Diário de África
O meu Barco
Remos
Uma piroga do alto Zambeze é como um patim gigantesco, em que o remador tem de fazer todos os prodígios de equilíbrio do patinador sobre o gelo, para sustentar a posição estável. Foi em tais condições que eu, no dia 1 de Outubro, deixei a Itufa, e me aventurei sobre o rio gigante, cujas ondas levantadas por um forte vendaval de leste, ameaçavam a cada momento submergir as estreitas almadias.
Depois de quatro horas de viagem, parei na margem esquerda, numa pequena enseada, onde a gente que vinha por terra tinha dado ponto de reunião aos barqueiros. As minhas novas tripulações eram mais comedidas do que os moleques do rei que me trouxeram a Itufa, mas começavam já com pedidos e exigências.
Não encontrei caça no mato, mas, tendo chegado alguns bandos de patos a uma lagoa próxima, fui ao barco buscar a espingarda de caça miúda, de que só tinha 25 cartuxos, e consegui matar 17 patos, de 6 tiros.
O ponto onde eu estava, era o extremo sul da grande planície do Lui. As duas nervuras de montanhas, que no paralelo 15 estão distanciadas de 30 milhas, convergem ali; só parando para dar um leito de dois quilómetros ao Zambeze. À planície monótona e nua sucede o país acidentado e coberto de luxuosa vegetação. Ás margens de área branca e finíssima, uma área que, comprimida sob os passos do homem, solta vagidos como os de uma criança, produzindo uma impressão inexplicável, porque, estando muito seca, imita um fraco grito humano. A essas margens de área tão extraordinária, sucede, em transição rápida, o terreno vulcânico; e são blocos de basalto que marginam o rio.
Foi com o maior sentimento de prazer que os meus olhos se fixaram sobre esses penedos denegridos, vomitados em ondas de fogo nas épocas primitivas do mundo. Desde o Bihé, que não via uma pedra, e com satisfação olhava para aquelas que via ali.
Quando o meu cozinheiro Camutombo tratava de acender fogo para cozinhar os patos, o lume comunicou-se à erva alta e seca que cobria o solo, e logo, assoprado por um vento forte, voou por sobre a terra em ondas de chamas.
O atear do incendio foi tão rápido, que por um momento estivemos envolvidos nele; tendo de nos precipitar nas canoas para lhe escapar.
No dia imediato parti, sempre a S.S.E., e depois de quatro horas de navegação, comecei a encontrar grandes filões basálticos, atravessando o rio no sentido E.O. Alguns vem tanto à flor de água, que tornam difícil a navegação, e ainda que a corrente é inapreciável, foi preciso diminuir a velocidade dos barcos para evitar choques perigosos, naqueles paredões naturais.
O rio começa, na região basáltica, a ser povoado de ilhas cobertas de vegetação pomposa. Pela tarde, avistámos um bando de ongiris (Strepsiceros kudu) que pastavam na margem direita.
Desembarquei um pouco a montante, e consegui matar um dos soberbos antílopes.
Mandei seguir o barco, e eu caminhei por terra por espaço de uma hora.
Levantei bandos de francolins, codornizes, e pintadas (Numida meleagris), que nunca tantos vi em África. A terrível mosca ze-ze também é abundantíssima ali, incomodou-me muito na floresta com as suas picadas dolorosas, mas inofensivas para o homem; e tantas havia e tanto me perseguiram, que até depois de estar no barco ainda por muito tempo estive coberto delas.
Fui acampar numa ilha muito extensa de um aspeto lindíssimo, depois de seis horas uteis de navegação a rumo de S.S.E.
O Veríssimo estava completamente restabelecido, mas eu era devorado por uma febre lenta e contínua, que me minava a existência.
No dia 3 de Outubro, segui viagem, sempre por entre ilhas formosíssimas, cobertas de vegetação luxuriante. Navegámos, havia duas horas, quando vimos dois leões que na margem direita bebiam água do rio. Apesar de eu ter estabelecido como regra não me entremeter com feras, sem a isso ser forçado, e apesar ainda do valor que então tinham para mim os cartuxos, os instintos do caçador venceram a razão, e mandei abicar a canoa à margem, direita aos bichos.
Os leões, percebendo-nos, deixaram o rio, e foram postar-se numa eminencia a duzentos metros. Saltei em terra e caminhei para eles.
Deixaram-me aproximar a uns cem metros, e depois puseram-se lentamente a caminho para montante do rio, parando de novo depois de curto espaço. Dessa vez acerquei-me a cinquenta metros, mas eles caminharam de novo e embrenharam-se num pequeno maciço de arbustos. Eram dois leões machos de grandeza desigual, tendo um quase o dobro da corpulência do outro.
Cheguei junto do matagal, e perscrutando a brenha, vi a cabeça de um dos majestosos animais, por entre os arbustos, a vinte metros de mim. Preparei a carabina, e ao apontar, senti um tremor convulso percorrendo todos os membros. Lembrei-me de que estava fraco e debilitado pela febre, e receei que o pulso tremesse ao dar ao gatilho. Tive uma sensação singular que até então não havia experimentado, e que provavelmente era a do susto. Por um esforço de vontade o tremor parou, a carabina tomou firme a direção que eu lentamente lhe dava, e como ao atirar a um alvo, quase fui surpreendido pelo meu próprio tiro. Passou rápida a nuvem de fumo, e nada vi no sítio onde segundos antes se mostrava a cabeça da soberba fera. Carreguei novamente o cano vazio, e com dois tiros prontos, dei volta ao maciço. Para o lado do Norte seguiam as pegadas de um leão, mas de um só. O outro estava ainda ali. Aventurei-me no cerrado de arbustos, e entre um tufo de ervas vi o corpo inerte do rei das florestas Africanas. A bala express esmigalhando-lhe o crânio, cortara-lhe de golpe a vida. Chamei gente, e num momento a pele e garras foram-lhe arrancadas.
Na massa encefálica foi encontrada a bala que produziu a morte.
Ao largar a margem, principiámos a sentir, mal distinto, um ruido longínquo, semelhante ao do mar revolto quebrando nas rochas das praias. Devia ser uma catarata, e essa ideia, que logo me ocorreu, foi confirmada pelos remadores. Pouco depois, os filões basálticos multiplicavam-se, formando paredões naturais, sempre no sentido E.O.; mas, ao contrário do que tinha acontecido até ali, o rio já levava uma corrente rápida que tornava perigosíssimo o navegar.
Um bando de Malancas que vimos na margem direita, obrigou-me de novo a parar, e conseguindo eu matar uma, prosseguindo na viagem depois de nova interrupção de uma hora.