mais uns 12 carregadores com que eu já não contava, e eram capitaneados pelo preto Chaquiçonde, irmão da mãe de Verissimo.
Ia renascendo a esperança, e de novo se ia organizando a nova comitiva.
Resolvi partir no dia 27, e ir acampar junto da casa de José Alves, com esperança de completar ali o número de gente que carecia. Obtive do soveta de Cabir alguns homens para me transportarem as cargas que não tinham carregador, e também 4 homens e uma maca para o doente de Novo Redondo.
Pude seguir no dia marcado, parando, meia hora depois de ter saído, na povoação de Cuionja, de Tibério José Coimbra, onde me esperava um ótimo almoço, com ótimo chá. Até havia guardanapos!
Depois de duas horas que ali me demorei, segui avante, chegando à povoação de Caquenha, com 4 horas de caminho.
Ali parei para ver o velho Domingos Chacahanga, dono da povoação.
Este Chacahanga, antigo escravo de Silva Porto, fora o chefe da célebre expedição que Silva Porto mandou do Bihé a Moçambique, e que conseguiu alcançar Cabo Delgado, na costa do mar Indico.
É ele o único dos homens daquela expedição que hoje vive.
O velho recebeu-me muito bem, e deu-me um alentado cabrito.
Conversei muito com ele; mas apesar de todos os meus esforços foi-me impossível colher dele dados com que pudesse marcar com alguma segurança o seu trajeto.
De que foi muito mais ao norte do que vem indicado nas cartas não me restou a menor dúvida, porque há três pontos que ele precisa perfeitamente.
Um é ter, no Zambeze, deixado ao sul o país dos Machachas; outro ter atravessado o Luapula; e terceiro ter contornado pelo norte o Lago Nyassa.
Duas horas depois de ter deixado o velho Chacahanga, acampava nas matas do comandante, dois quilómetros a S.E. da libata de José Alves.
Era já noite, e por isso guardei-me para ir no dia seguinte ver este personagem, que Cameron tornou conhecido de todo o mundo.
Efetivamente, a 28 de Maio estava eu em presença do tão falado sertanejo.
José António Alves é um preto (pur sang) de Pungo Andongo, que, como muitos dali e de Ambaca, sabe ler e escrever.
No Bihé chamam-lhe branco, porque ali todo o preto que usa calças e sapatos de liga e guarda-sol, é tratado assim.(*)
[(*) Lembra-me aqui do que me dizia o Ivens, com aquela graça que nunca perdeu nos transes mais dolorosos. Dizia ele, "Em eu vendo entrar no meu campo preto de sapatos de liga e guarda-sol, já sei que é branco, e estou logo a tremer."]
Em Benguela levam a condescendência a chamarem-no mulato, um pouco escuro; mas a verdade é, que nas suas veias não há uma gota de sangue Europeu, e que ele é preto não só na cor como na ascendência, e quiçá na alma.
Veio para o Bihé em 1845, onde foi empregado de um sertanejo, e depois começou a negociar por conta própria, abonado pela casa Ferramenta de Benguela, que hoje faz avultado comércio sob a firma J. Ferreira Gonçalves.
José Alves é homem de 58 anos, já um pouco grisalho, de corpo franzino, e sofrendo de uma afeção pulmonar.
Vive como preto, tendo todos os costumes e crendices do gentio ignaro.
Quando cheguei a casa de José Alves, estava ele decidindo um mucano.
Informado da questão, soube que um empregado mulato do José Alves seduzira uma das amantes deste, e como o rapaz nada tinha de seu, ele fez-lhe um mucano à família da mãe, que possuía alguma coisa, exigindo, em paga do delito, um boi, ou uma cabecinha, para ficar limpo o seu coração. Isto me disse ele, passando a palma branqueada da mão negra por sobre a parte da caixa torácica onde se alberga aquela vícera, nos que a tem para coisa diferente de alimentar a vida física com os seus movimentos de sístole e diástole.
Que a ele servia para ser limpa de vez em quando com um mucano, percebi eu.
Depois de decidido o mucano, falei-lhe da minha viagem, que ele duvidou pudesse levar a efeito com os pequenos recursos de que dispunha.
