Diário de África
Ruinas da casa do Rev. Price (Xoxon)
Do lado oposto da cidade, em planície livre, está situado o bairro Europeu, e as casas de tijolos mostram as moradas dos negociantes Ingleses.
Numa dessas casas, a de Mr. Francis, há um poço que fornece água à colonia Britânica.
Os Ingleses em África não são como os povos dos outros países, e por isso vão mais longe do que eles, ainda que o seu temperamento e a sua índole estão muito longe de igualar a dos povos da raça Latina, em boas condições para resistir ao clima e associar com o gentio.
Um Inglês decide ir negociar para o sertão, mete num vagão toda a família e todos os haveres, e parte.
Chega, edifica logo uma casa, rodeia-se de todas as comodidades que pode ter, e diz consigo: "Eu vim aqui para fazer fortuna, e se a não fizer em toda a minha vida, tenho de passar aqui essa vida. Procuremos pois passa-la bem."
Não pensa mais na Inglaterra, esquece o passado e olha só para o presente e para o futuro. Nostalgia nenhum tem.
Outros há, e muitos, de classe inferior, que não querem mesmo voltar à pátria, e que se estabelecem logo para sempre.
Nisto consiste a sua força colonizadora. Outra coisa que os Ingleses fazem logo é introduzir a libra esterlina em toda a parte.
Chega um indígena com marfim, peles, penas, ou outro género do comércio, e quer pólvora, armas, etc. Os Ingleses não entendem permutações diretas. Dão-lhe o valor em libras, e vão vender-lhe ao outro lado do armazém o que o gentio carece.
A princípio custa; mas o indígena vai-se habituando, vai conhecendo a vantagem do dinheiro, e depois já não quer outra coisa. O negociante assim sabe bem o negócio que faz. Há no Manguato um negociante Inglês, de que terei que falar muito ao diante, Mr. Tailor, que já chegou a introduzir em Shoshong o papel de crédito.
Letra passada por ele é recebida pelo chefe Cama e por muitos gentios ricos.
Depois deste rápido esboço que acabo de fazer do Manguato, não posso deixar de falar na minha posição em Shoshong, que era verdadeiramente crítica.
Tinha a fazer uma grande viagem para alcançar Pretoria, o ponto mais próximo onde poderia alcançar meios de uma autoridade Europeia; tinha de pagar dívidas já feitas com a sustentação da minha gente, estava sem roupa; os meus pretos, cobertos de andrajos, pediam-me algumas jardas de pano para se vestirem, e eu não tinha dinheiro algum.
Mr. Coilard oferecia-me a sua bolça, mas bem precisa lhe era ela para que eu ousasse aceita-la. Queria mesmo saldar algumas dívidas que com ele contraíra, por saber que ele tinha a fazer ainda uma longa viagem, e não lhe sobejarem os meios.
O meu embaraço era grande, e tristíssima a minha posição.
Eram estas as minhas circunstâncias, quando, no dia 8, acompanhei Madame Coilard a fazer uma visita à família Tailor.
Mr. Tailor tem sido um grande viajante, já esteve no Zambeze, conhece todo o Transvaal, a Colonia do Cabo e todos os países do sul de África.
Estabelecido definitivamente no Manguato, a sua casa é uma das primeiras casas comerciais de Shoshong. Só em marfim a sua exportação orça por trinta mil libras por ano. Mr. Tailor é homem sério e de grande crédito.
Mr. Tailor era casado, havia três anos, com uma jovem e formosa Inglesa, de cabelos e olhos pretos.
Dotada de uma educação esmeradíssima, Madame Tailor embalsama o ambiente que a cerca com esse perfume que envolve toda a mulher de sociedade.
Junto dela, nesse dia, cheguei a esquecer-me de que estava no remoto sertão Africano, para me julgar transportado a um salão do West-End em Londres.
A conversa estabeleceu-se entre mim, Madame Tailor, Madame e Mademoiselle Coilard, e veio a pelo falar-se da minha próxima viagem.
Disse-se, que me era impossível viajar naquele país sem um cavalo, e a propósito disso, Mr. Tailor convidou-me a ir ver os seus. Chegados à cavalariça, ele apontou-me para um magnífico corredor do deserto, castanho claro com cabos pretos, e disse-me: "Eis o cavalo que lhe convêm para viajar e caçar."
