Diário de África
Homem e Mulher Quimbande
Outras dão-lhe tal forma, que parecem trazer na cabeça um capacete Romano.
O buzio (caurim) é distribuído ou acumulado com profusão nas cabeças feminis, e o coral branco ou encarnado aparece ainda, mas muito mais raramente, do que entre os povos de Oeste-Cuanza.
O cabelo, nestes penteados estupendos, é fixo com um cosmético nauseabundo, massa formada de tacula em pó e óleo de rícino, que lhe dá uma cor avermelhada. O óleo de rícino é preparado em grande quantidade entre estes povos. Depois de extraírem as sementes do Ricinus comunis, dão-lhe uma ligeira torrefação e reduzem-nas a pó. Este pó conservado por muitas horas em água ebuliente, fornece o óleo, que a frio é separado grosseiramente da água, e guardado em cabaças pequenas.
Raparigas Quimbandes
Estes povos não o empregam como purgante. Notei logo, que o tipo feminino entre os Quimbandes se aproxima um pouco do tipo caucásio, e vi algumas mulheres que se poderiam chamar bonitas se não fossem pretas.
Logo que cheguei, mandei um pequeno presente ao sova Mavanda, que me agradeceu muito, mandando contudo pedir-me uma camisa.
Igual pedido me tem sido já feito por outros, o que mostra a tendência que tem para se vestirem.
Os homens Quimbandes cobrem a sua nudez com duas peles de pequenos antílopes que caem adiante e atrás de um largo cinto de couro de boi. Só os sovas usam peles de leopardo. As mulheres andam quase nuas, e algum farrapo de pano, ou de liconte, substitui a folha de vinha clássica.
No dia seguinte logo de manhã, vieram uns portadores do sova dar-me parte, de que a gente que eu esperava chegara de noite à outra margem do Cuanza, onde estavam acampados.
Não dei o menor crédito à notícia, porque, já conhecedor das manhas do gentio, sabia que eles tem costume de indagar o que mais desejamos, para nos virem burlar com uma notícia agradável e pedir alvíssaras. Contudo, disse ao indígena que me certificou tê-los visto, que fosse a eles, e pedisse ao Doutor Chacaiombe, que me mandasse um sinal seu para ficar certo de que vinha a caminho.
Ainda de manhã, o sova Mavanda mandou-me uns enviados dizendo, que saía naquele dia a combater uma povoação vizinha onde um seu súbdito se revoltara contra o seu poder, e ao mesmo tempo pedindo-me que o auxiliasse naquela campanha. Recusei dar-lhe auxílio, mas procurei faze-lo de modo a não me indispor com o sova, o que consegui com boas razões.
Seria meio-dia, quando passou junto ao meu campo o exército de Mavanda.
Á frente ia, em pau muito alto, uma bandeira tricolor como a Francesa, mas com as cores invertidas. Depois seguiam-se dois homens levando a pau e corda uma enorme caixa de pólvora, provavelmente vazia. Seguia-se o sova rodeado dos seus grandes, e após este estado maior o exército a 1 de fundo. Seriam uns 600 homens armados de arcos e frechas, levando ao todo 8 espingardas. Alguns passos à frente da bandeira, dois pretos tocavam os tambores de guerra, fazendo um barulho infernal.
Ao anoutecer voltou o exército sem ter combatido; porque o inimigo rendeu-se à discrição.
Logo que passaram o meu campo, começaram a fazer exercício, simulando um ataque à povoação do régulo.
Estenderam em linha de atiradores, tomando a bandeira o centro da linha, e sempre atrás dela a caixa da pólvora e o sova.
Esta grande linha singela, porque cada homem estava isolado, começou a envolver a povoação, já avançando, já recuando, sempre em acelerado.
A uma voz do sova, precipitaram-se sobre a povoação, dando saltos enormes, e fazendo toda a espécie de momices que usam para aterrar os adversários, com uma grita infernal.
Quando eu pensava que eles iam direitos a suas casas atacar o jantar, vejo que voltavam à posição que tinham antes do ataque, e que reunidos à voz do chefe, entravam na povoação na mesma ordem de marcha em que tinham saído.