Combinou ceder-me uma pouca de missanga, e falando-lhe em carregadores, evadiu-se a responder-me, dizendo-me, sabia que Capelo e Ivens estavam junto ao Cuanza lutando com falta de gente; mas que, se eles lhe quisessem pagar bem, não teria dificuldade em os arranjar. Era o mesmo que dizer-me, que lhe pagasse bem para os ter.
Retirei-me lastimando pela primeira vez a Cameron, por ter sido forçado a tal companhia, por tanto tempo.
Nesta parte do Bihé a vegetação arbórea começa a ser mais vigorosa, e junto ao rio Cuito, apresenta o terreno a mesma disposição termítica que descrevi na margem do Cutato dos Ganguelas.
Com uns carregadores que me chegaram no dia 29, enviados pelo irmão de Verissimo, Joaquim Guilherme, tinha eu a gente suficiente para seguir viagem, e dei as ordens nesse sentido para o dia 30.
Quem rege as coisas deste mundo tinha decidido porém de outro modo.
Na tarde desse dia, alguém espalhou entre os meus carregadores as mesmas atoardas de Belmonte, e vieram muitos deles declarar-me, que voltavam a suas casas, e não me seguiriam.
Fiz esforços de eloquência para os convencer a seguirem-me, mas poucos me escutaram.
Era a segunda vez que, em véspera de partida, no Bihé, ficava eu sem gente.
Ali ficaram contudo alguns Bihenos, e decidido a prescindir de todas as comodidades, e a abandonar toda a alimentação que levava, com poucos mais poderia seguir.
Era preciso arranjar esses poucos mais, e eu não desanimei na empresa. Um estranho episódio, acontecido no dia 30, veio coroar de resultado feliz a minha esperança.
No Bihé andam a monte muitos degradados e desertores, escapados dos presídios da Costa.
Um destes honrados cidadãos veio procurar-me, e pronunciou uma estudada arenga, que, pela profusa troca da primeira consoante pela décima-sétima, e repetido emprego de termos só usados na minha província, me denunciou nele um conterrâneo.
Se a forma do discurso era picaresca, a sua essência mostrava, que a alma do orador era sentina de todas as podridões, em decomposição num clima tropical, trescalando fedores em cada frase evaporada daquele espírito imundo.
Depois de me aconselhar a dispor das armas e munições que tinha, numa empresa abjeta, a que ele me fazia a honra de se ligar, terminou por me dizer positivamente, que, ou eu o associava a mim, fosse para o que fosse, ou ele, empregando manhas que tinha de jeito para o gentio, faria que todos me abandonassem, e me poria na impossibilidade de dar um passo.
Terminada esta peroração, que o homem julgou ser argumento triunfante nas minhas decisões, exigiu imediata resposta.
Eu dei-lha logo. Chamei os meus Quimbares, e mandei amarrar o sujeito, a quem mandei aplicar logo cinquenta açoutes, para fazermos maior conhecimento; porque, se eu o conheci ás primeiras palavras, ele não me conhecia ainda.
Depois de castigado, fiz-lhe um pequeno discurso, em que lhe disse, que o constituía meu prisioneiro, durante o tempo que estivesse em terras do Bihé, com ração de comida e de chicote todos os dias.
Reuni toda a minha gente, e mostrei-lhe, que a alma daquele branco era mais negra do que a pele deles ouvintes.
A nova da minha justiça espalhou-se nas povoações circunvizinhas, e deu-me crédito entre os pretos, que tinham em má conta o meu prisioneiro.
No dia seguinte, alguns pombeiros do sítio vieram oferecer-me carregadores, e que mos traziam dentro de dois dias.
Todos os dias tinha promessas, mas os carregadores não chegavam, e a 5 de Junho, já no maior desespero, decidi abandonar muitas cargas e seguir avante.
Reuni os meus pombeiros, e comuniquei-lhes a minha decisão.
Tivemos um longo conselho, em que eu sustentei a minha resolução, dando ordem para que os carregadores me acompanhassem ao rio Cuito com as cargas que eu tinha decidido abandonar, para as lançar ao rio.