Eu conheci logo o grande valor do animal, que pelas cicatrizes miúdas e redondas assinaladas sobre os curvilhões, me mostrava ter tido a horse-sickness, e estar por isso à prova, sendo o que ali se chama um cavalo salé. As outras qualidades eram reveladas pelas pernas finas e nervosas, apresentando uma musculatura desproporcional, pescoço longo e pouco guarnecido de clinas, olhar vivo e inteligente, cabeça seca e elegante, e abundantíssima cauda. Ficaram me os olhos naquele belo animal, e triste disse a Mr. Tailor, que não tinha dinheiro para lho pagar. "Ies, me disse ele, it is a valuable horse" (Efetivamente, é um cavalo de grande valor).
Voltámos à sala, e eu não pude deixar de falar ás damas do formoso animal que acabava de examinar.
Pouco depois voltávamos a casa, e pelo caminho Madame Coilard mostrava a maior aflição pela minha falta de recursos, em quanto Mr. Coilard redobrava de oferecimentos sinceros da sua já magra bolça.
As noites que passávamos na casa do Rev. Mackenzie eram horríveis. Aquela casa desabitada há muito, estava cheia de insetos asquerosos, que nos sugavam o sangue, roubavam o sono, deformavam as feições e atormentavam a paciência. Eram milhões de carrapatos e milhões de persovejos.
Umas carraças semelhantes ás dos cães no sul da Europa, castanhas e chatas, mas que depois de saciadas tomavam a forma esférica e uma cor esbranquiçada, produziam inflamações horríveis no sítio onde mordiam. Era um suplício indescritível aquele. Depois de uma destas péssimas noites, Madame Coilard tinha-me mandado chamar para o almoço, e já íamos para a mesa, quando se fez anunciar Mr. Tailor.
Dirigiu-se a mim, e com esse ar frio e seriedade de todo o legitimo Inglês, disse-me, que me vinha trazer o cavalo castanho que eu tinha admirado na véspera, duzentas libras que eram todo o ouro que naquele momento tinha em caixa, e me oferecia ainda o seu crédito, tanto junto dos outros negociantes do Manguato, como em Pretoria, se eu carecesse dele.
Declaro que caí das nuvens com tal oferecimento nem de leve solicitado, e que apenas pude balbuciar algumas palavras banais de agradecimento; de tal modo fiquei comovido.
Mr. Tailor almoçou connosco, e em seguida eu acompanhei-o a sua casa.
Montava já o soberbo cavalo, e sentia essa sensação de prazer que todo o cavaleiro sente ao montar um formoso animal, sobre tudo quando está privado desse prazer há muito tempo.
Falámos largamente dos meus negócios, e eu não aceitei o dinheiro, contentando-me com o cavalo que me era muito preciso, e admitindo que ele pagasse as minhas dívidas já contraídas em despesas de viagem, que montavam a cento e oito libras, e sacasse sobre mim em Pretoria, onde contava haver dinheiro do governo Inglês.
Mr. Tailor, por um requinte de delicadeza, sacou a dois meses de vista sobre o meu aceite que devia ter lugar em Pretoria.
A 10 de Janeiro acabava eu de por em dia os meus trabalhos, e preparava-me para a partida.
Não posso deixar de citar aqui os nomes de Mr. Beniens, Mr. Clark, e Mr. Musson, que me dispensaram os maiores favores e coadjuvaram a minha partida; estando eu certo de que, sem o antecipado cavalheirismo de Mr. Tailor, teria encontrado neles o apoio monetário de que carecia.
Em vista dos favores que ali recebi de estranhas gentes, não pude deixar de lançar um golpe de vista ao passado, e recordar-me de Caconda e do Bihé.
O paralelo que estabeleci entre o apoio que encontrei nos sertões concorridos por Portugueses e Ingleses, veio mais uma vez confirmar a minha opinião, sobre a qualidade das gentes que de Portugal vão aos sertões Africanos.
Tenho viajado muito e conheço muitos povos. Nenhum vi ainda tão hospitaleiro e tão bondoso como o Português.
