Diário de África
O Campo do Doutor Bradshaw
Vinha da parte do missionário Francês. Desdobrei a toalha, que continha um corpo bastante pesado, e fiquei comovido diante de um enorme pão de trigo, que tinha nas mãos.
Pão! Pão, que eu já não via há um ano; pão, que era para mim sempre a cada comida em que o não tinha, uma recordação saudosa; que era um sonho constante das noites de fome; do qual cheguei muitas vezes a ter um desejo imoderado, e pelo qual compreendi que se possa cometer um crime para o haver, quando privado dele por muito tempo.
As lágrimas vieram humedecer as minhas pálpebras ressequidas, e creio que foi aquela uma das mais violentas comoções que senti na minha viagem.
Esqueci um pouco as perdizes do doutor, para comer, com voracidade, daquele pão, que saboreava com delicias nunca experimentadas em gastronomia.
Foi Benjamin Bradshaw quem suspendeu o meu furor voraz, que me poderia ser fatal, e que me fez tomar uma ótima chávena de cacau, em seguida à qual um sono profundo dormido numa barraca, livre do sereno da noite, veio restaurar as forças.
Toda a minha gente e as cargas tinham partido para Lexuma, ficando comigo apenas Augusto e Catraio e a mala dos instrumentos.
Amanheceu alegre o dia seguinte, que deveria ser um dos mais atribulados da minha vida.
Depois de um ótimo almoço de perdizes e chocolate, e quando nos deliciávamos a fumar o aromático tabaco do Chuculumbe, chegaram os carregadores que na véspera tinham partido para Lexuma, fazendo grande grita e dizendo, que não tinham sido pagos ali.
Admirou-me o facto, sobre tudo por o Veríssimo me não ter escrito, e por ter ido com as cargas o marfim que seria garantia a todo o pagamento que ali se fizesse.
Nós não tínhamos fazendas, e não sabíamos que fazer diante das exigências dos selvagens, que teimavam em que tinham sido roubados, porque tinham levado as cargas dali a Lexuma, e não tinham recebido o menor pagamento. Pouco depois, chegaram o chefe de Embarira Mocumba e Jasse, que começaram uma questão fortíssima comigo e com os Ingleses, ameaçando-nos e dizendo-nos as maiores insolências.
Eu estava envergonhado e aflito por ver os Ingleses, que tanto me tinham obsequiado, metidos numa questão que me era particular, e serem insultados pela minha causa; mas impossível me tinha sido prever um tal acontecimento.
Depois de mil exigências a que era impossível satisfazer, eles com Jasse à frente declararam que iam a Lexuma reaver as bagagens e o marfim, e que tomariam conta de tudo até serem pagos; partindo em seguida, mas deixando ali o chefe Mucumba com um grande troço de gente a vigiar-nos.
Por conselho do Dr. Bradshaw, nós entrámos numa das barracas e posemos as armas à mão, prontos a uma enérgica defesa, em caso de um ataque provável.
Ao cair da tarde Mucumba começou a fazer uma grita enorme, e chamando a sua gente invadiu as duas barracas, levando de uma delas a minha mala dos instrumentos, que fez logo transportar ao barco e passar à outra margem.
Voltaram a cercar a terceira barraca, em que nós estávamos, exigindo que eu fosse com eles para Embarira. Receios de que os meus hospedeiros se expusessem pela minha causa a um perigo eminente, queria-me entregar ao gentio, e liberta-los de um conflito inevitável; quando o Dr. Bradshaw me pediu que o não fizesse, e declarou-me que me não deixaria partir, e que deveríamos resistir-lhes a todo o trance.
Na barraca estávamos quatro homens, três brancos e o meu Augusto, dispostos a vender caras as vidas, e era tal a nossa atitude que os gentios recuaram ante a ideia de um ataque que seria fatal a muitos. Depois de um conselho prolongado entre as cabeças, decidiram eles abandonar o campo e passar à outra margem.
Dava-me cuidado não ver o meu moleque Catraio, que comecei a supor teria sido feito prisioneiro, quando ele me apareceu na barraca, com o seu riso inteligente e velhaco, trazendo na mão os meus cronómetros, que tinha ido à outra margem buscar à minha mala, em quanto os Macalacas nos cercavam e ameaçavam. Mais uma vez Catraio impedia que os cronómetros parassem por falta de corda.
Estávamos sós, mas muito apreensivos, porque o doutor, que conhecia bem os indígenas dali, dizia, que eles não passariam sem voltar à carga.
Pelas 9 horas da noite, chega ao campo o missionário Francês, François Coilard, e sabendo tudo o que se tinha passado, afirmou-nos que os carregadores tinham sido pagos generosamente em Lexuma, e que ele se encarregava de fazer ouvir razão ao chefe Mucumba.
No dia imediato, logo de manhã, o chefe Mucumba, Jasse e inúmeras gentes, passaram o rio e vieram ao nosso campo.
Mr. Coilard, que fala a língua do país como fala Francês ou Inglês, fez um discurso ao chefe de Embarira, mostrando-lhe a pouca-vergonha dos carregadores, que tendo sido generosamente pagos em Lexuma, vieram dizer, que nada tinham recebido, e que tinham sido roubados.
Mucumba entregou logo tudo o que tinha roubado na véspera, e deu muitas satisfações, fazendo recair a culpa sobre os seus homens que o tinham enganado. Quando parecia que tudo corria bem e se havia harmonizado, apareceu Jasse levantando uma nova questão.
Queria ele, que eu pagasse aos seus moleques particulares que tinham vindo no seu serviço, e com quem eu nada tinha.
Eu argumentei-lhe com o caso da tripulação de um pequeno barco que do Quisseque viera em serviço dos outros remadores, e a quem eu nada tinha dado. Depois de um curto debate, habilmente dirigido por Mr. Coilard, ele recebeu duas jardas de fazenda para cada homem, e ficou terminada a questão.
Fomos almoçar satisfeitos, julgando que estariam terminados os incidentes desagradáveis daquele dia, mas não estava escrito no livro do destino que assim fosse.