Já se ia executar esta deliberação, quando o doutor Chacaiombe tomou a palavra, e me pediu para adiar de alguns dias a execução dela, dizendo-me, que obtivesse nas povoações vizinhas gente de ganho que transportasse tudo até ao Cuanza; que ele ia tentar um esforço junto de um sova seu amigo, e me iria encontrar no Cuanza.
Discutido este alvitre, decidi, partir no dia 6, e demorar-me no Cuanza até 14; por isso, concedi 8 dias a Chacaiombe, declarando-lhe positivamente, que não esperaria um só dia mais.
Os meus pombeiros mostravam-me a maior dedicação, e depois de uma proposta de Miguel (o caçador de elefantes), decidiram pegar também eles em cargas, ainda que isso seja não só contra os usos, mas também inconveniente em marcha, onde eles tem o seu serviço especial a desempenhar.
Obtida a gente de ganho, preparei tudo para seguir no dia imediato.
Nesse dia morreu o homem de Novo Redondo que eu tinha recolhido no Cabir.
Levantei campo ás 9 horas do dia 6, tendo muita gente de ganho à razão de 1 pano por dia.
Segui a Leste, e duas horas depois acampei junto da povoação de Cassamba.
Fica esta povoação no meio de grande e espessa floresta, onde fui caçar, encontrando apenas algumas pintadas que matei.
Quando, a 7 de Junho, levantei campo, saiu-me ao encontro o soveta de Cassamba, que me vinha cumprimentar, e trazer um boi de presente.
Desculpei-me de não lhe dar imediatamente um presente, por estarem os carregadores em marcha, e pedi-lhe, que mandasse gente sua ao meu novo acampamento, donde lhe enviaria uma lembrança.
Depois de três horas de marcha, e de ter nas duas últimas atravessado grandes planícies pantanosas, alcancei a margem esquerda do rio Cuqueima, que ali corre ao norte, tendo 80 metros de largo por três de fundo, com uma velocidade de 12 metros por minuto.
Armei o meu bote Macintosh, e nele se efeituou a passagem da gente e cargas com grande morosidade, porque a pequena embarcação não tinha capacidade para mais de cinco pessoas, ainda que o poder de flutuação da sua caixa de ar era muito superior.
Terminada a passagem, e achando-me na margem direita em terreno apaulado, e nu de arvoredo, mandei pedir ao sova do Gando, para me dar algumas cubatas onde eu pudesse pernoitar com a minha gente.
Ele veio ao meu encontro, dizendo-me que punha à minha disposição o lombe da sua povoação, que aceitei e onde me fui estabelecer.
Chegaram uns pretos de mando do soveta de Cassamba, a reclamar o presente que eu lhe havia prometido, e para se fazerem reconhecer como vindo da sua parte, traziam a azagaia do soveta, que de manhã eu lhe vira na mão.
É costume entre estes povos, onde a ignorância da leitura e escrita existe, o mandarem um objeto conhecido pelo portador de uma mensagem, para que não se duvide que eles vão da parte de quem os envia.
Mandei o prometido presente.
O sova Iumbi, do Gando, conversou muito comigo, e era para ele motivo de espanto tudo quanto eu trazia. Deu-me um magnífico boi, ficando muito satisfeito com uma peça de algodão riscado e algumas cargas de pólvora que lhe dei.
No dia imediato levantei campo logo de manhã, e duas horas depois, fui acampar 1 quilómetro a Oeste da povoação de Muzinda.
Antes de partir, mandei soltar, e por na outra margem, o meu prisioneiro branco, já impossibilitado de me fazer mal, porque, passando o Cuqueima, eu estava fora das terras do Bihé.
Mulheres Ganguelas Luimbas e Loenas.
Modo como cortam os Dentes incisivos Vieram ao meu acampamento muitas mulheres da povoação de Muzinda, algumas das quais traziam a cara pintada de verde, sendo dois riscos transversais sobre a testa, de orelha a orelha, e outros dois, descendo desses, cruzando-se entre os olhos, passando aos lados do nariz, ligados por um sobre o lábio superior.
Os penteados dessas Ganguelas são originalíssimos, e alguns, a certa distância, arremedam um chapéu de dama Europeia.
Todos os homens cortam em triângulo os dois incisivos da frente na maxila superior, formando uma abertura triangular com o vértice apoiado na gengiva. Esta operação é feita com uma faca em que vão batendo pequenas pancadas.