Quantas vezes, nas minhas caçadas, eu tenho ido bater ás portas dos aldeões das nossas serras, e sempre as tenho visto abrir de par em par ao forasteiro que pede um abrigo. O pobre aldeão reparte com o hóspede o melhor da sua ceia, e da enorme caixa enfumada sai o melhor do seu bragal para a cama do desconhecido. Subindo da cabana do povo rude ás casarias do lavrador abastado, e daí ás habitações solarengas, em todas vemos revelada a hospitalidade Portuguesa numa simples indicação. Todas tem os quartos para hóspedes. Quando um Português edifica uma casa, não pensa só na família e nos seus, pensa também no forasteiro que lhe pode vir pedir abrigo, e edifica para ele. É que para o Português o estranho que chega é recebido como família, na choupana do pobre e no palácio do rico. Este traço na vida material de um povo que edifica contando com o hóspede, define a sua hospitalidade. É por isso que grito bem alto, que não são Portugueses os homens que me receberam mal em Caconda e no Bihé. É por isso que eu verbero acerbamente o sistema de mandar para as colonias o que há de mais baixo, vil e ignóbil entre os criminosos da Metrópole. É ali que está uma das causas mais determinantes do atraso de muitas das nossas ricas possessões. Ali está o escolho em que esbarra muitas vezes a ação do governo.
Em Caconda só encontrei estorvos à minha viagem. No Bihé esses estorvos recresceram, e não se limitaram a exercer uma ação local; acompanharam-me até ao Zambeze. Ali no Manguato só encontrei boa vontade, só encontrei auxílio, e era quem mais podia fazer por mim.
Isto não se comenta.
Durante a minha estada em Shoshong, era ali a ordem do dia a morte do Capitão Paterson e dos seus companheiros no país do Matebeli.
Corriam versões diferentes, mas todas concordes em que eles foram assassinados por ordem de Lo-Bengula.
O Capitão Paterson saíra de Pretoria encarregado de uma missão oficial junto de vários régulos Africanos; missão de que involuntariamente tive conhecimento por um destes com quem ele tratou, e sobre a qual guardo a maior reserva, pelo respeito que me merecem todas as missões particulares dos governos. Acompanhava-o Mr. Sergeant e alguns serviçais, e no Matebeli reunira-se Mr. Thomas, jovem Inglês, filho de um missionário há muito residente no Matebeli, e ele mesmo nascido ali. O Capitão Paterson, depois de tratar o que tinha a tratar com Lo-Bengula, decidiu ir ver a maravilha Africana, a catarata de Mozioatunia.
O jovem tomas pediu licença ao régulo para acompanhar aquela expedição, licença que lhe foi concedida.
Na véspera da partida porem, um dos favoritos do régulo foi procurar o moço Inglês, e disse-lhe em nome do seu chefe, que não acompanhasse o Capitão Paterson.
Mr. Thomas foi procurar Lo-Bengula, e perguntar-lhe porque lhe negava a permissão antes concedida.
Lo-Bengula respondeu-lhe, que ele tinha sido criado pelos Matebelis, e por isso era querido como um filho da tribo.
Que tinha um pressentimento de que alguma desgraça poderia acontecer àqueles Ingleses, e por isso o aconselhava a ficar ali e a deixa-los seguir sós.
Mr. Thomas disse-lhe, que não se importava com os pressentimentos, e foi.
Não devia voltar como os outros dois Ingleses. O que se passou? Quem o saberá? Só o terrível Lo-Bengula.
Uns, diziam, que foram envenenados, outros mortos a tiro; mas eu, que conheço o sistema dos grandes potentados Africanos, duvido de que alguma coisa certa se possa saber nunca; porque eles matam logo os executores das suas sinistras ordens, e fecham o segredo dos seus crimes em novas sepulturas.
Tudo quanto se dizia para provar uma ou outra opinião eram razões, talvez plausíveis, para quem não conhecesse a África, mas para mim não.
Diziam, por ex., que os Macalacas que, por ordem de Lo-Bengula, os tinham acompanhado, apareceram depois com galões e outros objetos furtados aos Ingleses, o que provava que houvera assassínio e roubo.
Isto não provava nada; porque, se eles tivessem morrido de morte natural, as suas bagagens seriam logo saqueadas.
