Diário de África
Segunda Parte
A FAMÍLIA COILARD
CAPÍTULO 1
EM LEXUMA
Foi tormentosa a noite que passei em Embarira. Assaltado por milhares de persovejos, e por nuvens de mosquitos, tive de abandonar a casa que me oferecera o chefe, e ir procurar ao ar livre um refúgio a tão cruel tormento. Ao incómodo produzido pelo ataque dos insetos vinha juntar-se a ansiedade da ideia de encontrar no dia seguinte um Europeu, um homem desconhecido, mas com o qual eu contava já para sair dos embaraços em que estava. Amanheceu finalmente o dia 19 de Outubro depois de uma longa noite não-dormida.
As primeiras notícias que pude colher foram de que o missionário estava a 12 ou 14 milhas dali, mas que do outro lado do rio Cuando vivia um Inglês.
Pedir uma canoa ao chefe para passar o rio foi o meu primeiro impulso, mas obtive a mais formal negativa, a pretexto de que não havia canoa.
Depois de grande controvérsia, ele declara-me que me não deixa sair da sua povoação sem eu ter pago aos marinheiros uma certa porção de fazendas.
Chamei o Jasse e mostrei-lhe a impossibilidade de fazer pagamentos sem ter comunicado com o Inglês, e ter dele obtido fazendas para os fazer, porque eu nenhumas tinha.
Jasse reúne os marinheiros e o chefe e fala-lhes nesse sentido, mas nada obtém, e a recusa de me deixarem ir à outra margem do Cuando é formal.
Vendo que nada fazia, pedi-lhes que fizessem chegar um recado meu ao Inglês, e escrevi algumas palavras num bilhete de visita. Foi o Veríssimo o mensageiro. A má noite velada, e a febre constante prostraram-me. Deitei-me ao ar livre, esperando a resposta à minha mensagem.
Seria passada uma hora, quando apareceu diante de mim um homem branco. A sensação que experimentei ao ver um Europeu é indefinível.
O homem que eu tinha diante de mim poderia ter de 28 a 30 anos, e possuía um tipo perfeitamente Inglês.
Barba pouca e muito loura, olhos azuis, grandes e vivos, cabelo cortado rente e tão louro como a barba.
Vestia uma camisa de grossa tela, cujo colarinho desabotoado deixava ver um peito amplo e forte, como as mangas arregaçadas expunham à vista uns braços musculosos, queimados pelo sol Africano.
As calças de estofo ordinário estavam seguras por um forte cinto de couro, donde pendia uma faca Americana.
Nos pês sobre umas meias azuis de algodão grosso, uns sapatos que pelas costuras, todas feitas por fora, logo se via serem obra dele mesmo.
Disse-lhe quem era; expôs-lhe as minhas circunstâncias, e pedi-lhe para me ceder a fazenda de que eu precisava, a troco de marfim que eu lhe podia dar. Mostrei-lhe a necessidade que tinha de me libertar daquele encargo para escapar aquela gente e ir encontrar o missionário. Respondeu-me ele, que não tinha fazendas, que estava também sem recursos, e que só mandando eu a Lexuma as poderia obter.
O seu modo de falar e a delicadeza das suas frases mostravam-me logo, que aquele homem não era um ente vulgar. Ele dirigiu-se ao chefe, e convenceu-o a deixar-me ir à outra margem do rio, com a condição de que voltaria à noite para Embarira.
Partimos, e depois de atravessar um grande rio, aquele Cuando cujas nascentes eu havia descoberto, e determinado meses antes, chegámos a um pequeno campo onde nos apareceu outro branco.
Era homem de elevada estatura, de longa barba e cabelos brancos, que mostravam não uma idade proveta, desmentida pela agilidade do corpo e expressão da fisionomia, mas sim a velhice prematura, produto de longos sofrimentos e trabalhos.
Vestia como o primeiro, e só estava um pouco melhor calçado.
Conversámos sobre a minha posição, e vimos que eles nada podiam fazer por mim, porque estavam também sem recursos.
Fui bastante absoluto empregando a palavra nada, porque se não tinham outra coisa a dar-me, tinham um sofrível jantar, e eu tinha fome.
Depois de saciar o meu voraz apetite, combinei com eles escrever ao missionário, a pedir-lhe fazendas para o pagamento aos remadores.
Expedi um portador para Lexuma e voltei a Embarira, onde me deitei ao ar livre, com a lembrança da noite terrível da véspera.
Dormi a noite de um sono único e profundo. Ao amanhecer do dia 20, estavam junto de mim, vindas de Lexuma, as fazendas precisas para os pagamentos das tripulações. Paguei tudo, e obtive do chefe carregadores suficientes para levarem as minhas cargas e o marfim a Lexuma; escrevendo por eles ao missionário, a quem pedi hospedagem, e a quem pedia para pagar ali aos carregadores.
Ao meio-dia, uma ligeira piroga, impelida pelo remar de dois pretos, corria por sobre as águas do Cuando, levando ao seu bordo três homens brancos.
A piroga velha e rachada fazia muita água, e por isso o homem que ia na frente descalçara os sapatos que levava na mão, em quanto o da ré, acocorado, esgotava incessantemente a muita água que colhia o frágil batel.
O do meio, magnificamente calçado à prova de água, contemplava distraído o deslisar dos enormes crocodilos que flutuavam à merce da corrente, e pouco caso fazia da humidade da canoa.
Estes três brancos, reunidos ali, no centro de África, pelos azares das explorações, eram eu, o Dr. Benjamin Frederick Bradshaw, explorador zoológico, e Alexandre Walsh, zoologista também, preparador de exemplares e companheiro do doutor.
Chegados à margem direita, foi logo posta à minha disposição uma das três cubatas que eles tinham.
O Dr. Bradshaw, ótimo cozinheiro, como é hábil médico, sábio distinto, e caçador famoso, foi logo preparar um almoço de perdizes que ele tinha morto nessa manhã. O cozinheiro do doutor, um ativo Macalaca, deitado de peito no chão, contemplava ao seu amo a trabalhar na cozinha, e contentava-se em o ver trabalhar.
O apetite, guardado desde a véspera, fazia dilatar as fossas nasais ao sentirem o cheiro delicioso que saía em condensado vapor das caçarolas do Dr. Bradshaw.