Á noite voltou o Quimbande a dizer-me, que esteve com o meu doutor, mas que ele não lhe quisera dar sinal algum para mim. Vi que se verificavam as minhas previsões, e que era tudo falso.
O meu acampamento dava-me sérios receios, porque, coberto de erva seca, podia incendiar-se de um momento a outro, e os meus pretos, transidos de frio, não calculavam o perigo, e alimentavam dentro das barracas fogueiras enormes.
Desde o rio Cuqueima até Mavanda, e ainda mais além, produz vigorosamente a cana de assucar e o algodoeiro. Os Quimbandes cultivam o algodão, que fiam para fazer linhas onde enfiar o buzio e a missanga.
No dia seguinte, continuaram a asseverar-me, que os carregadores estavam na margem do Cuanza, e não podiam passar o rio por não lhes emprestarem as canoas as indígenas dali.
Decidi-me a mandar lá o Augusto, acompanhado de um guia Quimbande.
Pelas 11 horas, chegou um enviado do sova, a participar-me que este viria visitar-me.
Pouco depois chegava Mavanda, rodeado da sua corte, e se ficou espantado a olhar para mim; eu não fiquei menos a olhar para ele, porque era o maior homem que tenho visto na minha vida. A uma altura enorme reunia uma grossura e gordura verdadeiramente fenomenal. Cobria a cintura com um pano usado, sobre o qual caiam três peles de leopardo.
Muitos amuletos lhe pendiam de um colar de missangas.
Se Mavanda é grande, possui coisas grandes também, porque me trazia de presente o maior boi que vi em África.
Depois dos extensos comprimentos do costume, ele disse-me ex-abrupto, que me vinha pedir um favor, e era o de lhe fazer um curativo ao rebanho de gado bovino, que costumava ir pastar muito longe, pernoitando ás vezes fora do curral, e sendo, nas florestas em que se acoutava, atacado por feras que lhe causavam grande dano.
Dei-lhe imediatamente o remedio com um conselho, e foi ele, o de ter um pastor; porque, se o gado entregue a si mesmo ia longe, se fosse guiado ás pastagens iria onde o pastor o conduzisse. Ele não achou mau o conselho, e disse-me, que apesar de ser contra os usos do país o fazer vigiar o gado, daria um pastor ao seu, para evitar as contínuas perdas.
Mostrei-lhe o realejo, as armas, etc., atirei diante dele, e vi-o com prazer caminhar de espanto em espanto. Pela tarde retirou-se muito satisfeito, e nos melhores termos de amizade.
Logo que se retirou o sova, chegaram uns enviados do sova Capoco com uma carta para mim. Dava-me notícia do Chacaiombe, e dizia-me, que me mandava os carregadores, pedindo-me para eu consentir, que fosse comigo uma comitiva sua, que desejava enviar aos sertões do Zambeze a fazer negócio.
Em vista da carta, decidi demorar-me ali uns 6 dias a esperar os carregadores, não contando muito, ainda assim, que eles viessem, e nesse sentido respondi ao sova Capoco.
Em vista daquela deliberação, ordenei a reconstrução do acampamento para o dia seguinte, mandando cobrir todas as barracas de ramos verdes, com receio de um incendio.
Os Bihenos construindo as Barracas nos Acampamentos
No dia seguinte, houve grande atividade na reconstrução do campo, que estava pronto ao meio-dia, apresentando um bonito aspeto.
O campo era formado de barracas cónicas, de troncos de árvore, medindo três metros de diâmetro na base, por dois e meio de alto.
A minha barraca, feita pelos Bihenos com mais esmero do que as outras, media cinco metros de diâmetro na base, por três e meio de alto.
Esqueleto da Barraca
O acampamento era formado por uma linha circular de barracas, ligadas por uma fileira de abatises de árvores espinhosas.
A minha barraca ocupava o centro, e em frente dela as cargas estavam em pilha. A minha gente de serviço estabeleceu o seu campo em torno de mim, ao alcance da voz.
Tinha finalizado o trabalho do campo, quando me vieram avisar de que uns enviados do sova do Gando me procuravam. Mandei-os vir à minha presença, e conheci num deles um dos grandes do sova, que tinha visto junto dele no Gando. Traziam-me uma carta, e uma encomenda, que não sei que soveta lhe tinha enviado para mim.