Diziam outros, que, faltando a água, o chefe da caravana Matebeli fora explorar terreno sozinho, e voltando muito tempo depois, indicara um pequeno charco pouco distante, e que o Capitão Paterson ao beber daquela água dissera, "estou envenenado." Quem veio contar isto, se ninguém da gente deles escapou?
Notícias de origem Matebeli diziam, que eles tinham bebido água de uma lagoa naturalmente envenenada, e por isso tinham morrido todos. Isto é outro absurdo.
Toda a água das lagoas Africanas é veneno, mas não é veneno que mate num dia como o arsénico e os sais de mercúrio, ou como muitos alcaloides vegetais.
O veneno daquelas águas infiltra-se no organismo, deteriora-o lentamente, pode matar com o tempo, porque é o miasma palustre e não outra coisa; mas não destrói a vida algumas horas depois de absorvido, e caso produzisse esse efeito numa organização especial, não o produzia decerto em tanta gente.
Assim, pois, é também inverosímil a versão do envenenamento natural.
Outros afirmavam, que eles foram traiçoeiramente fuzilados; alguns diziam, que foram mortos a azagaias. Quem trouxe a nova?
Parece que houve crime, porque não é possível que a febre matasse num dia tanta gente, e entre ela, gente aclimada no país, como o jovem tomas e os indígenas; parece que houve crime, mas se o houve o segredo ficará entre Deus e Lo-Bengula.
Um dos viajantes Africanos que me merece mais crédito, Mr. François Coilard, que ainda se demorou muito em Shoshongdepois da minha partida dali, assegurou-me na Europa, muito tempo depois, que o rei Cama conhecia o segredo da morte daqueles infelizes, e deixou-me perceber, que um crime horroroso fora praticado por ordem do malvado Zulo.[10]
A 11 de Janeiro, havia na casa derrocada que habitávamos um labutar incessante. Eram Madame e Mademoiselle Coilard a preparar-me provisões para a viagem. Faziam biscoutos com pródiga largueza.
Como poderei eu jamais agradecer tantos favores? Naquele dia também recebi presentes de Madame Tailor. Um grande açafate de cakes e um cestinho de ovos, coisa bastante rara em Shoshong.
No dia imediato estava pronto a partir, mas decidi seguir viagem no dia 14, não querendo deixar Shoshong a 13.
Eu não tenho preconceitos, nem antipatias com números, mas dessa vez o embirrar com o 13 foi desculpa dada a mim mesmo, para me demorar mais um dia com essa boa família a quem tanto devia.
Pude ali alcançar alguns cobertores de peles, daqueles que os Bamanguatos fazem para seu uso, e que são cosidos com nervos de antílopes.
Pelas minhas observações achei uma diferença enorme na posição de Shoshong, marcada numa carta de Marenski que possuía Mr. Coilard.
No dia 13 fiz as minhas despedidas aos negociantes Ingleses, excetuando Mr. Tailor, que estava ausente a seis milhas de Shoshong, no seu posto de gado.
Apesar do meu caminho ser ao sul, e o posto de gado de Mr. Tailor ao norte, decidi ir la no dia 14 fazer as despedidas a quem tanto me obrigara.
Efetivamente, nesse dia de manhã, segui para la. As damas Coilard e Madame Clark partiram adiante numa carriola puxada por dois cavalos.
Eu saí muito depois, em companhia do régulo Cama e de Mr. Coilard.
Eu, nesse dia, tinha de fazer a primeira jornada no caminho de Pretoria, e essa jornada era de doze milhas, para poder alcançar água potável, o que, com outras doze que eu ia andar de manhã, perfazia um total de 24, o que é um pouco forçado naquele clima.
Seguimos pois acompanhados de doze cavaleiros Bamanguatos. Logo que deixámos as ruas da cidade, o chefe Cama deu de esporas ao cavalo e partiu, mão baixa. Depois de uma corrida vertiginosa de meia hora, passou ele ao galope. Perguntei-lhe para que era aquela pressa? E ele respondeu-me, que era assim que se andava no Manguato, e que os cavalos descansavam bem no galope, para darem outra corrida. Disse-lhe, que tinha razão, mas que o meu cavalo tendo de fazer uma grande marcha nesse dia, talvez não entendesse isso como ele. Que não queria ir de encontro aos hábitos dos cavaleiros Bamanguatos, mas que me desse ele um dos seus cavalos, e mandasse o meu para Shoshong, onde eu o encontraria fresco para a jornada desse dia.