Deu-me um indígena uma cana sacarina de 2 metros e 30 cent. de comprido por 50 milímetros de diâmetro, afirmando-me que a produção daquela rica gramínea é abundante ali.
Saiu de Muzinda uma pequena comitiva que ia para além do Cuanza comprar cera a troco de peixe seco do Cuqueima.
Estes indígenas andam quase nus, tendo por único vestuário duas pequenas peles, que pendem de um estreito cinto de couro.
As mulheres, essas andam ainda um pouco menos cobertas!
O soveta de Muzinda veio visitar-me, e trouxe-me um boi, que eu retribui com presente igual ao que dei ao sova Iumbi do Gando.
A 9 de Junho, fui acampar na margem esquerda do rio Cuanza, a E.N.E. da povoação de Liuíca. Naquele ponto o Cuanza é mais modesto do que o Cuqueima, porque tem 50 metros de largo por 2 de fundo, com uma corrente de 15 metros por minuto.
O seu leito é de área branca e fina, e notável a transparência das suas águas.
O rio serpeia numa vasta planície de dois a três quilómetros de largo, que encosta de um e outro lado a pequena elevação de vertentes doces, cobertas do arvoredo.
Na planície vegetam gramíneas altíssimas, tão bastas que difícil é romper por entre elas.
O terreno da planície é mais ou menos pantanoso.
Como eu devia esperar ali 5 dias pelo cirurgião Chacaiombe, tinha, logo que cheguei, mandado construir um acampamento mais vasto do que aqueles que construía só para uma noite.
Veio ali visitar-me o sova de Quipembe, a quem obedecem os sovetas de entre Cuqueima e Cuanza, e que é ele mesmo tributário do sova do Bihé, a quem só obedece quando lhe faz conta; porque não teme os seus ataques, sendo-lhe fácil defender a linha do Cuqueima, e sendo a maior parte, senão todos, os barcos que navegam ali, das povoações Ganguelas.
Trouxe-me um carneiro de presente, desculpando-se de me não dar um boi, por ser a sua povoação muito distante.
Recebi também a visita do soveta de Liuíca, que me ofereceu um boi.
Este soveta, homem de boa feição, frequentou muito o meu campo durante a minha permanência na sua vizinhança.
Um dia que ele me tinha visto atirar ao alvo, e que admirava a justeza dos tiros, passou o seu grande rebanho bovino por ali.
Eu propus-lhe dar-me ele um boi, se o meu moleque Pépéca o matasse com um tiro.
Ele olhou para a criança e aceitou.
O Pépéca, sofrível atirador ensinado por mim, tomou a carabina, e fez fogo a um boi que ia mais separado dos outros, e que caiu fulminado. Ouve espanto geral da parte dos Ganguelas, e o soveta disse-me que mandasse tomar conta do boi, e lhe desse a pele, e um bocado de carne para ele comer, o que eu fiz logo.
Entre Cuqueima e Cuanza os Ganguelas, que são de diferente raça dos outros povos designados pelo mesmo nome, chamam-se Luimbas junto ao Cuqueima, e Loenas junto ao Cuanza.
No dia 12, aconteceu-me uma aventura extraordinária, que não posso deixar de narrar aqui.
Andava eu fora, quando alguns dos meus pretos vieram encontrar-me com um mulato, desconhecido para mim, que me disseram ser chefe de uma comitiva, que me vinha procurar, para me pedir licença de ir comigo até ás margens do rio Cuito, e deixa-lo acampar nos meus acampamentos, para segurança sua.
Consenti no pedido, ainda que não de bom grado.
Nessa noite, demorei-me a conversar com os meus pombeiros até tarde, e sentados à porta da minha barraca, discursávamos sobre as probabilidades que haveria de ser bem sucedido o meu cirurgião Chacaiombe na sua empresa, quando eu senti para uma parte do campo um tinido singular.
Era como o bater de martelo em safra. Tive curiosidade de saber o que era aquilo, e mandei lá o meu Augusto.
Voltou ele a dizer-me, que na parte do campo ocupada pelas barracas do pombeiro Biheno que me pedira agasalho, se acorrentava uma leva de escravos chegados nessa noite do Bihé.