Abri a carta, e vi ser ela do meu amigo Galvão da Catumbela, que me enviava um presente, que tinha dirigido ao Bihé, julgando que eu estivesse ainda ali. A boa harmonia que eu tinha guardado com as povoações por onde passei, fez com que aquela carta e o presente chegassem até mim vindo de mão em mão.
Abri a caixa, e encontrei uma porção de passas de Málaga, que vieram a propósito adoçar um pouco a monotonia da minha já bem pobre alimentação.
Barraca concluída num a hora
Na carta dava-me ele algumas notícias da Europa, as últimas que tive até chegar a Pretoria. Pensei nisso então; e, quão profunda não foi a minha tristeza ao lembrar-me de quanto tempo teria de ficar sem notícias dos meus, notícias que já me faltavam havia tanto!
Deitei-me debaixo de uma triste impressão de saudade. Ao alvorecer, vieram avisar-me, de que uma pequena comitiva, capitaneada por um preto, levando cera, se dirigia ao Bihé. Mandei chamar o chefe, e pedi-lhe que me levasse uma carta, que entregaria a alguém no Bihé, pedindo-lhe que a fizesse chegar a Benguela. Ele acedeu, dizendo-me logo, que não se podia demorar, porque queria ir dormir junto ao Cuqueima.
Tinha pouco tempo; a quem escrever? Não podia perder este portador do acaso para dizer aos meus: Ainda sou vivo.
Peguei na pena, e escrevi algumas linhas ao Doutor Bocage. Na carta inclui dois pequenos bilhetes, um para a minha mulher, outro para Luciano Cordeiro.
O chefe da pequena caravana, já impaciente, recebeu a carta e partiu.
Hoje sei que aquela carta chegou à Europa, e foi recebida pelo seu destinatário. Como ela foi do Bihé a Benguela não sei.
Era essa proteção que tinha levantado em volta de mim Silva Porto, que ainda se fazia sentir.
O sova Mavanda passou o dia comigo, e conversámos muito. Eu dei-lhe alguns pequenos objetos, e entre eles uma caixa de fósforos, com que ficou maravilhado.
Na ocasião de retirar-se, disse ele aos seus macotas estas palavras, que me impressionaram pela figura empregada.
"Não vedes de longe um pássaro que voa muito alto, e vai pousar em árvore distante, e dizeis é uma rola; depois caminhais e abeirais-vos dele, e ficais admirados do tamanho; era uma águia. Assim foi o Manjóro (nome que me davam); passou ao largo da povoação, e nós dissemos é a rola; agora vivemos com ele e conhecemo-lo, e dizemos, é a águia." Nos passeios que dei nas cercanias, perseguindo os antílopes, que são escassos, levantei a carta do país, ou antes, pude concluir a carta do país compreendido entre o Cuqueima e Cuanza.
O sova Mavanda mandou-me dizer, que o maior pedido que me podia dirigir era, o de lhe eu dar um par de calças. Resolvi logo fazer-lhe a vontade, e chamei o velho António.
Arvorei-o em Alfaiate, coisa que muito o surpreendeu, e enviei-o a tomar medida ás calças do sova. Talhei depois as calças, que foram cosidas pelo velho António, e levaram 5 jardas de algodão largo!! Este rei é um verdadeiro hipopótamo, mas muito boa pessoa.
No dia 20 de manhã, veio um enviado do sova dizer-me, que, por ser então a época em que festejam uma espécie de carnaval, o sova, para me fazer honra, viria ao meu campo mascarado, e dançaria diante de mim.
Ganguelas à Quimbandes
Pelas 8 horas, chegaram os batuques, e juntou-se grande concurso de povo.
Meia hora depois, apareceu o sova, com a cabeça metida num a cabaça, pintada de branco e preto, e o enorme corpo aumentado por uma armação de varas coberta de aliconde, igualmente pintado de preto e branco.
Um saio de clinas e caudas de animais, completavam o trajo.
Logo que ele chegou, os homens formaram em linha, com os batuques a traz, e as mulheres e rapazes desviaram-se para longe. Começaram os batuques, e os homens imoveis do corpo, cantando as suas monótonas toadas e batendo as palmas.