Mandou Cama logo apear um dos seus que voltou à cidade com o meu Fli, em quanto eu montava uma égua magnífica que ele deixava.
Seguimos a toda a brida, e daí a pouco estávamos no posto de Mr. Tailor.
Tínhamos gasto cinquenta e cinco minutos! Madame Tailor fez-nos servir um magnífico lunch, e depois das mais cordiais despedidas voltámos a Shoshong.
O sistema da volta foi o mesmo da ida, brida e descansar no galope! Os Bamanguatos não usam freios nos cavalos, e apenas os dirigem com um bridão Inglês. Dizem eles que os freios e as barbelas não deixam correr os cavalos.
Chegámos num momento a Shoshong.
Stanlei estava pronto a partir, e só esperava o meu sinal. Dei-lhe esse sinal, e ele fez estalar o longo chicote por sobre as cabeças dos bois, que se puseram lentamente a caminho, arrastando o pesado vagão. Com ele foram os meus pretos, à exceção de Augusto e Pépéca, que ficaram comigo. Passei ainda algumas horas com as damas Coilard, mas era forçoso deixa-las, e fazendo soberanos esforços para ocultar a minha comoção, disse-lhes um último adeus, saltei sobre o cavalo e parti.
Tive a coragem de não me voltar em quanto as podia ver!
O sol desaparecia já no horizonte quando deixei Shoshong.
Segui o caminho que me foi indicado, e três horas depois, entendi que estava no ponto onde devia pernoitar, mas o vagão não aparecia. Era tarde da noite, e noite de trevas profundas.
Chamei, gritei, e ninguém respondeu. Poucos momentos depois, apareceram-me dois indígenas. Eram vedetas de Cama, que receoso de um ataque noturno dos Matebeles, guarda a sua cidade com uma linha contínua de sentinelas a muitas milhas de distância. Estão estas atalaias tão bem dispostas, que podem socorrer-se, e fazer um momento face ao inimigo, em quanto alguns homens correm à cidade nos ligeiros cavalos a dar o alarme.
Os dois homens que me apareceram acabavam de rondar os postos do sul, e afiançaram-me, que, havia muitos dias, nem um só vagão tinha tomado aquele caminho; asseverando, que eu devia ter passado pelo meu antes de chegar ali.
Estava muito habituado à vida das florestas para que passasse, mesmo nas trevas, pelo vagão sem o ver, e se me escapasse a mim, não escaparia ao meu Pépéca, que tem olhos de lince.
Os dois Bamanguatos propuseram-me acompanhar-me a buscar o vagão e partiram comigo.
Depois de explorarmos uma grande parte do vale sem encontrarmos vestígios da carroça, caímos de novo em Shoshong, desesperados, acabrunhados de fadiga, e sem poder explicar o caso.
Eram altas horas, e que fazer? Resolvi ir bater à porta de Mr. Coilard, e esperar o dia.
Mr. e Mme. Coilard levantaram-se logo, e em quanto eu narrava o acontecido ao missionário, Madame Coilard só pensava em me dar de comer e em me preparar boa cama.
Eu até ali, como depois, dormia sobre a terra numas peles, a despeito dos esforços de Madame Coilard em me querer dar uma cama; como as minhas peles tinham partido no vagão, ela nessa noite aproveitou a oportunidade de se vingar da minha relutância, e fez-me uma cama Europeia.
Não podemos decifrar o enigma, e reservámos para o dia seguinte o desvendar o mistério do desaparecimento do meu Stanlei.
Eu, quebrado de fadiga, fui dar boa ração ao cavalo, e caí extenuado no leito.
Apesar do cansaço, não pude conciliar o sono, porque uma ansiedade horrível me confrangia o coração.
Como já disse, encontrei uma grande diferença na posição de Shoshong em longitude, e todas as minhas observações eram cronométricas e referidas à última observação que fiz do eclipse do primeiro satélite de Júpiter. Essa posição nova só me podia ser confirmada, por uma nova cutisação dos cronómetros em longitude determinada, e esses cronómetros, que eu não sabia onde estavam por ignorar onde estava o vagão, iam parar no dia seguinte por falta de corda.
A poucos será dado compreender o que eu sofri com esta ideia.