Nas barracas dos meus tudo dormia, exceto três ou quatro pombeiros que estavam junto de mim.
Contive a cólera que me dominou por um momento, e mandei chamar o meu hóspede.
Ele compareceu logo, e veio sentar-se junto da fogueira em frente de mim.
Perguntei-lhe o que era aquele bater de ferro? Respondendo-me ele, que era a acorrentar umas cabecinhas que levava para vender no sertão.
No meu acampamento! onde tremulava a bandeira Portuguesa, acorrentava-se uma leva de escravos!
Continuei a fazer um grande esforço para me conter, e disse ao pombeiro, que fosse soltar todos aqueles desgraçados e mos trouxesse livres.
Ele negou-se a faze-lo, e respondeu-me com uma gargalhada de riso alvar.
Perdi então a paciência, e a raiva contida a custo transbordou violenta.
Cego de furor, lancei-me por sobre a fogueira àquele boçal mulato, e já a minha faca o ia ferir de morte, quando vi, que algumas espingardas dos meus Quimbares lhe ameaçavam a cabeça, e por um desses reviramentos tão vulgares como rápidos no meu espírito, só pensei em salvar-lhe a vida.
Ao meu grito de raiva, e ao barulho da luta, tinha-se levantado toda a minha gente, e ameaçavam exterminar toda a comitiva Bihena.
Eu, que conheço a ferocidade dos negros logo que se sentem fortes, tremi pela vida dos inocentes que podiam ser imolados.
Era uma balburdia em que ninguém se entendia, e à exceção de 5 dos meus pombeiros que assistiram ao começo da cena, todos ignoravam o que era aquilo, e só proferiam palavras de morte.
Consegui dominar o tumulto e fazer-me ouvir.
Mandei o meu Augusto soltar os escravos, e traze-los à minha presença, assim como todas as correntes e prisões que encontrassem nas barracas onde eles estavam.
Mandei lançar ao rio Cuanza as prisões de ferro, reservando só aquelas com que prendi os pretos, guardas da leva.
Declarei aos escravos, que podiam ir-se, se quisessem, porque teria os seus guardas presos o tempo suficiente para os não poderem alcançar. Desapareceram todos, exceto uma pequena, que quis ficar comigo, por não saber onde ir; e só na ocasião de deixar o meu acampamento soltei e dei liberdade aos chefes e guardas daquele rebanho de escravos.
Passou-se o dia 13 sem haver notícias do meu cirurgião, e na noite desse dia distribui eu as cargas que pude distribuir, umas 87, separando ainda umas 12 que me custava a abandonar, e pondo em pilha aquelas que estavam irremediavelmente condenadas.
Declaro que é difícil tal escolha.
Creio que um dos piores problemas a resolver por um explorador, é escolher entre as cargas, indispensáveis todas, aquela que há de dispensar.
Se não é mais difícil, é pelo menos tanto como achar o modo de determinar uma boa longitude.
Ali abandonei tudo o que de comodidades eu tinha, toda a alimentação que para mim levava, e parte da que levava para a minha gente, e algumas cargas de missanga que os meus companheiros me tinham cedido, e que, comprada em Luanda, era de valor problemático nos sertões em que me ia internar.
Se no dia 14 de manhã não tivesse novas do Chacaiombe, as cargas condenadas seriam destruídas, queimando umas e lançando outras ao Cuanza.
Para que? me perguntaram os meus leitores.
Eu lhes respondo. O chefe de uma comitiva em marcha nos sertões da África, onde tiver de empregar carregadores, tem de inutilizar e tornar inaproveitáveis todos os objetos que for forçado a abandonar, e isto por duas razões, uma que diz respeito à sua própria gente, e outra ao gentio dos países que atravessa.
Se consentiu que os seus próprios carregadores aproveitem alguma coisa da carga abandonada, todos os dias terá carregadores doentes, que o obrigaram a abandonar cargas, para dali retirarem objetos em proveito próprio; organizando assim um industrioso roubo permanente.
Por outro lado, sabendo o gentio da terra, que lhe deixam cargas por falta de carregadores, não deixará de ministrar ás comitivas futuras, na muita capata que lhe oferecem, um tóxico qualquer, que, se não matar, os torne doentes; obrigando assim o chefe a abandonar cargas no seu favor; o que não fazem, sabendo que nada aproveitam, porque tudo o que houver de ser abandonado é inutilizado.
Foi isto lição de Silva Porto, de que sempre fiz uso.
No dia 14 de manhã, não tendo notícia do Chacaiombe inutilizei 61 cargas!
CAPÍTULO 9
RÁPIDO GOLPE DE VISTA RETROSPETIVO
O Mapa junto mostra o meu caminho de Benguela ao Bihé.
Procurei designar nele tudo o que em viagem de exploração se pode colher de dados geográficos e topográficos.
Muitos dos pontos marcados são determinados astronomicamente, sendo os intermediários, achados grosseiramente pelos rumos da agulha e projeção das distâncias percorridas, distâncias avaliadas pelos pedómetros e pelo tempo gasto a percorre-las.
As posições do Benguela, Dombe, Quilengues, Ngola e Caconda, que empreguei na carta, são determinadas por Capelo e Ivens, e como eu apenas tinha os resultados dos cálculos, aí os designo tais como mos deu o Ivens, sem as observações iniciais. De Caconda ao rio Cuanza as posições astronomicamente determinadas por mim vão precedidas das observações iniciais.
Tendo-me separado dos meus companheiros em Caconda, prossegui nos trabalhos que tínhamos começado, não podendo fazer observações de inclinómetro e força magnética, porque os únicos instrumentos que para isso levávamos ficaram em poder de Capelo.
Começarei a expor os meus trabalhos pela determinação das coordenadas geográficas de Caconda à margem esquerda do Cuanza, onde pára a minha narrativa no precedente capítulo.
No seguinte quadro procurei compendiar os necessários dados para se poderem verificar os resultados que designo.
Todas estas observações calculadas em África foram recalculadas em Londres pelo 1º tenente calculador da marinha inglesa, Selwyn Sugden.
[(*) NOTA: Optámos por não incluir os gráficos de Observações Astronómicas feios por Serpa Pinto por serem demasiado grandes para este E-book.]
É muito notável que a primeira longitude que determinei em Belmonte pelo cronómetro é muito próximo da verdadeira obtida pelo trânsito de Mercúrio. Esta longitude muito pouco difere também da obtida pelo eclipse do 1º Satélite de Júpiter a 23 de Abril.
Não inclui n'este quadro as inúmeras observações feitas para estudar as marchas dos cronómetros, que publicarei em separado um dia.
Nos estados dos cronómetros a grande diferença que se nota entre alguns provém do pertencerem a diferentes cronómetros.
Como se vê, o instrumento empregado por mim foi o sextante com o horizonte artificial de mercúrio, que outro não tinha, tendo ficado em poder dos meus companheiros o Abba, único teodolito universal que possuíamos.
Os meus sextantes eram: um de Casela, de Londres, contando 5"; e outro de Lorieux, de Paris, contando 30". As minhas bússolas azimutais eram fabricadas em Berlim, e tinham pertencido ao infeliz Barão de Barth.
Os meus cronómetros eram de Dent, de Londres, sendo dois de algibeira, e um, que, depois, de Benguela me enviaram ao Bihé, de marinha, também de Dent.
Este último era mau; mas os primeiros excelentes, sobre tudo o que eu designo com a letra S, nos cálculos.
A carta do país do Bihé, muito grosseira e incompleta decerto, foi levantada à bússola, nas minhas excursões venatórias; mas, ainda assim, possui a suficiente exatidão para se julgar do país, e prouvera a Deus que as cartas de pontos muito mais próximos da costa em que dominamos, estivessem tão próximas da verdade como ela.
Ponho ponto aqui nos detalhes das minhas cartas, para falar rapidamente do país que elas representam.
De Benguela ao Dombe, como se vê, costeei o mar, em terreno calcário, abundante de minérios diversos.
As águas faltam ali na estação seca, e apenas o vale do Dombe Grande tem a suficiente para ser enormemente produtivo. A vegetação, sem ser pobre, não tem, todavia, a opulência peculiar aos países intertropicais. Entre Benguela e o Dombe apenas se encontra água potável num pequeno charco na Quipupa.